domingo, 30 de outubro de 2016

SINTAXE E LEITURA
                                                                Hugo Martins
Transcrevamos o primeiro quarteto do poema Soneto de Fidelidade, da lavra do poeta, diplomata, compositor e boêmio Vinícius de Moraes. Muitos declamam todo o soneto de cor. Encantam-se com as palavras, deixam-se levar pela musicalidade da métrica e das rimas, mas não se sabe se estão entendendo o que leem. Sempre que levo esse texto à sala de aula, percebo que grande parte da turma não é capaz de transpor seus versos para a ordem direta. Como o texto está escrito em ordem inversa, aplicar a análise sintática para alcançar a compreensão do texto e a posterior interpretação é promover sua análise sem ter de recorrer a regras de atomização das frases e sapecar em cada termo determinada classificação. Basta colocá-lo na ordem direta. Pronto promoveu-se a análise.
Eis o quarteto, obedecida a pontuação gráfica utilizada pelo autor.

                                   De tudo, ao meu amor serei atento
                                   Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
                                   Que mesmo em face do maior encanto
                                   Dele se encante mais meu pensamento.
Pergunta-se: qual o primeiro termo da frase? Ora, esta frase obedece à lógica, apesar de aparentar não formar nenhum sentido. Comecemos, pleonasticamente, pelo começo: a partir de qual termo deve-se iniciar a leitura para se encontrar a ponta do fio da meada? Pronto, comecemos a aplicar as regras da sintaxe de colocação, de regência e de concordância. Tal como a leitura da frase latina, a primeira coisa que o leitor deve ter é  o cuidado de olhar para os verbos. É o primeiro passo. Daí tudo fica mais fácil porque palavra puxa palavra. No primeiro verso, temos SEREI, primeira pessoa do singular do verbo ser no futuro do presente. Começou a jogo: EU SEREI ATENTO AO MEU AMOR ANTES DE TUDO; EU SEREI ATENTO AO MEU AMOR COM TAL ZELO; EU SEREI ATENTO AO MEU AMOR SEMPRE; EU SEREI ATENTO AO MEU AMOR COM TAL INTENSIDADE... Consequências: a intensidade deste amor é de tal forma, que o poeta resvala num paradoxo em que pretende exprimir toda a sublimidade e sinceridade do seu amor. Vejamos: QUE MEU PENSAMENTO SE ENCANTE MAIS DO MEU AMOR MESMO QUE EU ME ENCONTRE DIANTE UM GRANDE ENCANTO. Depois dessa operação aparentemente complexa, temos o texto assim compreendido na sua inteireza sintático-semântica: EU SEREI ATENTO AO MEU AMOR ANTES DE TUDO; SEREI ATENTO A ELE COM TAL ZELO, EU SEREI ATENTO A ELE SEMPRE; EU SEREI TÃO ATENTO A ELE, QUE MEU PENSAMENTO MAIS SE ENCANTARÁ DELE MESMO QUE EU ME ENCONTRE FACE A FACE COM UM  ENCANTO APARENTEMENTE MAIOR.
Sintaxe é arrumação, é colocar ordem no pensamento. É deixar de lado regrinhas e exceções e aventurar-se nesse quebra-cabeça do pensamento, coisa que não tem igual.

Exercício recomendado: leitura, leitura, leitura e leitura.
LATIM, PARA QUE TE QUERO?
                                                              Hugo Martins


Tenho um amigo que adorava empregar a expressão “prefiro não me imiscuir” quando desejava dizer não costumar emitir opinião sobre determinadas questões que não lhe diziam respeito O último verbo não é muito corriqueiro, prefere-se o emprego do verbo “intrometer-se”. A forma imiscuir-se, pelo latim, está muito presente no falar cotidiano. Quando alguém chega a uma lanchonete, olha o cardápio e pede que lhe sirvam um sanduiche misto, está usando o verbo latino, referido, com direito a dizer que a grafia “misto” estaria errada se se levar em conta a etimologia (origem) da palavra aspeada. Trocando em miúdos, derivam do verbo latino MISCEO, MISCES, ERE, MISCUI, MIXTUM (tradução, pela ordem: misturo, misturas, misturar, misturei, misturado): mistura, misto, miscelânea miscigenação, miscigenar... A palavra mais próxima de imiscuir, é a quarta forma latina MISCUI. Se se levar a forma MIXTUM, seria legítimo dizer-se que o individuo deveria ler nos cardápios sanduíche MIXTO e não misto. Ao fim e ao cabo, imiscuir-se ou não é uma decisão de misturar-se alguma coisa, até mesmo opiniões, pontos de vista e fofocas. Se você neles não se imiscui, está se posicionando: não misturo, não me misturo. Tudo lembra mistura, qualquer que seja ela.

Sentidos

por Francisco Hugo Barroso Martins Junior, segunda, 23 de Janeiro de 2012 às 16:05
  1. Todo símbolo e todo signo carregam em suas entranhas significações múltiplas. É a cultura em que são concebidos que determina os sentidos. A experiência, a vivência, a visão de mundo e todo cabedal que o homem traz em si como conhecimento prévio do mundo produzem os sentidos. Estes vêm à tona dependendo da maior ou menor extensão daquele conhecimento enciclopédico pertinente a todo homem.
  2. Nossa cultura toma como símbolo do magistério a coruja. Por que? Ora, a coruja, quando "olha" o mundo, fá-lo girando a cabeça em trezentos e sessenta graus. Além disso, enxerga o mundo com os grandes olhos bem abertos e parece não dormir. Assim, quer a cultura, por este símbolo, que o professor esteja sempre atento, a enxergar com nitidez indomirda o que vai pelo mundo para não cair na esparrela de levar a seus discípulos uma concepção falsa ou distorcida da realidade que os cerca.
  3. Convencionou-se que a Deusa da Justiça é Têmis, representada por uma mulher cujos olhos estão permanentemente vendados; na mão esquerda, soergue, à altural da cabeça, uma balança, cujos pratos estão em perfeito equilíbrio; na outra máo, porta uma espada com a ponta voltada para baixo. Lembro, por jocosidade, que certa feita, uma filha minha, em seus seis anos de idade, ao ver a estátua da Deusa, perguntou-me se se tratava de uma mulher brincando de "cabra cega"...
  4. A interpretação de minha filha tem sua validade, mas, para quem já adquiriu alguma experiência de mundo, cada elemento acima referido, pode desencavar significações outras, entre elas a que lembra ser aquela Deusa o símbolo do Direito como ciência que visa ao atingimento da melhor justiça a ser perseguida pelos operadores do Direito. Vamos às significações possíveis. A venda nos olhos remete à idèia de imparcialidade, em outras palavras, a aplicação do Direito deve ter em mira o dar a cada um o que é seu, sem levar em conta senão o direito pelo direito.. A balança lembra equidade, senso de justiça, tratamento das partes em pé de igualdade, alijando do litígio concessões de favores e privilégios a quem quer que seja ou por qualquer outro motivo estranho ao litígio . Por fim, a espada representa a possibilidade do uso da força ou, como preferem dizer os juristas, a recorrência à coercibilidade. Explicando: se os cônjuges se apartam, se separam, se divorciam, e da relação resultaram filhos menores, por exemplo, os pais podem pensionar os filhos independentemente da intervenção do Poder Judiciário por tratar -se de questão de ordem moral: a manutenção da prole. Aquela espada só intervem na questão se os obrigados não cumprirem o dever moral afeto a eles.
  5. Ontem perguntaram-se o que siginifica a expressão "brado retumbante". A pergunta surgiu talvez por causa de uma minissérie global que anda pelo ar. A expressão está na primeira estrofe do Hino Nacional brasileiro, de autoria de Joaquim Osório Duque Estrada. Tal estrofe , lida na ordem direta, assim fica: As margens plácidas do Ipiranga ouviram o BRADO RETUMBANTE DE UM POVO HERÓICO... Esse tal brado traduz o chamado Independência ou Morte esgoelado por D. Pedro I, às margens do regato Ipiranga, conforme propala a história oficial. Formando locução com POVO HERÓICO, significa que o grito de D. Pedro representou a vontade do povo (hilariante), que almejava a ruptura política do Brasil com Portugal... Coisa da História e das antigas aulas da disicplina moral e cívica ao tempo da Redentora de 1964. Não atino para o significado da expressão na minissérie global, pois não sou muito afeito a assistir a tais seriados... De todo o modo, aí está seu significado...
  6. Como dói e comove "aquela vontade do povo". De quatro em quatro anos, aqui na terra tupiniquim, ocorrem eleições em que matilhase matilhas de homens abnegados e sinceramente precoupados com o bem-estar do povo brasileiro, ecoa seu BRADO RETUMBANTE. Não há o gritinho. Não. Com gritos nada se resolve. Só D.Pedro... Os hoje voltados para o destino e melhoria de condições do povo não gritam... Ciciam discursos melífluos, de cujo teor se pode obter o néctar e a ambrosia dos deuses. Sorriem cavalarmente... Tomam, em plena rua e longe de seus gabinetes, cafezinho em companhia do povo...Soerguem criancinhas nos braços... E prometem algo que por si mesmo constitui sua obrigação. Mas que seus brados, naqueles moldes, comove, comovem...
  7. Assim são os símbolos e signos, linguagem pura a gosto de todos. Se a linguagem é, como alguém disse, "a morada do Ser", seus sentidos mais profundos estão em você, cidadão do mundo e servo da linguagem...
Voilà.

