MANIA DE VIAJAR
Hugo Martins
Gosto de viajar. Aqui frente ao computador quando rabisco texto ou no enfrentamento de leituras leves ou pesadas, muito me apraz voltar “aos tempos de criança” como sugere a letra de Ataulfo Alves e Mário Logo. Ou, pela ótica dos doutos e letrados, ir “em busca do tempo perdido”, título duma obra em sete volumes, de autoria do francês Marcel Proust, escritor que passou boa parte da vida a cavoucar os tempos idos, aqueles de que o sujeito nunca se esquece. Minhas viagens, no veículo ato de escrever, são mais modestas e de pouco fôlego. Chego às instâncias da infância, visito um dado momento marcante para mim e, logo, trato de voltar. Algo como só “matar as saudades.”
Pois bem. Na semana passada por lá estive, visitando Maria Luísa do Totó, sentado na calçada com meus companheiros de folguedos, derramando a vista pelas serras que cercam a cidade, banhadas, umas e outra, pela prodigalidade de um luar, merecedor, também, de uma sonata de Ludwig van Beethoven. Ali me deixei ficar a ouvir a história sobre João e Maria, dos irmãos Grimm, cuja releitura foi feita pelo compositor Chico Buarque de Holanda, ungida de toda fantasia possível e banhada na orgia melódica do acordeão lamentoso de Sivuca.
Todos conhecem a historieta. O abandono das crianças na floresta; a casa feita de guloseimas; as reinações da bruxa em desejar “devorar” João; a sagacidade das crianças em se livrar das garras da velha; e, afinal, a volta para casa. Em nenhum momento, procedeu-se à análise do texto à luz da simbologia que escamoteia outros detalhes, que não boiam à superfície do texto. Não. Os fatos foram comentados levando em conta tão só a linearidade do texto, o enredo pelo enredo. Conforme dissemos, todo texto, sobretudo o de cunho literário, abre margens para outras interpretações menos ortodoxas. Daí o texto anterior, referente à história daquelas crianças, trazer no seu fecho o compromisso de uma volta. Aqui estamos. E vamos nós à segunda instância interpretativa, agora sob os auspícios da simbologia freudiana. Para isso, vamos trazer à baila alguns signos delatores (vôte) ou veiculadores de outros sentidos. E vamos nós. São eles: as pedrinhas que assinalam o caminho de volta; os nacos de pão que João vai soltando no caminho, quando, pela segunda vez, seu pai e a madrasta (termo depreciativo), pela segunda vez, abandonam as crianças na floresta; a casa com as paredes e janelas feitas de doces, chocolates e sorvetes; a ânsia das crianças no seu interesse de entrar na casa; a velha bruxa, a prisão na qual foi encerrado João (por que João e não Maria?); o afã da velha em devorar o menino depois que o dedo deste estivesse mais gordinho; os gritos da velha quando lançada na fogueira, e as crianças, replicando e atiçando o fogo: “azeite, senhora vó”...
Recorro ao método socrático da maiêutica (em grego é parteira), isto é, no lugar de demonstrar o que se esconde por trás de cada um dos signos alinhados, deixo que o leitor promova o parto interpretativo, namorando cada um dos signos e perguntando seu significado como fazem os leitores experimentados. O leitor perspicaz, diante do texto, não deve permanecer inerte, mas, em sintonia com o ensinamento dos pedagogos, tornar-se senhor do conhecimento.
Caso a proposta aqui colocada fosse feita em sala de aula, o professor, se leitor profícuo, certamente poderia recorrer à dinâmica “brain storm”, espécie de tempestade de ideias, provindas da fala do alunado, que, ao fim, sem dúvida, redundaria em alguma “interpretação”. Ou, ainda, o professor poderia lançar o jogo dos “porquês”, também método socrático, que o pensador grego chamou de ironia, que consiste em provocar o discípulo com repetidas indagações de modo a convencê-lo de que, no bom sentido, é um ignorante, isto é, nunca alcança respostas definitivas para dada questão. Privado de nossa interpretação, fica aí a sugestão... Bom proveito.
Leitura é diálogo, é enfrentamento, é descoberta.
Voilà.
quarta-feira, 31 de maio de 2017
terça-feira, 30 de maio de 2017
VOLTANDO À VACA FRIA
Hugo Martins
Dos muitos signos que lembram sensualidade no conto Chapeuzinho Vermelho, deixei de ressaltar alguns que estão à superfície do texto: a cor do chapéu da meninota, bem como um trecho da música que a pequerrucha canta quando se dirige para a casa da vovó. À criança, que ouve ou lê o texto, interessa apenas o contexto superficial da narrativa, onde não enxerga senão a linearidade da história sem outras implicações interpretativas. Basta a ela só o feérico, apenas a magicidade do relato. Quanto ao leitor mais experimentado, as historietas infantis (contos de fadas e similares) abrem largo leque de ali se desencavarem outras significações mais esconsas e profundas pelo só fato de ser esse leitor adulto mais dotado do conhecimento de outros contextos e conhecimentos enciclopédicos, que nada mais são que aquilo que se convencionou chamar, em leituras de mundo, conhecimentos prévios.
Pois bem. A propósito, a cor vermelha do chapéu sugere a menarca ou primeira menstruação, momento em que a menina se torna mulher e, por isso, deve guardar cuidado com a floresta (o mundo) e o lobo (o homem). Lobo mau e homem que faz "mal"... Tirem-se daí as conclusões... A propósito do trecho da música, a menininha diz que deve chegar à casa da vovó "ao sol poente". Sol poente é o que "cai". Lembrar que o lobo, naquele momento já tinha "devorado" a vovó e algo nele tinha caído, apesar de as dimensões do nariz (no texto, fala-se em boca) ainda impressionar a pobre Chapeuzinho que espera algo "poente", isto é algo que se presta a pôr. Quem põe, põe alguma coisa em algo ou em alguém.
Cuidado com a miopia ou a cegueira intelectuais. Freud explica...
Hugo Martins
Dos muitos signos que lembram sensualidade no conto Chapeuzinho Vermelho, deixei de ressaltar alguns que estão à superfície do texto: a cor do chapéu da meninota, bem como um trecho da música que a pequerrucha canta quando se dirige para a casa da vovó. À criança, que ouve ou lê o texto, interessa apenas o contexto superficial da narrativa, onde não enxerga senão a linearidade da história sem outras implicações interpretativas. Basta a ela só o feérico, apenas a magicidade do relato. Quanto ao leitor mais experimentado, as historietas infantis (contos de fadas e similares) abrem largo leque de ali se desencavarem outras significações mais esconsas e profundas pelo só fato de ser esse leitor adulto mais dotado do conhecimento de outros contextos e conhecimentos enciclopédicos, que nada mais são que aquilo que se convencionou chamar, em leituras de mundo, conhecimentos prévios.
Pois bem. A propósito, a cor vermelha do chapéu sugere a menarca ou primeira menstruação, momento em que a menina se torna mulher e, por isso, deve guardar cuidado com a floresta (o mundo) e o lobo (o homem). Lobo mau e homem que faz "mal"... Tirem-se daí as conclusões... A propósito do trecho da música, a menininha diz que deve chegar à casa da vovó "ao sol poente". Sol poente é o que "cai". Lembrar que o lobo, naquele momento já tinha "devorado" a vovó e algo nele tinha caído, apesar de as dimensões do nariz (no texto, fala-se em boca) ainda impressionar a pobre Chapeuzinho que espera algo "poente", isto é algo que se presta a pôr. Quem põe, põe alguma coisa em algo ou em alguém.
Cuidado com a miopia ou a cegueira intelectuais. Freud explica...
LATIM, PRA QUE TE QUERO? Com incursão interpretativa...
