terça-feira, 30 de maio de 2017

VOLTANDO À VACA FRIA

Hugo Martins

Dos muitos signos que lembram sensualidade no conto Chapeuzinho Vermelho, deixei de ressaltar alguns que estão à superfície do texto: a cor do chapéu da meninota, bem como um trecho da música que a pequerrucha canta quando se dirige para a casa da vovó. À criança, que ouve ou lê o texto, interessa apenas o contexto superficial da narrativa, onde não enxerga senão a linearidade da história sem outras implicações interpretativas. Basta a ela só o feérico, apenas a magicidade do relato. Quanto ao leitor mais experimentado, as historietas infantis (contos de fadas e similares) abrem largo leque de ali se desencavarem outras significações mais esconsas e profundas pelo só fato de ser esse leitor adulto mais dotado do conhecimento de outros contextos e conhecimentos enciclopédicos, que nada mais são que aquilo que se convencionou chamar, em leituras de mundo, conhecimentos prévios.
Pois bem. A propósito, a cor vermelha do  chapéu sugere a menarca ou primeira menstruação, momento em que a menina se torna mulher e, por isso, deve guardar cuidado com a floresta (o mundo) e o lobo (o homem). Lobo mau e homem que faz "mal"... Tirem-se daí as conclusões... A propósito do trecho da música, a menininha diz que deve chegar à casa da vovó "ao sol poente". Sol poente é o que "cai". Lembrar que o lobo, naquele momento já tinha "devorado" a vovó e algo nele tinha caído, apesar de as dimensões do nariz (no texto, fala-se em boca) ainda impressionar a pobre Chapeuzinho que espera algo "poente", isto é algo que se presta a pôr. Quem põe, põe alguma coisa em algo ou em alguém.
Cuidado com a miopia ou a cegueira intelectuais. Freud explica...

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