CARTA à AMIGA – IV
Hugo Martins
Olá, espero que você esteja bem.
Começo por
lhe dizer que não abraço nenhum culto de natureza religiosa. Eis a razão por
que me é muito difícil dissertar sobre essa ou aquela religião. Não encontro em
nenhuma delas senão manifestações de medo, covardia e impotência. Quando
menino, andei assistindo a missas mais por injunção materna que por qualquer
outro motivo. Nunca me explicaram a linguagem do senta-levanta-ajoelha,
tampouco o palavreado babélico proferido, como ladainha, em língua latina, por
padres, sacristãos e coroinhas. Realmente, era tudo um mistério para mim. Também
nunca me explicaram a ideia do pecado, só recebia ameaças de fogo do inferno
pelo eventual cometimento deles. Quando não, jogavam-me na alma as
possibilidades dos castigos de Deus. Sempre vi nisso uma incoerência. Como
poderia eu pagar por deslizes e pecados se nunca me debuxaram a ideia
aproximada do que vinha a ser isso? Deus castiga? Por que, se é ele o
suprassumo da perfeição e tem, em relação aos homens, a vantagem da
onisciência, onipresença e onipotência?
É tudo muito desigual. É difícil engolir esse Deus que tanto apregoam e,
por vezes, motiva guerras entre povos como se fosse ente desagregador. Sempre
houve conflitos entre os povos por conta desse Deus, quando o lógico seria o
sempiterno renascimento do amor entre os homens, a perenidade da paz eterna e a
confiança na vida. Alguém dirá: “é uma questão de fé. ” Reafirmo: é questão de
incoerência ou desrespeito à ordem natural das coisas, que deve ser regida por
um mínimo lógico.
Outra
absurdidade que me enfiaram de goela abaixo ou de alma adentro é a que transfere
autoridade a seu fulano (padre, pastor, rabino) e a tutti quanti para conceder
perdão após o ato confessional, em que o sujeito se ajoelha diante daqueles
senhores e dispara uma espécie de fala ungida de temores infundados e de
inexplicável mea culpa. Isso me faz lembrar o satírico François Marie Arouet, Voltaire,
que, recebendo no leito de morte um jesuíta que a ele disse ter ido até ali por
ordem de Deus para lhe levar o perdão, estirou a mão, aduzindo: “mostre-me a
procuração”. Na verdade, a chamada confissão, no jargão religioso, não passa do
uso da linguagem em sua função emotiva, por meio da qual o confitente desnuda a
alma, procurando livrar-se do que lhe pesa no espírito conturbado. É coisa
semelhante ao paciente que abre as comportas de suas emoções para um
psicanalista ou, mesmo, ao homem atormentado por dores na alma, que encontra no
ouvido amigo o alívio e a sensação da presença da paz interior.
No léxico da
igreja católica, há uma palavrinha bem sugestiva que sempre me deixou com a
“pulga atrás da orelha”. É uma mania que cultivo de há muito em pretender
mergulhar no âmago das palavras, em busca de desvendar seus significados mais
profundos e não a mera acepção linear dicionarizada. Trata-se da palavrinha
comunhão. Como é possível a uma criança, quando faz a primeira comunhão,
comungar com ideário de alguém que não conhece nem lhe digeriu o pensamento? Quer dizer: o ato da comunhão é uma opção imposta e não fruto de escolha livre
e refletida.
A palavra
orar e prece significam, literalmente, pedir. Deveria ser um monólogo de que
exsurgiriam exames de consciência através dos quais fossem sopesadas nossas
ações em relação ao homem (o outro) e ao mundo, com vistas a tomadas de posição
no problemático caudal da vida. Parece que os rezadores tomam aquelas palavras
ao pé da letra e se entregam a um ramerrão de pedidos os mais insólitos e
aberrantes. Reza-se para alcançar êxito em concurso público; ora-se para
arranjar bom casamento, proferem-se preces para o paciente se livrar de dores e
de atrozes sofrimentos. No primeiro caso, é estudar. No segundo, é definir a
coisa. No terceiro, é assistência médica adequada. Por que alguma divindade
iria interferir em problemas humanos tão tacanhos? Só nas cabeças de vento,
soprado por alguma aragem de incurável idiotia ou por falta do que fazer.
Vem-me à
cachola um episódio retirado do Evangelho segundo Mateus, em que se diz que aos
fariseus muito agrada rezar nas sinagogas, à vista de todos, para mostrar que
são pios, caridosos e tementes a Deus. Em seguida, vem o conselho de que o fiel
deve orar no silêncio e na solidão do seu quarto, que Deus lhe ouvirá os apelos
e temores. A narração do episódio é apenas ilustrativa daquilo sobre que aqui
se disserta.
Outra coisa
engraçadíssima no culto cristão são as festas religiosas em todo o mundo. As
idas à praça de São Pedro, no Vaticano, para ver o Papa. As peregrinações a
Lourdes, na França. As festas no santuário de Fátima, em Portugal. A Festa de
Nossa Senhora da Conceição, no Brasil. As peregrinações a Juazeiro do Norte, no
Ceará. As festas em homenagem a São Francisco, em Canindé, Ceará. Essas e todas
as outras, a que acorrem enxurradas e mais enxurradas de fiéis, mais parecem
programa turístico que manifestação de fé ou coisa que o valha. O mais grave é
a manifestação da simonia, venda lícita de objetos sagrados (santos, terços e
quejandos), com objetivo de lucro, auferido, as mais das vezes, à custa da
ingenuidade medrosa do populacho... Sabe-se que as comemorações à santa de
Fátima eram levadas a efeito sempre no dia 13 de maio. Aqui em Fortaleza, o
filão é de tal importância, que deram de se promoverem festas em louvor àquela
santa em todo dia 13 de cada mês...Muito bem mesmo. Muito rentável...
Minha cara
amiga, assim me posiciono e nisso estou assentado em convicções próprias
hauridas ao longo do tempo em textos de toda ordem em que a reflexão é a ordem
do dia. Nada tenho contra a diversidade de cultos. Eles aí estão, e cada homem
é livre para eleger um ou mais de um deles. O respeito à liberdade de culto é
uma garantia legal inscrita em constituições democráticas, mas é, antes de tudo,
assunto a ser digerido livremente por quem quer seja, que não deve temer
censuras de terceiros ou de fanáticos de qualquer sorte por perfilhar
concepções destoantes do pensamento geral.
Espero que
meu posicionamento não sirva de pasto a que alguém preconceituoso venha lá dos
confins de seu conservadorismo sapecar-me adjetivos, cuja única serventia é
colocar em evidência sua pequenez e estreiteza mental.
E vivas à
livre manifestação do pensamento...
De seu,
sempre: criado e admirador
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