Hugo Martins
A palavra texto, do ponto de vista pragmático, de uma compreensão ampla, pode ser vista por uma ótica linguística ou por uma perspectiva semiológica. Uma propaganda em que haja só imagens constitui um texto. Há textos construídos com imagens e palavras simultaneamente. O texto vazado, porém, só com palavras é texto de cunho linguístico.
Ora, qualquer texto, não importa se linguístico ou semiológico é um emaranhado de elementos que devem formar um sentido, isto é, deve assentar-se nos princípios da coesão e o da coerência.
Etimologicamente, texto significa tecido, palavra que guarda parentesco com têxtil, que significa: entrançado, entrelaçado... Aquele tapete de Penélope, na Odisséia, era tecido de dia e desentrelaçado à noite, com o fim de ludibriar os pretendentes da mulher de Ulisses...
O verbo latino para designar essa ideia de tecer, entrelaçar, entrançar é TEXO, TEXIS, TEXERE, TEXUI, TEXTUM... Pronto, eis aí...
A reflexão é, no mesmo diapasão, extensiva à palavra contexto. Muitas significações, apreendidas pela leitura de mundo, bem como a criação de sentidos, atividade intelectual personalíssima, tudo resulta desse entrelaçamento de nossas vivências e nossas idiossincrasias. Por isso, a interpretação disso ou daquilo não se confunde com a compreensão daquilo e disso. Por exemplo, a estrutura do conto Chapeuzinho Vermelho, de Charles Perrault, e o romance Lolita, de Vladmir Nabokov é a mesma, pois ambas se constituem numa narrativa, isto é, na contação de uma história com um quem, um onde, um quando, um como, um por que, e um fechamento ou epílogo.
O leitor enxerga conotações sensuais em Lolita, mas tende a não enxergá-las naquele conto infantil. Ora, toda a narrativa do conto, do início ao fim, ressuma sensualidade e sexualidade explícita. Por que a menininha não ouve os conselhos da mãe e toma o caminho da floresta, onde, bem sabe, está lá o lobo? Por que a menininha, quando canta a música diz "que o lobo mau andou aqui por perto" quando o mais lógico seria se afastar daquele sujeito "mau", que pega as criancinhas "pra fazer mingau? Que mingau é esse de que a velha senhora parece ter provado e gostado? Que simbolizaria aquele nariz comprido do lobo, quando, na cama da vovó, a quem já tinha comido, Chapeuzinho se admira de haver sofrido uma mudança no tamanho? E aquele caçador? Seria a moral então vigente, que via na sexualidade um jogo imoral e contrárrio aos "bons costumes" burgueses? E a vovó, embora "comida" pelo lobo mau, por que ainda se encontra viva depois que se abriu o ventre daquele bicho malvado? Que dizer de tudo isso? Possibilidades interpretativas. O leitor ingênuo certamente verá maldade em interpretações dessa natureza. Não se lhe deve tirar a razão: é intelectualmente míope ou, quem sabe, já se encontra em adiantado estado de cegueira.
Tudo é contexto. Todo texto é produto de um contexto. Todo texto é passível de variadas leituras. Depende do olhar.
Voltaremos...
Hugo Martins
A palavra texto, do ponto de vista pragmático, de uma compreensão ampla, pode ser vista por uma ótica linguística ou por uma perspectiva semiológica. Uma propaganda em que haja só imagens constitui um texto. Há textos construídos com imagens e palavras simultaneamente. O texto vazado, porém, só com palavras é texto de cunho linguístico.
Ora, qualquer texto, não importa se linguístico ou semiológico é um emaranhado de elementos que devem formar um sentido, isto é, deve assentar-se nos princípios da coesão e o da coerência.
Etimologicamente, texto significa tecido, palavra que guarda parentesco com têxtil, que significa: entrançado, entrelaçado... Aquele tapete de Penélope, na Odisséia, era tecido de dia e desentrelaçado à noite, com o fim de ludibriar os pretendentes da mulher de Ulisses...
O verbo latino para designar essa ideia de tecer, entrelaçar, entrançar é TEXO, TEXIS, TEXERE, TEXUI, TEXTUM... Pronto, eis aí...
A reflexão é, no mesmo diapasão, extensiva à palavra contexto. Muitas significações, apreendidas pela leitura de mundo, bem como a criação de sentidos, atividade intelectual personalíssima, tudo resulta desse entrelaçamento de nossas vivências e nossas idiossincrasias. Por isso, a interpretação disso ou daquilo não se confunde com a compreensão daquilo e disso. Por exemplo, a estrutura do conto Chapeuzinho Vermelho, de Charles Perrault, e o romance Lolita, de Vladmir Nabokov é a mesma, pois ambas se constituem numa narrativa, isto é, na contação de uma história com um quem, um onde, um quando, um como, um por que, e um fechamento ou epílogo.
O leitor enxerga conotações sensuais em Lolita, mas tende a não enxergá-las naquele conto infantil. Ora, toda a narrativa do conto, do início ao fim, ressuma sensualidade e sexualidade explícita. Por que a menininha não ouve os conselhos da mãe e toma o caminho da floresta, onde, bem sabe, está lá o lobo? Por que a menininha, quando canta a música diz "que o lobo mau andou aqui por perto" quando o mais lógico seria se afastar daquele sujeito "mau", que pega as criancinhas "pra fazer mingau? Que mingau é esse de que a velha senhora parece ter provado e gostado? Que simbolizaria aquele nariz comprido do lobo, quando, na cama da vovó, a quem já tinha comido, Chapeuzinho se admira de haver sofrido uma mudança no tamanho? E aquele caçador? Seria a moral então vigente, que via na sexualidade um jogo imoral e contrárrio aos "bons costumes" burgueses? E a vovó, embora "comida" pelo lobo mau, por que ainda se encontra viva depois que se abriu o ventre daquele bicho malvado? Que dizer de tudo isso? Possibilidades interpretativas. O leitor ingênuo certamente verá maldade em interpretações dessa natureza. Não se lhe deve tirar a razão: é intelectualmente míope ou, quem sabe, já se encontra em adiantado estado de cegueira.
Tudo é contexto. Todo texto é produto de um contexto. Todo texto é passível de variadas leituras. Depende do olhar.
Voltaremos...
A Sentença de Páris é texto que não está encartado nas epopeias de Homero, a Ilíada e a Odisseia. Como a guerra de Troia foi causada pelo rapto de Helena, aquela sentença aparece como algo que resulta de um sonho dos genitores de Páris, sonho em que este rapaz aparece, quando nasce, travestido numa grande tocha, que incendiaria Troia. Para fugir a isso, Páris foi exilado de Troia para que aquela profecia não se confirmasse.
Que vem a ser mesmo tal sentença?
Conta-se que no Olimpo promoveu-se uma lauta festa para a qual foram convidados todos os deuses... Menos a deusa da Discórdia, que enciumada, tomou de uma maçã (pomum, em latim), nela escreveu PULCHERRIMA, palavra latina proparoxítona (sem acento gráfico indicador de tonicidade), que significa "para a mais bela", e jogou a fruta no lugar em que se encontravam Zeus, Hera, Atena e Afrodite. As deusas exigiram do deus maior do Olimpo fizesse ele a escolha. Zeus, para fugir de tal complicação, enviou as três ao lugar em que se encontrava Páris, o qual deveria eleger a deusa a quem aplicaria aquele superlativo. Começa daí, então, um jogo de sedução, que em muito lembra as patifarias da corrupção. Hera, mulher de Zeus, prometeu grandes poderes ao filho de Príamo; Atena, por sua parte, repassaria àquele árbitro boa parcela da sabedoria de que era senhora; Afrodite disse a Páris que a ele daria a mais bela mulher do mundo, Helena, mulher de Menelau... Conclusão bem à vista. A partir daí, tem-se uma espécie de preâmbulo da Ilíada, que narra a guerra de Troia e "a ira de Aquiles"...
