ALGUMAS DECLARAÇÕES A UM AMIGO
HISTORIADOR
Hugo Martins
Com a
louvável intenção de trazer a lume livro,focalizando a antiga Escola Técnica, no
meu tempo Escola Industrial, recolhe um nosso amigo declarações e testemunhos
que possam servir de subsídio ao desiderato de trazer à tona fatos, pessoas e
situações que configuraram a história da instituição.
Por
evidente, havemos de fugir à severidade e à má catadura do historiador oficial
e eleger a descontração e suavidade do cronista, deste, que procura ver o fato
não com a exatidão das lentes de aumento, mas, sobretudo, com o terceiro olho
captador das essências, embuçadas na vã aparência das coisas.
Viajemos,
pois, nas asas da memória e paremos, aqui e ali, nas estações das impressões
para que os fatos não se desvirtuem e entediem o viajante.
Era
nos anos 60. Fortaleza, cordial, respirava os ares não poluídos da brisa
marítima, que não conhecia os óbices da frieza pétrea dos arranha-céus. As
ruas, tranqüilas e desabitadas de assaltantes, na sua maioria pavimentadas por
pedras e não pelo negrume quente do asfalto, serviam de leito para poucos
carros, de regra, importados e apanágio de uns poucos.
À
noite, depois das novelas radiofônicas, as famílias se reuniam nas calçadas.
Enquanto os adultos comentavam os fatos do cotidiano e o custo de vida, a
meninada - depois de assistir ao Jerônimo, o herói do sertão – brincava de
pega-pega, de esconde-esconde e outros folguedos. Depois era a cama, de onde se
ouvia, a cada trinta minutos, o anúncio das horas vindo da igreja do Coração de
Jesus...
Aos
domingos, era imperdível assistir às matinais no Cine São Luís ou os seriados
do Cine Majestic, sem contar que, no Cine Rex, certamente, projetava-se uma
chanchada da Atlântida com Zé Trindade, Oscarito, Ankito ou Grande Otelo... À
tarde, ia-se ao Estádio Presidente Vargas ver pelejas entre as equipes. Naquele
tempo, o futebol era romântico, não se viam intrigas, e os jogadores eram todos
nascidos na terra de Iracema.
Depois
do cinema, era obrigatória a parada no Pedão da banadada ou no Pega-Pinto do
Mundico. Quando não, ia-se aos programas de auditório de Irapuan Lima ou de
José Lisboa, em que os calouros, quando premiados, ganhavam barras de Sabão
Pavão ou sabonete Sigel.
Havia
as tertúlias na casa de amigos, onde se mascava chiclets, bebia-se cuba libre e
ouvia-se Bienvenido Granda, Gregório Barrios, The Platters, Cauby Peixoto,
Ângela Maria... Dançava-se, nas manhãs de domingo, ao som Ivanildo e seu
Conjunto. Havia também o vento travesso da Praça do Ferreira, que não tinha
escrúpulos em erguer as saias largas das moças, para o gáudio dos marmanjos,
que se reuniam na Loja Rouvani Modas. Tudo era cordialidade... Havia paz,
urbanidade, e ainda não campeava a corrupção fétida e doentia.
Foi à
época desse clima ameno que prestei exame de admissão para o ingresso na Escola
Industrial de Fortaleza.
O
aluno chagava à Escola antes das sete e lá tomava seu café da manhã. Depois
assistia às aulas... Aproximadamente ao meio-dia, as turmas formavam no pátio e
eram conduzidas ao refeitório para, juntamente com os professores, saborear a
boa comida, servida por funcionários gentis, não em bandejas, mas em pratos
brancos e limpos. Após o almoço, havia um pequeno intervalo em que o alunado
recreava a alma e descansava o corpo. À tarde, nas oficinas, o aluno aprendia
um ofício.
Havia a
oficina de Artes Gráficas, comandada por Mestre Camarão, um senhor gordo, de
rosto sardento, voz estentórea, que trazia sempre pendurado nos lábios um
grosso charuto. Era auxiliado por outros que, como ele, já foram habitar o
sobrenatural. Mestre Olavo, invariavelmente de paletó, ficava sentado a uma
mesa, encadernando livros. Mestre Valdir, em sua extrema magreza e fina
cordialidade, esforçava-se por repassar aos aprendizes de tipógrafo como usar o
componedor. Mestre Barbosa, sentado no alto de uma cadeira, comandava uma
máquina. Era linotipista. Mestre Dias não media esforços para responder às
perguntas que lhe faziam.
