A Sentença de Páris é texto que não está encartado nas epopeias de Homero, a Ilíada e a Odisseia. Como a guerra de Troia foi causada pelo rapto de Helena, aquela sentença aparece como algo que resulta de um sonho dos genitores de Páris, sonho em que este rapaz aparece, quando nasce, travestido numa grande tocha, que incendiaria Troia. Para fugir a isso, Páris foi exilado de Troia para que aquela profecia não se confirmasse.
Que vem a ser mesmo tal sentença?
Conta-se que no Olimpo promoveu-se uma lauta festa para a qual foram convidados todos os deuses... Menos a deusa da Discórdia, que enciumada, tomou de uma maçã (pomum, em latim), nela escreveu PULCHERRIMA, palavra latina proparoxítona (sem acento gráfico indicador de tonicidade), que significa "para a mais bela", e jogou a fruta no lugar em que se encontravam Zeus, Hera, Atena e Afrodite. As deusas exigiram do deus maior do Olimpo fizesse ele a escolha. Zeus, para fugir de tal complicação, enviou as três ao lugar em que se encontrava Páris, o qual deveria eleger a deusa a quem aplicaria aquele superlativo. Começa daí, então, um jogo de sedução, que em muito lembra as patifarias da corrupção. Hera, mulher de Zeus, prometeu grandes poderes ao filho de Príamo; Atena, por sua parte, repassaria àquele árbitro boa parcela da sabedoria de que era senhora; Afrodite disse a Páris que a ele daria a mais bela mulher do mundo, Helena, mulher de Menelau... Conclusão bem à vista. A partir daí, tem-se uma espécie de preâmbulo da Ilíada, que narra a guerra de Troia e "a ira de Aquiles"...
Lembremos, agora da expressão o "pomo da Discórdia", que servirá de referente para a intertextualidade do conto A Bela Adormecida, que tem tudo a ver com discórdias e, (por que não?), guerras, ciúmes e outros bichos que atanazam a vida do bicho homem. Intertextualidade é a ocorrência de diálogos e pontos de contato entre textos. Quem lê, por exemplo, o romance Olhai os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo, verá que o conteúdo dessa bela obra nada mais é que uma releitura do Sermão do Monte, no Evangelho de Mateus, a começar pela frase do Cristo, que serve de título ao romance do escritor gaúcho.
Em outra oportunidade, veremos que a Sentença de Páris tem tudo a ver com A Bela Adormecida. A isso os doutos chamam de continuidade discursiva, como a sugerir que não existe nada de novo sob o Sol conforme sugere outro livro bíblico, o Eclesiastes, espécie de tratado filosófico atribuído a Salomão...
Isso é que torna a literatura algo que a juventude não diria ser "mó paia", mas alguma coisa "massa"...
Depois voltaremos com o conto infantil aludido, procurando nele, além do proposto, outras significações sob os véus diáfanos da linguagem...
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