CONVERSA DE MESA DE BAR

por Francisco Hugo Barroso Martins Junior, quarta, 25 de Janeiro de 2012 às 11:36
  1. Tarde amarela de um domingo nem alegre nem melancólico. Sol pródigo, muito calor, e todos doidos para tomar uma bem geladinha. Éramos quatro em volta da mesa. Todos abertos a prestar homenagem a Dionísio, mas sem séquito de bacantes. O garçom, ao avistar o grupelho, foi logo trazendo uma garrafa de cerveja gelada, que ia derramando, fagueiro, no copo de cada um. O líquido descia pelas goelas ávidas como o néctar servido aos deuses do Olimpo. A ambrosia resumia-se a um pratarraz de arrumadinho, enfeitado por uma porção de tripa de porco torrada. Gostoso além da conta. Nada de coisa sofisticada. Isso fica para os espíritos mais exigentes, educados no refinamento das etiquetas... A indumentária também era própria para aquele ágape dominical, promovido sem nenhum motivo, a não ser para a celebração gratuita do existir. Estávamos todos à vontade: roupas não domingueiras, chinelas de arrasto e camisas de malha. A sofisticação dos bem nascidos ali não tinha entrada...
  2. Súbito, acordes melancólicos saíam do violão seresteiro, e as canções, sobretudo as líricas e as bem vazadas em português castiço, espalhavam-se no ar da cidade, que começava a receber a mortalha negra da noite, que encobria todos os mortais. Algumas músicas famosas e imortais vieram à baila: A DEUSA DA MINHA RUA, CHÃO DE ESTRELAS, ONTEM AO LUAR, SERTANEJA... O que daqui destoasse ia para a lata do lixo... Não é questão de preconceito, mas, antes de tudo, respeito à língua portuguesa e ao ouvido dos outros, cujos tímpanos não devm ser desviriginados impunemente... O fato é que as canções se iam sucedendo e não se percebia que a noite avançava em seus passos imperceptíveis´... Como em toda mesa de bar, em que se joga, prodigamente, conversa fora, partiu um questionamento. Nada sobre a economia do país ou o descaramento dos banqueiros; tampouco se discutia se Messi era melhor que Pelé... Não, meus amigos, a questão era Deus. Logo, logo, assumi posição silenciosa por achar tal assunto muito perigoso, pois até guerras provocou, sem contar os rios de sangue que já encharcaram tantos campos de guerrra em face das divergências humanas sobre aquela divindade.
  3. Tentei tirar o corrpo de banda e não emitir qualquer juízo de valor. O interlocutor, porém, não arredava o pé e queria porque queria que este pobre ignorante se manifestasse sobre o assunto. Em primeiro lugar, quis eu saber por que era tão importante se debater sobre o assunto e por que não deixar Deus em paz. Na realidade aacreditar ou não acreditar em Deus parece mais importante que sua própria imanência. Ora, a Igreja Católica teve papel fundamental em pintar um Deus castigador e vingativo, que pune todo aquele que não pautar seu comportamento por Sua Palavra. Quem ouviu isso de quem? Platão? Aristóteles? Santo Agostinho?: Santo Tomás de Aquino? Na realidade, nenhum desses pensadores ouviu aquilo, mas certamente pensaram sobre a importância do transcendental na vida do homem... Não vamos trazer nada disso à baila, é desnecessário. O que há mesmo é medo, é a incerteza dos nossos destinos, é o fator tradição cultural, impingindo em cada um de nós a necessidade de eleger um sustentáculo em face dos nossos anseios, incertezas e covardia.
  4. Se Deus é, como diz o jargão teológico, Suma Bondade, Onipototência, Onisciência, cairia Ele em contradição, caso de travestisse de juiz parcial, pois daquelas virtudes só pode imanar uma coisa: o perdão... Aí entra a história do conceito de pecado, oriunda do pensamento judaico-cristão. Quem peca mais? O sujeito que surruipia uma lata de leite para alimentar a prole faminta, ou o político pilantra que se banqueteia com as verbas públicas, retiradas da merenda escolar para contruir palacetes e empreender viagens de recreio com toda a família? Quem peca mais? O pequeno deliquente, vítima de uma sociedade perversa e egoista, ou o comerciante inescrupuloso, que não se envergonha de, por exemplo, vender mercadoria falseada no peso ou de negacear o troco ao cliente por julgar que dois centavos que em sua caixa ficam são coisa sem valor? Fica difícil compreender a ideia de pecado, pois os mesmos que a conceituam são, de regra, os mais legítimos pecadores. É só olhar para os modernos vendilhões do templo, dos que mercadejam a Palavra, os que, aproveitando datas e eventos, envidam todo esforço para praticar a simonia.
  5. A questão se foi estendendo. Já se haviam consumido vinte e duas garrafas de cerveja. Assunto de tal importância não ficava apropriado como tema para discussões inúteis. Deixemos a coisa para filósofos e teólogos. Aliás, discutir e pensar o fenômeno religioso sem um mínimo conhecimento da Filosofia é jogar ao vento conceitos tomados de empréstimo a padres, pastores, rabinos e vendedores de ilusões pela" máquina de fazer doido", que não regateiam discursos gritados para persuadir os incautos de que, dependendo da maior ou menor abertura da bolsa, mais próximo chegarão aos céus...
  6. Meninos, eram vinte e duas horas quando deixamos a mesa. Sóbrios, "mas puxando fogo", deixamos a questão de lado. Já existe uma gama muito grande de igrejinhas e grupelhos a vomitar toda espécie de verdades sobre o assunto Deus. Deixemos a eles a tarefa. Cada conceito, cada verdade, porém, custará uma parcela de sua fortuna,de regra, conquistada com esforço, perseverança, aplicação e trabalho. Pode ser que você encontre ali a salvação que está dentro de você mesmo.
  7. Salvação de que e de quem, mesmo?
Voilà

sábado, 29 de outubro de 2016

CARTA à AMIGA- XXVII
Hugo Martins
Karei, file... (tradução: alegra-me ter você como amiga)
Minha nobre, o ordenamento jurídico brasileiro enfeixa em seu bojo princípios e normas que rechaçam qualquer manifestação precoceituosa, estando aqueles assentados em largos juízos universais.
Há poucos dias, chegaram-me aos ouvidos notícias de que uma atriz televisiva teria manifestado comportamento preconceituoso em relação a nós, nordestinos. Alguém me pergunta que eu acho disso tudo. A princípio, pensei em dizer: "não acho nada". Para que tecer considerações acerca de situações inerentes à condição cultural de um povo, o brasileiro, que é, historicamente, preconceituoso até à raiz dos cabelos? Por que perder tampo com os néscios, espécie de cadáveres ambulantes, que se comprazem em vomitar tolices em esquinas, bares e outros cantos do mundo? Depois pensei: " homem, tome a coisa como mote e escreva um texto para se divertir com a tolice humana!" Meninos, pensei, é o que vou fazer, afinal, mesmo numa tarde quentíssima, em minha varanda, corre um ventinho fagueiro, e minha redinha de corda me acena: "venha, venha!" E aqui estou... Vamos ao ludismo com reflexão.
Primeiro dos males que imbecilizam o ser humano: a ignorância crassa. Ora todos produzimos a riqueza e, por consequência, por sua dinâmica, com trocas, escambos, compra e venda ou qualquer outra transação de cunho comercial, pagamos tributos, submetendo-nos ao que determina o Sistema Tributário Nacional. Portanto, ninguém sustenta ninguém, se se levar em conta as palavras da tal atriz. Segundo dos males que idiotizam o ser humano: a desinformação. Políticas públicas decorrem do princípio da solidariedade tributária por meio da qual se procede a uma distribuição de renda para alcancar a justiça social, objetivo bafejado pelos fundamentos, princípios e objetivos visados pelas constituições sustentadas nos pilares do Estado Democrático de Direito. A atrizinha desconhece, certamente, isto de que se fala. Não se trata só de matéria jurídica, mas de princípios cristãos desapartados da atitude farisaica dos pregadores domingueiros.
É bom trazer à baila outro pecadilho da senhora atriz de novelas televisivas: ela não conhece o Nordeste: a beleza geográfica, o estoicismo de seu povo, tampouco o pendor cultural tão epidérmico em nossa cultura, alimentada por escritores, historiadores, juristas, teatrólogos, antropólogos, afora humoristas, que se divertem em alegrar as almas e chicotear os tolos. Vou enumerar alguns que ela, provavelmente, desconhece: José de Alencar, Castro Alves, Clóvis Beviláqua, Raimundo Farias Brito, Tobias Barreto, Sílvio Romero, Aluísio Azevedo, Antônio Sales, Manuel Bandeira, Gilberto Freyre, Nelson Rodrigues, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Adonias Filho, Rachel de Queiroz, José Américo de Almeida, Francisco Anísio. É gente demais para a moçoila pretensiosa aprender a aprender com eles o que somos.
Antes de falar qualquer tolice sobre nós nordestinos, é bom lavar bem a boca, tomar um chá de "semancol" e dizer de si para si: "realmente sou meio burrinha para andar dizendo, frivolamente, o que não devo. Sou uma ignorante".
Por fim, abrir as oiças e ouvir, claramente, nosso grito em uníssono: "Respeita a poliça, fia de Maria."
Responda como os idiotas: "Jesus te ama".
E nós daqui de nossos altiplanos: "Aí dentu, cachorra!"
Pronto. Está dito. Curtição, riso.
"Ridendo castigant mores"!
CARTA à AMIGA - XXVI
Hugo Martins.
Minha cara,
Foi ela, sim. Foi ela que plantou na minha alma, então sáfara, a semente desencadeadora do amor às letras. Foi ela, foi ela sim, que repassou, pelo exemplo, o gosto por viajar nas asas da imaginação, pelo mundo feérico das letras, fuçando os mistérios, grandiosos ou mesquinhos do cosmo, tomada esta palavra em sua acepção primitiva como antônimo de caos conforme deixaram claro em sua mitologia os povos da Antiguidade Clássica, que plasmaram os sólidos alicerces da cultura ocidental. Talvez não tivesse ela a consciência epistemológica de sua influência sobre meu espírito. Havia, isso sim, uma acesa intuição de que a leitura é o instrumento mais eficaz para a formação do espírito de um homem e, por decorrência, de um povo. Que o digam franceses e alemães, senhores de rica literatura, de sólida formação filosófica e de visível vocação humanística em todos os níveis.
Não era ela portadora de títulos acadêmicos. Não frequentou universidades. Viveu um tempo em que o lugar de mulher era outro bem conhecido de nossa cultura patriarcalista. Ainda assim, por influência do pai, homem dado às ciências humanas, coisa herdada de sua condição de ex-seminarista, desenvolveu, por autodidatismo, forte pendor para a convivência com os livros.
Recebeu do Estado concessão para abrir em sua própria casa uma sala de aula, em que ensinava as primeiras letras e preparava alunos para o exame de admissão ao ginásio. Aposentou-se como professora de grupo escolar.
Sempre estava com um livro na mão. Ler, para ela, constituía-se num prazer que se via no brilho dos olhos, bem como numa espécie de nirvana em que mergulhava numa languidez prazerosa de quem vivenciava um sonho de que não desejava sair. Muitas vezes, menino de calças curtas de suspensório, acompanhei-a em seus périplos pelas casas de amigas na cidadezinha em que vivíamos, à procura de trocar livros ou tomar alguns de empréstimo. Foi nesse tempo que entrei em contato, pela primeira vez, com a palavra romance, sem imaginar que essa espécie literária iria fazer parte de minha vida futura.
Éramos muitos os filhos. Todos, sem exceção, desenvolveram o hábito da leitura, guardadas as devidas idiossincrasias.
Gozava eu, sem perder a essência de menino, a fama de, vez por outra, encostar-me num canto da casa ou refugiar-me nos lugares isolados do alpendre, sobraçando revistas em quadrinhos ou livros de Lobato a fim de neles mergulhar e fugir um pouco do mundo concreto para embrenhar-me em aventuras com índios ou cowboys, ou sentar-me no alpendre da casa de Dona Benta para participar de seus Serões, ouvir as Histórias de Tia Nastácia e, também, tomar parte nas aventuras de Pedrinho, Narizinho e da boneca Emília...
Foi ela, sim, que me viciou nessa droga que provoca lombra eterna. Foi ela, com certeza, minha admirável e inesquecível professora... Às vezes, quando deparava com uma palavra cujo significado desconhecia, ia a ela. Ela dizia: "leia a frase". Resolvido. Com o tempo, repassou-me o hábito de consultar dicionários. Sou viciado na consulta a eles.
Ora, quando me perguntam o nome de um professor que mora nas minhas lembranças, não posso ser injusto e declino o nome de alguns, mas coloco na cabeça da lista o nome de minha mãe. Razões? Já explicitadas...
Creio tenha tido ela muita influência na escolha profissional que fiz. Sou professor... Isso basta. E minha mãe sabia disso. Quando estava em dúvida entre Letras e Direito, fui a ela. Orientação: siga as determinações do seu coração. Deu certo e sou muito grato à minha professora de primeiras letras e de primeiros passos nas letras.
Isso o tempo não apaga...
De seu sempre admirador,
Hugo Martins

