terça-feira, 6 de setembro de 2016

CARTA à AMIGA – III
                                                                Hugo Martins
Cara amiga

            Felicíssimo. A obra de arte, sobretudo a literatura entre as outras, traz alento, alegria e transporta o leitor a mundos tão reais quanto àquele com o qual ela dialoga. Percebi em suas palavras, da bem escrita cartinha, o entusiasmo que você vem experimentando com a leitura dos romancistas brasileiros, com especialidade os voltados para a documentação e denúncia social presentes nos chamados romancistas de 30, que se voltaram para a realidade brasileira quando da implantação do getulismo no Brasil, no período que vai de 1930 a 1945. Tempo de tacões de borzeguins; tempo de baraço e cutelo; tempo de autoritarismo; tempo de amordaçamento; tempo de miséria humana e outras tragédias, em que o homem nordestino foi coisificado, não tendo a quem recorrer para minorar seu sofrimento, a não ser ao cangaceirismo e ao sebastianismo ou beatismo religioso...
            Se você se detiver na análise da historiografia literária brasileira, verá, sem muito esforço reflexivo, que nossa literatura, dos começos à explosão modernista, não passa de bem disfarçado pasticho da literatura europeia. Tão explicável quanto a literatura europeia ter se apoiado na literatura clássica. Afinal, povo algum do mundo pode ostentar ares de originalidade pura. Sempre haverá um antes que impulsiona a criação artística para um aperfeiçoamento no campo do dizer e do exprimir. Nossa Semana de Arte Moderna e tudo o que depois dela ocorreu apoiou-se em modelos europeus, na chamada Vanguarda a que se refere a crítica especializada. Ainda bem que o Movimento Antropologista, à frente o intelectual paulista Oswald de Andrade, sugeriu “devorar os modelos europeus” e borrifa-los de certa brasilidade, que deveria se manifestar na realidade nacional, no homem brasileiro, na língua “errada do povo, na língua certa do povo”. Enfim, as mudanças a que se visavam eram a menor subserviência ao fazer literatura à moda francesa e, por via de consequência, imprimir maior valorização daqueles elementos em que se passava a limpo a cultura brasileira. Se houve algo de original advindo das diretrizes daquela Semana de 22, o romance de 30 foi a manifestação artística que mais incorporou o ideário de se fazer algo de novo e com fumos de originalidade. É bem verdade que a literatura brasileira de então cheirava a sociologia, mas não se afastou da estrutura romanesca da escola realista, estética de filiação francesa.
            Minha amiga, coloco as digressões a fim de que elas sirvam a você de reflexão e orientação na leitura crítica do romance nordestino, procurando nele enxergar essa coisa da documentação e da denúncia, facetas de cunho sociológico que resultaram, para escritores como Jorge Amado, Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz, contratempos, perseguições, fugas para o estrangeiro e cadeia. Quer dizer: a literatura de então incomodava... Eis o ponto alto do chamado romance nordestino de 1930, cumprindo uma das belas funções da literatura... Trata-se da littérature engagée (literatura engajada) a que se refere Sartre, aquela comprometida com os problemas sociais e políticos de um dado tempo histórico, a quem dá as mãos e a pena.
            Não quero estragar seu prazer. Por isso, nada direi de enredos e histórias. Faremos, tão só, a vol d´oiseau, um apanhado geral do modo de ser do romance nordestino de 30, acentuando um aspecto a ele muito caro: a linguagem bem próxima do coloquial. Se o velho Graça utiliza a linguagem castiça, correta e elegante, Jorge Amado, Rachel de Queiroz e Zé Lins fazem maior concessão à linguagem que “fere” os cânones gramaticais, em primeiro lugar, em respeito à pintura da cor local e, em segundo, debuxar, por ela, o nível cultural do personagem, que não poderia, impossível, utilizar o português clássico dos índios, vaqueiros e caboclos alencarinos. Contrassenso que fere as diretrizes de cada estilo de época.
            Jorge Amado é o romancista do proletariado da cidade grande, dos capitães da areia, dos pais de santo, dos malandros, das prostitutas, dos marinheiros, dos trabalhadores do cais, mas também do coronelão dono de terras, que arrota poder e mantém sob seu jugo trabalhadores nas terras cacaueiras e se esconde atrás dos bacamartes de jagunços. Sobre a sina do nordestino tangido pela seca um só romance, Seara Vermelha, aproxima-se do romance o Quinze, de Rachel de Queiroz e da obra Vidas Secas do alagoano Graciliano Ramos. Aliás, sobre o tema, tanto a cearense quanto o criador de Angústia só escreveram um romance. Rachel guindou-se para o romance político e para a escritura de contos e crônicas. Graciliano tinha o vezo da análise psicológica, mesmo em Vidas Secas, embora seus livros mais representativos nesse diapasão sejam São Bernardo, Angústia e Infância. Aqui ombreia com Machado de Assis na arte de traçar o perfil psicológico de personagens, numa espécie de mergulho de escafandrista que não desiste de remexer em todos os refolhos da alma humana em busca do que esta tem de mais escondido nos seus mistérios.
            José Lins do Rego é o contador de história, o mago que hipnotiza o leitor e o conduz para onde bem quer pela musicalidade das frases e torneios sintáticos, entretecidos em acordes de uma sinfonia de êxtases encantatórios. Metade de sua obra, a que aqui interessa, pertence ao chamado ciclo da cana-de-açúcar. Inicia-se com Menino de Engenho e finda com Fogo Morto. Entre o primeiro e o segundo, Banguê, Doidinho e Usina. Entre um banguê (engenho artesanal) e a usina, o coronel e a modernidade. Fogo morto é engenho que foi engolido pelo atraso e que deve ceder lugar à usina. É nessa ambiência, que autor paraibano analisa e põe às claras o surgimento dos novos tempos e a queda fatal do coronelismo. Como obra independente que interessa à problemática do Nordeste, Zé Lins publicou ainda Cangaceiros e Pedra Bonita. Ambos voltados para duas questões ínsitas à ignorância e ao ilhamento cultural, problemas apontados pelo sociólogo cearense Djacir de Meneses, na obra O Outro Nordeste, como fulcrais da região cujo habitante foi entregue à própria sorte.
            Para ler Zé Lins, você, minha cara amiga, deve começar pela leitura do livro de memórias Meus Verdes Anos, espécie de autobiografia, em cujo bojo o autor deixa traçada a gênesis de sua obra...
            Ler os romancistas de 30 é assistir a uma aula de interpretação do Brasil num dado momento de sua História.

Serei sempre seu amigo e criado.


                

           



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