Lembremos, agora da expressão o "pomo da Discórdia", que servirá de referente para a intertextualidade do conto A Bela Adormecida, que tem tudo a ver com discórdias e, (por que não?), guerras, ciúmes e outros bichos que atanazam a vida do bicho homem. Intertextualidade é a ocorrência de diálogos e pontos de contato entre textos. Quem lê, por exemplo, o romance Olhai os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo, verá que o conteúdo dessa bela obra nada mais é que uma releitura do Sermão do Monte, no Evangelho de Mateus, a começar pela frase do Cristo, que serve de título ao romance do escritor gaúcho.
Em outra oportunidade, veremos que a Sentença de Páris tem tudo a ver com A Bela Adormecida. A isso os doutos chamam de continuidade discursiva, como a sugerir que não existe nada de novo sob o Sol conforme sugere outro livro bíblico, o Eclesiastes, espécie de tratado filosófico atribuído a Salomão...
Isso é que torna a literatura algo que a juventude não diria ser "mó paia", mas alguma coisa "massa"...
Depois voltaremos com o conto infantil aludido, procurando nele, além do proposto, outras significações sob os véus diáfanos da linguagem...
Que vem a ser mesmo tal sentença?
Conta-se que no Olimpo promoveu-se uma lauta festa para a qual foram convidados todos os deuses... Menos a deusa da Discórdia, que enciumada, tomou de uma maçã (pomum, em latim), nela escreveu PULCHERRIMA, palavra latina proparoxítona (sem acento gráfico indicador de tonicidade), que significa "para a mais bela", e jogou a fruta no lugar em que se encontravam Zeus, Hera, Atena e Afrodite. As deusas exigiram do deus maior do Olimpo fizesse ele a escolha. Zeus, para fugir de tal complicação, enviou as três ao lugar em que se encontrava Páris, o qual deveria eleger a deusa a quem aplicaria aquele superlativo. Começa daí, então, um jogo de sedução, que em muito lembra as patifarias da corrupção. Hera, mulher de Zeus, prometeu grandes poderes ao filho de Príamo; Atena, por sua parte, repassaria àquele árbitro boa parcela da sabedoria de que era senhora; Afrodite disse a Páris que a ele daria a mais bela mulher do mundo, Helena, mulher de Menelau... Conclusão bem à vista. A partir daí, tem-se uma espécie de preâmbulo da Ilíada, que narra a guerra de Troia e "a ira de Aquiles"...
Lembremos, agora da expressão o "pomo da Discórdia", que servirá de referente para a intertextualidade do conto A Bela Adormecida, que tem tudo a ver com discórdias e, (por que não?), guerras, ciúmes e outros bichos que atanazam a vida do bicho homem. Intertextualidade é a ocorrência de diálogos e pontos de contato entre textos. Quem lê, por exemplo, o romance Olhai os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo, verá que o conteúdo dessa bela obra nada mais é que uma releitura do Sermão do Monte, no Evangelho de Mateus, a começar pela frase do Cristo, que serve de título ao romance do escritor gaúcho.
Em outra oportunidade, veremos que a Sentença de Páris tem tudo a ver com A Bela Adormecida. A isso os doutos chamam de continuidade discursiva, como a sugerir que não existe nada de novo sob o Sol conforme sugere outro livro bíblico, o Eclesiastes, espécie de tratado filosófico atribuído a Salomão...
Isso é que torna a literatura algo que a juventude não diria ser "mó paia", mas alguma coisa "massa"...
Depois voltaremos com o conto infantil aludido, procurando nele, além do proposto, outras significações sob os véus diáfanos da linguagem...
TEXTOS EM DIÁLOGO
Hugo Martins
Estou aqui a lembrar dela. A lua já ia alta, o vento soprava frio do alto da serra. Estava eu sentado na ponta da calçada. Olhava seu rosto magro, seu olhar expressivo e suas mãos arabescando o espaço como a querer escrever com elas um poema que lhe queimava a alma. Nunca esqueci essa imagem, pois ela vinha acompanhada da magia da contação de histórias de Trancoso e contos de fada. Uma coisa é ler, hoje, um conto de fadas. Outra coisa era ouvir, ontem, o mesmo conto de fadas na voz quente e rouca da negra Maria Luísa do Totó. Era tão hábil nesse mister quanto à negra velha Totonha, referida por José Lins do Rego na introdução do romance Menino de Engenho. Era tão convincente e emocionante quanto Vicente Cego, que, nos dias de feira, tangendo as cordas da viola, ao tempo de minha infância, em Itapipoca, fulminava de emoção e chistes a alma dos que o ouviam...
Pois bem, naquele tempo nunca tinha ouvido falar nos irmãos Grimm, Jacob e Wilhelm, que também contavam historias calcadas nas chamadas narrativas populares. Maria Luísa, da mesma forma, trazia-as a nós, só que com o encanto só dela, coisa que nos inebriava e nos fazia crer existirem, tangentes, as instâncias dos sonhos.
Um dia, de muita lua, de muito silêncio cavo, a negra falou de um casal que desejava livrar-se dos filhos João e Maria. Eles eram um estorvo. A fome era muita, e os víveres eram insuficientes, o amor era pouco, a piedade nenhuma. Nossa alma gemeu e chorou. Os meninos foram abandonados em meio à floresta, desprovidos de tudo. Mesmo assim, enxergaram uma casa , construída de guloseimas e para lá se dirigiram. Lá vem uma velha bruxa que os prende, esperando engordá-los para depois comê-los. O dedinho de João diria do dia azado. A velha, vez por outra, ia à gaiola,em que encerrara o garoto, a ver se ele já chegara ao ponto de ser devorado. Tudo dependia da grossura do dedinho do menino... No dia em que o dedinho "estava no ponto", e a velha abrira a gaiola para assar o jovem na fogueira, Maria empurrou-a na fogueira, e a velha, quanto mais gritava "água, meus netinhos", estes jogavam ao fogo mais azeite e gritavam : azeite, senhora vó."
Em 1947, o compositor Sivuca tocava pelas ruas de Recife, uma melodia, que serviu para, depois de 29 anos, o compositor Chico Buarque de Holanda colocar nela letra ungida da mais pura poeticidade. Aqui temos todos os sonhos, tudo que existe de absurdidade e sonho. Aqui tudo era permitido. Andar nu, despido de qualquer censura externa, infensa a tudo, de modo que o importante era ser feliz. Tudo era faz de conta, tudo mergulhava numa atmosfera em que a presença do outro, "que fugiu do mundo sem me avisar", criava para alguém a interrogação: "sem você, o que a vida vai fazer de mim?" Lancinante indagação que servirá de mote para a produção de outro texto. Agora, à luz da subjetividade sensual que o conto permite ao leitor entrever nos meandros da aparente docilidade infantil, presente tanto nos irmãos Grimm quanto no inigualável Chico Buarque de Holanda.
Voltaremos...
Hugo Martins
Estou aqui a lembrar dela. A lua já ia alta, o vento soprava frio do alto da serra. Estava eu sentado na ponta da calçada. Olhava seu rosto magro, seu olhar expressivo e suas mãos arabescando o espaço como a querer escrever com elas um poema que lhe queimava a alma. Nunca esqueci essa imagem, pois ela vinha acompanhada da magia da contação de histórias de Trancoso e contos de fada. Uma coisa é ler, hoje, um conto de fadas. Outra coisa era ouvir, ontem, o mesmo conto de fadas na voz quente e rouca da negra Maria Luísa do Totó. Era tão hábil nesse mister quanto à negra velha Totonha, referida por José Lins do Rego na introdução do romance Menino de Engenho. Era tão convincente e emocionante quanto Vicente Cego, que, nos dias de feira, tangendo as cordas da viola, ao tempo de minha infância, em Itapipoca, fulminava de emoção e chistes a alma dos que o ouviam...
