CARTA à AMIGA – III
Hugo Martins
Cara amiga
Felicíssimo.
A obra de arte, sobretudo a literatura entre as outras, traz alento, alegria e
transporta o leitor a mundos tão reais quanto àquele com o qual ela dialoga.
Percebi em suas palavras, da bem escrita cartinha, o entusiasmo que você vem
experimentando com a leitura dos romancistas brasileiros, com especialidade os
voltados para a documentação e denúncia social presentes nos chamados
romancistas de 30, que se voltaram para a realidade brasileira quando da
implantação do getulismo no Brasil, no período que vai de 1930 a 1945. Tempo de
tacões de borzeguins; tempo de baraço e cutelo; tempo de autoritarismo; tempo
de amordaçamento; tempo de miséria humana e outras tragédias, em que o homem
nordestino foi coisificado, não tendo a quem recorrer para minorar seu
sofrimento, a não ser ao cangaceirismo e ao sebastianismo ou beatismo
religioso...
Se você se
detiver na análise da historiografia literária brasileira, verá, sem muito
esforço reflexivo, que nossa literatura, dos começos à explosão modernista, não
passa de bem disfarçado pasticho da literatura europeia. Tão explicável quanto
a literatura europeia ter se apoiado na literatura clássica. Afinal, povo algum
do mundo pode ostentar ares de originalidade pura. Sempre haverá um antes que
impulsiona a criação artística para um aperfeiçoamento no campo do dizer e do
exprimir. Nossa Semana de Arte Moderna e tudo o que depois dela ocorreu
apoiou-se em modelos europeus, na chamada Vanguarda a que se refere a crítica
especializada. Ainda bem que o Movimento Antropologista, à frente o intelectual
paulista Oswald de Andrade, sugeriu “devorar os modelos europeus” e borrifa-los
de certa brasilidade, que deveria se manifestar na realidade nacional, no homem
brasileiro, na língua “errada do povo, na língua certa do povo”. Enfim, as
mudanças a que se visavam eram a menor subserviência ao fazer literatura à moda
francesa e, por via de consequência, imprimir maior valorização daqueles
elementos em que se passava a limpo a cultura brasileira. Se houve algo de
original advindo das diretrizes daquela Semana de 22, o romance de 30 foi a
manifestação artística que mais incorporou o ideário de se fazer algo de novo e
com fumos de originalidade. É bem verdade que a literatura brasileira de então
cheirava a sociologia, mas não se afastou da estrutura romanesca da escola
realista, estética de filiação francesa.
Minha amiga,
coloco as digressões a fim de que elas sirvam a você de reflexão e orientação na
leitura crítica do romance nordestino, procurando nele enxergar essa coisa da
documentação e da denúncia, facetas de cunho sociológico que resultaram, para
escritores como Jorge Amado, Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz,
contratempos, perseguições, fugas para o estrangeiro e cadeia. Quer dizer: a
literatura de então incomodava... Eis o ponto alto do chamado romance
nordestino de 1930, cumprindo uma das belas funções da literatura... Trata-se
da littérature engagée (literatura engajada) a que se refere Sartre, aquela
comprometida com os problemas sociais e políticos de um dado tempo histórico, a
quem dá as mãos e a pena.
Não quero estragar
seu prazer. Por isso, nada direi de enredos e histórias. Faremos, tão só, a vol
d´oiseau, um apanhado geral do modo de ser do romance nordestino de 30,
acentuando um aspecto a ele muito caro: a linguagem bem próxima do coloquial.
Se o velho Graça utiliza a linguagem castiça, correta e elegante, Jorge Amado,
Rachel de Queiroz e Zé Lins fazem maior concessão à linguagem que “fere” os
cânones gramaticais, em primeiro lugar, em respeito à pintura da cor local e,
em segundo, debuxar, por ela, o nível cultural do personagem, que não poderia,
impossível, utilizar o português clássico dos índios, vaqueiros e caboclos
alencarinos. Contrassenso que fere as diretrizes de cada estilo de época.
Jorge Amado
é o romancista do proletariado da cidade grande, dos capitães da areia, dos pais
de santo, dos malandros, das prostitutas, dos marinheiros, dos trabalhadores do
cais, mas também do coronelão dono de terras, que arrota poder e mantém sob seu
jugo trabalhadores nas terras cacaueiras e se esconde atrás dos bacamartes de
jagunços. Sobre a sina do nordestino tangido pela seca um só romance, Seara
Vermelha, aproxima-se do romance o Quinze, de Rachel de Queiroz e da obra Vidas
Secas do alagoano Graciliano Ramos. Aliás, sobre o tema, tanto a cearense
quanto o criador de Angústia só escreveram um romance. Rachel guindou-se para o
romance político e para a escritura de contos e crônicas. Graciliano tinha o
vezo da análise psicológica, mesmo em Vidas Secas, embora seus livros mais
representativos nesse diapasão sejam São Bernardo, Angústia e Infância. Aqui
ombreia com Machado de Assis na arte de traçar o perfil psicológico de
personagens, numa espécie de mergulho de escafandrista que não desiste de
remexer em todos os refolhos da alma humana em busca do que esta tem de mais escondido
nos seus mistérios.
José Lins do
Rego é o contador de história, o mago que hipnotiza o leitor e o conduz para
onde bem quer pela musicalidade das frases e torneios sintáticos, entretecidos
em acordes de uma sinfonia de êxtases encantatórios. Metade de sua obra, a que
aqui interessa, pertence ao chamado ciclo da cana-de-açúcar. Inicia-se com
Menino de Engenho e finda com Fogo Morto. Entre o primeiro e o segundo, Banguê,
Doidinho e Usina. Entre um banguê (engenho artesanal) e a usina, o coronel e a
modernidade. Fogo morto é engenho que foi engolido pelo atraso e que deve ceder
lugar à usina. É nessa ambiência, que autor paraibano analisa e põe às claras o
surgimento dos novos tempos e a queda fatal do coronelismo. Como obra
independente que interessa à problemática do Nordeste, Zé Lins publicou ainda
Cangaceiros e Pedra Bonita. Ambos voltados para duas questões ínsitas à
ignorância e ao ilhamento cultural, problemas apontados pelo sociólogo cearense
Djacir de Meneses, na obra O Outro Nordeste, como fulcrais da região cujo
habitante foi entregue à própria sorte.
Para ler Zé
Lins, você, minha cara amiga, deve começar pela leitura do livro de memórias
Meus Verdes Anos, espécie de autobiografia, em cujo bojo o autor deixa traçada
a gênesis de sua obra...
Ler os
romancistas de 30 é assistir a uma aula de interpretação do Brasil num dado
momento de sua História.
Serei sempre seu amigo e criado.
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