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

LEITURA E DESAFIO
Hugo Martins
Qualquer texto é passível de variadas leituras. Em outras palavras: nele há significações que vêm à tona de conformidade com as experiências do leitor, bem como as leituras de mundo levadas a efeito por aquele. No sintagma Pato Donald versus sobrinhos, é visível a chamada pedofilia: quem é o pai das crianças? Por que Donald é tio dos patinhos? Por que o namoro de Donald com Margarida não progride, se é que existe o relacionamento afetivo? Por outro lado, se se analisar o sintagma família Donald versus Tio Patinhas, aí se verá a relação trabalhista neoliberal, em que o primeiro representa a classe dominante, e o segundo, o proletariado. Ou, de acordo com a terminologia marxista: de um lado, o explorador; de outro, o explorado.
Ora, se alguém disser que Jesus Cristo é pedófilo, uma chusma de moralistas e hipócritas afins podem desancar o pretensioso e a ele aplicar toda sorte de adjetivos pejorativos e insultuosos. Ora, as palavras assumem colorações semânticas variadas no devir histórico. Literalmente, a palavra pedófilo, de étimo grego, reúne dois radicais: o primeiro significa criança, o mesmo que aparece na palavra pedagogo (o que conduzia a criança à escola); e o outro que significa amor, que aparece na palavra filosofia, filatelia e filarmônica, por exemplo. “Sinite parvulos venire ad me” Deixai que os meninos se cheguem a mim), frase com que o Cristo derrama toda sua ternura pelas crianças. Hoje, na sociedade perversa em que vivemos, a palavra pedófilo assumiu outra roupagem semântica e designa aquele que comete o crime, cuja definição encontra-se, em parte, no art. 214 do Código Penal. As palavras são iguais a camaleões. Dependendo do ambiente em que se acham, podem recorrer a mimetismos aparentemente inexplicáveis. Eis por que a leitura é atividade intelectual para lá de agradável, além de reveladora das nuances do real. O leitor há de enfrentar desafios...
CARRO PRA QUE TE QUERO?
                                                    Hugo Martins

Hoje me perguntaram por que não tenho um automóvel. Ajuntei: porque não sou burro, com todo o respeito que merece o quadrúpede. Eis o porquê da questão e da resposta. Claro que ter a propriedade de um automóvel não constitui por si mesmo um ato pouco inteligente. Direi com o burguês gentil-homem, que repete a frase cretina há dezenas de anos: “ter carro não é luxo, mas uma necessidade”. Grande tirada! Há tempos elegi o táxi como transporte ideal, seguro e barato. Não pago prestação de carro; não pago IPVA; não compro gasolina, não adquiro pneus nem bateria Enfim, não comprometo quase todo o meu pobre dinheirinho na manutenção de um automóvel. Não pago estacionamento; não alimento o temor de ser assaltado por estacionar o carro longe do lugar para onde me dirijo; não fico preso à desconfiança de ser assediado por marginais, que me tomem o veículo, acometam-me de humilhações e até mesmo atentem contra minha incolumidade e a própria vida. Por fim, possuir um automóvel constitui transtorno até mesmo para “enxugar” umas geladinhas a mais e voltar para casa dirigindo. Quer dizer: as multas fazem parte, também, das despesas certas e eventuais de um automóvel. Possuir carro é burramente casar-se de novo, é sustentar uma família sem filhos, sem parentes ou aderentes. Ela, por si só, é uma dor de cabeça que se tem para sempre. Pior é que, numa possível separação, não há partilha de bens, só acúmulo de gastos e prejuízos pagos por um só “cônjuge.”
Quem pode comprar um carro, sem que tal despesa não lhe comprometa orçamento nem lhe tire o sono  não sentirá dor de cabeça com isso. Só lhe sobram as outras dores. O lance é que comprar um carro se tornou uma coisa muito fácil, isto é, o sujeito pode pagá-lo em sessenta ou em até setenta e dois meses apenas. Legal: as financeiras, penhoradas, agradecem. Afinal, você não comprou o carro, alugou-o. É aqui que a burrice se manifesta, com direito a zurros, coices e outros sestros asininos. Francamente, quem adquire um automóvel naquelas condições se não é curto de inteligência por se submeter a essa enfieira de torturas, torna-se míope de inteligência por render-se à vaidade tola de pensar que possuir automóvel lhe dá alguma importância aos olhos dos outros. Afora a realidade jurídica de que o comprador só tem a posse do objeto e não a propriedade. Essa só se efetiva quando a coisa for paga em sua totalidade.
Gasto com o táxi: quase nenhum. Estabelecido o contrato, o motorista se obriga a deixar o passageiro ao local indicado, e o passageiro, a pagar a corrida contratada e assinalada no taxímetro. Terminada a faina, cada um pro seu lado, e estamos conversados.
Se eu soubesse pedalar, estaria hoje me locomovendo nesses “camelos” de cidade. Se o poder público permitisse, estaria montando uma burrinha ou uma eguinha “marchadeira”, indo pra lá e pra cá, sem nenhum medo de ser feliz. Pelo menos deixaria de alugar táxi...






Mera Opinião
                                                      Hugo Martins

Não é à toa que Pelé foi eleito, entre todas as modalidades esportivas, o Atleta do Século XX. O craque santista reunia todas as virtudes inimagináveis para atingir o apogeu a que chegou. Preparo físico invejável, nunca deixou de comparecer aos treinos, e dizem seus biógrafos que era o último a deixar a concentração. Driblador infernal, chutava com as duas pernas com a mesma eficiência. Exímio cabeceador. Quando dava a testada na bola, fazia de olho aberto. Dizia ele que era para escolher o canto onde jogar a pelota. Há quem diga que, quando conduzia a bola e vendo+a frente de um batalhão de marcadores, costumava fazer tabela nas pernas destes. Era leal, sem deixar de recorrer à chamada “catimba”, artimanhas a que recorrem os jogadores para induzir o juiz a tomar a se convencer de que dada jogada se deu assim e não assado. A propósito, lembra-me o jogo Brasil versus Uruguai na Copa de 1970. Um lateral da Celeste, que “caçava” o crioulo a toda hora, recorrendo a toda espécie de pontapés. Num dado momento, Pelé recebe, do lado esquerdo do campo, um passe rasteiro. Sai em perseguição à bola, olha de esguelha e vê o zagueiro em seu encalço com cara de poucos amigo. Vinha ele com o firme propósito de “baixar o pau” no craque-café. Pelé adiantou a bola, deu ima virada brusca e assestou o cotovelo na cara cínica do jogador uruguaio. Resultado: este saiu de nariz quebrado, e o árbitro marcou falta contra o selecionado do Uruguai. Ocorre que quando a porrada explodiu, Pelé, a um só tempo, jogou-se no chão como se tivesse sido maldosamente atingido pelo matreiro jogador, que não possuía a mesma habilidade do maior jogador de todos os tempos.

Quem nunca viu Pelé jogar, pode assistir ao filme “Pelé é Eterno” a fim de ver que “nunca na História deste País” houve, há ou haverá jogador igual. Somem Di Stefano, Puskas, Maradona, Messi e Neymar, que não surgirá daí um Pelé. No máximo. Um Tostão.
MAIS UMA NOITE. QUE NOITE!!!

                                                                                    Hugo Martins    

                        Os trovões ribombavam. O corisco riscava os céus. Relâmpagos pisca-piscavam como se gigantescos vaga-lumes nos espreitassem pelas persianas entrecerradas. Pensei nela. Que sentiria naquela noite soturna? Medo? Solidão? Resolvi verificar como ela estava. Pus os pés para fora da cama e, às apalpadelas, dirigi-me ao quarto contíguo em que ela se encontrava. Sentia por ela um amor especial, desses que não se explicam com palavras.  Era grande a vontade de levar a ela proteção e afeto. Não titubeei. Acheguei-me à cama estreita em que ela dormia.

                    Tinha que ser estratégica a aproximação. Não devia acordá-la. A coisa tinha que ser feita com jeito.  Olhei-a demoradamente. Estava deitada de bruços. Dormia com a cabeça recostada num travesseiro que ela envolvia num largo amplexo. Ressonava com a calma de quem está em paz com a vida. O dorso nu. Apenas uma calcinha debruada de rendas cobria-lhe a nudez ebúrnea. As pernas levemente afastadas. Aproximei-me. Toquei-lhe as costas mornas. Alisei aquele dorso de sílfide e notei, mesmo na penumbra do quarto, esboçar-se um leve ríctus nos lábios carnudos, como se estivesse a rir de tênue satisfação pelas carícias ternas que eu lhe fazia nas costas.