Pois bem, naquele tempo nunca tinha ouvido falar nos irmãos Grimm, Jacob e Wilhelm, que também contavam historias calcadas nas chamadas narrativas populares. Maria Luísa, da mesma forma, trazia-as a nós, só que com o encanto só dela, coisa que nos inebriava e nos fazia crer existirem, tangentes, as instâncias dos sonhos.
Um dia, de muita lua, de muito silêncio cavo, a negra falou de um casal que desejava livrar-se dos filhos João e Maria. Eles eram um estorvo. A fome era muita, e os víveres eram insuficientes, o amor era pouco, a piedade nenhuma. Nossa alma gemeu e chorou. Os meninos foram abandonados em meio à floresta, desprovidos de tudo. Mesmo assim, enxergaram uma casa , construída de guloseimas e para lá se dirigiram. Lá vem uma velha bruxa que os prende, esperando engordá-los para depois comê-los. O dedinho de João diria do dia azado. A velha, vez por outra, ia à gaiola,em que encerrara o garoto, a ver se ele já chegara ao ponto de ser devorado. Tudo dependia da grossura do dedinho do menino... No dia em que o dedinho "estava no ponto", e a velha abrira a gaiola para assar o jovem na fogueira, Maria empurrou-a na fogueira, e a velha, quanto mais gritava "água, meus netinhos", estes jogavam ao fogo mais azeite e gritavam : azeite, senhora vó."
Em 1947, o compositor Sivuca tocava pelas ruas de Recife, uma melodia, que serviu para, depois de 29 anos, o compositor Chico Buarque de Holanda colocar nela letra ungida da mais pura poeticidade. Aqui temos todos os sonhos, tudo que existe de absurdidade e sonho. Aqui tudo era permitido. Andar nu, despido de qualquer censura externa, infensa a tudo, de modo que o importante era ser feliz. Tudo era faz de conta, tudo mergulhava numa atmosfera em que a presença do outro, "que fugiu do mundo sem me avisar", criava para alguém a interrogação: "sem você, o que a vida vai fazer de mim?" Lancinante indagação que servirá de mote para a produção de outro texto. Agora, à luz da subjetividade sensual que o conto permite ao leitor entrever nos meandros da aparente docilidade infantil, presente tanto nos irmãos Grimm quanto no inigualável Chico Buarque de Holanda.
Voltaremos...
TEXTOS EM DIÁLOGO
Hugo Martins
Estou aqui a lembrar dela. A lua já ia alta, o vento soprava frio do alto da serra. Estava eu sentado na ponta da calçada. Olhava seu rosto magro, seu olhar expressivo e suas mãos arabescando o espaço como a querer escrever com elas um poema que lhe queimava a alma. Nunca esqueci essa imagem, pois ela vinha acompanhada da magia da contação de histórias de Trancoso e contos de fada. Uma coisa é ler, hoje, um conto de fadas. Outra coisa era ouvir, ontem, o mesmo conto de fadas na voz quente e rouca da negra Maria Luísa do Totó. Era tão hábil nesse mister quanto à negra velha Totonha, referida por José Lins do Rego na introdução do romance Menino de Engenho. Era tão convincente e emocionante quanto Vicente Cego, que, nos dias de feira, tangendo as cordas da viola, ao tempo de minha infância, em Itapipoca, fulminava de emoção e chistes a alma dos que o ouviam...
Pois bem, naquele tempo nunca tinha ouvido falar nos irmãos Grimm, Jacob e Wilhelm, que também contavam historias calcadas nas chamadas narrativas populares. Maria Luísa, da mesma forma, trazia-as a nós, só que com o encanto só dela, coisa que nos inebriava e nos fazia crer existirem, tangentes, as instâncias dos sonhos.
Um dia, de muita lua, de muito silêncio cavo, a negra falou de um casal que desejava livrar-se dos filhos João e Maria. Eles eram um estorvo. A fome era muita, e os víveres eram insuficientes, o amor era pouco, a piedade nenhuma. Nossa alma gemeu e chorou. Os meninos foram abandonados em meio à floresta, desprovidos de tudo. Mesmo assim, enxergaram uma casa , construída de guloseimas e para lá se dirigiram. Lá vem uma velha bruxa que os prende, esperando engordá-los para depois comê-los. O dedinho de João diria do dia azado. A velha, vez por outra, ia à gaiola,em que encerrara o garoto, a ver se ele já chegara ao ponto de ser devorado. Tudo dependia da grossura do dedinho do menino... No dia em que o dedinho "estava no ponto", e a velha abrira a gaiola para assar o jovem na fogueira, Maria empurrou-a na fogueira, e a velha, quanto mais gritava "água, meus netinhos", estes jogavam ao fogo mais azeite e gritavam : azeite, senhora vó."
Em 1947, o compositor Sivuca tocava pelas ruas de Recife, uma melodia, que serviu para, depois de 29 anos, o compositor Chico Buarque de Holanda colocar nela letra ungida da mais pura poeticidade. Aqui temos todos os sonhos, tudo que existe de absurdidade e sonho. Aqui tudo era permitido. Andar nu, despido de qualquer censura externa, infensa a tudo, de modo que o importante era ser feliz. Tudo era faz de conta, tudo mergulhava numa atmosfera em que a presença do outro, "que fugiu do mundo sem me avisar", criava para alguém a interrogação: "sem você, o que a vida vai fazer de mim?" Lancinante indagação que servirá de mote para a produção de outro texto. Agora, à luz da subjetividade sensual que o conto permite ao leitor entrever nos meandros da aparente docilidade infantil, presente tanto nos irmãos Grimm quanto no inigualável Chico Buarque de Holanda.
Voltaremos...
Hugo Martins
Estou aqui a lembrar dela. A lua já ia alta, o vento soprava frio do alto da serra. Estava eu sentado na ponta da calçada. Olhava seu rosto magro, seu olhar expressivo e suas mãos arabescando o espaço como a querer escrever com elas um poema que lhe queimava a alma. Nunca esqueci essa imagem, pois ela vinha acompanhada da magia da contação de histórias de Trancoso e contos de fada. Uma coisa é ler, hoje, um conto de fadas. Outra coisa era ouvir, ontem, o mesmo conto de fadas na voz quente e rouca da negra Maria Luísa do Totó. Era tão hábil nesse mister quanto à negra velha Totonha, referida por José Lins do Rego na introdução do romance Menino de Engenho. Era tão convincente e emocionante quanto Vicente Cego, que, nos dias de feira, tangendo as cordas da viola, ao tempo de minha infância, em Itapipoca, fulminava de emoção e chistes a alma dos que o ouviam...
Pois bem, naquele tempo nunca tinha ouvido falar nos irmãos Grimm, Jacob e Wilhelm, que também contavam historias calcadas nas chamadas narrativas populares. Maria Luísa, da mesma forma, trazia-as a nós, só que com o encanto só dela, coisa que nos inebriava e nos fazia crer existirem, tangentes, as instâncias dos sonhos.
