CARTA à AMIGA – XI
Hugo
Martins
Minha nobre amiga, interroga-me sobre o que penso
acerca dos homens públicos e a preocupação deles em melhorar a vida do povo
brasileiro. Sempre os considerei, com raras exceções, patifes bem postos.
Assim, para não perder tempo, transcrevo e te envio o texto a seguir, por mim
redigido nos idos de 2012. A alegoria é a mesma. Renovaram-se as putas, mas o
cabaré continua o mesmo, diz a sabedoria popular. Eis aí... Cuido em dizer,
porém, que, na verdade na verdade, aproveitei o ensejo para curtir uma
preguicinha de escrever que me bateu inesperadamente. De todo modo, aí está o
que você pediu. Escrevi a página, fazendo alguma literatice, coisa perdoável
àquele que ama as palavras e os engodos que com elas podemos fazer. Na próxima,
retomaremos o bonde da literatura.
EM QUE ESTOU PENSANDO? Em manter
minha reputação infensa a qualquer mancha, proveniente de atos de improbidade
no exercício de meu ofício. Continuar, firme e forte, o propósito de seguir os
conselhos e exemplos de minha mãe e de meu avô materno e não ceder um só
milímetro ao canto de sereia, que leva o homem, por algum motivo, a vender sua
alma nos mais comezinhos episódios do cotidiano.
Deitado numa rede de corda, ao
sabor de uma brisa fagueira que corre na minha varanda, vou virando as páginas
dos Diários do escritor maranhense Josué Montelo, e com ele viajo não só na
história política do Brasil com suas tricas e futricas mas também no desenrolar
da história de nossa literatura. Vou, pelas mãos de Josué Montelo, ao palácio
do Catete, assisto ao drama de Getúlio. Conheço o Brasil dos anos dourados de
Juscelino e me atemorizo com a cacetada de Brucutu com que a última ditadura atordoou
o povo brasileiro, caçando mandatos, prendendo, arrebentando pessoas e
instituições, amordaçando a arte, proibindo o direito ao livre pensar e levando
à morte todo aquele que ousasse levantar sua voz contra os desmandos... Também
vou à Academia Brasileira de Letras tomar o chá das cinco com os imortais e
reencontro alguns velhos escritores que povoaram de sonhos minha longínqua
infância. Converso com Viriato Correia e lembro a obra Cazuza, com que o
escritor maranhense alimentava a formação dos jovens, por meio de textos
grávidos de sadio civismo; cumprimento também Olegário Mariano, o lírico poeta
das cigarras. Entrevejo, sentado ao sofá, de pernas cruzadas, Manuel Bandeira,
conversando longamente com o crítico literário Álvaro Lins... De repente, entra
de supetão, com sua gravata borboleta, João Guimarães Rosa, rindo e conversando
com Cassiano Ricardo acerca da força da linguagem, sobretudo a de cunho
poético, aquela capaz de instaurar o feérico, o maravilhoso da vida, com suas
facetas também sórdidas. Tudo ali transpirava vetustez: os escritores já
carregando nos ombros o peso do mundo, a gravidade do mobiliário, os bustos de
algum imortal, bem como a galeria de quadros de autores diversos. Participo do
colóquio, sempre amparado pela bondade delicada de Josué Montelo. Ao sair, tomo
a Avenida Rio Branco, chego à Cinelândia e sento-me a uma das mesas do Bar
Amarelinho, reduto de toda espécie de gente ligada às artes e à boêmia, e tomo
uma cerveja bem geladinha, com o fito de lavar o fígado e olhar as pessoas que
passam apressadas em busca de não sei o quê...
Mas que ando eu a fazer em tais
devaneios? Creio que nada demais em tudo
isso. Talvez à procura de assunto, fuçando as prateleiras da imaginação à cata
de algo que valha a pena colocar no papel de forma gratuita e desinteressada.
Exercício de estilo numa época em que se costuma falar das acontecências do
mundo, recorrendo a lugares comuns e a balbucios monossilábicos, que mais
parecem deslustradas, repetidas e enfadonhas onomatopeias... Sim, o escrever é
como o coçar. Basta começar, diz a sabedoria popular. E aqui me acho nesse
exercício, dedilhando o teclado, deixando correr a imaginação num minguado
exercício de impressões de leitura. Aliás, exercício desnecessário, pois não se
encontra interlocutor, alguém que, amante de arte literária, sirva de apoio
numa cotização, numa troca graciosa de opinião sobre o que vai pelo mundo,
sobre o que é a arte e seu papel humanizante.
Há pouco me levantei a fim de
atender ao telefone. Alguém, do outro lado da linha, pergunta-me se não folheei
os jornais durante a semana. Respondo que não. A propósito não sou leitor de
revistas semanais, tampouco de jornais e, raras vezes, ligo “a máquina de fazer
doido”.