                   Era uma noite chuvosa. Tomei-a nos braços. Ela envolveu os braços finos e leitosos em torno do meu pescoço e aconchegou-se mais ainda. Senti-lhe o bafo quente no meu torso. Encaminhei-me para a larga cama. Os cabelos longos e finos desgrenhavam-se espalhados sobre a colcha. De repente, enrolou-se tal um feto. Tomei de um lençol e cobri-a para protegê-la da lufada de ar que vinha de um ventilador que oscilava e oscilava. Voltei ao leito em que se encontrava. Retirei os lençóis amarfanhados e substituí por outros. Afinal a noite ainda não findara. Havia muito ainda o que fazer. Voltei ao quarto da larga cama. Minha princesa ainda ressonava. Aproximei-me, retirei suas calcinhas úmidas. Antes de colocar outra calcinha enxuta, passei talco na região sacra. Em seguida, soergui-a e transportei-a para a cama refeita. Quando se sentiu confortável, puxou-me, deu-me um beijo e um abraço. Retribuí o carinho e voltei para minha cama, onde sua mãe dormia o sono dos justos. Naquela noite, minha filha de três aninhos mais uma vez fizera xixi na cama.




segunda-feira, 24 de outubro de 2016

SEM ASSUNTO
Hugo Martins
Hoje procurei por Selene. Só vi o céu limpo de estrelas, mas desenhado de pequenos e brancos frocos que me lembraram pedaços esgarçados de algodão. Procurei Selene mais uma vez. Desconfiei de que está escondida pelo grande edifíicio que ladeia o pequeno edifício em que moro. Com certeza. Como não posso afastar a porra do grande bloco de concreto, satisfaço-me com vislumbrar alguns reflexos do " astro dos namorados". Aqui me perguntei: por que Selene recebeu tal designação? Nem sei nem quero saber. Deve ela fazer parte, em algum tempo histórico, dos signos daqueles que estavam ou se fizeram de apaixonados para tecer discursos para tocar almas impressionáveis. Como nada consigo arrancar do quengo por absoluta e momentânea inanição intelectual, vou trazer à baila historieta em que se pode ver como tudo passa e se traveste, mesmo os discursos em que os apaixonados, iludidos por fugidias ilusões e débeis entusiasmos, deixam fluir lengalenga leviana, fruto de algumas miragens enganosas, que se lhe desenham na pobre alma. 
O "causo", nascido da boca do povo, bem atesta isso e põe às claras como a verdade nunca permanece no fundo do poço. Sempre vem à tona, inapelavelmente.
Conta-se que um casal, sentados os dois pombinhos bem juntinhos no banco de uma praça de interior, trocavam juras de amor eterno, coadjuvadas por beijos, abraços e lânguidos olhares,tingidos do mais puro e sincero amor existente na terra. Súbito, Selene surde exuberante por trás do pico de uma serra e, por um momento, derramou seus leitosos raios sobre aquele romeu e sua julieta. Por um só momento, pois uma nuvem gaiata encobriu, por esticados momentos, a luz pródiga daquela lua de luz tão viva. A namorada dengosa sussurra no ouvido do amado: " amor, por que a lua resolveu esconder-se por trás daquela nuvem?" O namorado pegou a deixa e respondeu: "meu amor, certamente está ela com ciúmes de você e se escondeu a fim de nos espreitar..." Claro que a jovenzinha deve ter experimentado prolongado orgasmo emotivo.
Tempos depois, à vista os mesmos personagens, na mesma hora, no mesmo banco, na mesma praça, na mesma cidade. Só um aspecto do cenário mudara: ele sentado numa ponta do comprido banco; ela, na outra ponta. De súbito, Selene e a nuvenzinha arteira surgem nas mesmas circunstâncias daqueles tempos idos. O diabo da mulher faz a mesma pergunta. A óbvia. Devia ter permanecido mergulhada no silêncio em que se encontrava. Foi falar e ouviu o que se previa. Sim, qual a pergunta? Para a manutenção da fidelidade aos fatos, vamos trancrever a tal pergunta e a não surpreendente resposta. "Marido, por que a lua tá se escondendo atrás daquela nuvem." Sensata, sincera e diretamente, o marido respondeu: "Tu não vês, tapada, que os ventos movem as nuvens... A lua não se esconde porra nenhuma atrás de nuvem alguma. Só sendo idiota para assim pensar..." A mulher limitou-se a esboçar um sorrisozinho desgracioso no rostinho enrugadinho e nada mais disse.
Caiu o pano. Fim de comédia. Histórias que o povo conta.
CARTA à AMIGA - XXV
Hugo Martins
Eis aí, minha cara, mais uma historieta não inventada, envolvendo e figura de um professor. Claro que carreguei alguma tinta de ficção no relato. Faço como os rapsodos que recontavam as narrativas de Homero, acrescentando um ponto ao conto. Sou humano, pois, pois... Leia o relato e, se quiser, acrescente a ele mais um ponto se, por acaso, desejar reescrevê-lo.
Grande e afetuoso abraço.
Kaire, filé !
Corriam os anos sessenta. Fortaleza não passava de uma capital provinciana, sem os ares que hoje ostenta. As ruas eram estreitas e pavimentadas com grandes pedras de seixo, pontudas e traiçoeiras. A vida corria sem a azáfama dos tempos modernos. Tudo se resolvia no centro da cidade. Nada de bairros independentes. Até mesmo para postar uma carta nos correios, havia-se de apanhar um dos velhos e maltratados ônibus e descer na Praça José de Alencar.
Tudo era longe. Diversão? Ir ao cinema. Ir ao Estádio Presidente Vargas. Ir à praia. Ir aos programas de auditório da Ceará Rádio Clube ou ou da Rádio Iracema, Aos adultos, facultava-se a ida aos clubes dançantes, o Maguary, o Massapeense, o Quixadaense, o clube dos Diários, o clube do Líbano. O Náutico e o Ideal não eram abertos à comunidade. E, muito engraçado, nem toda pessoa podia a eles se associar. Lembro, com marcada decepção, que o jogador Édson Arantes do Nascimento teve, por lá, seu ingresso impedido. Homens engraçados, não? Coisas da História, coisas da ignorância na sua acepção bem socrática. Pois bem, por essa época, só havia quatro escolas públicas, cujo ingresso dependia de grande concorrência: o Liceu do Ceará, o Colégio Municipal, Escola Normal Justiniano de Serpa e a Escola Industrial de Fortaleza. Havia o exame de admissão, a que se submetiam os concludentes do quinto ano primário. Vamos tratar aqui apenas do Liceu do Ceará, onde lecionava um alemão, que se dizia ser neurótico de guerra, coisa que não lhe tirava a competência no ensino da língua latina e da língua francesa. Era figura folclórica sem nenhum laivo de ridicularia. Era sério, responsável e estudioso. Impunha respeito a quem quer que com dele se aproximasse. Chamava-se Muller, e sobre ele corriam histórias, que se tornaram antológicas quando alguém queria pôr em evidência esquisitices ou traços de personalidade desse ou daquele professor.
Pois bem. Havia dois turnos de aulas: o da manhã, só para homens; o da tarde, só para mulheres. Muller lecionava num e noutro. O professor tinha por hábito descompor os alunos aplicando-lhes pesados "nomes" feios": baitola, veado, puta, rapariga, filho de égua... Não havia, por isso, ameaça de processo judicial nem a cobrança, da parte dos pais, pelos excessos do mestre. Os tempos eram outros... Os alunos pareciam compreender os destemperos do professor. O maior ato de amor do velho mestre aos seus alunos ficou evidenciado quando, num conflito corpo a corpo entre soldados do Corpo de Bombeiros e os alunos do Liceu, lá estava Muller a trocar socos, pontapés e safanões em clara adesão à defesa de seus pupilos. Bom lembrar que muitas histórias atribuídas a ele eram fruto da imaginação como se faz hoje com Seu Lunga do Juazeiro. Compreensível, pois, que se tenha carregado e, em muito, na tinta da inverdade na pintura daquele excelente professor. Não se pode negar, porém, que ele era dado a "dizer nome" contra os alunos mal-educados ou relapsos.
Certo dia, Muller recebeu o convite a se apresentar à madre superiora de um colégio de que era diretora, que ouvira falar da competência do professor, a qual interessava à reputação daquele colégio frequentado pelas moçoilas casadoras provindas da burguesia local.
Houve uma entrevista prévia. No gabinete grave, sentado, de pernas cruzadas, à frente da madre-diretora, Muller soltava seu verbo fácil, coadjuvado, aqui e ali, por gargalhadas discretas. De súbito, a freia fez uma observação pertinente: " Professor Muller, nossa escola se sente honrada a ter, daqui por diante, em seu quadro docente, um professor do seu porte. Homem culto, estudioso e resposável, sem precisar pôr em evidência sua reconhecida competência. Há, porém, um senão, que não deve servir de constrangimento para o senhor - continuou a irmã. Caro professor, alguns colegas seus dizem que o senhor é useiro e vezeiro em dizer palavrões contra os alunos e contra quem o desagrade. Isso é verdade, caro mestre?"
Muller, indignado, ergueu-se, levantou o dedo polegar,em pose de quem está proferindo um discurso, e emendou: " na verdade, ma soeur, essa cambada de filhos de puta não me conhece. É esse tipo de baitola falador que se compraz em denegrir a imagem de quem trabalha. Cornos safados, filhos de rapariga sem mãe. Eles que se fodam e me deixem estar em paz."
Alguma conclusão sobre o desfecho do contrato?
CARTA à AMIGA - XXIV
Kaire, filé.
Saudação em língua grega, adaptada ao abecedário de língua portuguesa, que significa, em tradução livre, "aproveito a oportunidade para declarar a alegria de ser seu amigo, bem como de privar de sua amizade".
Aí está a saudação plena de meandros semânticos. Não se compara à frieza cotidiana e mecânica dos "bons-dias". Tome-a como melhor lhe aprouver. Sem mais delongas, vamos ao que importa.
Na minha última epístola (palavra aparentemente pedante para designar carta ou missiva), comprometi-me a contar algumas histórias, tendo como protagonista o professor. Claro que o "dador de aulas" fica fora dos nossos propósitos. A primeira já foi. Espero que lhe tenha caído no gosto. Aí vai a segunda.
Já tive ocasião de retratar essa pessoa. Figura ela na galeria do "meu tipo inesquecível", matéria que li, em outros tempos, na revista Seleções. Todo mês saía um portrait, desenhando o perfil de alguém que marcou a existência de alguém, coisa que só o coração, as vivência e a memória explicam.
Era o tempo em que as normalistas tinham permissão de fazer funcionar o ensino estadual em sua própria casa. Eram elas que desasnavam as crianças e as preparavam para o exame de admissão ao ginásio.
A sua escolinha já agradava pelo odor. Era uma casa naturalmente cheirosa. O aroma era explicável, pois havia, no quintal que ladeava a sala em que estudávamos, muitas plantas florígeras, especialmente uma de flor branca, que meu analfabetismo botânico nunca soube classificar. Seu cheiro, porém, permanece nas lembranças olfativas. Não importa onde me encontre, qualquer odor parecido me transporta para a escola de dona Ângela, meu amor de professora, que nunca me saiu da lembrança.
Os cabelos já nevados eram arrepanhados numa espécie de cocó, penteado em que os cabelos ficam enrodilhados no alto da cabeça. Rosto magro, severo, boca bem desenhada, encimada pelo nariz quase aquilino, em cuja ponta um par de óculos, a cavaleiro, deixava ver uns olhos azuis, que emitiam a luz da bondade, da compreensão e da ternura. Na minha inocência de criança já sentia inexplicável amor filial por aquela senhora.
Á época, a palmatória ou férula, instrumento de madeira, cujo formato lembrava uma grande lupa, servia de "argumento" pedagógico para conter os arroubos comportamentais dos alunos... Nunca vi dona Ângela fazer uso dela. Quando muito, chamava ao birô dois alunos, sabatinava-os e, algumas vezes, talvez para instaurar a emulação, fazia o jogo em que ao "vencedor" era facultado aplicar uma palmatoada ou "bolo"no "vencido".
As aulas consitiam em ler (argumento), contar e cantar.
Era uma espécie de trivium, como se fazia no modelo escolar da Idade Média. Aqui, o aluno estudava Gramática, Dialética e Retórica, isto é, aprendia correção da linguagem, a arte de argumentar e, por fim, a de bem estruturar o discurso, salpicando-o de jogos verbais, tendo por fim o convencimento do auditório e a vitória sobre o opositor.
A nós, na nossa cultura pragmática, aquele trivium mais modesto era suficiente para atender aos anseios da política educacional. Até mesmo o cantar tinha sua função: instilar no espírito da garotada o patriotismo estéril dos hinos, agito frenético de bandeirolas e desfiles em datas festivas...
Dona Ângela, quero crer, não devia refletir sobre assunto tão complexo. Limitava-se a cumprir seu dever, coisa que, a nosso sentir, fazia com brilhantismo e acendrado amor por seus alunos.
É muito difícil proferir o tão batido "eu te amo". O tempo não me impede. As mutações por que todos passamos também não me servem de obstáculo. Nada me constrange. As experiências de vida acumuladas não me causam mossa. Enfim, ninguém ou qualquer coisa vai apagar em minha alma as recordações daquele meu tempo no qual dona Ângela habitou. Eu amo dona Ângela e por ela alimento imorredoura gratidão. Sempre no meu coração, como diz a letra da canção.
Eis aí, minha grande amiga, o retrato de alguém tão necessária ao mundo. Há tempos ela morreu. Direi: para o mundo, pois continua vivíssima em mim. Às vezes, desconfio de ter ela contribuído para a escolha profissional que fiz e tanto amo...
Grande abraço para você. Ainda tenho algumas histórias a contar. Não repassadas da ternura aqui esparramada nesta segunda, mas, certamente, com alguma marca de alegria, de chiste ou de decepção, coisa tão presente na vida de todos nós.
Vou conter as ideias; vou mobilizar os dedos. Fecho esta, declarando, ainda, ser seu criado e sempre amigo.
Hugo Martins

