CARTA à AMIGA – VII
Hugo Martins
Minha cara
Quando
fechei a última carta, em que procurei homenagear minha mui querida mãe, firmei
o compromisso de voltar a conversar consigo sobre literatura e temas afins. O
gancho se revelou hoje, pela manhã, durante a aula de grego, em que se
conversava sobre etimologia e a presença de elementos mórficos da língua grega
na língua portuguesa. Vieram à baila alguns termos corriqueiros e conhecidos de
todos nós, como, por exemplo, filosofia, microbiologia, macrocéfalo, economia,
biologia, telescópio. gastrite... De repente, alguém faz uma pergunta bastante
pertinente. O aluno diz que, em português, a palavra HERMÉTICO significa
inteiramente fechado ou algo de compreensão difícil, obscuro; por outro lado, a
palavra HERMENÊUTICA tem a acepção de “interpretação do sentido das palavras”.
Ora, dizia o aluno, ambas as palavras advêm do nome próprio Hermes, um dos
dozes do Olimpo, que era mensageiro dos deuses. Numa compreensão alegórica, a
Hermenêutica é ciência da interpretação muito utilizada na “abertura”
interpretativa do texto de cunho jurídico, histórico ou teológico, em todos os
seus aspectos. Por que, então, hermético vem a significar fechado,
impenetrável, obscuro? Não vou gastar tinta analisando a questão, pois o
“entrar” no emaranhado do texto de qualquer natureza depende mais do leitor que
do texto. Este está aí a desafiar a argúcia do leitor. Todas as significações
possíveis ali estão no enigma “decifra-me ou te devoro”, proposto pela Esfinge
ao rei Édipo às portas de Tebas. Veja que o filho de Laios decifrou aquele
enigma, mas não foi capaz de decifrar as pegadas do destino em seu encalço, foi
devorado pelas misteriosas forças da fatalidade conforme mostra a peça teatral
de Sófocles. Veja como foi possível fazer outra leitura do mesmo episódio. Por
esse prisma, os termos em pauta não são contraditórios. A não ser, no aspecto
concreto, pois uma lata, uma garrafa ou uma janela em estado de hermetismo não
dependem de uma interpretação, mas da impressão de alguma força exterior para
ocorrer a abertura. Deixando de lado o tom piadístico, vamos aos textos a ver
como nele podemos entrar sem fazer uso de uma só porta, mas de muitas outras,
que, escancaradas, podem lançar novas luzes na aparente obscuridade do texto. É
bom lembrar que a palavra texto provém do latim e significa tecido, tecido
composto de sons, formas e combinações. Daí vêm todos os sentidos possíveis.
Reitere-se: depende do leitor e das muitas páginas que já leu, cujos conteúdos
são transportados ao texto que está lendo. Simples e fácil, pois, quanto mais
leituras, maiores as possibilidades de se desencavarem significações encobertas
pela aparente carapaça do tecido... Melhor que caçar Pokémon...
Fernando
Sabino assim intitulou um dos seus romances: O Grande Mentecapto. O substantivo
é formado a partir de dois radicais latinos, o primeiro provém de MENS, MENTIS,
mente: e o segundo, do verbo CARPO, colher, privar, arrancar, separar.
Literalmente, mentecapto é o sujeito privado da mente, que perdeu o uso da
razão ou, ainda, néscio, tolo, parvo. Com efeito, o personagem que dá nome ao
livro age, na narrativa, como uma espécie de doidivanas irresponsável, beirando
o comportamento do pícaro, ou do a quem que se costuma aplicar o adjetivo DOIDIM. A
literatura está cheia desses tipos estabanados e simpáticos. Leonardo,
protagonista do romance Memórias de um Sargento de Milícias; Vadinho, de Dona
Flor e seus Dois Maridos; todos os malandros que figuram nos Pastores da Noite,
de Jorge Amado; o nosso Pedro Malasarte das histórias populares; Lazarillo de
Tormes, personagem de obra anônima da literatura espanhola; e tantos outros
mentecaptos ou pícaros.
Ora, o velho
Machado de Assis, quando nomeia a personagem Capitu, recorreu, conscientemente,
à raiz do verbo latino Capere e ao radical da palavra cabeça, que, em latim,
grafa-se CAPUT, CAPUTIS, conforme são apresentados nos dicionários. Ora, não se
pode negar que a personagem dos “olhos de ressaca”, capturou o pobre Bentinho,
impondo-se a ele com o autoritarismo que lhe era peculiar e sobre ele exercendo
um domínio pela dissimulação sufocante, como a querer colocar às claras a
fragilidade espiritual de Bentinho. Esse diminutivo não teria algum peso? Essa
captura, se dá pelo bom uso da bestunto. Capitu tinha uma cabeça privilegiada.
Tecia artimanhas de toda sorte, persuadindo o leitor ingênuo a crer, ainda, que
ela não tenha “passado a perna” no marido em conluio com Escobar. Claro como a
cristalinidade das águas puras. Aqueles “olhos de ressaca” tragaram Escobar,
que morreu, forte dose simbólica, afogado na praia de Botafogo. Esse verbo
afogar, não sei não... Claro que não interessa ao escritor carioca, por esses
caminhos, deixar no leitor a dúvida hamletiana, mas proceder à análise profunda
daquilo que vai na alma dos homens, marca maior de sua obra realista. O romance
é narrado em primeira pessoa por Bentinho. Se por Capitu, nada mudava. A grande
literatura não perde tempo com assuntos a que se afeiçoam as comadres
desocupadas assim como “aquila muscas non capit” (a águia não se ocupa em
capturar moscas).
