domingo, 11 de setembro de 2016

CARTA à AMIGA – VII
                                                         Hugo Martins
Minha cara

            Quando fechei a última carta, em que procurei homenagear minha mui querida mãe, firmei o compromisso de voltar a conversar consigo sobre literatura e temas afins. O gancho se revelou hoje, pela manhã, durante a aula de grego, em que se conversava sobre etimologia e a presença de elementos mórficos da língua grega na língua portuguesa. Vieram à baila alguns termos corriqueiros e conhecidos de todos nós, como, por exemplo, filosofia, microbiologia, macrocéfalo, economia, biologia, telescópio. gastrite... De repente, alguém faz uma pergunta bastante pertinente. O aluno diz que, em português, a palavra HERMÉTICO significa inteiramente fechado ou algo de compreensão difícil, obscuro; por outro lado, a palavra HERMENÊUTICA tem a acepção de “interpretação do sentido das palavras”. Ora, dizia o aluno, ambas as palavras advêm do nome próprio Hermes, um dos dozes do Olimpo, que era mensageiro dos deuses. Numa compreensão alegórica, a Hermenêutica é ciência da interpretação muito utilizada na “abertura” interpretativa do texto de cunho jurídico, histórico ou teológico, em todos os seus aspectos. Por que, então, hermético vem a significar fechado, impenetrável, obscuro? Não vou gastar tinta analisando a questão, pois o “entrar” no emaranhado do texto de qualquer natureza depende mais do leitor que do texto. Este está aí a desafiar a argúcia do leitor. Todas as significações possíveis ali estão no enigma “decifra-me ou te devoro”, proposto pela Esfinge ao rei Édipo às portas de Tebas. Veja que o filho de Laios decifrou aquele enigma, mas não foi capaz de decifrar as pegadas do destino em seu encalço, foi devorado pelas misteriosas forças da fatalidade conforme mostra a peça teatral de Sófocles. Veja como foi possível fazer outra leitura do mesmo episódio. Por esse prisma, os termos em pauta não são contraditórios. A não ser, no aspecto concreto, pois uma lata, uma garrafa ou uma janela em estado de hermetismo não dependem de uma interpretação, mas da impressão de alguma força exterior para ocorrer a abertura. Deixando de lado o tom piadístico, vamos aos textos a ver como nele podemos entrar sem fazer uso de uma só porta, mas de muitas outras, que, escancaradas, podem lançar novas luzes na aparente obscuridade do texto. É bom lembrar que a palavra texto provém do latim e significa tecido, tecido composto de sons, formas e combinações. Daí vêm todos os sentidos possíveis. Reitere-se: depende do leitor e das muitas páginas que já leu, cujos conteúdos são transportados ao texto que está lendo. Simples e fácil, pois, quanto mais leituras, maiores as possibilidades de se desencavarem significações encobertas pela aparente carapaça do tecido... Melhor que caçar Pokémon...
            Fernando Sabino assim intitulou um dos seus romances: O Grande Mentecapto. O substantivo é formado a partir de dois radicais latinos, o primeiro provém de MENS, MENTIS, mente: e o segundo, do verbo CARPO, colher, privar, arrancar, separar. Literalmente, mentecapto é o sujeito privado da mente, que perdeu o uso da razão ou, ainda, néscio, tolo, parvo. Com efeito, o personagem que dá nome ao livro age, na narrativa, como uma espécie de doidivanas irresponsável, beirando o comportamento do pícaro, ou do a quem que se costuma aplicar o adjetivo DOIDIM. A literatura está cheia desses tipos estabanados e simpáticos. Leonardo, protagonista do romance Memórias de um Sargento de Milícias; Vadinho, de Dona Flor e seus Dois Maridos; todos os malandros que figuram nos Pastores da Noite, de Jorge Amado; o nosso Pedro Malasarte das histórias populares; Lazarillo de Tormes, personagem de obra anônima da literatura espanhola; e tantos outros mentecaptos ou pícaros.
            Ora, o velho Machado de Assis, quando nomeia a personagem Capitu, recorreu, conscientemente, à raiz do verbo latino Capere e ao radical da palavra cabeça, que, em latim, grafa-se CAPUT, CAPUTIS, conforme são apresentados nos dicionários. Ora, não se pode negar que a personagem dos “olhos de ressaca”, capturou o pobre Bentinho, impondo-se a ele com o autoritarismo que lhe era peculiar e sobre ele exercendo um domínio pela dissimulação sufocante, como a querer colocar às claras a fragilidade espiritual de Bentinho. Esse diminutivo não teria algum peso? Essa captura, se dá pelo bom uso da bestunto. Capitu tinha uma cabeça privilegiada. Tecia artimanhas de toda sorte, persuadindo o leitor ingênuo a crer, ainda, que ela não tenha “passado a perna” no marido em conluio com Escobar. Claro como a cristalinidade das águas puras. Aqueles “olhos de ressaca” tragaram Escobar, que morreu, forte dose simbólica, afogado na praia de Botafogo. Esse verbo afogar, não sei não... Claro que não interessa ao escritor carioca, por esses caminhos, deixar no leitor a dúvida hamletiana, mas proceder à análise profunda daquilo que vai na alma dos homens, marca maior de sua obra realista. O romance é narrado em primeira pessoa por Bentinho. Se por Capitu, nada mudava. A grande literatura não perde tempo com assuntos a que se afeiçoam as comadres desocupadas assim como “aquila muscas non capit” (a águia não se ocupa em capturar moscas).
