sexta-feira, 9 de setembro de 2016

CARTA à AMIGA – VI
                                                     Hugo Martins
            Amiga

            Era já alta madrugada. O vento batia forte na janela. A cortina esvoaçava. Por entre as frestas e venezianas da janela, ele entrava e, por vezes, tinha-se a impressão de que uiuiuava em doloroso tom. No quarto escuro, inerte sobre a cama, entre o sono e a vigília, imaginei leves batidas na madeira velha da janela, o que me fez lembrar o corvo de Poe. “Nunca mais, nunca mais”. Lembrei-me destas palavras proferidas pelo pássaro negro dentro da noite umbrosa, fechando cada estrofe dos versos imortais do soturno bardo.
            Minha nobre amiga, não sei explicar como ela surgiu naquela atmosfera onírica, talvez não saiba definir nem mesmo o que houve, pois encontrava-me naquele estado indefinido de sono profundo e a nítida impressão de que estava acordado. Você sabe que muito sonhos alcançam realidade tão vívida que, se agradáveis, você deseja que eles se prolonguem; se atormentados, a ansiedade exige que eles se esgarcem e você se liberte da atmosfera de desagrado angustiante. Sinceramente, no momento em que a coisa se deu, tudo era, paradoxalmente, real e irreal. Coisas de sonhos...
            Ela aproximou-se de mim... Não costumo ter medo do sobrenatural. Por isso, mantive-me ainda inerte, naquele estado daquela suave narcotização da alma que antecede o mergulho na hora de “pegar no sono”. Nada me metia medo, permaneci tranquilo, ainda mais porque a presença dela me inspirava confiança. E assim fiquei. Súbito, um feixe de luz suave, vindo não sei de onde, pôs à minha frente a silhueta dela. Como sempre muito bela. Os cabelos curtos, ainda negros, riscados de espaçadas manchas grisalhas, emolduravam-lhe o rosto magro em que se destacava um par de óculos, o qual lhe dava um ar professoral. Um leve tom de tristeza sombreava-lhe os lábios finos.  O vestido azul, de molde simples, com a barra abaixo dos joelhos, deixava ver um par de pernas roliças e bem torneadas. Nos pés pequenos e bem cuidados, chinelinhas graciosas e leves, que ela arrastava na sua marcha vagarosa. E se aproximou de mim, sentou-se à beira da cama e, num à vontade de quem sabe com quem está tratando, pegou minha cabeça, ergueu-a e acomodou-a nas pernas. Ato contínuo, passou a alisar minha cabeça, deixando a mão escorregar suavemente por sobre os cabelos. Nesse ir e vir, a palma da mão tocava-me a testa numa carícia de que põs à minha frente uma enxurrada caudalosa de doces lembranças. Só podia ser ela. E era. Não conversamos muito... Demo-nos as mãos e saímos a deambular. Nesse longo passeio, em constantes átimos saltitantes, revisitamos tempos e lugares...Os momentos não eram cronológicos, vinham à baila de conformidade com a clareza que visitavam nossa mútua memória. Eis ela aqui, dando-me conselhos, repassando-me valores e, algumas vezes, castigando-me... Eis ela aqui, enfrentando a dificuldade de criar, sozinha, os doze filhos. Criou a todos da melhor forma que que lhe foi possível. Eis ela aqui, os filhos já tinham batido as asas. Eles, vez ou outra, voltavam à casa materna. Ela achava pouco. Havia dias que mais de meia dúzia deles estavam a visitá-la e reverenciá-la. Ela achava pouco. Coração de proporções gigantescas, ela achava pouco. Eu procurava ver nisso um desejo acentuado de ter todos os filhos à sua volta. Estar perto dela era momento de muito congraçamento, de muito riso e muita união... Depois de estar nos momentos marcantes já vividos, voltamos, aliás, eu voltei, pois ela, mais uma vez partiu, deixando-me com a morte n´alma. Quando a manhã raiou, estava eu no mesmo lugar, com os olhos abertos, fitando o teto, e dando-me conta de haver recebido a mágica visita de minha mãe. Todo dia 9 de setembro do ano, desde 1990, eu vou a ela, eu a trago de volta, eu converso com ela, eu me convenço de que, até o fim de meus dias, ela continuará presente na minha vida, nas minhas lembranças, que a mantêm tão presente...
            Embora tenha partido naquele aziago ano, para nunca mais voltar, eu sempre a visito. Hoje ela me “visitou”. Vá eu lá, venha ela aqui, meus braços para ela se abrem, e meu coração sempre canta louvores a ela... O mais são palavras. Ainda assim, não deixarei de dizer que sempre a amarei. Penso que ela sabe disso. Entre mim e ela, o never, never do corvo de Poe soa como música inútil.
            Quanto ao assunto literatura, tratado na missiva V, deixaremos para a próxima. Hoje também é dia das mães para mim.

            Felicidades muitas.

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