MEUS DOIS AMORES
Hugo Martins
Sempre gostei da aura aparentemente misteriosa que sobrepaira às chamadas línguas clássicas. Hoje estou, há doze meses, NAMORANDO a língua grega, sua estrutura morfossintática, a riqueza de sua mitologia, afora o teatro, a filosofia, desde seus primórdios com Tales de Mileto, passando por alguns pré-socráticos, por Sócrates, Plarão e Aristóteles, bem como pelos Cínicos, os Epicuristas e os Estoicos.
Bom referenciar e reverenciar as portentosas Epopeias de Homero, A Ilíada e a Odisseia, fontes de encanto em que se bebe de tudo. A primeira narra a "fúria de Aquiles", tema que trata de uma partilha de guerra, em que Menelau, o rei espartano, tenta ludibriar Aquiles, tomando "posse" de Briseida. Por isso, Aquiles se retira do conflito entre gregos e troianos, o que significa apreciável prejuízo para as hordas gregas... Mas o heroi volta aos combates porque Heitor, o troiano, para mim homem de alma nobilíssima, mata Pátroclos, maior amigo de Aquiles. Este vinga o amigo querido. Numa luta justa, mata Heitor e arrasta, em sua carruagem, o corpo em torno da cidade de Troia, acontecimento presenciado do alto das muralhas da cidade por Príamo, pai de Heitor, a mãe Hécuba e a esposa de Heitor, a bela Andrômaca. Depois de todo esse desfilar de acontecimentos trágicos, vê-se, ao cair da noite, o velho Príamo, sozinho, dirigir-se à tenda de Aquiles. Fora pedir o corpo do filho, que se encontrava no poder de Aquiles. Olhando o rosto sofrido do pai do herói Troiano, Aquiles se apiada (ou se apieda) e, tomado de profunda comoção, entrega o cadáver... No dia seguinte, ocorre o funeral de Heitor. Assim Homero fecha a Ilíada.
A Odisseia trata da volta de Ulisses para a ilha de Ítaca onde o esperam sua mulher Penélope e o filho comum Telêmaco. Passou vinte anos fora de casa, dez na Guerra de Troia e dez na volta para casa, perseguido pelo deus Posídon... As causas e os resultados de tudo isso estão no entrecho da obra, cujo título advém do nome do heroi, Odisseu...
Quanto à LÍNGUA LATINA, nosso NAMORO é mais longo, é para sempre, é amor verdadeiro, que não experimenta percalços. Também, por ela, nutro um amor interesseiro, mas sincero, sem mentiras ou subterfúgios. Sou seu gigolô, exploro-a, mas ela sabe dos meus propósitos, pois em muito auxilia a mim e aos outros na compreensão e explicação de alguns fatos linguísticos que outras ciências da linguagem não conseguem esclarecer. Temos nesse belo idioma uma Epopeia - A Eneida- cujo heroi é Enéas, o qual, fugindo da Guerra de Troia, já tomada pelas chamas, dali sai com o pai, Anquises, e o filho Ascânio. Botou-se para Roma, de cuja História participa intensamente, e toma parte em episódios que dão a justa medida de sua vocação na participação de atos heroicos. A autoria da obra é de Virgílio, também poeta lírico dos melhores, que escreveu a obra como espécie de exaltação à História de Roma. O pedido fora, nesse sentido, feito pelo imperador Otávio Augusto.
A arte de construir o discurso persuasório, a arte retórica, cabe a Cícero, que fazia parte do senado e promovia, como advogado, defesas memoráveis nos tribunais, entre as mais conhecidas, temos As Catilinárias e As Verrinas. Além disso era político atilado, conhecedor das tricas e futricas da vida política. Marco Antônio mandou assassiná-lo. Ler Cícero é sorver a linguagem castiça dos clássicos, é sorver conhecimento, é aprender a construir raciocínios claros, por isso coesos e coerentes. Aqui fica a sugestão de leitura de uma de suas obras, DE AMICITIA ( Sobre a Amizade), versão bilíngue.
A filosofia romana, tal como a mitologia, é um pasticho do pensamento grego, isto é, uma espécie de seguimento quase servil num e noutro campo. Ou melhor, uma continuidade que se revela na linha de pensamento de algumas escolas filosóficas gregas, com especialidade o Estoicismo e o Epicurismo. Quanto à mitologia, os deuses são os mesmos, só mudam o nome. Nos exemplos a seguir, o primeiro é grego, e o segundo, o correspondente em Roma: Zeus, Júpiter; Atena, Minerva; Posídon, Netuno; Afrodite, Vênus; Dioniso, Baco; Eros, Cupido; Hermes, Mercúrio... E aí vai...
