CARTA
à AMIGA - II
Hugo Martins
Minha cara,
Conforme
já sabias, voltei ao contato com a língua grega e a imorredoura cultura,
amplamente polvilhada no mundo ocidental, até mesmo na forma de pensar o mundo
por meio de estruturas de raciocínio herdadas àquele povo. Ninguém pode fugir a
isso. Se a lógica formal não tivesse exsurgido do espírito de Aristóteles, essa
parte da filosofia, que auxilia o homem a organizar, formalmente, o raciocínio,
haveria de manifestar-se no espírito inquisitivo de outro grego. Digo
formalmente porque existe outra natureza de lógica, a material, presente no
pensamento de Hegel, e Marx. Assinale-se que a observação se impõe, pois, se a
lógica material verifica o teor de verdade ínsita a dado pensamento, à lógica
formal interessa como dado raciocínio ou juízo foi estruturado. À lógica formal
não importa se o conteúdo veicula ou não a verdade.
Para
responder à tua cartinha, aliás, escrita em português simples, mas castiço,
tive que interromper a leitura de uma obra de Harold Bloom, Como e Por Que Ler,
em que o crítico desvenda alguns significados no bojo da obra literária,
encobertos pelo véu da metaforização, óbice irremovível aos olhos do leitor
menos perspicaz, que não consegue, por causa de alguma limitação, desencavar
sentidos reveladores do homem, sua estada no mundo, o conflito entre um e outro
e, até mesmo, latências, que só se revelam ao leitor que detiver certa
experiência com a linguagem multifacetada, que mais esconde do que põe às
claras. Embora o intelectual americano refira-se tão só ao texto literário, o
espírito de sua obra é extensível a qualquer tipo de texto, inclusive às
significações e sentidos presentes no mundo e seus mistérios. Há coisa mais
eloquente que um silêncio pesado? E o barulho estridente que nada diz, e se
rende ao silêncio? Amiga, leia a obra e tire suas próprias conclusões. Cada
leitor tem um faro e uma audição. Não basta só abri-los ao mundo. Mister se faz
prepará-los para que a realidade neles penetre e espicace pensamentos e
reflexões. Você tem cacife para tanto. Conheço seus predicados de pessoa
curiosa e entusiasmada por enxergar as acontecências com as armas do
pensamento... A propósito, a propósito... Vamos nós. Vamos à leitura de um naco
do real.
No
momento, acabo de assistir à propaganda eleitoral gratuita, e esta me deixa
sempre a pensar. Penso, por exemplo, na forma de raciocinar por silogismos. Que
é isso? Criado pelo gênio de Aristóteles, o silogismo pode carregar uma verdade
ou uma mentira embuçada em falácias. Em outras palavras: quem raciocina por esse
modo, parte de duas premissas, uma maior e outra menor. Se ambas forem
verdadeiras, chega-se a uma conclusão verdadeira. Se uma delas for falsa, a
conclusão poderá assumir aparência de verdade, mas encerra uma mentira acerca
dos dados da realidade. Por exemplo: todo homem é mortal; teu amigo é homem;
logo, teu amigo é mortal. Aqui temos um silogismo, cuja conclusão é verdadeira,
não há negar. No raciocínio: no Brasil,
todos têm seus direitos respeitados; João da Silva é brasileiro; logo, João da
Silva tem seus direitos respeitados no Brasil. Eis um silogismo, cuja conclusão
é falsa, porque uma das premissas, a maior, é falsa. Assim é a propaganda
eleitoral gratuita: plena de falácias, cheia de engodos, gravida de mentiras.