Um dia, de muita lua, de muito silêncio cavo, a negra falou de um casal que desejava livrar-se dos filhos João e Maria. Eles eram um estorvo. A fome era muita, e os víveres eram insuficientes, o amor era pouco, a piedade nenhuma. Nossa alma gemeu e chorou. Os meninos foram abandonados em meio à floresta, desprovidos de tudo. Mesmo assim, enxergaram uma casa , construída de guloseimas e para lá se dirigiram. Lá vem uma velha bruxa que os prende, esperando engordá-los para depois comê-los. O dedinho de João diria do dia azado. A velha, vez por outra, ia à gaiola,em que encerrara o garoto, a ver se ele já chegara ao ponto de ser devorado. Tudo dependia da grossura do dedinho do menino... No dia em que o dedinho "estava no ponto", e a velha abrira a gaiola para assar o jovem na fogueira, Maria empurrou-a na fogueira, e a velha, quanto mais gritava "água, meus netinhos", estes jogavam ao fogo mais azeite e gritavam : azeite, senhora vó."
Em 1947, o compositor Sivuca tocava pelas ruas de Recife, uma melodia, que serviu para, depois de 29 anos, o compositor Chico Buarque de Holanda colocar nela letra ungida da mais pura poeticidade. Aqui temos todos os sonhos, tudo que existe de absurdidade e sonho. Aqui tudo era permitido. Andar nu, despido de qualquer censura externa, infensa a tudo, de modo que o importante era ser feliz. Tudo era faz de conta, tudo mergulhava numa atmosfera em que a presença do outro, "que fugiu do mundo sem me avisar", criava para alguém a interrogação: "sem você, o que a vida vai fazer de mim?" Lancinante indagação que servirá de mote para a produção de outro texto. Agora, à luz da subjetividade sensual que o conto permite ao leitor entrever nos meandros da aparente docilidade infantil, presente tanto nos irmãos Grimm quanto no inigualável Chico Buarque de Holanda.
Voltaremos...
REPLICANDO
Hugo Martins
Alguém me pede uma dica de como "aprender português". Achei graça. Adoro achar graça. Antes que ela fizesse outra pergunta óbvia: por que estás achando graça? -ajuntei: "todos nós sabemos "português", afinal fomos socializados nessa língua tão bela. A jovem, então, tentando me pegar numa arapuca, lançou-me outra pergunta: "por que, então, somos obrigados a estudar a língua portuguesa durante, praticamente, toda a vida escolar e, o que é pior, nem sempre aprendemos o suficiente"? "Hugo, essa nossa língua é muito difícil". Achei graça mais uma vez. A jovem ficou danada da vida e me jogou nas fuças outra questão, que, pensou ela -assim julguei - tratar-se de outra arapuca: "Hugo, tu estás te fazendo de difícil, ou pretendes fazer hora com minha cara?" Dessa vez, não achei graça... Era temerário, pois a garota deu clara demonstração de estar tiririca comigo. Então, assumi um ar sério e, sem recorrer às aspas, disse: vou analisar suas questões por uma ótica que não prioriza a gramática pela gramática. Esta pode ser meio, mas não fim. Às vezes, transforma-se em instrumento de poder e de tortura... e não leva a lugar algum. Todos somos portadores de uma gramática internalizada, daí a declaração de que todos sabemos "português", assim como todo inglês sabe inglês, todo francês sabe francês e todo espanhol sabe espanhol... Quanto à obrigatoriedade de estudar a língua portuguesa nas escolas, é explicável por dois fatores. Em primeiro lugar, fazer ver ao alunado a existência de "várias" línguas portuguesas na língua portuguesa. Contraditório? Não, tudo muito natural. São vários os registros, dependendo do contexto sóciolinguístico. Uma carta que se envia ao Papa é mais solene e paletó e gravata que a carta enviada à mãe ou namorada, certamente mais bermudas e chinelos. Um papo com os familiares e amigos é menos grave que o conteúdo e a forma contidos numa entrevista com a finalidade de conquistar abocanhar uma vaga no mercado do trabalho. Em segundo lugar, em certames e concursos, em que a competição, aparentemente, seleciona os mais hábeis, a língua portuguesa é exigida como instrumento de uso apenas na sua feição culta, ou seja, aquela valorizada pela sociedade, daí a ênfase na gramatiquice estéril. Muita vezes, o sujeito é "doutor" em normas gramaticais, mas a cabeça não suporta o desafio de uma folha de papel em branco, uma caneta e um assunto a ser desenvolvido. É triste...
Quando alguém diz que a língua portuguesa é uma das "mais difíceis do mundo", rejeito o postulado. Não há língua difícil, há ou não dispisição para utilizá-la para algum fim. Da minha parte, meu interesse pelo estudo de idiomas é o acendrado amor que sempre nutri e nutro pela língua portuguesa. Não deprecio nenhuma, mas a língua portugesa "é como alguém disse, a minha pátria".
Agora, vou dizer de sua pergunta inicial. Agora no duro. A grande dica que você procura se encontra numa coisa simples, tão simples que, mesmo próxima de nós, fazemos força para não enxergá-la. Em letras garrafais: A LEITURA. Pronto. Com uma dose de, pelo menos, três hora desse santo remédio, "aprende-se", sem muito esforço, qualquer faceta, no caso em pauta, da língua portuguesa. Não há segredo. É ler o que lhe caia nas mãos: o texto do tubo de pasta dental; as placas de rua; o jornal; a revista; os livros de anedotas; a literatura de cordel; o romance machadiano ou não; a poesia de Bandeira ou não; as letras das canções populares, do brega ao chique, do medíocre ao sublime. Não precisa se preocupar: com o tempo as escolhas se impõem... Leitura é bicho bom. Embriaga como os bons vinhos, as cervejas geladas, a cachaça amiga... E vicia porque dá "lombra", faz ver a vida por outros ângulos e perspectivas. Por aí você começa a descobrir que português não é tão difícil como por aí se propala.
Creio haver esclarecido com propriedade a questão da jovem. Se não, parafraseando Machado de Assis, no prólogo da obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, "pago-lhe com um piparote e adeus."
Hugo Martins
Alguém me pede uma dica de como "aprender português". Achei graça. Adoro achar graça. Antes que ela fizesse outra pergunta óbvia: por que estás achando graça? -ajuntei: "todos nós sabemos "português", afinal fomos socializados nessa língua tão bela. A jovem, então, tentando me pegar numa arapuca, lançou-me outra pergunta: "por que, então, somos obrigados a estudar a língua portuguesa durante, praticamente, toda a vida escolar e, o que é pior, nem sempre aprendemos o suficiente"? "Hugo, essa nossa língua é muito difícil". Achei graça mais uma vez. A jovem ficou danada da vida e me jogou nas fuças outra questão, que, pensou ela -assim julguei - tratar-se de outra arapuca: "Hugo, tu estás te fazendo de difícil, ou pretendes fazer hora com minha cara?" Dessa vez, não achei graça... Era temerário, pois a garota deu clara demonstração de estar tiririca comigo. Então, assumi um ar sério e, sem recorrer às aspas, disse: vou analisar suas questões por uma ótica que não prioriza a gramática pela gramática. Esta pode ser meio, mas não fim. Às vezes, transforma-se em instrumento de poder e de tortura... e não leva a lugar algum. Todos somos portadores de uma gramática internalizada, daí a declaração de que todos sabemos "português", assim como todo inglês sabe inglês, todo francês sabe francês e todo espanhol sabe espanhol... Quanto à obrigatoriedade de estudar a língua portuguesa nas escolas, é explicável por dois fatores. Em primeiro lugar, fazer ver ao alunado a existência de "várias" línguas portuguesas na língua portuguesa. Contraditório? Não, tudo muito natural. São vários os registros, dependendo do contexto sóciolinguístico. Uma carta que se envia ao Papa é mais solene e paletó e gravata que a carta enviada à mãe ou namorada, certamente mais bermudas e chinelos. Um papo com os familiares e amigos é menos grave que o conteúdo e a forma contidos numa entrevista com a finalidade de conquistar abocanhar uma vaga no mercado do trabalho. Em segundo lugar, em certames e concursos, em que a competição, aparentemente, seleciona os mais hábeis, a língua portuguesa é exigida como instrumento de uso apenas na sua feição culta, ou seja, aquela valorizada pela sociedade, daí a ênfase na gramatiquice estéril. Muita vezes, o sujeito é "doutor" em normas gramaticais, mas a cabeça não suporta o desafio de uma folha de papel em branco, uma caneta e um assunto a ser desenvolvido. É triste...
