segunda-feira, 12 de setembro de 2016

CARTA à AMIGA – VIII
                                            Hugo Martins

            Prezada

            Já iniciou a leitura do livro de Érico Veríssimo aludido na nossa última conversação? Fez a leitura prévia do texto bíblico? Espero que já estejam bem adiantadas. A indicação saiu por conta, você lembra, de havermos tocado num ponto nevrálgico da relação dialógica leitor/texto. Também os textos dialogam. Daí a hipótese de que toda interpretação, mais ou menos profunda, mais ou menos ingênua, resulte da carga de leitura que o leitor traz nos ombros ou como conhecimento prévio de mundo.  Quando sugerimos a leitura conjunta daqueles dois textos, pode ter a certeza de que a relação entre eles é umbilical e, por isso, o leitor disporá de maiores chances de alumiar muitas passagens que, sem a leitura do primeiro, permaneceriam envoltas em sombras. O fato de a leitura de um texto abrir clareiras na leitura de outro é o que se deu de chamar intertextualidade. Pois bem, a Bíblia Sagrada, em toda sua extensão, do Gênesis ao Apocalipse, tem servido de fonte e de apoio para o surgimento de várias obras literárias. Para você ter uma ideia, há algum tempo, li uma reportagem a respeito de livros de cabeceiras (aquele que o sujeito sempre frequenta com mais assiduidade) de escritores de nomeada. Imagine que, entre dez daqueles senhores, oito elegeram a Bíblia Sagrada como livro de visita frequente. Esse exercício era comum entre os chamados grandes romancistas de todos os tempos. Suficiente citar Fiódor Dostoiévski, Liev Tolstói, Victor Hugo, Machado de Assis e Eça de Queirós e tantos outros.
            Um famoso soneto de Camões, em que o vate português decanta a fidelidade do amor de um homem por uma mulher, é totalmente calcado na história de Esaú e Jacó, filhos de Isaac, filho de Abrahão, sogro de Rebeca, irmã de Labão, pai de Rachel e Lia. “Sete anos de pastor, Jacó servia Labão...” Continue a leitura desse belo poema, minha amiga. Você verá que apenas Esaú e Abrahão não estão explicitamente citados no texto. Mas indiretamente, sim. Para compreender como Jacó foi encontrar Rachel, Lia e Labão, o leitor certamente trará na bagagem a informação da existência de um conflito existente entre os dois irmãos, que resultou na fuga de Jacó para as terras de Labão por conselho de Rebeca.
            Esse embate entre irmãos, tema muito presente na Bíblia Sagrada, pode ser visto no romance homônimo de Machado de Assis, bem como no romance A Leste do Éden, do escritor norte-americano John Steinbeck, autor de dois romances conhecidos do público brasileiro, As Vinhas da Ira e A Pérola. O leste do Éden é a região, dizem as Escrituras, para onde Caim foi exilado por Deus.
            Embora anticlerical, o que nada tem a ver com a história sagrada, José Maria Eça de Queirós portava, altaneiro, essa virtude por ser leitor empedernido da Bíblia e de assuntos afins ( escreveu biografia de santos). Suas chicotadas nas ancas da burguesia farisaica resultaram dessa compreensão profunda do fenômeno religioso, longe do carolismo das baratas de igreja e de rapazolas presos à sotaina, sem nenhum pendor sincero para a vida religiosa. Veja-se o Crime do Padre Amaro e A Relíquia (uma delícia).    
            Dois escritores modernos também se aferraram à história sagrada, não com o fito de em suas páginas mergulhar para delas retirar pasto para narrativas alegóricas, mas para imprimir a ela ampla releitura, o que causou certo frisson naqueles que não distinguem a obra literária da ciência histórica ou da biografia, na linha analítica, do escritor francês Ernest Renan. Trata-se do grego Nikos Kazantzákis e do português José Saramago. O primeiro ocupa-se do Cristo; o segundo, além do Cristo, de episódios do primeiro e segundo Testamentos. Lembrar que Saramago se voltou, na última obra que publicou, para a figura de Caim. Por ordem, temos: A Última Tentação (o cineasta Martin Scosese acrescentou, por sua conta, o complemento “de Cristo"); O Evangelho Segundo Jesus Cristo e Caim. Não há proselitismos, tampouco manifestações narcisísticas de contestar por contestar o que quer que seja como fazem os tolos. Não. Mera interpretação, ou visões de mundo, sem a instrumentação técnica da ciência hermenêutica. Despindo-se de preconceitos e pré-conceitos, hauridos no discurso teológico do catecismo cristão, afeiçoado à  estereotipia de “autoridades” e da fala melíflua e edulcorada de padres e pastores dândis e midiáticos, o leitor verá que a leitura daquelas obras, no mínimo, vai lhe dar o que pensar... É escusado falar do enredo e da emoção das obras... Não se deve tirar o prazer do leitor, minha amiga.
            Não vou continuar. Vou deixar Érico Veríssimo para outra oportunidade. Continue a leitura dos textos indicados no início desta missiva. Aguarde novas análises, que visam, apenas, orientá-la na leitura e fruição estética da obra literária.
            Quanto a você, continue olhando os lírios do campo. Dizem que nem Salomão, em toda sua glória, jamais se vestiu como  um deles.

            Espero que você esteja se sentindo muito feliz.

            Deo gratias ago.
            Seu criado.
            Hugo Martins.
           
           


                   

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