quinta-feira, 6 de outubro de 2016

BILHETINHO à MINHA AMIGA
                                                     Hugo Martins

Minha cara, que não é minha metade,

Como estou sem nenhuma motivação intelectual para compor texto novo, visitei meus arquivos e de lá transportei para esta folha alguns textículos que garatujei há exatos doze meses. Trata-se de algumas reflexões acerca de eleições de qualquer ordem, nas quais candidatos (tal palavrinha deriva do adjetivo latino “candidus-a-um, que significa branco, belo formoso, brilhante...) disputam alguma coisa. É mole? A elas acrescento outras reflexões e algumas anedotas, vindas todas, repito, da boca do povo, que não deixam de ser, também, reflexões, e das mais lídimas, pois retratam o espírito gaiato e prazenteiro desse povo, que, por vezes, prefere olhar a vida com o riso dos pícaros à gravidade do solenes.
Tenho andado muito ocupado nesses últimos dias a pôr leituras em dia e, confesso-lhe, desenvolvendo um relacionamento sério, como se diz por essas paragens. Dei de me aproximar, talvez por influência da cultura ática, de uma tal mitologia, senhora de muitas falas, muitos enigmas e muitas histórias. A princípio, quando entabulamos conversa franca, desconfio de que ela está mentindo para mim, logo para mim, que detesto insinceridade. Depois, vejo que meu julgamento apressado induz-me ao erro. Por trás das histórias que ela me conta, enxergo verdades tão lídimas e severas quanto as advindas de textos filosóficos, em cuja reflexão se enxerga o homem e seus dramas. Já gostava de dona mitologia, embora não houvesse nenhuma intensidade nas minhas pretensões. Logo, logo, porém, descobri que minha paixão por ela só tem aumentado minha alegria interior. Acho muita graça, fico supinamente alegre e, o que é melhor, minhas reflexões, tendo por subsídio as histórias que ela não se cansa de me narrar, só têm me fortalecido a alma e a alegria de viver. Ela é realmente admirável. Não conte a ninguém esses meus arroubos afetivos. Deixe que eles transcorram no mais absoluto silêncio. Prefiro assim. Estou cansado de decepções por excesso de crença.
A propósito, aqui me sentei para escrever a você um tímido bilhete com os propósitos nele explicitados, e estou a dar asas à conversa fiada, correndo o risco de empestar esse texto com o vírus da chatice. Sei que não cabe a você, mas os idiotas de toda sorte detestam refletir, e qualquer textículo, por diminuto que seja, causa-lhes aborrecimento e cansaço mental. Praza-os os céus, que tirem as calças pela cabeça...
Aí vão os textículos. Vou aspeá-los.
Grande abraço.

“Aos eleitores do Brasil desejo agora, nesse momento de reflexão, a leitura de um livrinho muito caro àqueles que gostam de refletir, sobretudo quando o assunto é a natureza humana. Trata-se da obra de autoria de George Orwell: REVOLUÇÃO DOS BICHOS. O livreto deveria fazer parte dos chamados livros de cabeceira de todo político desavergonhado, de todo eleitor que possa ser paciente de miopia intelectual e política, bem como àqueles a quem se sapeca o rótulo de cientista político. A obrinha é uma fábula, uma gargalhada universal, que lanha os costados dos "grandes" políticos, embora a alegoria narrativa possa ser extensiva a todos os homens. Quando alguém me pede sugestão de leitura que diverte, faz rir e leva à reflexão, vêm-me à mente essa grande obra. Embora tenha eu usado três diminutivos relativamente ao livro de Orwell, na verdade vai nisso uma manifestação de carinho e apreço, ao mesmo tempo em que se procura veicular subliminar ironia, pois o livro se constitui numa espécie da autoajuda, não como remédio que vende otimismo a conta-gotas, mas como navalhada para despertar de longa hibernação cultural aqueles que não só dormem o sono da alienação, da indiferença e da cretinice mas também vivem montados nos lugares-comuns tão a gosto do discurso insípido de políticos de carreira”.