Quando alguém diz que a língua portuguesa é uma das "mais difíceis do mundo", rejeito o postulado. Não há língua difícil, há ou não dispisição para utilizá-la para algum fim. Da minha parte, meu interesse pelo estudo de idiomas é o acendrado amor que sempre nutri e nutro pela língua portuguesa. Não deprecio nenhuma, mas a língua portugesa "é como alguém disse, a minha pátria".
Agora, vou dizer de sua pergunta inicial. Agora no duro. A grande dica que você procura se encontra numa coisa simples, tão simples que, mesmo próxima de nós, fazemos força para não enxergá-la. Em letras garrafais: A LEITURA. Pronto. Com uma dose de, pelo menos, três hora desse santo remédio, "aprende-se", sem muito esforço, qualquer faceta, no caso em pauta, da língua portuguesa. Não há segredo. É ler o que lhe caia nas mãos: o texto do tubo de pasta dental; as placas de rua; o jornal; a revista; os livros de anedotas; a literatura de cordel; o romance machadiano ou não; a poesia de Bandeira ou não; as letras das canções populares, do brega ao chique, do medíocre ao sublime. Não precisa se preocupar: com o tempo as escolhas se impõem... Leitura é bicho bom. Embriaga como os bons vinhos, as cervejas geladas, a cachaça amiga... E vicia porque dá "lombra", faz ver a vida por outros ângulos e perspectivas. Por aí você começa a descobrir que português não é tão difícil como por aí se propala.
Creio haver esclarecido com propriedade a questão da jovem. Se não, parafraseando Machado de Assis, no prólogo da obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, "pago-lhe com um piparote e adeus."
segunda-feira, 1 de maio de 2017
VIAGEM
Hugo Martins
Viajei para Minas Gerais. Precisamente para Ouro Preto, antiga Vila Rica, terra de inconfidentes, da corrida do ouro, do amor de Dirceu por Marília, terra de mistérios e fascínios... Não me demorei a contemplar a arquitetura vetusta dos tempos coloniais, tampouco me esgueirei por becos forrados de pedra tosca... Não. Apenas atravessei a cidadezinha e, chegando aos seus arredores, alcei-me ao cume de um outeiro. Era fim de tarde, hora crepuscular no silêncio cavo, apenas quebrado pelo melancólico badalar dos sinos, saudando a hora indefinível da chegada das sombras e a retirada da luz. Ali deixei-me ficar quando, num átimo, alguém se avizinha e, em pinceladas verbais, apreendendo toda a mágica do momento, vai, pouco a pouco, construindo a tela. Não puxo conversa, não pergunto seu nome... Apenas observo o pintor, que, ungido de grande furor criativo, vai revelando uma paisagem que evoca a morte, num jogo metafórico em que a extrema-unção, caindo como uma cortina, assinala uma espécie de fim de ato. Logo depois, o firmamento, tal um pálio negro, ostenta uma miríade de pontos luminosos, pisca-piscando, como a anunciar aquela apoteose encantatória...
Como o quadro se revela em quatro cenários menores, vamos apresentar três textos de nossa lavra, acentuando os detalhes de cada um, salientados pelo poeta e por nós comentados por intermédio de pequenas digressões.
Aí vai o primeiro.
O OURO FULVO DO OCASO AS VELHAS CASAS COBRE;
SANGRAM, EM LAIVOS DE OURO, AS MINAS QUE A AMBIÇÃO
NA TORTURADA ENTRANHA ABRIU DA TERRA NOBRE:
E CADA CICATRIZ BRILHA COMO UM BRASÃO.
Contemplemo-lo. Primeiro olhar: a alma das palavras... o que embuçam... o que elas dizem... o que não dizem... que revelações fazem do mundo nesse jogo. A seguir, ainda no mesmo olhar: hierarquia, ordem, conjugação. Em outras palavras: vocabulário e sintaxe. Aí temos o jogo sintático-semântico, sempre indispensável para a apreensão de significados, que levará em conta, necessariamente o conhecimento de mundo.
A palavra ouro aparece duas vezes nesse quarteto e outras três vezes ao longo do soneto. Ora, o título deste é VILA RICA, hoje OURO PRETO. É o pano de fundo da tela. É aqui que o homem pugna, sofregamente, por encontrar ouro. Momento em que vem à tona o comportamento torpe, a ambição desmedida, os jogos sujos, a cupidez aviltante.
Ouro fulvo do ocaso é locução que pode ser traduzida por hora crepuscular, momento em que o sol se põe. Assim, a primeira linha do poema assim pode ser lida: o ouro fulvo do ocaso cobre as velhas casas, Estrutura simples: ele as cobre. Simples... Observar, nos dois versos seguintes, as palavras: sangram, ambição cicatriz. Sugestivas, não? Na verdade, transpondo os dois versos referidos para a ordem direta, teremos: as minas sangram em laivos (pistas, sinais) de ouro; a ambição abriu as minas na entranha torturada da terra nobre. “Entranha torturada” sugere a insistência e o afã do homem em cavar e cavar e cavar; a fazer cicatrizes na terra nobre para encontrar o brilho daquilo que lhe vai satisfazer a cobiça. Assim, o poeta evoca o cenário da cidade – Vila Rica/Ouro Preto, sendo acobertado pela hora do ocaso, do crepúsculo, do pôr-do-sol, do arrebol, quatro palavras da mesma área semântica.
Continua...
Hugo Martins
Viajei para Minas Gerais. Precisamente para Ouro Preto, antiga Vila Rica, terra de inconfidentes, da corrida do ouro, do amor de Dirceu por Marília, terra de mistérios e fascínios... Não me demorei a contemplar a arquitetura vetusta dos tempos coloniais, tampouco me esgueirei por becos forrados de pedra tosca... Não. Apenas atravessei a cidadezinha e, chegando aos seus arredores, alcei-me ao cume de um outeiro. Era fim de tarde, hora crepuscular no silêncio cavo, apenas quebrado pelo melancólico badalar dos sinos, saudando a hora indefinível da chegada das sombras e a retirada da luz. Ali deixei-me ficar quando, num átimo, alguém se avizinha e, em pinceladas verbais, apreendendo toda a mágica do momento, vai, pouco a pouco, construindo a tela. Não puxo conversa, não pergunto seu nome... Apenas observo o pintor, que, ungido de grande furor criativo, vai revelando uma paisagem que evoca a morte, num jogo metafórico em que a extrema-unção, caindo como uma cortina, assinala uma espécie de fim de ato. Logo depois, o firmamento, tal um pálio negro, ostenta uma miríade de pontos luminosos, pisca-piscando, como a anunciar aquela apoteose encantatória...
Como o quadro se revela em quatro cenários menores, vamos apresentar três textos de nossa lavra, acentuando os detalhes de cada um, salientados pelo poeta e por nós comentados por intermédio de pequenas digressões.
Aí vai o primeiro.
O OURO FULVO DO OCASO AS VELHAS CASAS COBRE;
SANGRAM, EM LAIVOS DE OURO, AS MINAS QUE A AMBIÇÃO
NA TORTURADA ENTRANHA ABRIU DA TERRA NOBRE:
E CADA CICATRIZ BRILHA COMO UM BRASÃO.