Lembro aqui
mais uma vez o grande Manuel Bandeira, talento poético a toda prova (sou um
grande fã), que, ao ler a letra da música Chão de Estrelas, esbarrou com uns
versos, que lhe provocaram tanta comoção, que confessou “esses versos deveriam
ser meus”. Referia-se ele a “tu pisavas nos astros distraída...”, verso inserto
na seguinte passagem, por si mesma soberba: “A porta do barraco era sem
trinco/E a lua, furando nosso zinco,/ salpicava de estrelas nosso chão/ Tu
pisavas nos astros distraída/ sem saber que a ventura desta vida/ É a cabrocha,
o luar e o violão. ” Composição de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas...
Dolores
Duran, mulher de lirismo estuante e sensibilidade epidérmica, homenageando
alguém que amava, exprime, em frases curtas e simples, toda a ternura de que
tinha a alma carregada. Assim diz ela na canção A Noite do meu bem: deseja
enfeitar a noite do amante com “a rosa mais linda que houver”, “com a primeira
estrela que vier”, “com a alegria de um barco voltando”, “com a ternura de mãos
se encontrando”. Não há arrebatamentos hiperbólicos. Tudo simples, doce, sutil
e delicado como sói acontecer com os corações apaixonados.
Qualquer
texto, não importam os signos de que se compõe, é passível de penetração
interpretativa... Não há hermetismo, mas disposição e gosto para retirar do
tecido algo que faça sentido. E tudo no mundo faz sentido, depende do olhar - fosco,
diáfano ou transparente -, e mais a aventura das descobertas.
Às vezes, o
só título já abre possibilidades de pré-leituras. No LP Chico Sinal Fechado, o
compositor aproveita o título de uma música de Paulinho da Viola, alusão clara
à mensagem de um semáforo. Até aí nada de mais ou de menos. Quando se
considera, porém, que Chico Buarque tinha quase todas suas letras censuradas
pela tesoura burra do regime militar, instaura-se a metáfora, pois o compositor
lançou, no LP referido, doze músicas de autoria de outros autores e nenhuma da
própria lavra. Ora, todos sabemos da prodigalidade de Chico. De regra, os
discos por ele lançados todas as letras eram de sua autoria. Significativo,
não?
Lucíola é
título de um romance alencarino. Trata da história de uma prostituta. Se era
usada de todos, um dia lhe surge um tal Paulo que a ama de verdade e, por esse
amor, redime a jovem que, tal a Madalena bíblica, experimenta momentos de
santificação. A significação da palavra Lucíola já é, na primeira página que
antecede a narrativa, explicada pelo romancista cearense: lampiro ou vagalume,
nome de inseto que sugere noite. Pelo aspecto mórfico, Lucíola advém do radical
latino LUX, LUCIS, de onde se formam Lúcifer, luz, lucilar, alucinar... Bem
sugestivo. Por sua vez, o nome Paulo provém do nome latino PAULUS, A, UM, que
sugere pequenez, humildade, por onde se pode ver nítida grandeza. Lembremos que
Saulo de Tarso, ao cair na estrada de Damasco, resolveu mudar o prenome Saulo
para Paulo. O episódio bíblico deixa mais clara ainda a acepção do nome... Eis
aí elementos que já abrem ao leitor caminhos menos ínvios para chegar à
compreensão e interpretação da obra. Por fim, lembrar o elemento mórfico OLA,
agregado ao radical Luci, a sugerir pequenez, pequena luz, necessitando de
novos sopros para poder crescer.
Agora,
amiga, vou fechar esta, deixando a você uma sugestão. Leia o livro Olhai os
Lírios do Campo, do romancista gaúcho Érico Veríssimo. Antes disso, passe uma
vista d´olhos no Sermão da Montanha, em São Mateus. Isso feito, você verá que a
recepção da mensagem da obra se tornará mais clara ao seu espírito perspicaz.
Embora não seja a grande obra de Érico - na opinião da crítica e do próprio
autor - faz pensar, faz meditar sobre a grandeza e pequenez de algumas almas;
faz refletir sobre espiritualidade e cupidez pelo poder e pela glória, apanágio
dos homens.
Quando você
ultimar essas providências, voltaremos ao assunto na próxima carta que chegar
às suas mãos.
Confesso que
estou adorando trocar correspondência com você. À arte de escrever cartas dá-se
o nome de Epistolografia. Qualquer um pode se aventurar e lapidar o estilo,
conforme diz Balzac, que respondia, de mão própria, a toda missiva que lhe
chegava às mãos... E eram centenas e centenas delas.
Aqui estou,
tamborilando o teclado. Uma vontade quase irrefreável me lancina, a empurrar-me
à caça do Pokémon. Resisto e vou dar continuidade à leitura de Verdade
Tropical, livro de Caetano Veloso, em que o compositor baiano procede a sutis
análises do movimento tropicalista, misturando-o á história e à cultura
brasileira desde quando o bispo Sardinha fora devorado por índios tupinambás,
canibais a toda prova. Tudo a ver com a Antropofagia de Oswald de Andrade...
Faço isso
com gosto e sempre me divertindo, mas também por me ver premido pelo temor
obsessivo à rendição da imbecilidade reinante.
Abraços forte para você. Vou parar
porque escrever para mim está se tornando uma neurose. Os dedos coçam e alma
fica ansiosa.
Ciao,
arrivederci.
Do seu,
sempre amigo,
Francisco
Hugo
Nenhum comentário:
Postar um comentário