sábado, 22 de outubro de 2016

CARTA à AMIGA -XXIII
Hugo Martins
Prezadíssima,
Você me pede contar histórias envolvendo a figura do professor. Professor, para mim, é aquele que escolheu a profissão movido por uma força interior, mesmo sabendo dos percalços e dificuldades por que ia passar. Ser professor como "bico" é "galho", é ser "dador" de aula. Faço a observação porque as histórias que você me pede e, dentro em pouco, passarei a contar, têm por protagonistas o profissional "puro", que faz a coisa por amor, palavrinha proferida por alguns salpicada por boa carga de frivolidade e algum tempero de mentiras deslavadas. Vamos aos "causos."
Era latinista de escol. Responsável, rigoroso, ensinava "como quem reza, de alma genuflexa." Grande apreço pelas línguas clássicas, com especial atenção para a língua latina. Suas cãs já davam na vista. Não só elas, os bastos bigodes, também, já lhe emprestavam uma certa aura de respeitável vetustez.
Pois bem, um dia, sobraçando os livros, entrou em sala de aula e, antes de dar o bom dia à turma, ouviu um dos alunos dizer: " Lá vem o velho". O velho professor cumprimentou à turma, dirigiu-se à lousa e escreveu, em latim: "Hodie, mihi; cras, tibi." Voltou ao birô, sentou-se procedeu à chamada nominal e deu sua aula, cujo teor eram as palavras que exprimem circunstâncias de toda ordem. Aquilo que a gramática normativa chama advérbio. A circunstância temporal foi a mais explorada talvez por razões pedagógicas, ou por motivações filosóficas. Para isso, o mestre dirigiu-se ao quadro (naquele tempo, negro) e grifou "hodie" e "cras". E explicou: a primeira palavra significa hoje, que deveria ser grafada "hoie". Lembrem-se de que o alfabeto latino não possuía a letra "j". Esta foi criada no século XVI pelo gramático francês Pierre de la Ramé, que traduziram para o português Pedro Ramos. Passou a letrinha, desde então, a se chamar letra ramista. Observem que inscrição latina acima da cabeça do Cristo na cruz é INRI. O primeiro "I"diz respeito a Jesus, que se escreve Iesus, e o segundo diz respeito a judeus, que se grafa Iudeorum... Pois bem. Mas o sentido primitivo da palavra continua na língua portuguesa em, por exemplo, HODIERNO e seus derivados. Fácil, não? E instigante. Vamos à outra.
"Cras", em latim, significa "o dia seguinte". Quando se diz "dia crástino", está-se fazendo referência ao amanhã, ao dia que se segue ao hoje. O indivíduo que procrastina algum compromisso está a adiar, a enviar para o dia seguinte dado compromisso ou obrigação. É um procrastinador. Namore a palavra e você enxergará o "cras" na sua estrutura. Hodie e cras são dois polos que assinalam a corrida subjetiva do tempo. Nenhum é estático. São marcos não fixos das instâncias das mudanças.
Quando o professor terminou a explanação, um aluno ergueu a mão e pediu a tradução da frase. O mestre não se fez de rogado e escreveu: Hoje eu; amanhã, tu.
Simples, não. Pedagogia e filosofia andam de mãos dadas.
Aí está, minha amiga o que você pediu. Outras virão.
Grande abraço e queira-me bem.
De seu sempre criado.
Hugo Martins
SEM ASSUNTO - II
Hugo Martins
Acabo de encostar-me na minha baladeira de corda. Parece um fetiche, servindo-me de motivação a escrever alguma coisa. Acontece que, quando ergo a vista, lá está Selene. Embora parecendo maior, já começa a perder sua grandeza, encaminhando-se para outra de suas fases, confirmando o movimento e a mudança de que todas as coisas padecem. Nesse momento, minha amiga está envolta por fiapos de nuvens, embora ainda se possa vislumbrar sua presença. Vêm-me à mente as cenas de filmes de terror estrelados por Vicent Price ou pelo eterno conde Drácula, o ator Christofer Lee. Também, vêm-me à lembrança cenários em que a lua, como a se esgueirar, vislumbrada pela magrez de galhos secos de algum bosque solitário, criasse como que a deixa para que a figura do lobisomem surgisse e abrisse a gorja em pavorosos e alongados uivos, assustando os incautos.
Novamente olho o firmamento. Agora recamado de densas nuvens. Por trás delas, Selene brinca. Horas aparece, não mais esplendorosa; horas desaparece como a me chamar a atenção... Pronto, sumiu de novo. Tudo ilusão, tudo miragem, tudo movimento. Ainda assim, Selene sempre exerce fascínio nas pessoas. Não importa a fase em que se encontra. Ela será sempre a mesma. Só muda a roupagem. Em essência, Selene é igual a todas as coisas existentes: possui um Ser e um Não-Ser. Cabe a cada um de nós enxergar as duas facetas. O homem, por exemplo, é paciente, no sentido latino, de alguém ou algo que suporta alguma coisa, daquelas duas categorias metafísicas. Mas sua máxima essência é o Não-Ser, isto é, o Ser do homem é o Não-Ser. Vá falar isso para um religioso, e ele dirá que não concorda, a não ser que o raciocínio seja respeitante ao corpo. E dirá, ainda, que é incabível aquela informação quando se tratar do espírito.
Depende da perspectiva em que se coloca o sujeito em relação ao objeto, alguém dirá.
Alguém olha para o céu e diz que este é azul. Alguém intervém: e nos dias nublados? E nos dias chuvosos? Já se vê que a primeira afirmação pode ser falsa. Então o argumentador dirá que se refere aos dias de céu límpido. Parece também ser frágil essa assertiva, pois a ilusão de ótica poderá advir da sensação ou impressão de infinitude do firmamento, do universo. Quer dizer, o movimento que rege tudo o que existe não permite que se façam afirmações categóricas e absolutas acerca da natureza das coisas no tangente à sua essência.
Epa, lá se está Selene. Nada mais me interessa afirmar sobre como ela se encontra. Ela está no seu canto a influenciar o movimento das marés e a servir de motivo para a criação de versos, de mistérios ou a servir de elemento em cenários sombrios de filmes de terror ou a despertar desmedidas emoções em corações grávidos de incontrolável manifestação de sensibilidade como ocorreu com o compositor alemão Ludwig von Beethoven. Desejando fazer ver a uma cega o luar espalhado sobre o rio Reno, compôs Serenata ao Luar. Eternidade porque arte. Mas, também, padecente do fator mudança. Daí a existência dos chamados estilos de época no campo de todas as artes... Tudo muda, tudo passa, tudo é engolido pela voragem do tempo. "O resto é silêncio."
SEM ASSUNTO
Hugo Martins
Hoje procurei por Selene. Só vi o céu limpo de estrelas, mas desenhado de pequenos e brancos frocos que me lembraram pedaços esgarçados de algodão. Procurei Selene mais uma vez. Desconfiei de que está escondida pelo grande edifíicio que ladeia o pequeno edifício em que moro. Com certeza. Como não posso afastar a porra do grande bloco de concreto, satisfaço-me com vislumbrar alguns reflexos do " astro dos namorados". Aqui me perguntei: por que Selene recebeu tal designação? Nem sei nem quero saber. Deve ela fazer parte, em algum tempo histórico, dos signos daqueles que estavam ou se fizeram de apaixonados para tecer discursos para tocar almas impressionáveis. Como nada consigo arrancar do quengo por absoluta e momentânea inanição intelectual, vou trazer à baila historieta em que se pode ver como tudo passa e se traveste, mesmo os discursos em que os apaixonados, iludidos por fugidias ilusões e débeis entusiasmos, deixam fluir lengalenga leviana, fruto de algumas miragens enganosas, que se lhe desenham na pobre alma.
O "causo", nascido da boca do povo, bem atesta isso e põe às claras como a verdade nunca permanece no fundo do poço. Sempre vem à tona, inapelavelmente.
Conta-se que um casal, sentados os dois pombinhos bem juntinhos no banco de uma praça de interior, trocavam juras de amor eterno, coadjuvadas por beijos, abraços e lânguidos olhares,tingidos do mais puro e sincero amor existente na terra. Súbito, Selene surde exuberante por trás do pico de uma serra e, por um momento, derramou seus leitosos raios sobre aquele romeu e sua julieta. Por um só momento, pois uma nuvem gaiata encobriu, por esticados momentos, a luz pródiga daquela lua de luz tão viva. A namorada dengosa sussurra no ouvido do amado: " amor, por que a lua resolveu esconder-se por trás daquela nuvem?" O namorado pegou a deixa e respondeu: "meu amor, certamente está ela com ciúmes de você e se escondeu a fim de nos espreitar..." Claro que a jovenzinha deve ter experimentado prolongado orgasmo emotivo.
Tempos depois, à vista os mesmos personagens, na mesma hora, no mesmo banco, na mesma praça, na mesma cidade. Só um aspecto do cenário mudara: ele sentado numa ponta do comprido banco; ela, na outra ponta. De súbito, Selene e a nuvenzinha arteira surgem nas mesmas circunstâncias daqueles tempos idos. O diabo da mulher faz a mesma pergunta. A óbvia. Devia ter permanecido mergulhada no silêncio em que se encontrava. Foi falar e ouviu o que se previa. Sim, qual a pergunta? Para a manutenção da fidelidade aos fatos, vamos trancrever a tal pergunta e a não surpreendente resposta. "Marido, por que a lua tá se escondendo atrás daquela nuvem." Sensata, sincera e diretamente, o marido respondeu: "Tu não vês, tapada, que os ventos movem as nuvens... A lua não se esconde porra nenhuma atrás de nuvem alguma. Só sendo idiota para assim pensar..." A mulher limitou-se a esboçar um sorrisozinho desgracioso no rostinho enrugadinho e nada mais disse.
Caiu o pano. Fim de comédia. Histórias que o povo conta.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