Contemplemo-lo. Primeiro olhar: a alma das palavras... o que embuçam... o que elas dizem... o que não dizem... que revelações fazem do mundo nesse jogo. A seguir, ainda no mesmo olhar: hierarquia, ordem, conjugação. Em outras palavras: vocabulário e sintaxe. Aí temos o jogo sintático-semântico, sempre indispensável para a apreensão de significados, que levará em conta, necessariamente o conhecimento de mundo.
A palavra ouro aparece duas vezes nesse quarteto e outras três vezes ao longo do soneto. Ora, o título deste é VILA RICA, hoje OURO PRETO. É o pano de fundo da tela. É aqui que o homem pugna, sofregamente, por encontrar ouro. Momento em que vem à tona o comportamento torpe, a ambição desmedida, os jogos sujos, a cupidez aviltante.
Ouro fulvo do ocaso é locução que pode ser traduzida por hora crepuscular, momento em que o sol se põe. Assim, a primeira linha do poema assim pode ser lida: o ouro fulvo do ocaso cobre as velhas casas, Estrutura simples: ele as cobre. Simples... Observar, nos dois versos seguintes, as palavras: sangram, ambição cicatriz. Sugestivas, não? Na verdade, transpondo os dois versos referidos para a ordem direta, teremos: as minas sangram em laivos (pistas, sinais) de ouro; a ambição abriu as minas na entranha torturada da terra nobre. “Entranha torturada” sugere a insistência e o afã do homem em cavar e cavar e cavar; a fazer cicatrizes na terra nobre para encontrar o brilho daquilo que lhe vai satisfazer a cobiça. Assim, o poeta evoca o cenário da cidade – Vila Rica/Ouro Preto, sendo acobertado pela hora do ocaso, do crepúsculo, do pôr-do-sol, do arrebol, quatro palavras da mesma área semântica.
Continua...
VIAGEM – II
Hugo Martins
Lido o primeiro quarteto do poema, em que se tem a visão de uma cidade sendo amortalhada pelo crepúsculo, bom lembrar que se trata, conforme dissemos, de um dos quadros no painel de um quadro maior, a que se somam outros dois. O que se apresenta agora se reduz ao segundo quarteto, que transcreveremos logo a seguir, ajuntando-se-lhe os comentários e digressões pertinentes e consentâneos com a visão do comentarista. A descrição do momento só finda no segundo terceto. Diríamos que cada bloco de versos, a estrofe, corresponde a uma pincelada do artista. Continuo ao seu lado, verificando a coerência pictórica entre o quadro e a paisagem física e espiritual que nele se imprime. Eis o quadro.
O ÂNGELUS PLANGE AO LONGE EM DOLOROSO DOBRE.
O ÚLTIMO OURO DO SOL MORRE NA CERRAÇÃO.
E AUSTERO, AMORTALHANDO A URBE GLORIOSA E POBRE,
O CREPÚSCULO CAI COMO UMA EXTREMA-UNÇÃO.
No étimo grego e latino, a palavra ângelus significa mensageiro, núncio, que a igreja católica traduz por anjo e empresta a este as virtudes dos deuses pagãos Hermes/Mercúrio, com uma diferença, estes têm os pés e capacete alados; os anjos possuem asas. Os primeiros são apenas mensageiros dos deuses, os últimos, além dessa incumbência assumem o papel de protetores...
Na cultura nacional, é comum usar a locução “hora do ângelus” como anunciadora do final do dia, de regra, a hora do lusco-fusco. Nessa hora, as rádios e outros aparelhos tocavam a Ave, Maria com a música do compositor alemão Franz Schubert ou do francês Charles Gounod. O porquê da “hora do ângelus”, historicamente, está na Bíblia Sagrada. Para nós, importa tal hora como anunciadora do fim do dia e o começo da noite.
Na verdade, não é o ângelus que plange (bate, dobra), mas os sinos, anunciando o ângelus... o emprego do adjetivo doloroso explica-se pelo fato de que os sinos batem em repiques ou dobre. Repique anuncia alegria; dobre, morte, tristeza. Efetivamente, o dia está a morrer, daí a sugestão semântica do emprego daquele adjetivo. Lembremos de “dobre de finados”, locução que aparece num soneto de Machado de Assis, no poema Desfecho, em que, retratando as dores e angústias de Prometeu, acorrentado ao monte Cáucaso, sob a ameaça da grande águia que lhe devora o fígado, vê “o desfilar dos séculos que vão com um dobre de finados”, Machado põe, às claras, em belíssima intuição, a marcha inexorável do tempo, que flui indiferente às dores e sofrimentos, às alegrias e ilusões do homem...
Essa ideia de morte se entremostra, mais vivamente, nos três versos seguintes por meio de palavras carregadas de sugerências latentes: “morre”, “amortalhando” (cuja raiz é mort), “crepúsculo” e “extrema-unção”, sacramento ofertado àqueles que estão à espera da “indesejada das gentes”, cuja vinda está decretada. O verbo “cair” também tem, no ambiente semântico, visível força, sobretudo porque faz parte de uma comparação, isto é, ele cai como se anunciasse a morte certa e irretorquível do dia. Os adjetivos “gloriosa” e “pobre” modificam o substantivo URBE, palavra de origem latina (urbs, urbis), que significa cidade. Parece a nós que se o poeta tivesse usado o termo cidade no lugar de urbe (mais adequada), a gravidade e sublimidade do momento (daí o predicativo austero) se esfacelariam na vulgaridade e insensibilidade de poetas menores. Não é o caso de nosso pintor...
Os dois primeiros versos já se estruturam na ordem direta. Quanto aos dois últimos, poderiam ser assim arrumados: o crepúsculo cai austero e amortalha a urbe gloriosa e pobre como uma extrema-unção...
Voltaremos
Hugo Martins
Lido o primeiro quarteto do poema, em que se tem a visão de uma cidade sendo amortalhada pelo crepúsculo, bom lembrar que se trata, conforme dissemos, de um dos quadros no painel de um quadro maior, a que se somam outros dois. O que se apresenta agora se reduz ao segundo quarteto, que transcreveremos logo a seguir, ajuntando-se-lhe os comentários e digressões pertinentes e consentâneos com a visão do comentarista. A descrição do momento só finda no segundo terceto. Diríamos que cada bloco de versos, a estrofe, corresponde a uma pincelada do artista. Continuo ao seu lado, verificando a coerência pictórica entre o quadro e a paisagem física e espiritual que nele se imprime. Eis o quadro.
O ÂNGELUS PLANGE AO LONGE EM DOLOROSO DOBRE.
O ÚLTIMO OURO DO SOL MORRE NA CERRAÇÃO.
E AUSTERO, AMORTALHANDO A URBE GLORIOSA E POBRE,
O CREPÚSCULO CAI COMO UMA EXTREMA-UNÇÃO.
No étimo grego e latino, a palavra ângelus significa mensageiro, núncio, que a igreja católica traduz por anjo e empresta a este as virtudes dos deuses pagãos Hermes/Mercúrio, com uma diferença, estes têm os pés e capacete alados; os anjos possuem asas. Os primeiros são apenas mensageiros dos deuses, os últimos, além dessa incumbência assumem o papel de protetores...
Na cultura nacional, é comum usar a locução “hora do ângelus” como anunciadora do final do dia, de regra, a hora do lusco-fusco. Nessa hora, as rádios e outros aparelhos tocavam a Ave, Maria com a música do compositor alemão Franz Schubert ou do francês Charles Gounod. O porquê da “hora do ângelus”, historicamente, está na Bíblia Sagrada. Para nós, importa tal hora como anunciadora do fim do dia e o começo da noite.