É tudo muito lindo. E eu AMO TUDO ISSO...
No próximo texto , vamos nos ater às belezas linguísticas e seus reflexos na língua portuguesa. Também AMO TUDO isso...
Reitero: amo as línguas e cultura clássicas, FOREVER (acho que é assim mesmo em inglês...)
quarta-feira, 28 de junho de 2017
quarta-feira, 21 de junho de 2017
ORTOGRAFIA
Hugo Martins
A Língua Portuguesa, em sua evolução histórica, conheceu três sistemas ortográficos: o período fonético, o período pseudo-etimológico e o sistema simplificado. No primeiro, as palavras eram grafadas tal como eram pronunciadas. Assim, podia-se grafar a mesma palavra de uma ou mais formas. Por esse sistema, por exemplo, a palavra “mesa” poderia ser assim grafada, como também pela forma “meza”. Quer dizer, não existia, o que é de se esperar, uma uniformização gráfica. A grafia da palavra submetia-se ao talante de quem a escrevia. Esse sistema perdurou do ano de 1189, quando surgiu o primeiro texto literário escrito em língua portuguesa, até o Renascimento, quando do aparecimento de Luís de Camões e a valorização dos estudos greco-latinos.
O sistema pseudoetimológico, parido por influência de um eruditismo vazio, apanágio de alguns pedantes, que absorveram os ideais clássicos de modo bastardo, instaurou um pandemônio, pois de científico nada possuía, a não ser o joguete vaidoso de alguns peralvilhos irresponsáveis, que instilararam no sistema ortográfico a indisciplina e a anticientificidade. Bons exemplos das tiradas de gramáticos caprichosos, pacientes da diarréia greco-romana, eram a grafia de palavras como docto, infermo, egreja, lyryo, sancto, eschola e outras tantas, meras especulações fantasiosas e risíveis, sem nenhuma base epistemológica.
O foneticista português Gonçalves Viana foi quem encontrou uma solução sui generis para tornar mais acessível e sistemática a ortografia portuguesa, quando, em 1904, publicou a obra Ortografia Nacional, renovando e simplificando alguns princípios consentâneos com o modo de ser do idioma, que um bom latinista/helenista bem pode explicar. Tornou-se oficial em terras lusas em 1911 por força de um decreto governamental.
Desde 1943, o Sistema Ortográfico Simplificado, da lavra daquele gramático português, passou a viger no Brasil. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), publicado pela Academia Brasileira de Letras, enfeixa a grafia oficial de todas as palavras que, em terras brasileiras, se grafarem. Desde então, se promoveram apenas algumas mudanças concernentes tão-só ao uso do acento gráfico, notações que serão, certamente, com o tempo, abolidas por desnecessárias...
Em 1971, ocorreu uma reforma nesse sentido, cogitaram-se outras mudanças, agora não só suprimindo acentos diferenciais, mas também se propondo a grafia mais simplificada de algumas palavras.
Em essência, ortografia é convenção, não língua portuguesa. Muda ao sabor das vicissitudes históricas. Não se aprende por regras, mas pela leitura. Funciona, como uma máquina que fotografa a configuração gráfica da palavra. Sendo esta bem fotografada, certamente será revelada com grande fidelidade, no momento da escrita...
Por isso, as mudanças no sistema ortográfico nacional não se devem constituir motivos para apreensões. A leitura resolve. A leitura resolve até mesmo problemas atinentes à língua portuguesa...
Ler, parafraseando Severiano Ribeiro, ainda é a maior diversão... e a melhor solução.
Hugo Martins
A Língua Portuguesa, em sua evolução histórica, conheceu três sistemas ortográficos: o período fonético, o período pseudo-etimológico e o sistema simplificado. No primeiro, as palavras eram grafadas tal como eram pronunciadas. Assim, podia-se grafar a mesma palavra de uma ou mais formas. Por esse sistema, por exemplo, a palavra “mesa” poderia ser assim grafada, como também pela forma “meza”. Quer dizer, não existia, o que é de se esperar, uma uniformização gráfica. A grafia da palavra submetia-se ao talante de quem a escrevia. Esse sistema perdurou do ano de 1189, quando surgiu o primeiro texto literário escrito em língua portuguesa, até o Renascimento, quando do aparecimento de Luís de Camões e a valorização dos estudos greco-latinos.