            Lembro aqui mais uma vez o grande Manuel Bandeira, talento poético a toda prova (sou um grande fã), que, ao ler a letra da música Chão de Estrelas, esbarrou com uns versos, que lhe provocaram tanta comoção, que confessou “esses versos deveriam ser meus”. Referia-se ele a “tu pisavas nos astros distraída...”, verso inserto na seguinte passagem, por si mesma soberba: “A porta do barraco era sem trinco/E a lua, furando nosso zinco,/ salpicava de estrelas nosso chão/ Tu pisavas nos astros distraída/ sem saber que a ventura desta vida/ É a cabrocha, o luar e o violão. ” Composição de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas...
            Dolores Duran, mulher de lirismo estuante e sensibilidade epidérmica, homenageando alguém que amava, exprime, em frases curtas e simples, toda a ternura de que tinha a alma carregada. Assim diz ela na canção A Noite do meu bem: deseja enfeitar a noite do amante com “a rosa mais linda que houver”, “com a primeira estrela que vier”, “com a alegria de um barco voltando”, “com a ternura de mãos se encontrando”. Não há arrebatamentos hiperbólicos. Tudo simples, doce, sutil e delicado como sói acontecer com os corações apaixonados.
            Qualquer texto, não importam os signos de que se compõe, é passível de penetração interpretativa... Não há hermetismo, mas disposição e gosto para retirar do tecido algo que faça sentido. E tudo no mundo faz sentido, depende do olhar - fosco, diáfano ou transparente -, e mais a aventura das descobertas.
            Às vezes, o só título já abre possibilidades de pré-leituras. No LP Chico Sinal Fechado, o compositor aproveita o título de uma música de Paulinho da Viola, alusão clara à mensagem de um semáforo. Até aí nada de mais ou de menos. Quando se considera, porém, que Chico Buarque tinha quase todas suas letras censuradas pela tesoura burra do regime militar, instaura-se a metáfora, pois o compositor lançou, no LP referido, doze músicas de autoria de outros autores e nenhuma da própria lavra. Ora, todos sabemos da prodigalidade de Chico. De regra, os discos por ele lançados todas as letras eram de sua autoria. Significativo, não?
            Lucíola é título de um romance alencarino. Trata da história de uma prostituta. Se era usada de todos, um dia lhe surge um tal Paulo que a ama de verdade e, por esse amor, redime a jovem que, tal a Madalena bíblica, experimenta momentos de santificação. A significação da palavra Lucíola já é, na primeira página que antecede a narrativa, explicada pelo romancista cearense: lampiro ou vagalume, nome de inseto que sugere noite. Pelo aspecto mórfico, Lucíola advém do radical latino LUX, LUCIS, de onde se formam Lúcifer, luz, lucilar, alucinar... Bem sugestivo. Por sua vez, o nome Paulo provém do nome latino PAULUS, A, UM, que sugere pequenez, humildade, por onde se pode ver nítida grandeza. Lembremos que Saulo de Tarso, ao cair na estrada de Damasco, resolveu mudar o prenome Saulo para Paulo. O episódio bíblico deixa mais clara ainda a acepção do nome... Eis aí elementos que já abrem ao leitor caminhos menos ínvios para chegar à compreensão e interpretação da obra. Por fim, lembrar o elemento mórfico OLA, agregado ao radical Luci, a sugerir pequenez, pequena luz, necessitando de novos sopros para poder crescer.
            Agora, amiga, vou fechar esta, deixando a você uma sugestão. Leia o livro Olhai os Lírios do Campo, do romancista gaúcho Érico Veríssimo. Antes disso, passe uma vista d´olhos no Sermão da Montanha, em São Mateus. Isso feito, você verá que a recepção da mensagem da obra se tornará mais clara ao seu espírito perspicaz. Embora não seja a grande obra de Érico - na opinião da crítica e do próprio autor - faz pensar, faz meditar sobre a grandeza e pequenez de algumas almas; faz refletir sobre espiritualidade e cupidez pelo poder e pela glória, apanágio dos homens.
            Quando você ultimar essas providências, voltaremos ao assunto na próxima carta que chegar às suas mãos.
            Confesso que estou adorando trocar correspondência com você. À arte de escrever cartas dá-se o nome de Epistolografia. Qualquer um pode se aventurar e lapidar o estilo, conforme diz Balzac, que respondia, de mão própria, a toda missiva que lhe chegava às mãos... E eram centenas e centenas delas.
            Aqui estou, tamborilando o teclado. Uma vontade quase irrefreável me lancina, a empurrar-me à caça do Pokémon. Resisto e vou dar continuidade à leitura de Verdade Tropical, livro de Caetano Veloso, em que o compositor baiano procede a sutis análises do movimento tropicalista, misturando-o á história e à cultura brasileira desde quando o bispo Sardinha fora devorado por índios tupinambás, canibais a toda prova. Tudo a ver com a Antropofagia de Oswald de Andrade...
            Faço isso com gosto e sempre me divertindo, mas também por me ver premido pelo temor obsessivo à rendição da imbecilidade reinante.
Abraços forte para você. Vou parar porque escrever para mim está se tornando uma neurose. Os dedos coçam e alma fica ansiosa.
            Ciao, arrivederci.
            Do seu, sempre amigo,
            Francisco Hugo
           
           
           



            

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