quarta-feira, 14 de setembro de 2016

CARTA à AMIGA – X
                                               Hugo Martins
Caríssima

            Você me pergunta: o que é literatura mesmo? A resposta é relativa. A que literatura você se refere? Toda ciência possui uma literatura específica. Nesse sentido, há uma literatura médica, há uma literatura jurídica. Por isso, quero crer que sua pergunta remete à compreensão de literatura enquanto o cultivo das belas-letras, o fazer literário.  Por essa ótica, literatura é uma forma de conhecimento tão válido quanto o conhecimento científico e o conhecimento filosófico. Em que se diferenciam? Os dois primeiros estão inscritos na rubrica conhecimento conceptual, isto é, aquele que se alcança por meio do esforço e da diligência intelectual; o conhecimento artístico, entre eles, a literatura se inscreve no capitulo do conhecimento intuitivo, aquele que é inato, o indivíduo o carrega como uma dádiva. Daí a certeza da parêmia de que o artista já nasce feito.
            Os cientistas e filósofos, por mais geniais, desenvolvem pendores, dão asas à vocação, ao chamamento interior; o artista é senhor de um terceiro olho, sempre atento ao mundo, que ele, tal um demiurgo, recria, emprestando-lhe novas tinturas, outras nuanças, sempre montado na imaginação, na ficção, no faz de conta. A ciência busca a verdade; a arte, entre elas a literatura, visa a alcançar a verossimilhança; as realizações científicas podem ser comprovadas; as criações artísticas são degustáveis. A ciência tem sabor pragmático ou utilitário; a arte congrega em si todos os gostos para a contemplação, tendo em vista o prazer estético.
            Essa intuição, muita intensa em alguns mortais, explica o porquê de um Mozart, de um Arthur Rimbaud, de um Jorge Amado, que revelaram seu talento antes mesmo de atingirem a maioridade. Mozart, com cinco anos de idade já executava, no piano, com grande desenvoltura, músicas de gente grande. Rimbaud, poeta simbolista francês, com apenas dezenove anos, já mestre de sua geração, abandonou a literatura, dizendo não ter mais o que dizer. O romancista baiano, com dezessete anos escreveu, a quatro mãos, seu primeiro romance, Brandão e os Caminhos do Mar, mas sua carreira se inicia, mesmo, quando com dezenove anos, publicou a obra O País do Carnaval. Exemplos meramente ilustrativos, pois há carradas e mais carradas de artistas, figurando como enfant terrible em todas as áreas da criação artística.
             Material para a criação artística? Pintura: as cores. Música: os sons da natureza, reduzidos a sete notas. Arquitetura e Escultura: argamassa. Dança e Coreografia: o movimento. Literatura: as letras do alfabeto. O mais é misturar, combinar, inventar e encantar...
            Horácio, poeta romano da antiguidade clássica dizia que a literatura tem uma só função: divertir, ensinando; ensinar, divertindo. É o que se diz: unir o útil ao agradável. Com efeito, isso não deixa de encerrar uma boa dose de verdade. Caminhando pari passu com a História, a literatura fixa um momento na vida do homem de um determinado tempo, o que levou o pensador espanhol José Ortega y Gasset a forjar a frase: “eu sou eu e minhas circunstâncias”. Além de congregar todas as normas linguísticas, a norma-padrão culta, a norma familiar tensa, a norma familiar distensa, os jargões e gírias, a literatura é rico manancial de conhecimentos de toda ordem, que só o leitor experimentado pode descobrir quando nela se enfronha com gosto, vício e constância.
            Quer Sociologia? Honoré de Balzac, José de Alencar, Euclides da Cunha, Jorge Amado, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz. Quer Psicologia? Dostoiévski, Eça de Queirós, Gustave Flaubert, Eça de Queirós, Machado de Assis, Graciliano Ramos... Quer História? Vítor Hugo, Leo Tolstói, José de Alencar, Visconde de Taunay...
            Aquele alguém que disse ser “a literatura a maior mentira que é verdade” em nada se enganou. Aquiles, Ulisses, Enéas, Dom Quixote, Hamlet, Raskolnikov, Cosete e Fantine, Alice, Peri e Ceci, Brás Cubas, Quincas Borba, Vadinho, Riobaldo. Quem são? Onde moram? Por que não saem de nossas lembranças? Por que são analisados em aulas dos cursos de letras. Seus criadores já morreram. Por que os personagens não morrem? Eis algumas “questões prenhes de questões”. São eternos, imorredouros, são arquétipos das aventuras e dos dramas do homem nesse “mundo velho sem porteiras”, à busca de algum sentido para a vida, sempre acolitado pelo riso e pelas lágrimas... Tão só.
            A literatura provoca uma “lombra eterna” e leva o leitor a empreender viagens e mais viagens por todo o orbis terrestre, gastando pouco e sem necessidade de guias ou companheiros de viagem.
            Aí está, amiga. Queira-me bem. Abraços fraternos do seu amigo e criado,
            Francisco Hugo



           
           
           
           


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