segunda-feira, 1 de maio de 2017

VIAGEM – II
                                                       Hugo Martins
 Lido o primeiro quarteto do poema, em que se tem a visão de uma cidade sendo amortalhada pelo crepúsculo, bom lembrar que se trata, conforme dissemos, de um dos quadros no painel de um quadro maior, a que se somam outros dois. O que se apresenta agora se reduz ao segundo quarteto, que transcreveremos logo a seguir, ajuntando-se-lhe os comentários e digressões pertinentes e consentâneos com a visão do comentarista. A descrição do momento só finda no segundo terceto. Diríamos que cada bloco de versos, a estrofe, corresponde a uma pincelada do artista. Continuo ao seu lado, verificando a coerência pictórica entre o quadro e a paisagem física e espiritual que nele se imprime. Eis o quadro.

 O ÂNGELUS PLANGE AO LONGE EM DOLOROSO DOBRE.
 O ÚLTIMO OURO DO SOL MORRE NA CERRAÇÃO.
 E AUSTERO, AMORTALHANDO A URBE GLORIOSA E POBRE,
 O CREPÚSCULO CAI COMO UMA EXTREMA-UNÇÃO.

 No étimo grego e latino, a palavra ângelus significa mensageiro, núncio, que a igreja católica traduz por anjo e empresta a este as virtudes dos deuses pagãos Hermes/Mercúrio, com uma diferença, estes têm os pés e capacete alados; os anjos possuem asas. Os primeiros são apenas mensageiros dos deuses, os últimos, além dessa incumbência assumem o papel de protetores...
 Na cultura nacional, é comum usar a locução “hora do ângelus” como anunciadora do final do dia, de regra, a hora do lusco-fusco. Nessa hora, as rádios e outros aparelhos tocavam a Ave, Maria com a música do compositor alemão Franz Schubert ou do francês Charles Gounod. O porquê da “hora do ângelus”, historicamente, está na Bíblia Sagrada. Para nós, importa tal hora como anunciadora do fim do dia e o começo da noite.
 Na verdade, não é o ângelus que plange (bate, dobra), mas os sinos, anunciando o ângelus... o emprego do adjetivo doloroso explica-se pelo fato de que os sinos batem em repiques ou dobre. Repique anuncia alegria; dobre, morte, tristeza. Efetivamente, o dia está a morrer, daí a sugestão semântica do emprego daquele adjetivo. Lembremos de “dobre de finados”, locução que aparece num soneto de Machado de Assis, no poema Desfecho, em que, retratando as dores e angústias de Prometeu, acorrentado ao monte Cáucaso, sob a ameaça da grande águia que lhe devora o fígado, vê “o desfilar dos séculos que vão com um dobre de finados”, Machado põe, às claras, em belíssima intuição, a marcha inexorável do tempo, que flui indiferente às dores e sofrimentos, às alegrias e ilusões do homem...
 Essa ideia de morte se entremostra, mais vivamente, nos três versos seguintes por meio de palavras carregadas de sugerências latentes: “morre”, “amortalhando” (cuja raiz é mort), “crepúsculo” e “extrema-unção”, sacramento ofertado àqueles que estão à espera da “indesejada das gentes”, cuja vinda está decretada. O verbo “cair” também tem, no ambiente semântico, visível força, sobretudo porque faz parte de uma comparação, isto é, ele cai como se anunciasse a morte certa e irretorquível do dia. Os adjetivos “gloriosa” e “pobre” modificam o substantivo URBE, palavra de origem latina (urbs, urbis), que significa cidade. Parece a nós que se o poeta tivesse usado o termo cidade no lugar de urbe (mais adequada), a gravidade e sublimidade do momento (daí o predicativo austero) se esfacelariam na vulgaridade e insensibilidade de poetas menores. Não é o caso de nosso pintor...
Os dois primeiros versos já se estruturam na ordem direta. Quanto aos dois últimos, poderiam ser assim arrumados: o crepúsculo cai austero e amortalha a urbe gloriosa e pobre como uma extrema-unção...

Voltaremos

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