terça-feira, 30 de maio de 2017

LATIM, PRA QUE TE QUERO? Com incursão interpretativa...
                                                       Hugo Martins

A palavra texto, do ponto de vista pragmático, de uma compreensão ampla, pode ser vista por uma ótica linguística ou por uma perspectiva semiológica. Uma propaganda em que haja só imagens constitui um texto. Há textos construídos com imagens e palavras simultaneamente. O texto vazado, porém, só com palavras é texto de cunho linguístico.
Ora, qualquer texto, não importa se linguístico ou semiológico é um emaranhado de elementos que devem formar um sentido, isto é, deve assentar-se nos princípios da coesão e o da coerência.
Etimologicamente, texto significa tecido, palavra que guarda parentesco com têxtil, que significa: entrançado, entrelaçado... Aquele tapete de Penélope, na Odisséia, era tecido de dia e desentrelaçado à noite, com o fim de ludibriar os pretendentes da mulher de Ulisses...
O verbo latino para designar essa ideia de tecer, entrelaçar, entrançar é TEXO, TEXIS, TEXERE, TEXUI, TEXTUM... Pronto, eis aí...
A reflexão é, no mesmo diapasão, extensiva à palavra contexto. Muitas significações, apreendidas pela leitura de mundo, bem como a criação de sentidos, atividade intelectual personalíssima, tudo resulta desse entrelaçamento de nossas vivências e nossas idiossincrasias. Por isso, a interpretação  disso ou daquilo não se confunde com a compreensão daquilo e disso. Por exemplo, a estrutura do conto Chapeuzinho  Vermelho, de Charles Perrault, e o romance Lolita, de Vladmir Nabokov é a mesma, pois ambas se constituem  numa narrativa, isto é, na contação de uma história com um quem, um onde, um quando, um como, um por que, e um fechamento ou epílogo.
O leitor enxerga conotações sensuais em Lolita, mas tende a não enxergá-las naquele conto infantil. Ora, toda a narrativa do conto, do início ao fim, ressuma sensualidade e sexualidade explícita. Por que a menininha não ouve os conselhos da mãe e toma o caminho da floresta, onde, bem sabe, está lá o lobo? Por que a menininha, quando canta a música diz "que o lobo mau andou aqui por perto" quando o mais lógico seria se afastar daquele sujeito "mau", que pega as criancinhas "pra fazer mingau? Que mingau é esse de que a  velha senhora parece ter provado e gostado? Que simbolizaria aquele  nariz comprido do lobo, quando, na cama da vovó, a quem já tinha comido, Chapeuzinho se admira de haver sofrido uma mudança no tamanho? E aquele caçador? Seria a moral então vigente, que via na sexualidade um jogo imoral e contrárrio aos "bons costumes" burgueses? E a vovó, embora "comida" pelo lobo mau, por que ainda se encontra viva depois que se abriu o ventre daquele bicho malvado? Que dizer de tudo isso? Possibilidades interpretativas. O leitor ingênuo certamente verá maldade em interpretações dessa natureza. Não se lhe deve tirar a razão: é intelectualmente míope ou, quem sabe, já se encontra em adiantado estado de cegueira.
Tudo é contexto. Todo texto é produto de um contexto. Todo texto é passível de variadas leituras. Depende do olhar.
Voltaremos...

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