CARRO
PRA QUE TE QUERO?
Hugo
Martins
Hoje me perguntaram por
que não tenho um automóvel. Ajuntei: porque não sou burro, com todo o respeito
que merece o quadrúpede. Eis o porquê da questão e da resposta. Claro que ter a
propriedade de um automóvel não constitui por si mesmo um ato pouco
inteligente. Direi com o burguês gentil-homem, que repete a frase cretina há
dezenas de anos: “ter carro não é luxo, mas uma necessidade”. Grande tirada! Há
tempos elegi o táxi como transporte ideal, seguro e barato. Não pago prestação
de carro; não pago IPVA; não compro gasolina, não adquiro pneus nem bateria
Enfim, não comprometo quase todo o meu pobre dinheirinho na manutenção de um
automóvel. Não pago estacionamento; não alimento o temor de ser assaltado por
estacionar o carro longe do lugar para onde me dirijo; não fico preso à
desconfiança de ser assediado por marginais, que me tomem o veículo, acometam-me
de humilhações e até mesmo atentem contra minha incolumidade e a própria vida.
Por fim, possuir um automóvel constitui transtorno até mesmo para “enxugar”
umas geladinhas a mais e voltar para casa dirigindo. Quer dizer: as multas
fazem parte, também, das despesas certas e eventuais de um automóvel. Possuir
carro é burramente casar-se de novo, é sustentar uma família sem filhos, sem
parentes ou aderentes. Ela, por si só, é uma dor de cabeça que se tem para
sempre. Pior é que, numa possível separação, não há partilha de bens, só
acúmulo de gastos e prejuízos pagos por um só “cônjuge.”
Quem pode comprar um
carro, sem que tal despesa não lhe comprometa orçamento nem lhe tire o sono não sentirá dor de cabeça com isso. Só lhe sobram
as outras dores. O lance é que comprar um carro se tornou uma coisa muito
fácil, isto é, o sujeito pode pagá-lo em sessenta ou em até setenta e dois
meses apenas. Legal: as financeiras, penhoradas, agradecem. Afinal, você não
comprou o carro, alugou-o. É aqui que a burrice se manifesta, com direito a
zurros, coices e outros sestros asininos. Francamente, quem adquire um
automóvel naquelas condições se não é curto de inteligência por se submeter a
essa enfieira de torturas, torna-se míope de inteligência por render-se à
vaidade tola de pensar que possuir automóvel lhe dá alguma importância aos
olhos dos outros. Afora a realidade jurídica de que o comprador só tem a posse
do objeto e não a propriedade. Essa só se efetiva quando a coisa for paga em
sua totalidade.
Gasto com o táxi: quase
nenhum. Estabelecido o contrato, o motorista se obriga a deixar o passageiro ao
local indicado, e o passageiro, a pagar a corrida contratada e assinalada no
taxímetro. Terminada a faina, cada um pro seu lado, e estamos conversados.
Se eu soubesse pedalar,
estaria hoje me locomovendo nesses “camelos” de cidade. Se o poder público
permitisse, estaria montando uma burrinha ou uma eguinha “marchadeira”, indo
pra lá e pra cá, sem nenhum medo de ser feliz. Pelo menos deixaria de alugar
táxi...
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