O sistema pseudoetimológico, parido por influência de um eruditismo vazio, apanágio de alguns pedantes, que absorveram os ideais clássicos de modo bastardo, instaurou um pandemônio, pois de científico nada possuía, a não ser o joguete vaidoso de alguns peralvilhos irresponsáveis, que instilararam no sistema ortográfico a indisciplina e a anticientificidade. Bons exemplos das tiradas de gramáticos caprichosos, pacientes da diarréia greco-romana, eram a grafia de palavras como docto, infermo, egreja, lyryo, sancto, eschola e outras tantas, meras especulações fantasiosas e risíveis, sem nenhuma base epistemológica.
O foneticista português Gonçalves Viana foi quem encontrou uma solução sui generis para tornar mais acessível e sistemática a ortografia portuguesa, quando, em 1904, publicou a obra Ortografia Nacional, renovando e simplificando alguns princípios consentâneos com o modo de ser do idioma, que um bom latinista/helenista bem pode explicar. Tornou-se oficial em terras lusas em 1911 por força de um decreto governamental.
Desde 1943, o Sistema Ortográfico Simplificado, da lavra daquele gramático português, passou a viger no Brasil. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), publicado pela Academia Brasileira de Letras, enfeixa a grafia oficial de todas as palavras que, em terras brasileiras, se grafarem. Desde então, se promoveram apenas algumas mudanças concernentes tão-só ao uso do acento gráfico, notações que serão, certamente, com o tempo, abolidas por desnecessárias...
Em 1971, ocorreu uma reforma nesse sentido, cogitaram-se outras mudanças, agora não só suprimindo acentos diferenciais, mas também se propondo a grafia mais simplificada de algumas palavras.
Em essência, ortografia é convenção, não língua portuguesa. Muda ao sabor das vicissitudes históricas. Não se aprende por regras, mas pela leitura. Funciona, como uma máquina que fotografa a configuração gráfica da palavra. Sendo esta bem fotografada, certamente será revelada com grande fidelidade, no momento da escrita...
Por isso, as mudanças no sistema ortográfico nacional não se devem constituir motivos para apreensões. A leitura resolve. A leitura resolve até mesmo problemas atinentes à língua portuguesa...
Ler, parafraseando Severiano Ribeiro, ainda é a maior diversão... e a melhor solução.
SAUDADE MUITA – III
Hugo Martins
Tudo se resolvia no Centro. Era como o fórum romano ou a ágora grega. Não havia essa coisa de bairro independente. A cidade não possuía ainda ares de metrópole. Nada de catedral de consumo. Havia o “quarteirão sucesso” da cidade, onde se podia comprar roupas, sapatos, eletrodomésticos e tudo para o lar. Geografia: rua Barão do Rio Branco, rua Major Facundo, Rua Guilherme Rocha e Rua Liberato Barroso, Ali estavam a Casa Parente, as Lojas Rouvâni Modas, as Lojas Flama (símbolo de distinção), a Farmácia Pasteur, A CVB Cearense, as Lojas Pernambucanas, as Lojas de Variedades, A Ocapana, Foto Sales, Cine Majestic, Cine Moderno, Cine Diogo, Cine São Luiz, Lojas Vox, o Café Cearazinho, o Romcy, as Lojas Esquisitas, a Miscelânea, a Farmácia Osvaldo Cruz, as lojas Silveira Alencar, a loja a Cruzeiro e a Casa das Máquinas, o maior crediário do Ceará, onde você podia comprar, em módicas prestações, um piano Essenfelder. Gêneros alimentícios só na feira ou nas mercearias e bodegas, em que se podia fazer uso de crediário nas famosas cadernetas. Nelas, feita a compra, o comerciante especificava a mercadoria, acompanhada do preço correspondente. No final do mês, feito o pagamento, abria-se nova linha de crédito... Muito bom.