SEM ASSUNTO
Hugo Martins
Hoje procurei por Selene. Só vi o céu limpo de estrelas, mas desenhado de pequenos e brancos frocos que me lembraram pedaços esgarçados de algodão. Procurei Selene mais uma vez. Desconfiei de que está escondida pelo grande edifíicio que ladeia o pequeno edifício em que moro. Com certeza. Como não posso afastar a porra do grande bloco de concreto, satisfaço-me com vislumbrar alguns reflexos do " astro dos namorados". Aqui me perguntei: por que Selene recebeu tal designação? Nem sei nem quero saber. Deve ela fazer parte, em algum tempo histórico, dos signos daqueles que estavam ou se fizeram de apaixonados para tecer discursos para tocar almas impressionáveis. Como nada consigo arrancar do quengo por absoluta e momentânea inanição intelectual, vou trazer à baila historieta em que se pode ver como tudo passa e se traveste, mesmo os discursos em que os apaixonados, iludidos por fugidias ilusões e débeis entusiasmos, deixam fluir lengalenga leviana, fruto de algumas miragens enganosas, que se lhe desenham na pobre alma.
O "causo", nascido da boca do povo, bem atesta isso e põe às claras como a verdade nunca permanece no fundo do poço. Sempre vem à tona, inapelavelmente.
Conta-se que um casal, sentados os dois pombinhos bem juntinhos no banco de uma praça de interior, trocavam juras de amor eterno, coadjuvadas por beijos, abraços e lânguidos olhares,tingidos do mais puro e sincero amor existente na terra. Súbito, Selene surde exuberante por trás do pico de uma serra e, por um momento, derramou seus leitosos raios sobre aquele romeu e sua julieta. Por um só momento, pois uma nuvem gaiata encobriu, por esticados momentos, a luz pródiga daquela lua de luz tão viva. A namorada dengosa sussurra no ouvido do amado: " amor, por que a lua resolveu esconder-se por trás daquela nuvem?" O namorado pegou a deixa e respondeu: "meu amor, certamente está ela com ciúmes de você e se escondeu a fim de nos espreitar..." Claro que a jovenzinha deve ter experimentado prolongado orgasmo emotivo.
Tempos depois, à vista os mesmos personagens, na mesma hora, no mesmo banco, na mesma praça, na mesma cidade. Só um aspecto do cenário mudara: ele sentado numa ponta do comprido banco; ela, na outra ponta. De súbito, Selene e a nuvenzinha arteira surgem nas mesmas circunstâncias daqueles tempos idos. O diabo da mulher faz a mesma pergunta. A óbvia. Devia ter permanecido mergulhada no silêncio em que se encontrava. Foi falar e ouviu o que se previa. Sim, qual a pergunta? Para a manutenção da fidelidade aos fatos, vamos trancrever a tal pergunta e a não surpreendente resposta. "Marido, por que a lua tá se escondendo atrás daquela nuvem." Sensata, sincera e diretamente, o marido respondeu: "Tu não vês, tapada, que os ventos movem as nuvens... A lua não se esconde porra nenhuma atrás de nuvem alguma. Só sendo idiota para assim pensar..." A mulher limitou-se a esboçar um sorrisozinho desgracioso no rostinho enrugadinho e nada mais disse.
Caiu o pano. Fim de comédia. Histórias que o povo conta.
SEM ASSUNTO - II
Hugo Martins
Acabo de encostar-me na minha baladeira de corda. Parece um fetiche, servindo-me de motivação a escrever alguma coisa. Acontece que, quando ergo a vista, lá está Selene. Embora parecendo maior, já começa a perder sua grandeza, encaminhando-se para outra de suas fases, confirmando o movimento e a mudança de que todas as coisas padecem. Nesse momento, minha amiga está envolta por fiapos de nuvens, embora ainda se possa vislumbrar sua presença. Vêm-me à mente as cenas de filmes de terror estrelados por Vicent Price ou pelo eterno conde Drácula, o ator Christofer Lee. Também, vêm-me à lembrança cenários em que a lua, como a se esgueirar, vislumbrada pela magrez de galhos secos de algum bosque solitário, criasse como que a deixa para que a figura do lobisomem surgisse e abrisse a gorja em pavorosos e alongados uivos, assustando os incautos.
Novamente olho o firmamento. Agora recamado de densas nuvens. Por trás delas, Selene brinca. Horas aparece, não mais esplendorosa; horas desaparece como a me chamar a atenção... Pronto, sumiu de novo. Tudo ilusão, tudo miragem, tudo movimento. Ainda assim, Selene sempre exerce fascínio nas pessoas. Não importa a fase em que se encontra. Ela será sempre a mesma. Só muda a roupagem. Em essência, Selene é igual a todas as coisas existentes: possui um Ser e um Não-Ser. Cabe a cada um de nós enxergar as duas facetas. O homem, por exemplo, é paciente, no sentido latino, de alguém ou algo que suporta alguma coisa, daquelas duas categorias metafísicas. Mas sua máxima essência é o Não-Ser, isto é, o Ser do homem é o Não-Ser. Vá falar isso para um religioso, e ele dirá que não concorda, a não ser que o raciocínio seja respeitante ao corpo. E dirá, ainda, que é incabível aquela informação quando se tratar do espírito.
Depende da perspectiva em que se coloca o sujeito em relação ao objeto, alguém dirá.
Alguém olha para o céu e diz que este é azul. Alguém intervém: e nos dias nublados? E nos dias chuvosos? Já se vê que a primeira afirmação pode ser falsa. Então o argumentador dirá que se refere aos dias de céu límpido. Parece também ser frágil essa assertiva, pois a ilusão de ótica poderá advir da sensação ou impressão de infinitude do firmamento, do universo. Quer dizer, o movimento que rege tudo o que existe não permite que se façam afirmações categóricas e absolutas acerca da natureza das coisas no tangente à sua essência.
Epa, lá se está Selene. Nada mais me interessa afirmar sobre como ela se encontra. Ela está no seu canto a influenciar o movimento das marés e a servir de motivo para a criação de versos, de mistérios ou a servir de elemento em cenários sombrios de filmes de terror ou a despertar desmedidas emoções em corações grávidos de incontrolável manifestação de sensibilidade como ocorreu com o compositor alemão Ludwig von Beethoven. Desejando fazer ver a uma cega o luar espalhado sobre o rio Reno, compôs Serenata ao Luar. Eternidade porque arte. Mas, também, padecente do fator mudança. Daí a existência dos chamados estilos de época no campo de todas as artes... Tudo muda, tudo passa, tudo é engolido pela voragem do tempo. "O resto é silêncio."