Na verdade, não é o ângelus que plange (bate, dobra), mas os sinos, anunciando o ângelus... o emprego do adjetivo doloroso explica-se pelo fato de que os sinos batem em repiques ou dobre. Repique anuncia alegria; dobre, morte, tristeza. Efetivamente, o dia está a morrer, daí a sugestão semântica do emprego daquele adjetivo. Lembremos de “dobre de finados”, locução que aparece num soneto de Machado de Assis, no poema Desfecho, em que, retratando as dores e angústias de Prometeu, acorrentado ao monte Cáucaso, sob a ameaça da grande águia que lhe devora o fígado, vê “o desfilar dos séculos que vão com um dobre de finados”, Machado põe, às claras, em belíssima intuição, a marcha inexorável do tempo, que flui indiferente às dores e sofrimentos, às alegrias e ilusões do homem...
Essa ideia de morte se entremostra, mais vivamente, nos três versos seguintes por meio de palavras carregadas de sugerências latentes: “morre”, “amortalhando” (cuja raiz é mort), “crepúsculo” e “extrema-unção”, sacramento ofertado àqueles que estão à espera da “indesejada das gentes”, cuja vinda está decretada. O verbo “cair” também tem, no ambiente semântico, visível força, sobretudo porque faz parte de uma comparação, isto é, ele cai como se anunciasse a morte certa e irretorquível do dia. Os adjetivos “gloriosa” e “pobre” modificam o substantivo URBE, palavra de origem latina (urbs, urbis), que significa cidade. Parece a nós que se o poeta tivesse usado o termo cidade no lugar de urbe (mais adequada), a gravidade e sublimidade do momento (daí o predicativo austero) se esfacelariam na vulgaridade e insensibilidade de poetas menores. Não é o caso de nosso pintor...
Os dois primeiros versos já se estruturam na ordem direta. Quanto aos dois últimos, poderiam ser assim arrumados: o crepúsculo cai austero e amortalha a urbe gloriosa e pobre como uma extrema-unção...
Voltaremos
VIAGEM – III
Hugo Martins
Aqui estamos, ainda, a olhar os estertores do dia, captados pelas tintas poéticas de um hábil pintor, cujo talento em misturar, na paleta, as tinturas verbais, fornece, na medida exata, toda a plasticidade do momento à moda impressionismo, envolvendo o painel numa atmosfera de fugacidade e mutação... Em torno de tudo, o mistério, o lirismo e, por fim, para o apreciador, o gozo estético, a satisfação, a saciedade plena no embeber lírico dessa doce beleza...
Enquanto o artista se entrega àquela labuta, dele não me afasto e não me surpreendo com a fidelidade entre as duas paisagens, a exterior e a transposta para a tela. O talento é patente...
Ei-la. Seguem-se-lhe comentários do apreciador.
AGORA, PARA ALÉM DO CERRO, O CÉU PARECE
FEITO DE UM OURO ANCIÃO QUE O TEMPO ENEGRECEU...
A NEBLINA, ROÇANDO O CHÃO, CICIA EM PRECE,
COMO UMA PROCISSÃO ESPECTRAL QUE SE MOVE...
DOBRA O SINO... SOLUÇA UM VERSO DE DIRCEU...
SOBRE A TRISTE OURO PRETO O OURO DOS ASTRO CHOVE.
Aquele “agora” faz referência ao segundo quarteto, momento em que a cidade é acobertada pela mortalha do crepúsculo. A noite se avizinha. No lusco-fusco, o céu, enegrecido pelo tempo, apresenta uma coloração mergulhada num semiescuro, pintalgado de fugidias e mortiças manchas amarelas. Silêncio...
No último verso do primeiro terceto e no primeiro verso do último terceto, fantasmas em procissão se movem, ciciando preces tal a neblina quando roça o chão. Essa impressão auditiva, de singular beleza, está sugerida pelo aproveitamento de fonemas sibilantes, encontráveis nas palavras “roçando”, “cicia”, “prece”, “procissão”, “espectral”, “se” (move). A leitura do texto em voz alta deixa entrever aquele cicio das preces e do roçar da neblina no chão. Uma espécie de ciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciiciciciicicicicicici...
Por fim, o desfecho do momento mágico: “o sino dobra”, “um verso de Dirceu soluça”... O dobre anuncia morte do dia e, quem sabe, do amor entre Marília e Dirceu. Dirceu é pseudônimo adotado pelo poeta Tomaz Antônio Gonzaga, mentor da Inconfidência Mineira, poeta árcade, cuja paixão pela jovem Maria Dorotea J. de Seixas (Marília) e cantada em livro, é tão famosa quanto a de Abelardo por Heloísa, a de Petrarca por Laura e a de Dante por Beatrice...
“O ouro dos astros chove sobre a triste Ouro Preto”. É noite de céu estrelado...
A sugestão do movimento do tempo está no título do poema, Vila Rica, e a alusão, no último verso a Ouro Preto, antiga Vila Rica.
O pintor é o poeta parnasiano Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac...
Hugo Martins
Aqui estamos, ainda, a olhar os estertores do dia, captados pelas tintas poéticas de um hábil pintor, cujo talento em misturar, na paleta, as tinturas verbais, fornece, na medida exata, toda a plasticidade do momento à moda impressionismo, envolvendo o painel numa atmosfera de fugacidade e mutação... Em torno de tudo, o mistério, o lirismo e, por fim, para o apreciador, o gozo estético, a satisfação, a saciedade plena no embeber lírico dessa doce beleza...
Enquanto o artista se entrega àquela labuta, dele não me afasto e não me surpreendo com a fidelidade entre as duas paisagens, a exterior e a transposta para a tela. O talento é patente...
Ei-la. Seguem-se-lhe comentários do apreciador.
AGORA, PARA ALÉM DO CERRO, O CÉU PARECE
FEITO DE UM OURO ANCIÃO QUE O TEMPO ENEGRECEU...
A NEBLINA, ROÇANDO O CHÃO, CICIA EM PRECE,
COMO UMA PROCISSÃO ESPECTRAL QUE SE MOVE...
DOBRA O SINO... SOLUÇA UM VERSO DE DIRCEU...
SOBRE A TRISTE OURO PRETO O OURO DOS ASTRO CHOVE.
Aquele “agora” faz referência ao segundo quarteto, momento em que a cidade é acobertada pela mortalha do crepúsculo. A noite se avizinha. No lusco-fusco, o céu, enegrecido pelo tempo, apresenta uma coloração mergulhada num semiescuro, pintalgado de fugidias e mortiças manchas amarelas. Silêncio...
No último verso do primeiro terceto e no primeiro verso do último terceto, fantasmas em procissão se movem, ciciando preces tal a neblina quando roça o chão. Essa impressão auditiva, de singular beleza, está sugerida pelo aproveitamento de fonemas sibilantes, encontráveis nas palavras “roçando”, “cicia”, “prece”, “procissão”, “espectral”, “se” (move). A leitura do texto em voz alta deixa entrever aquele cicio das preces e do roçar da neblina no chão. Uma espécie de ciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciiciciciicicicicicici...
Por fim, o desfecho do momento mágico: “o sino dobra”, “um verso de Dirceu soluça”... O dobre anuncia morte do dia e, quem sabe, do amor entre Marília e Dirceu. Dirceu é pseudônimo adotado pelo poeta Tomaz Antônio Gonzaga, mentor da Inconfidência Mineira, poeta árcade, cuja paixão pela jovem Maria Dorotea J. de Seixas (Marília) e cantada em livro, é tão famosa quanto a de Abelardo por Heloísa, a de Petrarca por Laura e a de Dante por Beatrice...
“O ouro dos astros chove sobre a triste Ouro Preto”. É noite de céu estrelado...
A sugestão do movimento do tempo está no título do poema, Vila Rica, e a alusão, no último verso a Ouro Preto, antiga Vila Rica.
O pintor é o poeta parnasiano Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac...
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