Sinto-me bem, permanecendo
desinformado. Ainda assim, por força da aldeia global, à que se refere Marshall
McLuhan, os meios de comunicação de massa, na sua infatigável labuta por
distorcer o real ou imbecilizar os “televidiotas”, estão espalhados em qualquer
lugar a que você chegue. Eles instauram a solidão coletivizada. Só a febre do
uso do celular com eles compete...
Feito esse reparo, a pessoa com
quem converso pergunta se não estou acompanhando o “mar de lama” que vem
emporcalhando a moral e o moral do brasileiro. Digo-lhe que ouço aqui e ali
fiapos de conversas e notícias televisivas, cujo conteúdo me dá a impressão de
que somos, historicamente, um povo que padece do complexo de Ali Babá. Este
reunia um bando formado de apenas quarenta gatunos; atualmente, neste país de
contrastes, não se sabe quem é ou quem não é quadrilheiro ou escolado na arte
de risonhas corrupções cotidianas.
Com efeito, de oitiva, toma-se
ciência, numa espécie de consenso, do que vêm os homens públicos levando a
efeito para pilhar os cofres públicos. Para evitar que a farândola de ladrões
mais e mais se agigante, inventou-se um processo de barrar-lhes a marcha, o
qual recebeu o sugestivo rótulo de “ficha limpa”. Vergonhoso, decepcionante,
imoral e decadente um país, cujos gestores, legisladores ou pretendentes tenham
sua vida pública monitorada pelo Poder Judiciário como forma de banir das
assembleias, câmaras e colegiados afins as maçãs podres, os quistos, os
cânceres e a pestilência de almas fadadas ao furto, à embromação e à mentira
que insulta.
No próximo mês, o povo irá às
urnas. Enquanto isso, as hienas, à cata de votos, mostram as garras e
mandíbulas, na desesperada ânsia de conquistar o eleitor, que, embora bem
armado com o voto, deixa-se seduzir por discursos vazios, promessas vãs e
mentiras deslavadas...
Ora, consultando a lista de
políticos “ficha-suja”, vejo naquele sórdido plantel os nomes de hienas que
também eram e continuam sendo portadores da mesma lenga-lenga, da mesma
sordidez, da mesma mendacidade, da mesma falta de vergonha, sem tirar nem pôr.
Deles há que, ainda exercendo a função, quando surpreendidos pela ação do Ministério
Público, pegam suas trouxas e se botam para outros países. Outros, quando
surpreendidos pelo poder policial, são algemados à frente de câmaras, baixam a
cabeça ou escondem-na sob a blusa ou casaco para não se deixar filmar pela
câmara indiscreta de repórteres... Pergunta-se: por que não erguem a cabeça
como antes faziam e tecem considerações sobre sua inocência? Não, isso não
fazem, preferem dizer que só falam “na presença de meu advogado”. Enquanto o
povo se volta para o processo do mensalão, não se dá conta de que mensalões e
mensalinhos são urdidos a todo momento pela capacidade de ave de rapina da
grande parte de outros politiqueiros, bem versados, também, na arte de se
apoderar da riqueza que o povo produz. Ora, seria o caso de dizer que a arte de
furtar o povo é lugar comum entre os sicários e bandidos, que se dizem
preocupados em cuidar do povo. Coloquemos as barbas de molho, essa coisa de
cuidar do povo esconde o eufemismo “narcotizar o povo” para que se torne mais
fácil furtar sem grandes cuidados.
Num sermão do Padre Antônio
Vieira, lê-se que o filósofo grego Diógenes, o cínico, vendo uma vara de
ministros levando a enforcar um homem que havia furtado um carneiro, começou a
bradar: “Lá vão os ladrões grandes enforcar os pequenos”. Trocando em miúdos,
essa gentalha maltratada e moída, a que chamamos de marginais ou bandidos, bem
como aqueles que não fruem uma só migalha do direito comum a todos, nada mais
representam que as consequências advindas das ações dos ladrões grandes a que
se refere Vieira...
É grande a patifaria. É
vergonhoso tudo isso.
Fecho o texto. Há muita coisa a
dizer. Deixo a outros a incumbência.
Volto à minha velha rede de corda, abro o volume dos Diários de Montelo
e mergulho na leitura. Nesse momento, teço uma breve reflexão: há mais
filosofia no ato de ler e afastar-se do ramerrão cotidiano que perder tempo em
refletir e garatujar o papel, tendo como referencial o emporcalhamento de que
vem, há mais de quinhentos anos, padecendo o maltratado povo brasileiro...
Pois é... Bom mesmo é sair à caça
de Pokémons.
Abraços e desejos de felicidades
mil.
Do seu, sempre admirador,
Francisco Hugo
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