BILHETINHO à AMIGA
Hugo Martins
Minha dileta amiga,
Continuo enfronhado na leitura de quatro textos vazados em língua grega.
Passei quase o dia todo neles mergulhado, afinal, amanhã, faremos uma pequena
avaliação, cujo conteúdo se volta para a leitura e vocabulário, a estrutura
sintática a frase, aliás, muito parecida com a do latim, além da conjugação do
verbo no presente do chamado modo indicativo. Agora mesmo, dei um tempo para
escrever a você. Mais uma vez “nihil novi sub sole” (nada de novo sob o sol).
Não sei se pela pressa ou pela azáfama intelectual de que venho sendo tomado,
não estou parindo nada de inédito, eis o porquê da frase aspeada acima,
retirada do livro O Eclesiastes, atribuído a Salomão. Realmente nada de novo,
nada de especial na vida. Os dias são iguais, as noites também; os homens são
iguais; os tempos são os mesmos. O mesmo é o eterno movimento de tudo; o tempo
nos espreita e desenha em nossos rosto e alma suas tétricas tatuagens como a
sugerir o fim de alguma coisa. Tudo tem seu fim, não se pode fugir à evidência.
O livro em que se lê aquela frasezinha cruel, traz outra mais lancinante
ainda Vanitas vanitatum et omnia vanitas (Vaidade das vaidades e tudo é vaidade).
Faço essas digressões porque o texto que se segue acentua a importância de
o homem sempre correr em busca de respostas pelo estudo, pela reflexão para
que, ao fim de tudo, apenas sorria. Primeiro, por não poder dar de cara com o
conhecimento em sua versão absoluta (tudo é movimento, tudo muda); segundo,
porque “rir ainda é o melhor remédio”, sentençazinha simples, mas não
simplória, pois encerra alguma verdade da condição humana. E, por fim, porque
não temos grande importância, a não ser a ilusão. Ao fim e ao cabo, são sete
palmos de terra nos peitos e o mergulho no rio do esquecimento, tão bem
metaforizado pelos gregos no rio Aqueronte, em cujas margens o barqueiro
Caronte a todos espera. Lembrar que entre aquele povo ainda não existia a ideia
de Paraíso, só havia as regiões inferiores, os infernos, onde os mortos,
famosos ou não, passeavam com sua sombra.
Veja como são as coisas. Pretendi escrever a vol d´oiseau um mero
bilhetinho, que não deixa de ser um bilhetinho, mas que traz alguns resquícios
de reflexões cabíveis em textos mais pretensiosos. É o que importa. Sempre que
me sento ao computador, nem sempre trago o texto delineado no bestunto, ele vai
saindo, estendendo-se, tomando corpo, até o se fazer.
Taí, diria Joubert de Carvalho que, preparando-se para escrever uma
música para Carmen Miranda gravar, ouviu de alguém: “Joubert, a garota taí.” O compositor,
então, diz: “Tai, eu fiz tudo pra você gostar de mim/ meu amor, não faça
assim comigo não/ você tem, você tem que me dar seu coração...” E aí vai, e ai
foi o sucesso de um carnaval.
Vamos parar de fazer digressões. Vou enviar o texto a você, acompanhado
da reflexão que nele fazemos. Preciso voltar à minha faina...
Namastê.
Do seu sempre amigo e admirador,
Francisco Hugo
REFLEXÃO
Hugo Martins
Não creio que a frase " só sei que nada sei", atribuída ao
grego Sócrates, assuma o sentido que a maioria das pessoas a ela empresta. Ora,
a frase é contraditória, pois se faz uso, por duas vezes, do verbo
"saber" com transitividade direta, completado por "que nada
sei" e "sei nada" , significa que o emissor da frase conhece
alguma coisa. Assim, a leitura mais consentânea com a intenção do filósofo
evoca o episódio em que o Oráculo dizia que Sócrates era o homem mais sábio do mundo
porque afirmava que a maior virtude à disposição do homem é o conhecimento. No
entanto este é inalcançável. Assim, o homem, sendo amigo do conhecimento, está
sempre no seu encalço. Com isso, tem-se a compreensão da palavra filósofo como
aquele que ama a sabedoria (Pitágoras), isto é, está sempre estudando, sempre
pensando com o fito de compreender a complexidade do homem, do mundo e dos
deuses. O "(doctor, ris) latino corresponde ao " (Sófos" grego),
isto é, sábio. Sócrates não se dizia "sófos", mas "filósofo,
aquele que está sempre á procura da verdade.
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