BILHETINHO à MINHA AMIGA
Hugo Martins
Minha
cara, que não é minha metade,
Como
estou sem nenhuma motivação intelectual para compor texto novo, visitei meus
arquivos e de lá transportei para esta folha alguns textículos que garatujei há
exatos doze meses. Trata-se de algumas reflexões acerca de eleições de qualquer
ordem, nas quais candidatos (tal palavrinha deriva do adjetivo latino “candidus-a-um,
que significa branco, belo formoso, brilhante...) disputam alguma coisa. É
mole? A elas acrescento outras reflexões e algumas anedotas, vindas todas,
repito, da boca do povo, que não deixam de ser, também, reflexões, e das mais
lídimas, pois retratam o espírito gaiato e prazenteiro desse povo, que, por
vezes, prefere olhar a vida com o riso dos pícaros à gravidade do solenes.
Tenho
andado muito ocupado nesses últimos dias a pôr leituras em dia e, confesso-lhe,
desenvolvendo um relacionamento sério, como se diz por essas paragens. Dei de
me aproximar, talvez por influência da cultura ática, de uma tal mitologia,
senhora de muitas falas, muitos enigmas e muitas histórias. A princípio, quando
entabulamos conversa franca, desconfio de que ela está mentindo para mim, logo
para mim, que detesto insinceridade. Depois, vejo que meu julgamento apressado
induz-me ao erro. Por trás das histórias que ela me conta, enxergo verdades tão
lídimas e severas quanto as advindas de textos filosóficos, em cuja reflexão se
enxerga o homem e seus dramas. Já gostava de dona mitologia, embora não
houvesse nenhuma intensidade nas minhas pretensões. Logo, logo, porém, descobri
que minha paixão por ela só tem aumentado minha alegria interior. Acho muita
graça, fico supinamente alegre e, o que é melhor, minhas reflexões, tendo por
subsídio as histórias que ela não se cansa de me narrar, só têm me fortalecido
a alma e a alegria de viver. Ela é realmente admirável. Não conte a ninguém
esses meus arroubos afetivos. Deixe que eles transcorram no mais absoluto
silêncio. Prefiro assim. Estou cansado de decepções por excesso de crença.
A
propósito, aqui me sentei para escrever a você um tímido bilhete com os
propósitos nele explicitados, e estou a dar asas à conversa fiada, correndo o
risco de empestar esse texto com o vírus da chatice. Sei que não cabe a você,
mas os idiotas de toda sorte detestam refletir, e qualquer textículo, por
diminuto que seja, causa-lhes aborrecimento e cansaço mental. Praza-os os céus,
que tirem as calças pela cabeça...
Aí
vão os textículos. Vou aspeá-los.
Grande
abraço.
“Aos eleitores do Brasil desejo agora, nesse
momento de reflexão, a leitura de um livrinho muito caro àqueles que gostam de
refletir, sobretudo quando o assunto é a natureza humana. Trata-se da obra de
autoria de George Orwell: REVOLUÇÃO DOS BICHOS. O livreto deveria fazer parte
dos chamados livros de cabeceira de todo político desavergonhado, de todo
eleitor que possa ser paciente de miopia intelectual e política, bem como
àqueles a quem se sapeca o rótulo de cientista político. A obrinha é uma fábula, uma gargalhada universal,
que lanha os costados dos "grandes" políticos, embora a alegoria
narrativa possa ser extensiva a todos os homens. Quando alguém me pede sugestão
de leitura que diverte, faz rir e leva à reflexão, vêm-me à mente essa grande
obra. Embora tenha eu usado três diminutivos relativamente ao livro de Orwell,
na verdade vai nisso uma manifestação de carinho e apreço, ao mesmo tempo em
que se procura veicular subliminar ironia, pois o livro se constitui numa
espécie da autoajuda, não como remédio que vende otimismo a conta-gotas, mas
como navalhada para despertar de longa hibernação cultural aqueles que não só dormem
o sono da alienação, da indiferença e da cretinice mas também vivem montados
nos lugares-comuns tão a gosto do discurso insípido de políticos de carreira”.
“Se alguém se interessar por fazer a leitura do
livro indicado, aqui vai outra sugestão. Do mesmo autor, bom ler a obra
1984(assim mesmo o título). Quer você saber como as ditaduras de qualquer lugar
e de qualquer tempo destroem o homem, sufocam o pensamento, aniquilam a
natureza humana e constroem discurso vazado em otimismo discutível, leia a obra
indicada. Aliás, a leitura de ambas as obras tem mais peso que qualquer outra
que discuta o homem, o mundo e a finalidade do poder. 1984 não levará o leitor
ao riso, mas o mergulhará em fundas reflexões acerca da natureza humana, da
ânsia pelo poder, da desenfreada corrida pela riqueza. Só não fala da morte, do
tempo que corrói corpo e alma. Tais reflexões avultam à alma logo que o leitor
feche a obra. Não basta fechá-la. Ela há de ser lida. Ambas.”