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

CARTA à AMIGA - XXII
Prezada,
Aqui, sob o ritmo da minha fianga de corda, olho o céu limpo de nuvens. Selene, solitária, olha-me, pisca-me o olho na sua redondez de bolacha Ceci. Não entendi o gesto, baixo a cabeça e continuo a dedilhar o teclado com o só dedo indicador. Volto a fitar o "astro dos namorados", que costumava, na poesia romântica, servir de cenário lúgubre para os derramamentos doentiamente chorosos dos rapazes da época, os quais se regozijavam em frequentar campos santos sombrios para invocar a morte. Toda descrição presente em qualquer página do ultrarromantismo teatral trazia, inapelavelmente, a lua, que derramava sobre a lousa da casa dos mortos sua luz hialina e prateada.
Ela não mais me diz nada, mesmo se eu compulsar alguma página de Musset, Soares de Passos, Lord Byron ou Álvares de Azevedo. Perdeu ela sua mística, seus mistérios e encantos. Foi desvirginada pelas naves espaciais e, quem sabe, por outros objetos voadores que se não identificam, a não ser pela ótica daqueles cuja curiosidade perde as estribeiras interrogativas e se emaranham em devaneios e suposições.
E daí? Daí eu entrei e me perdi no mundo da lua, ao ler em jornais que, aqui no Brasil, esse país do carnaval, conforme título de uma obra de Jorga Amado, aliás, livro de estréia do autor baiano, cometeram um homicídio jurídico contra o ordenamento em vigor. Feriram de morte, em doloroso dolo direto, o princípio constitucional da inocência presumida, aquele que diz no aspeado: " ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória". O dispositivo transcrito está no inciso LVII do artigo quinto da Carta Política. Ora, todo e qualquer dos setenta e oito incisos do artigo aludido é considerado "cláusula pétrea". Pelo menos é o que diz o inciso IV do parágrafo terceiro do artigo 60 da Velha Prostituta. Nem mesmo uma proposta de emenda constitucional pode sugerir a abolição de uma das cláusulas pétreas. É brincadeira? É, com certeza.
O mais grave, porém, é que a iniciativa de reconsiderar o teor do princípio da inocência presumida partiu do Supremo Tribunal Federal, considerado o guardião-mor da Carta. É uma gracinha, pois, com isso, aquele tribunal solapa a legitimidade de outro poder, o Legislativo, para praticar deslizes técnicos e absurdidades que ferem, também, os mais elementares princípios da lógica aristotélica
Duas gafes dignas de figurar em comédias de ópera-bufa.
O grande delito, que contraria o espírito democrático da Constitução é o indivíduo poder ter a prisão decretada já em segunda instância... Ora, ora, ora. Nós brasileiros não sabemos ler...
Diz Ridendo Sic, meu alter ego, que me tem servido de guru, que" o Brasil não passa de um cabaré". Alguém concordou em gênero e número, não em grau, pois este não é elemento mórfico referente à concordância nominal. Concordou, repitamos, e arrematou: "só falta o saxofone."
Não sei. Nunca lidei com aquele tipo de putas.
Meu grande abraço. Namastê.
Francisco Hugo. Seu criado, amigo e admirador.

domingo, 16 de outubro de 2016

CARTA à AMIGA – XXI
                                           Hugo Martins
Minha cara, a pergunta que você me faz sobre o ato de escrever pode estar respondida no texto a seguir. Escrevi-o faz alguns meses e retrata minha concepção limpa e seca acerca do assunto, sem tirar nem pôr. Sempre fui de opinião que ler e escrever são atos que andam de mãos dadas. Pelo primeiro, viajamos, conhecemos novos mundos, novas pessoas, outros olhares, novas visões, além de experimentarmos novas e novíssimas aprendizagens. Se pela leitura desvendamos o mundo, pela escritura revelamos nossa maneira bem personalíssima de revelá-lo. Aliás, em texto escrito há algum tempo, defendo que a obediência às normas gráfica resulta do fotografar as palavras no ato de ler. Do mesmo modo, este ato tão simples, tão barato, tão cheio de encantos não passa de fotografias mentais, que, repassadas para o papel, revelam o que vai de nossas visões acerca de aspectos e retratos do mundo.
Ao terminar de ler o texto a seguir, não alimente nenhuma dúvida sobre o que penso do assunto. Tudo muda, tudo passa, tudo perece. Posso escrever outro texto sobre o ato de escrever diferente do que está à sua vista, mas a concepção ou o enfoque dado à coisa, penso eu, não mudará em nenhuma vírgula. Disso tenho certeza.
Devemos ler toda espécie de texto. Não importa se uma revista em quadrinhos ou um alentado tratado de filosofia; não importa se um almanaque de piadas ou episódios do Antigo ou do Novo Testamento. Mas deve-se ter mais olhos para o texto literário porque ele congrega todos os níveis de linguagem e traz em seu bojo todas as filosofias, todas as sociologias, todas as psicologias, todos os encantos e desencantos do mundo. Traz o homem sob todas as óticas. Afora o divertimento sem par que ele nos proporciona. Uau!
Aí vai a coisa, captada pela visão de meu alter ego, o guru que não me regateia novas lições.
Grande abraço e o desejo de que o texto lhe caia bem na alma sensível.
Francisco Hugo.


 O GURU
                                                       Hugo Martins

            Escrevi a Ridendo Sic, perguntando-lhe se, para produzir alguma coisa com aparência de texto, o sujeito precisa escorar-se em alguma “inspiração.” Hoje recebi carta sua. Aí vai o que ele pensa.
            “Bom dizer que, se se trata de criação literária, existem dois tipos de escritor: de um lado, o da inspiração; de outro, o da transpiração. No rol dos primeiros, inscreve-se o poeta pernambucano Manuel Bandeira. Em suas memórias, Itinerário de Pasárgada, confessa haver perdido muitos versos, pois, quando assediado pela inspiração, em situações insólitas, não dispunha de uma caneta ou lápis. Na mesma obra, invoca o fato de certa ocasião, estar lendo a Ciropédia (obra sobre a Pérsia) e ter a alma invadida por uma vontade incontrolável de pôr termo à vida, rabiscar o verso “Vou-me embora pra Pasárgada” e nada mais sair. Só depois de sete anos, experimentando a mesma sensação, o restante do poema saltou-lhe do espírito em borbotões. Ressalte-se que inspiração não deve ser vista como resultado de dores corriqueiras do cotidiano, é necessário ter e saber o que dizer. O sujeito deve, como diz Drummond, andar armado com palavras para não incidir no equívoco daquele que verseja “por dor de cotovelo, falta de dinheiro ou momentâneas tomadas com as forças líricas do mundo”. No segundo rol, encontra-se o também pernambucano João Cabral de Melo Neto, que deixava nas entrelinhas a regra “dê-me o tema que eu faço o poema”. É o poeta de gabinete, em muito semelhante àquele que se refere Bilac no soneto A um Poeta, que, para escrever, deve refugiar-se “ao aconchego do claustro” e encetar combate consigo mesmo na busca insana do dizer com precisão e propriedade.
            Tanto na poesia quanto na prosa, porém, o escritor costuma promover mondas ao texto. Cortar palavras, desentortar frases, acrescentar, reescrever passagens até que o espírito se sacie do ato criativo. Eça de Queirós dizia reescrever uma só página mais de cinco vezes. Para apurar o estilo, Balzac respondia, de punho próprio, a todas as cartas enviadas por seus leitores. É a síndrome do perfeccionismo comum aos bons escritores...
            No entanto, quando se trata da feitura de texto sem preocupações estéticas, não se faz necessário nenhum tipo de inspiração. Basta a reflexão, a disciplina intelectual, o ter o que dizer, o dispensar atenção à clareza, à precisão, à propriedade vocabular e, por último, enxotar a preguiça e lançar-se à obra com todo denodo.
            Engana-se quem diz ser tarefa difícil escrever um texto. Difícil mesmo é convencer-se de que o escrever supõe o ler. São atos que andam de mãos dadas. Com a leitura, o indivíduo vai se assenhoreando das acontecências da vida e se familiarizando com os torneios sintático-semânticos, sempre recorrendo ao dicionário para desvendar sentidos e grafias vocabulares. O escrever é comparável ao ato de quem pretende andar de bicicleta. Depois de vacilações, medos e quedas, o sujeito vai, aos poucos adquirindo a coragem de enfrentar a solidão da folha em branco e, com o tempo, passa a dominar um modo próprio, a ser dono de um estilo.
            Considero a leitura ou a redação de um texto atividades mais temerárias que resolver um problema de matemática. O visgo das palavras, as intenções que se escondem por trás delas, o destrinçar de um texto, o arrumar as palavras no ordenamento sintático a fim de que traduzam o que mais se aproxima do que se pretende dizer, é tarefa dolorosa e que requer muito esforço e amor à leitura. A propósito lembro um livro de Othon M. Garcia- Comunicação em Prosa Moderna-, com o subtítulo Aprenda a Escrever Aprendendo a Pensar. Livro de cabeceira para todo aquele que deseja aventurar-se no ato de escrever. Não se trata de manual inédito sobre o assunto. Obra séria a que recorre todo aquele que lida com a faina de redigir e extremamente útil a quem deseja garatujar folhas de papel com algum sentido e alguma correção.
            Aliás, considero desnecessário o “ensinamento” de professores de redação. Não se ensina ninguém a escrever por meio de fórmulas nem por intermédio de regrinhas de acentuação gráfica e do sistema ortográfico em vigor. Necessário: ler, pensar, escrever e reescrever.  O mais não passa de conversa fiada.
            Não me consta que os grandes escritores e redatores da língua tenham sido excelentes alunos da língua portuguesa. Foram, antes de tudo, empedernidos leitores.”
            Após a leitura da missiva, meditei e nada pude acrescentar algo de novo àquelas idéias... Lembrei, porém de duas frase lapidares; uma de Monteiro Lobato e outra de Castro Alves, as quais transcrevo, por ordem:
            “Um país se faz com homens e livros”
            “Bendito o que semeia livros, livros a mancheia, e manda o povo pensar.”
           

