quinta-feira, 15 de setembro de 2016

CARTA à AMIGA – XI
                                           Hugo Martins
Minha nobre amiga, interroga-me sobre o que penso acerca dos homens públicos e a preocupação deles em melhorar a vida do povo brasileiro. Sempre os considerei, com raras exceções, patifes bem postos. Assim, para não perder tempo, transcrevo e te envio o texto a seguir, por mim redigido nos idos de 2012. A alegoria é a mesma. Renovaram-se as putas, mas o cabaré continua o mesmo, diz a sabedoria popular. Eis aí... Cuido em dizer, porém, que, na verdade na verdade, aproveitei o ensejo para curtir uma preguicinha de escrever que me bateu inesperadamente. De todo modo, aí está o que você pediu. Escrevi a página, fazendo alguma literatice, coisa perdoável àquele que ama as palavras e os engodos que com elas podemos fazer. Na próxima, retomaremos o bonde da literatura.


EM QUE ESTOU PENSANDO? Em manter minha reputação infensa a qualquer mancha, proveniente de atos de improbidade no exercício de meu ofício. Continuar, firme e forte, o propósito de seguir os conselhos e exemplos de minha mãe e de meu avô materno e não ceder um só milímetro ao canto de sereia, que leva o homem, por algum motivo, a vender sua alma nos mais comezinhos episódios do cotidiano.
Deitado numa rede de corda, ao sabor de uma brisa fagueira que corre na minha varanda, vou virando as páginas dos Diários do escritor maranhense Josué Montelo, e com ele viajo não só na história política do Brasil com suas tricas e futricas mas também no desenrolar da história de nossa literatura. Vou, pelas mãos de Josué Montelo, ao palácio do Catete, assisto ao drama de Getúlio. Conheço o Brasil dos anos dourados de Juscelino e me atemorizo com a cacetada de Brucutu com que a última ditadura atordoou o povo brasileiro, caçando mandatos, prendendo, arrebentando pessoas e instituições, amordaçando a arte, proibindo o direito ao livre pensar e levando à morte todo aquele que ousasse levantar sua voz contra os desmandos... Também vou à Academia Brasileira de Letras tomar o chá das cinco com os imortais e reencontro alguns velhos escritores que povoaram de sonhos minha longínqua infância. Converso com Viriato Correia e lembro a obra Cazuza, com que o escritor maranhense alimentava a formação dos jovens, por meio de textos grávidos de sadio civismo; cumprimento também Olegário Mariano, o lírico poeta das cigarras. Entrevejo, sentado ao sofá, de pernas cruzadas, Manuel Bandeira, conversando longamente com o crítico literário Álvaro Lins... De repente, entra de supetão, com sua gravata borboleta, João Guimarães Rosa, rindo e conversando com Cassiano Ricardo acerca da força da linguagem, sobretudo a de cunho poético, aquela capaz de instaurar o feérico, o maravilhoso da vida, com suas facetas também sórdidas. Tudo ali transpirava vetustez: os escritores já carregando nos ombros o peso do mundo, a gravidade do mobiliário, os bustos de algum imortal, bem como a galeria de quadros de autores diversos. Participo do colóquio, sempre amparado pela bondade delicada de Josué Montelo. Ao sair, tomo a Avenida Rio Branco, chego à Cinelândia e sento-me a uma das mesas do Bar Amarelinho, reduto de toda espécie de gente ligada às artes e à boêmia, e tomo uma cerveja bem geladinha, com o fito de lavar o fígado e olhar as pessoas que passam apressadas em busca de não sei o quê...
Mas que ando eu a fazer em tais devaneios?  Creio que nada demais em tudo isso. Talvez à procura de assunto, fuçando as prateleiras da imaginação à cata de algo que valha a pena colocar no papel de forma gratuita e desinteressada. Exercício de estilo numa época em que se costuma falar das acontecências do mundo, recorrendo a lugares comuns e a balbucios monossilábicos, que mais parecem deslustradas, repetidas e enfadonhas onomatopeias... Sim, o escrever é como o coçar. Basta começar, diz a sabedoria popular. E aqui me acho nesse exercício, dedilhando o teclado, deixando correr a imaginação num minguado exercício de impressões de leitura. Aliás, exercício desnecessário, pois não se encontra interlocutor, alguém que, amante de arte literária, sirva de apoio numa cotização, numa troca graciosa de opinião sobre o que vai pelo mundo, sobre o que é a arte e seu papel humanizante.
Há pouco me levantei a fim de atender ao telefone. Alguém, do outro lado da linha, pergunta-me se não folheei os jornais durante a semana. Respondo que não. A propósito não sou leitor de revistas semanais, tampouco de jornais e, raras vezes, ligo “a máquina de fazer doido”.