Postar uma carta nos Correios só no Centro. Tomar conhecimento de uma ordem de pagamento bancária só no Centro. Enviar telegrama pela Western (o destinatário recebia essa correspondência em 24 horas) só no Centro. Comprar pão semolina só no centro. Pegar ônibus para ir à praia só no centro. Saber das novidades do esporte local só no Centro, precisamente no Abrigo Central. Assistir a uma luta livre só no Centro, na Fênix Caixeiral. Os bairros eram só bairros, conglomerados residenciais com ares de província, pouco trânsito e muita tranquilidade
Saber a que filme assistir só no Centro. Era um programão sair de casa, apanhar um ônibus a fim de ir “ver os cartazes”, fotografias de determinadas cenas da ambiência do filme, bem como do elenco. Os jornais ainda não se ocupavam do assunto, tampouco faziam resenhas deste ou daquele filme. A valoração que se fazia das possibilidades de o filme ser bom ou não levava em conta os atores e atrizes principais. Eram estrelas na época: Burt Lancaster, Tony Curtis, Gary Cooper, Raff Valonne, Gina Lolobrígida, Brigite Bardot, Milena Demongéot, Pascale Petit, Gregory Peck, Sal Míneo, Paul Newman, Kirk Douglas, Alain Delon, Ives Montand, Jean Gabin, Elke Sommer, Cláudia Cardinale, Randolph Scott, Rock Hudson, Clark Gable, Spencer Tracy, Katharine Hepburn, Pedro Armendáriz, Sarita Montiel, Cary Grant, John Waine, Stewart Granger, Henry Fonda James Stewart, Jeff Chandler, Audrey Hepburn, Grace Kelly, Debra Pajet, Elisabeth Taylor, para citar os mais presentes nas telas. Aqui no Brasil: Cyl Farney, Eliana, Grande Otelo, Oscarito, Zé Trindade, Dercy Gonçalves, Violeta Ferraz, atores das chamadas chanchadas ou comédias da Atlântida. Essa turma causava muita alegria e emoção nas sessões vespertinas durante a semana, nas matinais de domingo no cine São Luiz, cine Diogo, bem como nos cines Majestic, Moderno, Samburá, Jangada e Toaçu, todos no Centro de Fortaleza. Agora, digo como Chico Anísio ao fim da aula na Escolinha do Professor Raimundo: “ e a saudade? Oh!” E abria os braços para exprimir a imensidão dela...
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Hugo Martins
Tudo se resolvia no Centro. Era como o fórum romano ou a ágora grega. Não havia essa coisa de bairro independente. A cidade não possuía ainda ares de metrópole. Nada de catedral de consumo. Havia o “quarteirão sucesso” da cidade, onde se podia comprar roupas, sapatos, eletrodomésticos e tudo para o lar. Geografia: rua Barão do Rio Branco, rua Major Facundo, Rua Guilherme Rocha e Rua Liberato Barroso, Ali estavam a Casa Parente, as Lojas Rouvâni Modas, as Lojas Flama (símbolo de distinção), a Farmácia Pasteur, A CVB Cearense, as Lojas Pernambucanas, as Lojas de Variedades, A Ocapana, Foto Sales, Cine Majestic, Cine Moderno, Cine Diogo, Cine São Luiz, Lojas Vox, o Café Cearazinho, o Romcy, as Lojas Esquisitas, a Miscelânea, a Farmácia Osvaldo Cruz, as lojas Silveira Alencar, a loja a Cruzeiro e a Casa das Máquinas, o maior crediário do Ceará, onde você podia comprar, em módicas prestações, um piano Essenfelder. Gêneros alimentícios só na feira ou nas mercearias e bodegas, em que se podia fazer uso de crediário nas famosas cadernetas. Nelas, feita a compra, o comerciante especificava a mercadoria, acompanhada do preço correspondente. No final do mês, feito o pagamento, abria-se nova linha de crédito... Muito bom.
Postar uma carta nos Correios só no Centro. Tomar conhecimento de uma ordem de pagamento bancária só no Centro. Enviar telegrama pela Western (o destinatário recebia essa correspondência em 24 horas) só no Centro. Comprar pão semolina só no centro. Pegar ônibus para ir à praia só no centro. Saber das novidades do esporte local só no Centro, precisamente no Abrigo Central. Assistir a uma luta livre só no Centro, na Fênix Caixeiral. Os bairros eram só bairros, conglomerados residenciais com ares de província, pouco trânsito e muita tranquilidade
Saber a que filme assistir só no Centro. Era um programão sair de casa, apanhar um ônibus a fim de ir “ver os cartazes”, fotografias de determinadas cenas da ambiência do filme, bem como do elenco. Os jornais ainda não se ocupavam do assunto, tampouco faziam resenhas deste ou daquele filme. A valoração que se fazia das possibilidades de o filme ser bom ou não levava em conta os atores e atrizes principais. Eram estrelas na época: Burt Lancaster, Tony Curtis, Gary Cooper, Raff Valonne, Gina Lolobrígida, Brigite Bardot, Milena Demongéot, Pascale Petit, Gregory Peck, Sal Míneo, Paul Newman, Kirk Douglas, Alain Delon, Ives Montand, Jean Gabin, Elke Sommer, Cláudia Cardinale, Randolph Scott, Rock Hudson, Clark Gable, Spencer Tracy, Katharine Hepburn, Pedro Armendáriz, Sarita Montiel, Cary Grant, John Waine, Stewart Granger, Henry Fonda James Stewart, Jeff Chandler, Audrey Hepburn, Grace Kelly, Debra Pajet, Elisabeth Taylor, para citar os mais presentes nas telas. Aqui no Brasil: Cyl Farney, Eliana, Grande Otelo, Oscarito, Zé Trindade, Dercy Gonçalves, Violeta Ferraz, atores das chamadas chanchadas ou comédias da Atlântida. Essa turma causava muita alegria e emoção nas sessões vespertinas durante a semana, nas matinais de domingo no cine São Luiz, cine Diogo, bem como nos cines Majestic, Moderno, Samburá, Jangada e Toaçu, todos no Centro de Fortaleza. Agora, digo como Chico Anísio ao fim da aula na Escolinha do Professor Raimundo: “ e a saudade? Oh!” E abria os braços para exprimir a imensidão dela...