              

sábado, 15 de outubro de 2016

CARTA à AMIGA – XX
Hugo Martins
Minha cara,
Há tempos venho me empanturrando com mitologia clássica. Sobre ser assunto encantador, também propicia ao leitor largas chances de proceder a novas interpretações, sobretudo quando se trata de releituras. É por isso que alguém já afirmou, categoricamente, que nunca se deve perguntar a seu fulano o que está lendo, mas, sim, o que está relendo. Com efeito, a releitura parece ter o condão de lançar novas luzes aos fatos e seus corolários, deixando o releitor (não é neologismo, processo de formação possível no paradigma nominal) sempre desconfiado de que o texto está dizendo algo mais além do que está à sua superfície. Todo leitor é um Procusto, aquele sujeito que era dono de um leito em que deitava suas vítimas, que deviam se adequar ao comprimento da sinistra cama. O que passasse do limite, ele cortava; o que faltasse, era completado pelo estiramento de algum membro ou parte do corpo. Existe muita gente assim. Olha aí a mania da interpretação! Pois bem, o leitor adapta ao seu “leito” a interpretação que melhor lhe surdir da alma. E a releitura está sempre a mexer com o leitor, incitando-o a encontrar outras significações (ressignificações) e outros mistérios ocultos no bojo do texto. 
Veja você que as duas epopeias homéricas são um bom exemplo. Diz-se, por exemplo, que a Guerra de Tróia durou dez anos, mas Homero só lhe narra o último ano. Não seria tempo demais levar-se a efeito uma guerra daquelas proporções apenas por causa do rapto de uma mulher? Não haveria algo de mais grave, como, por exemplo, as guerras de pilhagem? Em muitos episódios, veem-se alguns “heróis” se vangloriando de haver se apoderado de bens de algum vencido. Até mesmo a retirada do grande Aquiles dos combates se deveu a uma “partilha” em que se incluíam as escravas Briseida e Criseida. Agamenon, tendo perdido a sua, que era protegida de um deus, tentou se apropriar da escrava que coube a Aquiles. Afora isso, há os estereótipos, como os arrebatamentos e coragem de Aquiles, as astúcias de Ulisses, a dignidade de Heitor e a ternura de Ândromaca ou, ainda, a fidelidade de Penélope, o que se tem mesmo são as ações humanas colocadas em segundo plano para dar lugar à interferência dos deuses. 
É sabido que, ao nascer, Aquiles, seguro pelos calcanhares, foi mergulhado por sua mãe nas águas do rio Estige para se tornar invulnerável. Ora, os tornozelos, envoltos pelas mãos da ninfa marinha Tétis, mãe do homem “dos pés ligeiros", deixou Aquiles vulnerável numa minúscula geografia do corpo. Pois bem, quando o solerte Páris, ciente disso, mirou sua flecha no calcanhar do herói, a seta alcançou seu alvo não pela destreza do raptor de Helena, mas porque o deus Apolo “conduziu” a coisa ao destino certo, ocasionando a morte de Aquiles conforme prevista pelo oráculo.
Terminada a guerra de Tróia, Ulisses gastou dez anos para chegar à ilha de Ítaca. Netuno o perseguia porque o astuto Ulisses havia perfurado o só olho do ciclope Polifemo, filho do deus marinho. Na ilha, uma centena de homens assediavam a mulher do herói. Para se livrar deles e recobrar a paz familiar ao lado da esposa e do filho Telêmaco, Ulisses, sem precisar recorrer à sua antológica esperteza, conseguiu tudo muito facilmente. Matou todos os pretendentes, afinal tinha a seu lado a deusa Minerva (na versão romana) ou Palas Atenas (na versão grega). É o mesmo que dizer: para ser herói basta estar sob a proteção de um deus.
O que tem de bom na mitologia clássica, a nosso aviso, é que lá os homens foram criados mesmo à semelhança dos deuses: hipócritas, dissimulados e mentirosos. Nada lembra o deus dos cristãos, que é perfeito, mas, paradoxalmente, criou o homem à sua imagem e semelhança. Em que versão: física, espiritual? Reflexão que a leitura da mitologia em nós provoca. Zeus era infiel, dissimulado e mentiroso. Não é o caso do deus hebraico. Ambos são pais arquetípicos. 
Muitos episódios da mitologia clássica, sobretudo coisas atinentes à cultura grega, estão estampados em algumas tragédias de Sófocles, Ésquilo e Eurípedes, sem falar nas comédias de Aristófanes. A meu dispor, eis algumas: Prometeu Acorrentado, Édipo Rei, Medéia, As Nuvens, Alceste Hipólito, Electra, Eumênides, Os Persas e outras mais... Todas hão de passar pelo meu crivo... A leitura de comentários, prefácios e apresentações em muito auxiliam o leitor. Nada contra... A literatura teatral é também de meu muito agrado. Grande parte da tragédia grega tem sua raiz nos poemas de Homero...
Depois escrevo a você falando de algumas delas e sobre a importância que guardam no estudo de psicanalistas e curiosos outros do que vai nos escaninhos das instâncias mentais.
Esta é a vigésima missiva, afora os bilhetinhos enviados a você. Já sinto alguns pruridos para retomar a matéria memorialística que vinha desenvolvendo... Vou esperar o momento certo. Enquanto isso, vou fuçando obras que tratam da mitologia diretamente, com narrativas, revivências e análises. Estou findando, hoje, ao cair da madrugada, As 100 Melhores Histórias da Mitologia. Todos os livros aqui citados ficam como espécie de sugestão para que você se inicie no assunto. Não se pode estudar a cultura e as letras clássicas sem lhe conhecer a mitologia.
Deixo-lhe um forte abraço e, como sempre, os votos sinceros de que esteja feliz à sua maneira, sem precisar da permissão de ninguém.
Seu criado,
Francisco Hugo.

sábado, 8 de outubro de 2016

CARTA à AMIGA-XIX
Hugo Martins
Minha boa amiga,
Hoje trarei para nosso pasto reflexivo, assunto dos mais controversos pela grande variedade de discussões que costuma suscitar. Com efeito, proceder a interpretações disso ou daquilo constitui tarefa espinhosa, sobremaneira porque nem sempre há concordância nas exegeses que, muitas vezes, não se assentam nos postulados da Hermenêutica, pois as regras desta advindas muito se afeiçoam a textos escritos e respeitantes à ciência do direito, às investigações no campo da História ou, por fim, à Teologia e ciências afins. Quando se trata, porém, do texto literário, do texto de cunho jornalístico ou de leituras de mundo, deve-se levar em conta as experiências prévias do intérprete, que equivalem àquilo que linguistas e semiólogos apodam de conhecimento enciclopédico ou conhecimento prévio. A partir dessa premissa, é que se tornou regra dizer-se que as significações e sentidos se encontram mais no sujeito que no objeto. Pois é... Ilustremos com exemplo dos mais convincentes, esparramado claramente na historieta que colhi da boca do povo e que passo a narrar. Vamos lá.
Diz-se que um rei, senhor de grande fortuna e pai de uma bela donzela, desejando casar esta, lançou um edital, convidando qualquer habitante do reino a submeter-se a prova que consistia em decifrar problema arquitetado pela mente brilhante do grande sábio da corte. Aquele que conseguisse decifrar o enigma não só teria a mão da donzela mas também a metade de tudo do reino. Quem não alcancasse a proeza iria para o cadafalso ou para a guilhotina. Dentre os candidatos, via-se inscrito um "doidinho", um aventureiro que "nada tinha a perder", conforme ele dizia ao pai quanto este tentou dissuadi-lo de propósito tão temerário.
Decorridos poucos dias do início das provas, muita gente já havia perdido a cabeça na lâmina pesada da
guilhotina ou o pescoço constringido pela cruel e irremediável laçada da forca. Até que chegou o dia do "doidim". Como foi o exame e como nosso amigo se saiu? Vamos nós...
Recebeu o "doidim" ordem de entrar numa sala. Empurrou ele a porta, entrou, encostou a porta e, quando virou-se, estava o sábio com um pão na mão direita levantada à altura da cabeça. Balançou-a em direção ao candidato na intenção de mostrá-lo. O "doidinho", na outra ponta da mesa, lançou mão de um pedaço de bolo, ergueu-o, balançou a mão, em tudo imitando o sábio. Este ergueu o dedo polegar para o examinando. Ato contínuo, o "doidim" ergueu a mão, colou o polegar ao dedo médio e balançou a mão em direção ao sábio, que, por sua vez, uniu os dedos polegar, médio e anular e fez o mesmo gesto, olhando gravemente para o "doidim". Nosso amigo, já irritado, estirou o dedo médio como um falo ereto, e com ele fez vários movimentos rotatório como se mexesse, às avessas, uma panela. Resultado: o "doidim" ganhou o certame. Temos agora duas cenas: uma do sábio conversando com o rei e explicando como o candidato decifrou o enigma; outra, em que o pai do rapaz ouve, atentamente, como o filho alcançou desvendar os problemas lançados pelo sábio do reino.
Dizia o sábio: majestade, primeiro eu disse a ele que o pão alimenta o corpo e o espírito; ele redarguiu, dizendo que nem só de pão vive o homem. Em seguida, disse-lhe existir um só Deus; para me confundir, ele disse existirem dois deuses; no momento em que eu afirmei a existência de três deuses, ele, em argumentação irrefutável, aduziu existir apenas um Deus e que regia tudo o que ocorre no cosmo.
Dizia o "doidim": pai, quando eu entrei na sala, ele disse que tacava o um pão em mim. Respondi que se ele fizesse aquilo, eu dava-lhe uma chibatada com um pedaço de bolo que tava num prato sobre a mesa. Não satisfeito, ele ameaçou-me, dizendo que enfiava um dedo no meu fiofó. Eu disse que enfiava dois no dele. Quando ele disse que me enfiaria três no boga, aí gritei, dizendo que lhe metia o dedão e ainda rodava várias vezes.
E, desde então, o "doidim" e a princesa passaram a viver "felizes para sempre".
Conforme se deduz, a mesma situação fática pode permitir um sem número de interpretações.
Relendo Édipo-rei, uma das tragédias de Sófocles, Etéocles e Polinice condenam o pai incestuoso, enquanto Antígona, irmã dos dois, perdoa o pai por ver em seu (dele) drama a interferência de forças estranhas, provindas da fatalidade, do destino. Para Freud, o episódio nada mais é que uma dentre as muitas pulsões a que se refere.
Eis aí. Tudo na vida é passível de ser interpretado. Bastam as situações, os signos, os símbolos e toda carga de significações que possibilitam. Afora os intérpretes com suas experiências de mundo.
Que os pudicos não interpretem na linguagem chula da historieta algum laivo de vulgaridade. Trata-se de propriedade do uso da linguagem.
A você, minhas homenagens.
Grande abraço.
Hugo Martins