Sinto-me bem, permanecendo desinformado. Ainda assim, por força da aldeia global, à que se refere Marshall McLuhan, os meios de comunicação de massa, na sua infatigável labuta por distorcer o real ou imbecilizar os “televidiotas”, estão espalhados em qualquer lugar a que você chegue. Eles instauram a solidão coletivizada. Só a febre do uso do celular com eles compete...
Feito esse reparo, a pessoa com quem converso pergunta se não estou acompanhando o “mar de lama” que vem emporcalhando a moral e o moral do brasileiro. Digo-lhe que ouço aqui e ali fiapos de conversas e notícias televisivas, cujo conteúdo me dá a impressão de que somos, historicamente, um povo que padece do complexo de Ali Babá. Este reunia um bando formado de apenas quarenta gatunos; atualmente, neste país de contrastes, não se sabe quem é ou quem não é quadrilheiro ou escolado na arte de risonhas corrupções cotidianas.
Com efeito, de oitiva, toma-se ciência, numa espécie de consenso, do que vêm os homens públicos levando a efeito para pilhar os cofres públicos. Para evitar que a farândola de ladrões mais e mais se agigante, inventou-se um processo de barrar-lhes a marcha, o qual recebeu o sugestivo rótulo de “ficha limpa”. Vergonhoso, decepcionante, imoral e decadente um país, cujos gestores, legisladores ou pretendentes tenham sua vida pública monitorada pelo Poder Judiciário como forma de banir das assembleias, câmaras e colegiados afins as maçãs podres, os quistos, os cânceres e a pestilência de almas fadadas ao furto, à embromação e à mentira que insulta.
No próximo mês, o povo irá às urnas. Enquanto isso, as hienas, à cata de votos, mostram as garras e mandíbulas, na desesperada ânsia de conquistar o eleitor, que, embora bem armado com o voto, deixa-se seduzir por discursos vazios, promessas vãs e mentiras deslavadas...
Ora, consultando a lista de políticos “ficha-suja”, vejo naquele sórdido plantel os nomes de hienas que também eram e continuam sendo portadores da mesma lenga-lenga, da mesma sordidez, da mesma mendacidade, da mesma falta de vergonha, sem tirar nem pôr. Deles há que, ainda exercendo a função, quando surpreendidos pela ação do Ministério Público, pegam suas trouxas e se botam para outros países. Outros, quando surpreendidos pelo poder policial, são algemados à frente de câmaras, baixam a cabeça ou escondem-na sob a blusa ou casaco para não se deixar filmar pela câmara indiscreta de repórteres... Pergunta-se: por que não erguem a cabeça como antes faziam e tecem considerações sobre sua inocência? Não, isso não fazem, preferem dizer que só falam “na presença de meu advogado”. Enquanto o povo se volta para o processo do mensalão, não se dá conta de que mensalões e mensalinhos são urdidos a todo momento pela capacidade de ave de rapina da grande parte de outros politiqueiros, bem versados, também, na arte de se apoderar da riqueza que o povo produz. Ora, seria o caso de dizer que a arte de furtar o povo é lugar comum entre os sicários e bandidos, que se dizem preocupados em cuidar do povo. Coloquemos as barbas de molho, essa coisa de cuidar do povo esconde o eufemismo “narcotizar o povo” para que se torne mais fácil furtar sem grandes cuidados.
Num sermão do Padre Antônio Vieira, lê-se que o filósofo grego Diógenes, o cínico, vendo uma vara de ministros levando a enforcar um homem que havia furtado um carneiro, começou a bradar: “Lá vão os ladrões grandes enforcar os pequenos”. Trocando em miúdos, essa gentalha maltratada e moída, a que chamamos de marginais ou bandidos, bem como aqueles que não fruem uma só migalha do direito comum a todos, nada mais representam que as consequências advindas das ações dos ladrões grandes a que se refere Vieira...
É grande a patifaria. É vergonhoso tudo isso.
Fecho o texto. Há muita coisa a dizer. Deixo a outros a incumbência.  Volto à minha velha rede de corda, abro o volume dos Diários de Montelo e mergulho na leitura. Nesse momento, teço uma breve reflexão: há mais filosofia no ato de ler e afastar-se do ramerrão cotidiano que perder tempo em refletir e garatujar o papel, tendo como referencial o emporcalhamento de que vem, há mais de quinhentos anos, padecendo o maltratado povo brasileiro...
Pois é... Bom mesmo é sair à caça de Pokémons.

Abraços e desejos de felicidades mil.
Do seu, sempre admirador,
Francisco Hugo




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