A propósito, lembra-me a figura de um ex-governador boquirroto e de língua solta. Durante a campanha não regateava ele promessas de toda sorte. Eleito, soube que os médicos no Ceará estavam em greve. Perguntado sobre como ia resolver o impasse, sorriu e, na sua linguagem destemperada e estúpida, disse, de maneira cínica: “Nenhum problema. Médicos são como sal, baratos, branquinhos e se encontram em qualquer lugar”. A esta conclusão chegou ele, construindo uma metáfora desgraciosa, torta, indelicada e de mau gosto, embutida em premissas falsas. Haverá sempre necessidade de médicos e profissionais da saúde. No entanto o ex-governador de língua afiada foi infeliz, mas manteve sua prepotência, hoje mais atenuada pelas respostas que o eleitor lhe vem dando ao longo do processo político. Aliás, fez ele parte de um grupelho de coronéis, que combatia coronéis, e costumava assestar seus projetos em ridículos slogans de Governo das Mudanças. Essa premissa nunca chegou a nenhuma conclusão positiva, pois o Ceará continua com os mesmos vícios, a mesma miséria e a mesma penúria na área do social. Se se fez alguma mudança, certamente estas beneficiaram tão só a classe política e os grupos empresariais que dão sustentação às campanhas. Enquanto isso, a educação pública vai de mal a pior, basta ver as estatísticas; a saúde encontra-se entregue às baratas; a segurança resume-se na propaganda de uma tal Ronda do Quarteirão: policiais embonecados em fardas feitas sob medidas, a bordo de camioneta Hilux, passeando, pimpões, nas ruas inseguras de Fortaleza. Enquanto isso, parar em semáforos é correr o risco de ser assaltado ou morto. Sair de casa é expor-se à sanha de bandidos, que se apoderam dos bens dos incautos e ainda os humilham, chamando-os de vagabundos. O mais coerente para a população é manter-se em casa e não arriscar sua vida. A coisa chega a ser engraçada; especialistas em segurança pública vão aos meios de comunicação de massa para aconselhar as pessoas como se comportar. Ora, isso também é um sofisma, pois o tributo que se paga deve ter por destinação assegurar, sem nenhum favor, não só segurança mas também meios de que todos vivam suas vidas com um mínimo de dignidade... O problema é a linguagem... A propósito, havia uma propaganda dos Tribunais Eleitorais que encerravam uma conclusão incontestável: VOTO É CONSEQUÊNCIA... Que premissas antecedem tal conclusão? Ei-las: todo cidadão delega poderes a representantes para legislar e para administrar a comunidade; logo, sua escolha redundará em consequências que seus olhos logo, logo, testemunharão.
Por outro lado, se o voto se atrela a outros interesses que não ao bem comum, fim maior da participação sincera de todos, as consequências nunca satisfarão a expectativa de todos, mas surtirão como tumores e purulências de toda ordem na dinâmica social.
Por fim, é bom precatar-se com os sofismas em que os candidatos costumam pendurar-se. De regra, os sorrisos, os gestos a musiquinha, os braços em forma de ele e punhos fechados demonstrando força nos bons propósitos, bem como a presença de políticos de reputação duvidosa nos palanques eletrônicos para apoiar candidatos, não devem servir de premissa verdadeira, porque eles, com raras e honrosas exceções, são mentirosos como o boneco Pinóquio. Suas promessas devem ser vistas como as histórias de Trancoso ou os “causos” contados por vaqueiros e caçadores, os quais, conforme a sabedoria popular, aumentam sempre noventa e nove pontos no que contam.
