CARTA à AMIGA – VIII
Hugo Martins
Prezada
Já iniciou a
leitura do livro de Érico Veríssimo aludido na nossa última conversação? Fez a
leitura prévia do texto bíblico? Espero que já estejam bem adiantadas. A
indicação saiu por conta, você lembra, de havermos tocado num ponto nevrálgico
da relação dialógica leitor/texto. Também os textos dialogam. Daí a hipótese de
que toda interpretação, mais ou menos profunda, mais ou menos ingênua, resulte da carga de leitura que o leitor traz nos ombros ou como conhecimento prévio de
mundo. Quando sugerimos a leitura
conjunta daqueles dois textos, pode ter a certeza de que a relação entre eles é
umbilical e, por isso, o leitor disporá de maiores chances de alumiar muitas
passagens que, sem a leitura do primeiro, permaneceriam envoltas em sombras. O
fato de a leitura de um texto abrir clareiras na leitura de outro é o que se deu
de chamar intertextualidade. Pois bem, a Bíblia Sagrada, em toda sua extensão,
do Gênesis ao Apocalipse, tem servido de fonte e de apoio para o surgimento de
várias obras literárias. Para você ter uma ideia, há algum tempo, li uma
reportagem a respeito de livros de cabeceiras (aquele que o sujeito sempre
frequenta com mais assiduidade) de escritores de nomeada. Imagine que, entre
dez daqueles senhores, oito elegeram a Bíblia Sagrada como livro de visita
frequente. Esse exercício era comum entre os chamados grandes romancistas de
todos os tempos. Suficiente citar Fiódor Dostoiévski, Liev Tolstói, Victor Hugo,
Machado de Assis e Eça de Queirós e tantos outros.
Um famoso
soneto de Camões, em que o vate português decanta a fidelidade do amor de um
homem por uma mulher, é totalmente calcado na história de Esaú e Jacó, filhos
de Isaac, filho de Abrahão, sogro de Rebeca, irmã de Labão, pai de Rachel e
Lia. “Sete anos de pastor, Jacó servia Labão...” Continue a leitura desse belo
poema, minha amiga. Você verá que apenas Esaú e Abrahão não estão
explicitamente citados no texto. Mas indiretamente, sim. Para compreender como
Jacó foi encontrar Rachel, Lia e Labão, o leitor certamente trará na
bagagem a informação da existência de um conflito existente entre os dois
irmãos, que resultou na fuga de Jacó para as terras de Labão por conselho de
Rebeca.
Esse embate
entre irmãos, tema muito presente na Bíblia Sagrada, pode ser visto no romance
homônimo de Machado de Assis, bem como no romance A Leste do Éden, do escritor
norte-americano John Steinbeck, autor de dois romances conhecidos do público
brasileiro, As Vinhas da Ira e A Pérola. O leste do Éden é a região, dizem as
Escrituras, para onde Caim foi exilado por Deus.
Embora
anticlerical, o que nada tem a ver com a história sagrada, José Maria Eça de
Queirós portava, altaneiro, essa virtude por ser leitor empedernido da Bíblia e
de assuntos afins ( escreveu biografia de santos). Suas chicotadas nas ancas da
burguesia farisaica resultaram dessa compreensão profunda do fenômeno
religioso, longe do carolismo das baratas de igreja e de rapazolas presos à
sotaina, sem nenhum pendor sincero para a vida religiosa. Veja-se o Crime do
Padre Amaro e A Relíquia (uma delícia).
Dois
escritores modernos também se aferraram à história sagrada, não com o fito de em
suas páginas mergulhar para delas retirar pasto para narrativas alegóricas, mas
para imprimir a ela ampla releitura, o que causou certo frisson naqueles que
não distinguem a obra literária da ciência histórica ou da biografia, na linha
analítica, do escritor francês Ernest Renan. Trata-se do grego Nikos Kazantzákis
e do português José Saramago. O primeiro ocupa-se do Cristo; o segundo, além do
Cristo, de episódios do primeiro e segundo Testamentos. Lembrar que Saramago se
voltou, na última obra que publicou, para a figura de Caim. Por ordem, temos: A
Última Tentação (o cineasta Martin Scosese acrescentou, por sua conta, o
complemento “de Cristo"); O Evangelho Segundo Jesus Cristo e Caim. Não há
proselitismos, tampouco manifestações narcisísticas de contestar por contestar
o que quer que seja como fazem os tolos. Não. Mera interpretação, ou visões de
mundo, sem a instrumentação técnica da ciência hermenêutica. Despindo-se de
preconceitos e pré-conceitos, hauridos no discurso teológico do catecismo
cristão, afeiçoado à estereotipia de “autoridades”
e da fala melíflua e edulcorada de padres e pastores dândis e midiáticos, o
leitor verá que a leitura daquelas obras, no mínimo, vai lhe dar o que
pensar... É escusado falar do enredo e da emoção das obras... Não se deve tirar
o prazer do leitor, minha amiga.
Não vou
continuar. Vou deixar Érico Veríssimo para outra oportunidade. Continue a
leitura dos textos indicados no início desta missiva. Aguarde novas análises,
que visam, apenas, orientá-la na leitura e fruição estética da obra literária.
Quanto a
você, continue olhando os lírios do campo. Dizem que nem Salomão, em toda sua
glória, jamais se vestiu como um deles.
Espero que
você esteja se sentindo muito feliz.
Deo gratias
ago.
Seu criado.
Hugo
Martins.
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