“A sabedoria popular, seja de modo delicado e
subliminar, seja diretamente, dizendo na lata, sempre exprime, em suas
manifestações, aquilo que está no inconsciente coletivo. Transcrevo, aspeado,
pequeno trecho de um poeta popular que diz: " Eleição é apenas o dia
marcado/para o povo abestalhado/ escolher a marca da vaselina/com que vai ser
enrabado". Pense nisso. ”
“A propósito, estou a reler um nordestino da
melhor qualidade. Esta é a sexta releitura do velho Graça (Graciliano Ramos).
No momento, releio Vidas Secas. À espera, São Bernardo. Além de precisa e
enxuta, a prosa do romancista alagoano transpira compreensão do drama dos
nordestinos durante a seca que assola o Nordeste, como também mergulha fundo na
psicologia de cada personagem seu. Que garboso escritor! A propósito, foi preso
pelo ditador de São Borjas porque escrevia livros. Não há nenhuma notícia de
algum processo judicial em que tenha sido dada ampla defesa ao escritor. Também
foi solto sem nenhum processo regular. O ditador continua na História como
ditador,
Graciliano... Bem, aí que fale a História e seus próprios livros. ”
Graciliano... Bem, aí que fale a História e seus próprios livros. ”
“Orgulhosa, a mãe foi assistir ao desfile de que participava o filho, que era recruta do Exército. Lá vem a tropa, todos eretos, barriga pra dentro, peito para fora, passos fortes e vigorosos, milimetricamente cadenciados Todos, sem exceção. Só o filho daquela mãe orgulhosa estava fora da cadência. A mãe olha para uma pessoa próxima e comenta: "Isso é que é, só meu filho marchando certo e essa cambada de irresponsáveis fora da cadência". Amor de mãe não se discute, aplaude-se.”
“Coisa mais linda menina de tranças! Seja ela
mulher feita; encontre-se na adolescência ou esteja curtindo o desabrochar da
mais tenra idade, a mulher de tranças fica, aos meus olhos, sempre mais bela.
Tão bela quanto a mulher grávida. Amo as duas. Aliás, quando menino, morando no
interior, curti uma paixonite platônica pelo diabo de uma meninota de tranças,
que trazia na ponta de de cada uma um lacinho azul... Era meu mito. Era um
prazer de voyeur vê-la pedalando na pracinha com as trancinhas esvoaçando.
Lembrança meio proustiana...”
É triste saber que mais de setenta por cento
das pessoas no Brasil não leram um só livro durante o ano de 2015. O feitiço do
mundo audiovisual instaura a preguiça mental e injeta doses cavalares de
alienação nas consciências de modo que, narcotizadas, passam a rejeitar
qualquer esforço intelectual. Uma tragédia dos tempos modernos. Daí os
escorregos na grafia; daí as incoerências e a falta de coesão na construção do
texto escrito; daí as opiniões estereotipadas e copiadas de outrem. Ah! se soubessem os encantos saídos da leitura;
se descobrissem a riqueza cultural que dela se extrai. Certamente não se
assemelhariam a zumbis descerebrados e dopados pela idiotia coletivizada,
veiculada pelos meios de comunicação de massa. Chamam a estes de formadores de
opinião. Prefiro vê-los como instrumentos desvirtuadores da vida real em nome
de propósitos nada nobres. Ainda ponho fé nas palavras de Lobato e Castro
Alves. Para o primeiro, um " país se faz com homens e livros"; para o
último, é "bendito o que semeia livros a mão cheia e manda o povo
pensar."
“O sujeito ajoelha-se. O padre exorta-o a contar os pecados. O sujeito
disse:" seu padre, confesso que faço sexo dez vezes por dia".
"Isso é pecado, seu vigário"? Disse o padre: " não, meu filho.
Pecado mesmo é mentir. ”
“A
menina sabia que o padre era metido a trocadilhista e a ele propôs a seguinte
situação, pedindo-lhe que fizesse um trocadilho. Frase da jovem: " comi um
pé-de-moleque, fiquei com dor na barriga." Frase do padre: comi um
pé-de-barriga, fiquei com dor no moleque."
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