No
mesmo bloco, ficava a Alfaiataria. Lá militava Mestre Gouveia e um outro, cujo
nome me foge à memória. Bem sei que esse mestre, de estatura baixa e desprovido
de carnes, óculos de grossas lentes e voz fanhosa, tinha por hábito conversar,
tamborilando os dedos das mãos sobre qualquer superfície plana que se lhe
antolhasse. Aprendia-se com eles a coser, alinhavar, fazer bainhas e até mesmo
cortar a fazenda com o auxílio de moldes. Mestre Gouveia me parecia, à época,
um homem severo, mas extremamente competente em seu ofício...
No
bloco em frente, ficava a Oficina de Serralheria. Só lembro a figura do mestre
Falconiére. Talvez por não gostar do ofício, pouca coisa ficou dessa oficina em
minhas lembranças, onde bem sei faziam-se soldas, protegendo os olhos com uma
espécie de máscara que lembra personagens do filme Guerra nas Estrelas. Se
soldei alguma coisa, algum portão ou mesa de ferro, nada me lembra isso... Anos
depois, reencontrei Falconiére, ministrando aula de Química na rede particular
de ensino e na UFC.
Mais
à frente, ficava a Marcenaria. Dirigida pelo Mestre Valderi, tinha como
instrutores o Mestre Bernardo, hoje habitante do sobrenatural, e Mestre Oriá,
que tratava todos por “jovem” e sempre revelava uma solicitude e empenho em
levar o aluno a tomar gosto pelo que aprendia.
Vestíamos um macacão de mescla
azul e ocupávamos uma espécie de banca de marceneiro, onde ficavam guardadas as
ferramentas e sobre a qual se serrava a madeira, cipilhava-se e
envernizava-se... Antes da atividade prática, o mestre orientava a turma em
aulas teóricas de desenho e projetos da feitura de um móvel ou o torneamento de
um pé de mesa ou coisa que o valha. Era prazeroso e sentíamos que fazíamos algo
de útil. Foi uma oficina por que passei aquela que mais despertou minha
simpatia...
Ao
fim da tarde, fim das aulas, os alunos se reuniam no pátio para receber sua
carteira de estudante, que lhe era entregue mediante a chamada do líder da
turma que, alçado a um banco de pedra, gritava o nome de cada colega. Na
caderneta, que o aluno entregava ao chegar à Escola, anotavam-se presenças,
ausências e incidentes outros da vida do estudante. Até mesmo as suspensões
resultantes de traquinagens...
Era
Diretor o Professor Roberto de Melo Barreto. Sempre enfatiotado, cabelos
lustrosos, cigarro na mão, ar grave, atravessava o pátio de cabeça erguida e ar
hierático. Quem estivesse sentado, erguia-se e o cumprimentava respeitosamente.
Tinha um irmão, de nome Álvaro, professor de Educação Física. Esta era
praticada onde hoje fica o estacionamento. Não havia ainda o campo de futebol,
inaugurado mais tarde pela presença austera do Professor João Lima. Onde quer
que fosse praticada, a Educação Física sempre nos parecia atividade cansativa.
Não atinávamos para a importância dela na preservação da saúde...
Para
inibir “danações”, havia os inspetores. Fernando Ribeiro, hoje advogado na
Secretaria de Administração do Estado, era pessoa cordata, amigo dos alunos e
conselheiro. Lembra-me que, quando resolvi ingressar na Escola de Aprendizes
Marinheiros foi um dos que tentou me dissuadir do intento. Não sei por que, mas
sei que por trás daquela atitude havia boas intenções.
Seu
Siqueira também era inspetor de alunos. Morava numa casa dentro da Escola, no
canto do muro onde hoje fica o edifício do Curso da Construção Civil. Sempre de
camisa branca de cambraia de linho, cigarro entre os dedos, olhar severo,
cabelos untados com gumex ou brilhantina, lidava com o alunado como a chamá-lo
às responsabilidades futuras. Toda e qualquer irregularidade ocorrida nos
pátios tinha que passar pelo crivo do Seu Siqueira. Saudosa figura...