A propósito, lembra-me a figura de um ex-governador boquirroto e de língua solta. Durante a campanha não regateava ele promessas de toda sorte. Eleito, soube que os médicos no Ceará estavam em greve. Perguntado sobre como ia resolver o impasse, sorriu e, na sua linguagem destemperada e estúpida, disse, de maneira cínica: “Nenhum problema. Médicos são como sal, baratos, branquinhos e se encontram em qualquer lugar”. A esta conclusão chegou ele, construindo uma metáfora desgraciosa, torta, indelicada e de mau gosto, embutida em premissas falsas. Haverá sempre necessidade de médicos e profissionais da saúde. No entanto o ex-governador de língua afiada foi infeliz, mas manteve sua prepotência, hoje mais atenuada pelas respostas que o eleitor lhe vem dando ao longo do processo político. Aliás, fez ele parte de um grupelho de coronéis, que combatia coronéis, e costumava assestar seus projetos em ridículos slogans de Governo das Mudanças. Essa premissa nunca chegou a nenhuma conclusão positiva, pois o Ceará continua com os mesmos vícios, a mesma miséria e a mesma penúria na área do social. Se se fez alguma mudança, certamente estas beneficiaram tão só a classe política e os grupos empresariais que dão sustentação às campanhas. Enquanto isso, a educação pública vai de mal a pior, basta ver as estatísticas; a saúde encontra-se entregue às baratas; a segurança resume-se na propaganda de uma tal Ronda do Quarteirão: policiais embonecados em fardas feitas sob medidas, a bordo de camioneta Hilux, passeando, pimpões, nas ruas inseguras de Fortaleza. Enquanto isso, parar em semáforos é correr o risco de ser assaltado ou morto. Sair de casa é expor-se à sanha de bandidos, que se apoderam dos bens dos incautos e ainda os humilham, chamando-os de vagabundos. O mais coerente para a população é manter-se em casa e não arriscar sua vida. A coisa chega a ser engraçada; especialistas em segurança pública vão aos meios de comunicação de massa para aconselhar as pessoas como se comportar. Ora, isso também é um sofisma, pois o tributo que se paga deve ter por destinação assegurar, sem nenhum favor, não só segurança mas também meios de que todos vivam suas vidas com um mínimo de dignidade... O problema é a linguagem... A propósito, havia uma propaganda dos Tribunais Eleitorais que encerravam uma conclusão incontestável: VOTO É CONSEQUÊNCIA... Que premissas antecedem tal conclusão? Ei-las: todo cidadão delega poderes a representantes para legislar e para administrar a comunidade; logo, sua escolha redundará em consequências que seus olhos logo, logo, testemunharão.
Por outro lado, se o voto se atrela a outros interesses que não ao bem comum, fim maior da participação sincera de todos, as consequências nunca satisfarão a expectativa de todos, mas surtirão como tumores e purulências de toda ordem na dinâmica social.
Por fim, é bom precatar-se com os sofismas em que os candidatos costumam pendurar-se. De regra, os sorrisos, os gestos a musiquinha, os braços em forma de ele e punhos fechados demonstrando força nos bons propósitos, bem como a presença de políticos de reputação duvidosa nos palanques eletrônicos para apoiar candidatos, não devem servir de premissa verdadeira, porque eles, com raras e honrosas exceções, são mentirosos como o boneco Pinóquio. Suas promessas devem ser vistas como as histórias de Trancoso ou os “causos” contados por vaqueiros e caçadores, os quais, conforme a sabedoria popular, aumentam sempre noventa e nove pontos no que contam.
Para
chegar a conclusões que se aproximem daquelas consequências a que alude a
propaganda dos Tribunais Eleitorais, é de bom alvitre fugir ao rio caudaloso
das mentiras e falsas promessas de palanques eleitorais e santinhos, meras
falácias, e recorrer ao silêncio da consciência. Daí, as consequências advirão,
certamente, alvissareiras.
A propósito, como a programação televisiva anda muito carente de humor negro, o horário da propaganda eleitoral gratuita é um bom prato para quem desejar extrair das entrelinhas material para rir a bandeiras despregadas. Pena que seja só por poucos dias...
A propósito, como a programação televisiva anda muito carente de humor negro, o horário da propaganda eleitoral gratuita é um bom prato para quem desejar extrair das entrelinhas material para rir a bandeiras despregadas. Pena que seja só por poucos dias...
Abraços
e arrivederci. See you another day. Meu inglês é sofrível, mas me faço
entender.
Do seu criado.
Francisco Hugo
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