segunda-feira, 1 de maio de 2017

VIAGEM – III
                                                          Hugo Martins
 Aqui estamos, ainda, a olhar os estertores do dia, captados pelas tintas poéticas de um hábil pintor, cujo talento em misturar, na paleta, as tinturas verbais, fornece, na medida exata, toda a plasticidade do momento à moda impressionismo, envolvendo o painel numa atmosfera de fugacidade e mutação... Em torno de tudo, o mistério, o lirismo e, por fim, para o apreciador, o gozo estético, a satisfação, a saciedade plena no embeber lírico dessa doce beleza...
 Enquanto o artista se entrega àquela labuta, dele não me afasto e não me surpreendo com a fidelidade entre as duas paisagens, a exterior e a transposta para a tela. O talento é patente...
 Ei-la. Seguem-se-lhe comentários do apreciador.

 AGORA, PARA ALÉM DO CERRO, O CÉU PARECE
 FEITO DE UM OURO ANCIÃO QUE O TEMPO ENEGRECEU...
 A NEBLINA, ROÇANDO O CHÃO, CICIA EM PRECE,

 COMO UMA PROCISSÃO ESPECTRAL QUE SE MOVE...
 DOBRA O SINO... SOLUÇA UM VERSO DE DIRCEU...
 SOBRE A TRISTE OURO PRETO O OURO DOS ASTRO CHOVE.

Aquele “agora” faz referência ao segundo quarteto, momento em que a cidade é acobertada pela mortalha do crepúsculo. A noite se avizinha. No lusco-fusco, o céu, enegrecido pelo tempo, apresenta uma coloração mergulhada num semiescuro, pintalgado de fugidias e mortiças manchas amarelas. Silêncio...
No último verso do primeiro terceto e no primeiro verso do último terceto, fantasmas em procissão se movem, ciciando preces tal a neblina quando roça o chão. Essa impressão auditiva, de singular beleza, está sugerida pelo aproveitamento de fonemas sibilantes, encontráveis nas palavras “roçando”, “cicia”, “prece”, “procissão”, “espectral”, “se” (move).  A leitura do texto em voz alta deixa entrever aquele cicio das preces e do roçar da neblina no chão. Uma espécie de ciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciciiciciciicicicicicici...
Por fim, o desfecho do momento mágico: “o sino dobra”, “um verso de Dirceu soluça”... O dobre anuncia morte do dia e, quem sabe, do amor entre Marília e Dirceu. Dirceu é pseudônimo adotado pelo poeta Tomaz Antônio Gonzaga, mentor da Inconfidência Mineira, poeta árcade, cuja paixão pela jovem Maria Dorotea J. de Seixas (Marília) e cantada em livro, é tão famosa quanto a de Abelardo por Heloísa, a de Petrarca por Laura e a de Dante por Beatrice...
“O ouro dos astros chove sobre a triste Ouro Preto”. É noite de céu estrelado...
A sugestão do movimento do tempo está no título do poema, Vila Rica, e a alusão, no último verso a Ouro Preto, antiga Vila Rica.
O pintor é o poeta parnasiano Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac...

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