CARTA
à AMIGA – XIII
Hugo Martins
Prezadíssima
Espero que tudo esteja bem
com você. Hoje, sábado à tarde, depois de uma maratona estudando a língua
grega, cheguei a casa intelectualmente cansado e sentei-me ao computador para
escrever estas “mal traçadas linhas”. Cavouquei o quengo à procura de uma
ideia, pensei em fazer análises literárias de um texto, que fosse doídamente
belo, mas os pensamentos revoluteiam, e eu aqui, diante da frieza da tela,
tangendo o teclado, e nenhuma ideia me salta à cachola. É aquela velha e batida
estratégia de a palavra puxa palavra. Conforme Drummond, de palavra em palavram
faz-se a crônica. E, por esse caminho, é que saio à cata do texto. Ele há de
surgir: o mundo está à nossa frente, grávido de significações, e as palavras
fulguram quentes como a lava vulcânica à espera de serem expelidas pelo sopro da
imaginação. Criadora ou não, basta que seja ousada e aceite o desafio. Pois
vamos lá.
Dando tratos à bola, cá
pensei: vou alegrar o espírito de minha amiga, contando-lhes “causos” em que se
sobressaiam tiradas espirituais da sagacidade de alguns homens em episódios do
dia a dia, ou pescadas, aqui e ali, de esparsas leituras não devidamente anotadas,
mas que se fixaram no bestunto como indeléveis tatuagens.
O escritor irlandês
Bernard Shaw era um gozador de mão cheia. Sua refinada ironia levou-o a
escrever um livro que intitulou Socialismo para Milionários. Não é de rir? Pois
bem. Viveu noventa e quatro anos. Era fumante inveterado. Um dia alguém lhe
perguntou se ele achava difícil parar de fumar. Ele respondeu: “não, pelo
contrário. Acho facílimo. Já deixei de fumar trinta e seis vezes”. É mole?
O barão de Itararé, jornalista e
humorista de fino trato, fazia piada até com os próprios dissabores. Certa
feita, a polícia do governo Vargas, "visitou" o jornalista e nele
aplicou antológica surra. No outro dia, lia-se na porta de entrada da sala onde
o barão trabalhava: “ENTRE SEM BATER”.
Sobre a amizade? Veja esta de Machado
de Assis. “Não tenho amigos recentes, e os mais antigos foram estudar a
geologia do campo santo”. E essa outra sobre a felicidade: “Ninguém se fie na
felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim”. Cortantes!
As mulheres, nas ocasiões em que
se encontram, costumam trocar beijinhos nas faces. Monteiro Lobato, observador
refinado do comportamento humano, fez uma leitura dessa prática, assim lendo o
signo cultural: “As mulheres se entrebeijam para não se entremorderem”. Uau!
Contam que Dostoiévski, no leito
de morte, foi indagado por um jovem: que matéria mais motiva o sujeito a
escrever? O romancista russo olhou-o e, fleumaticamente, disse; “sofrer, sofrer
e sofrer”. Não qualquer sofrimento... Qual, pois? Talvez os que lancinem o Ser
do homem, que é o não-ser
Já Drummond diz que escrever não
deve resultar “da falta de dinheiro, dor de cotovelo ou momentâneas tomadas com
as forças líricas do mundo”. Quer dizer: o poeta deve andar armado, e a arma do
poeta é a palavra, esta entidade misteriosa com que travamos batalhas vãs mal
raia a manhã. É a marca e sinete da palavra. É o indizível, o inexprimível, o
inefável. Situações de perplexidades há na vida que só é dado ao homem interpretá-las
recorrendo à dureza do silêncio, do riso ou do choro... Ou, o que é doloroso, a
mistura dos dois últimos, cujo significado, sendo o mesmo, só se diferenciam
nas nuanças.
Gustave Flaubert, escritor
realista francês, autor da obra Madame Bovary, dizia da vida; “O único meio
para suportar a existência é afogar-se na literatura como numa orgia perpétua.
O vinho da Arte causa uma profunda embriaguez e é inesgotável...” Hum rum!!
Para Machado de Assis, alcança-se
a imortalidade, coisa obsessiva no espírito humano, por um só caminho certo: o
cultivo da Arte. Vejamos, nesse sentido, a frase do criador de Capitu, que se
encontra gravada na base de sua estátua na Academia Brasileira de Letras: “Esta
é a glória que fica, eleva, honra e consola”. Sei não...
Fechando esta, transcrevo, uma
frase latina, plena de força pedagógica, que persuade os céticos, preguiçosos e
medrosos diante do ato de escrever. Vale mais seguir a lição da parêmia que as
lições recebidas em aulas insossas, salpicadas de conselhos e fórmulas, por si
mesmos tão vazios quão inúteis. Aí vai em caixa alta, aspeada e acompanhada da
tradução:
“SCRIBENDO SCRIBERE DISCO”.
Aprendo a escrever escrevendo.
Que você tenha bons sonhos. Como
você tem pretensões de escrever, o ler e o escrever são o melhor remédio, como diria
a Revista Seleções quando se referia à gratuidade do rir. Hoje gastei boa parte
da tarde fazendo cópia de texto em grego. Técnica primária de se começar a ler.
Fazia muito isso quando garoto. Copiava textos e mais textos em língua
portuguesa. Já copiei muito texto latino a mão. O ato de copiar é ler duas
vezes. Depois desse lugar-comum, só me resta mesmo fechar mesmo estas “mal
traçadas linhas” e desejar a você muitas felicidades.
O parto foi difícil, mas o texto
saiu.
Do seu sempre amigo.
Francisco Hugo.
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