“Se alguém se interessar por fazer a leitura do livro indicado, aqui vai outra sugestão. Do mesmo autor, bom ler a obra 1984(assim mesmo o título). Quer você saber como as ditaduras de qualquer lugar e de qualquer tempo destroem o homem, sufocam o pensamento, aniquilam a natureza humana e constroem discurso vazado em otimismo discutível, leia a obra indicada. Aliás, a leitura de ambas as obras tem mais peso que qualquer outra que discuta o homem, o mundo e a finalidade do poder. 1984 não levará o leitor ao riso, mas o mergulhará em fundas reflexões acerca da natureza humana, da ânsia pelo poder, da desenfreada corrida pela riqueza. Só não fala da morte, do tempo que corrói corpo e alma. Tais reflexões avultam à alma logo que o leitor feche a obra. Não basta fechá-la. Ela há de ser lida. Ambas.”

“A sabedoria popular, seja de modo delicado e subliminar, seja diretamente, dizendo na lata, sempre exprime, em suas manifestações, aquilo que está no inconsciente coletivo. Transcrevo, aspeado, pequeno trecho de um poeta popular que diz: " Eleição é apenas o dia marcado/para o povo abestalhado/ escolher a marca da vaselina/com que vai ser enrabado". Pense nisso. ”

“A propósito, estou a reler um nordestino da melhor qualidade. Esta é a sexta releitura do velho Graça (Graciliano Ramos). No momento, releio Vidas Secas. À espera, São Bernardo. Além de precisa e enxuta, a prosa do romancista alagoano transpira compreensão do drama dos nordestinos durante a seca que assola o Nordeste, como também mergulha fundo na psicologia de cada personagem seu. Que garboso escritor! A propósito, foi preso pelo ditador de São Borjas porque escrevia livros. Não há nenhuma notícia de algum processo judicial em que tenha sido dada ampla defesa ao escritor. Também foi solto sem nenhum processo regular. O ditador continua na História como ditador, 
Graciliano... Bem, aí que fale a História e seus próprios livros. ”

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“Orgulhosa, a mãe foi assistir ao desfile de que participava o filho, que era recruta do Exército. Lá vem a tropa, todos eretos, barriga pra dentro, peito para fora, passos fortes e vigorosos, milimetricamente cadenciados Todos, sem exceção. Só o filho daquela mãe orgulhosa estava fora da cadência. A mãe olha para uma pessoa próxima e comenta: "Isso é que é, só meu filho marchando certo e essa cambada de irresponsáveis fora da cadência". Amor de mãe não se discute, aplaude-se.”


“Coisa mais linda menina de tranças! Seja ela mulher feita; encontre-se na adolescência ou esteja curtindo o desabrochar da mais tenra idade, a mulher de tranças fica, aos meus olhos, sempre mais bela. Tão bela quanto a mulher grávida. Amo as duas. Aliás, quando menino, morando no interior, curti uma paixonite platônica pelo diabo de uma meninota de tranças, que trazia na ponta de de cada uma um lacinho azul... Era meu mito. Era um prazer de voyeur vê-la pedalando na pracinha com as trancinhas esvoaçando. Lembrança meio proustiana...”

É triste saber que mais de setenta por cento das pessoas no Brasil não leram um só livro durante o ano de 2015. O feitiço do mundo audiovisual instaura a preguiça mental e injeta doses cavalares de alienação nas consciências de modo que, narcotizadas, passam a rejeitar qualquer esforço intelectual. Uma tragédia dos tempos modernos. Daí os escorregos na grafia; daí as incoerências e a falta de coesão na construção do texto escrito; daí as opiniões estereotipadas e copiadas de outrem. Ah! se soubessem os encantos saídos da leitura; se descobrissem a riqueza cultural que dela se extrai. Certamente não se assemelhariam a zumbis descerebrados e dopados pela idiotia coletivizada, veiculada pelos meios de comunicação de massa. Chamam a estes de formadores de opinião. Prefiro vê-los como instrumentos desvirtuadores da vida real em nome de propósitos nada nobres. Ainda ponho fé nas palavras de Lobato e Castro Alves. Para o primeiro, um " país se faz com homens e livros"; para o último, é "bendito o que semeia livros a mão cheia e manda o povo pensar."

“O sujeito ajoelha-se. O padre exorta-o a contar os pecados. O sujeito disse:" seu padre, confesso que faço sexo dez vezes por dia". "Isso é pecado, seu vigário"? Disse o padre: " não, meu filho. Pecado mesmo é mentir. ”

 “A menina sabia que o padre era metido a trocadilhista e a ele propôs a seguinte situação, pedindo-lhe que fizesse um trocadilho. Frase da jovem: " comi um pé-de-moleque, fiquei com dor na barriga." Frase do padre: comi um pé-de-barriga, fiquei com dor no moleque."
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