Uma
aula a que assistíamos com prazer era a de canto orfeônico. Pela batuta do
maestro Orlando Leite, aprendíamos a entoar os Hinos Nacional, à Bandeira, o da
América, do Ceará e o da Escola Industrial. Afora canções outras relativas ao
folclore nacional e às cantigas de roda. Não faltava o indefectível “Frère
Jacques, Frère Jacques, dormez vous, dormez vous... Sonez les matines, sonez
lês matines... Dim dim dom...dim dim, dom”. O mestre sentava-se à frente do
órgão e nos conduzia nas asas mágicas da música, divina música. Se hoje penso
cantar com alguma afinação, o maestro Orlando Leite tem participação nisso.
Sou
apaixonado por livros. Vejo na leitura a melhor forma de olhar, ver e enxergar
a realidade, seus encantos e seus dramas. Com um livro na mão e disposição intelectual
de me assenhorear de seu conteúdo, sinto-me um gigante. Não tenho dúvida de
que, além da influência de minha mãe, as aulas de Biblioteca da Escola
Industrial muito contribuíram por este amor que tenho pelos livros e por sua
importância na formação do homem. Um dia por semana, éramos levados à
biblioteca, que era cuidada por uma senhorita de nome Elba. Não permitia
bagunça nem conversa fiada. Aquela hora era sagrada e consagrada à leitura. As
paredes revestidas de estantes apinhadas de livros de toda ordem. Nas mesas, em
pequenas estantes giratórias, víamos brochuras de Alexandre Dumas, Monteiro
Lobato, Victor Hugo, Alencar, Melville (nunca esqueci Moby Dick) e uma profusão
de livros outros e revistas, que espicaçavam nossa imaginação. Por ser adepto
da orientação pedagógica da formação do leitor, não alimento nenhuma dúvida de
que aquelas aulas, aparentemente desimportantes, foram decisivas, nesse
sentido, para minha formação intelectual.
Nenhum
professor inesquecível. Todos contribuíram de alguma forma para nossa formação.
Um, porém, destacava-se dos demais. O professor Pedro Mota dava aula de
Desenho. Fumava cigarros Hollywood, sem filtros, em cuja ponta ele colocava uma
piteira à moda filtro.
Sentávamos á frente das pranchetas e ouvíamos com prazer a exposição do
mestre, que, assíduo e pontual, arabescava o quadro com linhas de toda ordem e
nos explicava o segredo dos sólidos geométricos.
Havia
uma professora de Geografia, portadora de sorriso simpático e gestos
senhoriais, de cor alabastrina, olhos verdes, pernas grossas e roliças, cabelos
ruivos longos, caídos sobre os ombros em que se desenhavam graciosas sardas.
Ninguém negava a competência da professora Clarice Bessa. O que mais chamava a
atenção nela, porém, naqueles tempos em que a erotização vulgarizada ainda não
tinha lugar no mundo, era sua beleza física e a simpatia contagiante com que
expunha os assuntos, sem falar na disposição que demonstrava em não deixar
dúvidas no espírito do aluno...
Nossa
farda era constituída de uma calça azul, em cujas laterais se estendia, do cós
à bainha, uma lista vermelha; uma camisa de malha branca e uma blusa cáqui de
mangas compridas, passadas por dentro do cós; nos ombros, listas ou estrelas,
denotadoras do grau ou série em que se encontrava o aluno. No bolso da blusa
cáqui, um emblema da Escola, preso por um broche, daqueles de fraldas de
bebês... O sapato era Vulcabrás, preto; as meias, também pretas. Quando se
iniciava o ano letivo, cada aluno recebia da instituição essa farda...
Há
muito que dizer... Deixo a outros de memória mais apurada.
Aqueles
tempos deixaram saudades. Pertencem àquilo que Ataulfo Alves e Mário Lago
exprimiram na canção Meus Tempos de Criança... Fazem parte, certamente do
espólio indelével de nossas lembranças.
Nenhum comentário:
Postar um comentário