CARTA à AMIGA - IX
Hugo Martins
Minha cara
“Olhai os Lírios do Campo”, frase na segunda
pessoa do plural, portanto de sabor solene, proferida por Jesus Cristo no
momento em que este desenvolve o que se convencionou chamar Sermão da Montanha
ou Sermão das Bem-Aventuranças no Evangelho segundo Mateus. Com essa frase, Érico
Veríssimo intitula seu romance mais popular.
Enredo simples sem grandes mergulhos metafísicos
dos grandes romances da humanidade. O autor dizia-se um mero contador de
histórias, portanto não levava muito em conta senão o contar pelo contar. “Menas”
a verdade, diz um amigo meu, amigo das concordâncias esdrúxulas. Na vã
aparência da narrativa linear, escondem-se mistérios que muito revelam da alma
humana, além da recorrência à metáfora universal da mensagem evangélica e dos
propósitos da doutrina cristã.
Dois seres humanos. Um homem e uma
mulher. Dois mundos. Entrechoque de individualidade doentia com espiritualidade
sã e límpida. Ele, dono de profundo egoísmo, alimentado por lamentável complexo
de inferioridade, enxerga o mundo pelas lentes do pragmatismo; ela, livre, de
coração aberto, amorosa, não teme colocar às claras seu natural pendor para
enxergar, em primeiro lugar, o outro, a quem dedica extremado interesse e
acendrado amor. Ele não tem vida. Ela é a própria ressurreição.
Namoraram. Ela engravida. Ele parece
dedicar a ela algum amor. Ele conhece outra, Isabel, que lhe proporciona
dinheiro, prestígio e as futilidades da vida social. Ela, Olívia, desaparece e
vai morar noutra cidade. Torna-se mãe. Ele, em pouco tempo de casamento com a
outra, começa a experimentar o tédio provindo de relação conjugal movida pelo
interesse de encontrar no outro alguma vantagem a auferir. O tempo continua sua
marcha...
Um telefonema. Um deslocamento.
Olívia está morrendo. Eugênio, rumo ao hospital, enquanto o automóvel desliza,
mergulha num retrocesso de lembranças em que traz à tona a vida que levou e a
vida que poderia ter sido, coisa que ele só vai descobrir na segunda parte da
narrativa.
Com a morte de Olívia, Eugênio se
reencontra com a filha que ainda não conhecia. No quarto da pensão em que
Olívia morava, Eugênio encontra um maço de cartas, que ela escrevera para ele,
mas nunca enviara. Leu-as. Todas terrivelmente amorosas e assentadas na
mensagem evangélica. Aliás, o título do romance sai de uma delas: “Eugênio,
estive pensando muito na fúria cega com que os homens se atiram à caça do
dinheiro. É essa causa dos dramas e das injustiças de nossa época. ” Mais à frente, assim diz a carta: “Quero que
abras os olhos e acordes enquanto é tempo. Quero que pegues a Bíblia, que está
perto da estante do rádio e leias o Sermão da Montanha, principalmente na parte
em que Jesus fala dos lírios do campo e das aves do céu. Eles não trabalham nem
fiam, no entanto nem Salomão, em toda sua glória jamais se vestiu como um deles”.
A partir de então, processa-se brusca mudança na alma de Eugênio. Ocorre a
ressurreição de um homem, morto no e para o mundo, e ressuscitado pela
morte/amor de uma mulher.
O grande tema da mensagem do Novo
Testamento é a ressureição, seja a de Lázaro, seja a da filha de Jairo, seja a
ocorrida pela fé inabalável do centurião, seja a do próprio Cristo. Todas elas
promovidas pelo amor...
Amiga, Érico Veríssimo confessa-se
agnóstico, isto é, por não ser dono de nenhuma certeza acerca das questões em
torno do fenômeno religioso, não assume qualquer doutrina com este cunho. Faz
isso no seu livro de memórias Solo de Clarineta no capítulo O Escritor e o
Espelho, momento monodialógico de rara beleza. Nem por isso, está impedido de
inspirar-se no texto bíblico para externar visões do mundo e do homem.
Veja, pois amiga, que o “olhar os
lírios do campo” se constitui num convite a que o homem se desvencilhe dos
interesses mesquinhos e perca algum tempo na contemplação gratuita do mundo, o
que, de certo modo, inclui o interesse pelo outro, postura encarecida, também,
pelo escritor austríaco, naturalizado israelita Martin Buber.
Veremos, em outra ocasião, alguma
outra obra cuja tema esteja calcado em alguma mensagem abeberada no texto
bíblico.
Lembro que as citações aspeadas foram
feitas de memória, por isso é possível haver nela algum senão.
Espero que sua leitura tenha
encontrado significações outras que venham se somar àquelas aqui dissertadas.
Felicidades mil, desejo-lhe de
coração.
Seu sempre admirador,
Hugo Martins.
Nenhum comentário:
Postar um comentário