sábado, 17 de setembro de 2016

CARTA à AMIGA – XIII
                                             Hugo Martins
Prezadíssima

Espero que tudo esteja bem com você. Hoje, sábado à tarde, depois de uma maratona estudando a língua grega, cheguei a casa intelectualmente cansado e sentei-me ao computador para escrever estas “mal traçadas linhas”. Cavouquei o quengo à procura de uma ideia, pensei em fazer análises literárias de um texto, que fosse doídamente belo, mas os pensamentos revoluteiam, e eu aqui, diante da frieza da tela, tangendo o teclado, e nenhuma ideia me salta à cachola. É aquela velha e batida estratégia de a palavra puxa palavra. Conforme Drummond, de palavra em palavram faz-se a crônica. E, por esse caminho, é que saio à cata do texto. Ele há de surgir: o mundo está à nossa frente, grávido de significações, e as palavras fulguram quentes como a lava vulcânica à espera de serem expelidas pelo sopro da imaginação. Criadora ou não, basta que seja ousada e aceite o desafio. Pois vamos lá.
Dando tratos à bola, cá pensei: vou alegrar o espírito de minha amiga, contando-lhes “causos” em que se sobressaiam tiradas espirituais da sagacidade de alguns homens em episódios do dia a  dia, ou pescadas, aqui e ali, de esparsas leituras não devidamente anotadas, mas que se fixaram no bestunto como indeléveis tatuagens.
O escritor irlandês Bernard Shaw era um gozador de mão cheia. Sua refinada ironia levou-o a escrever um livro que intitulou Socialismo para Milionários. Não é de rir? Pois bem. Viveu noventa e quatro anos. Era fumante inveterado. Um dia alguém lhe perguntou se ele achava difícil parar de fumar. Ele respondeu: “não, pelo contrário. Acho facílimo. Já deixei de fumar trinta e seis vezes”. É mole?
O barão de Itararé, jornalista e humorista de fino trato, fazia piada até com os próprios dissabores. Certa feita, a polícia do governo Vargas, "visitou" o jornalista e nele aplicou antológica surra. No outro dia, lia-se na porta de entrada da sala onde o barão trabalhava: “ENTRE SEM BATER”.
Sobre a amizade? Veja esta de Machado de Assis. “Não tenho amigos recentes, e os mais antigos foram estudar a geologia do campo santo”. E essa outra sobre a felicidade: “Ninguém se fie na felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim”. Cortantes!
As mulheres, nas ocasiões em que se encontram, costumam trocar beijinhos nas faces. Monteiro Lobato, observador refinado do comportamento humano, fez uma leitura dessa prática, assim lendo o signo cultural: “As mulheres se entrebeijam para não se entremorderem”. Uau!
Contam que Dostoiévski, no leito de morte, foi indagado por um jovem: que matéria mais motiva o sujeito a escrever? O romancista russo olhou-o e, fleumaticamente, disse; “sofrer, sofrer e sofrer”. Não qualquer sofrimento... Qual, pois? Talvez os que lancinem o Ser do homem, que é o não-ser
Já Drummond diz que escrever não deve resultar “da falta de dinheiro, dor de cotovelo ou momentâneas tomadas com as forças líricas do mundo”. Quer dizer: o poeta deve andar armado, e a arma do poeta é a palavra, esta entidade misteriosa com que travamos batalhas vãs mal raia a manhã. É a marca e sinete da palavra. É o indizível, o inexprimível, o inefável. Situações de perplexidades há na vida que só é dado ao homem interpretá-las recorrendo à dureza do silêncio, do riso ou do choro... Ou, o que é doloroso, a mistura dos dois últimos, cujo significado, sendo o mesmo, só se diferenciam nas nuanças.
Gustave Flaubert, escritor realista francês, autor da obra Madame Bovary, dizia da vida; “O único meio para suportar a existência é afogar-se na literatura como numa orgia perpétua. O vinho da Arte causa uma profunda embriaguez e é inesgotável...” Hum rum!!
Para Machado de Assis, alcança-se a imortalidade, coisa obsessiva no espírito humano, por um só caminho certo: o cultivo da Arte. Vejamos, nesse sentido, a frase do criador de Capitu, que se encontra gravada na base de sua estátua na Academia Brasileira de Letras: “Esta é a glória que fica, eleva, honra e consola”. Sei não...
Fechando esta, transcrevo, uma frase latina, plena de força pedagógica, que persuade os céticos, preguiçosos e medrosos diante do ato de escrever. Vale mais seguir a lição da parêmia que as lições recebidas em aulas insossas, salpicadas de conselhos e fórmulas, por si mesmos tão vazios quão inúteis. Aí vai em caixa alta, aspeada e acompanhada da tradução:
“SCRIBENDO SCRIBERE DISCO”. Aprendo a escrever escrevendo.
Que você tenha bons sonhos. Como você tem pretensões de escrever, o ler e o escrever são o melhor remédio, como diria a Revista Seleções quando se referia à gratuidade do rir. Hoje gastei boa parte da tarde fazendo cópia de texto em grego. Técnica primária de se começar a ler. Fazia muito isso quando garoto. Copiava textos e mais textos em língua portuguesa. Já copiei muito texto latino a mão. O ato de copiar é ler duas vezes. Depois desse lugar-comum, só me resta mesmo fechar mesmo estas “mal traçadas linhas” e desejar a você muitas felicidades.
O parto foi difícil, mas o texto saiu.
Do seu sempre amigo.
Francisco Hugo.





           

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