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segunda-feira, 19 de junho de 2017
SAUDADE MUITA – II
Hugo Martins
Coisas que ficaram marcadas de modo indelével em minhas lembranças e me são mui caras... O tempo passou na sua pontualidade física ou nós passamos por ele? Não importa. Interessa que, de um modo ou de outro, ficaram respingos de sua “passagem” em nossa memória.
Recordo-me das tardes, em que brincando na pracinha de minha cidade natal, ouvia o badalar dos sinos e, com ele, flagrava a súbita revoada de bandos de andorinhas, que riscavam o ar numa cadência indisciplinada e fragorosa em busca de outras plagas. Às vezes, ouvia, de uma radiola a pilha, colocada em uma das torres da igreja, os acordes tristonhos da Serenata de Schubert. Nada entendia eu de música, mas aquilo me tocava fundo na alma. Ainda hoje, quando a ouço, vem-me à lembrança aquela atmosfera, acompanhada de pitadas de imensa tristeza. Creio que isso mais se introjetou e se fixou em minhas reminiscências porque o padre mandava o sacristão colocar aquela música toda vez que, por ali, passava um cortejo de gente a levar alguém a sepultar... Depois de alguns anos, a Serenata do compositor alemão era colocada a tocar, nas rádios, em todo fim de tarde, como a marcar a hora da Ave, Maria (Ave, Maria, gratia plena, dominus tecum...). Hoje, já não se ouve o bimbalhar de sinos, tampouco se veem andorinhas em revoos ou mesmo se ouve a gratuidade da ave, Maria anunciando a hora crepuscular...
Recordo-me de algumas manhãs, em que, do quintal de nossa casa, onde brincava com terra, em meio a árvores e bichos, corria ao ouvir o toque da banda de música do Tiro de Guerra, que entoava dobrados que me deixavam emocionado. Nunca me fugiu da lembrança a figura do Sargento Carlos, que, com seu porte marcial, marchava à frente de um pelotão formado de moços que serviam o Exército. Garboso, marcava a cadência com passos firmes... E lá se ia o pelotão evoluindo ao som do Hino do Exército brasileiro ou aos acordes tristonhos do Saudades da Minha Terra, espécie de hino feito em homenagem à FEB ou aos pracinhas brasileiros, que participaram da II Guerra em território italiano... Tudo aquilo, para mim, era uma festa para os olhos e um fervilhar de emoções mexendo no coração aberto do menino ingênuo e sensível...
Recordo-me das manhãs de férias escolares do meio do ano. Açude cheio até a tampa. Sangradouro a escorrer estirão de águas borbulhantes, contornando árvores, arbustos e pedras, nas quais a meninada se alçava para, de cesto na mão, pegar as piabinhas que saltitavam fazendo ginástica no ar. Depois, toda a gurizada subia as paredes do velho açude e, de lá, tibungo dentro. Lembro que aprendemos a nadar em suas águas, montados num pedação de mulungu, madeira leve como cortiça. Vez por outra, largávamos nossa segurança e ensaiávamos umas braçadas tímidas e medrosas. E nesse jogo, nesse ensaio aquático, nesse vaivém, acabávamos por dominar o medo... Em pouco tempo, estávamos atravessando o açude de uma ponta à outra, ou brincando de cangapé, dando, à moda jogo de capoeira, pontapés nos companheiros sem a intenção de lesá-los... Ludismo, jogo, brincadeira pueril, encenação...
A título de fecho, é bom lembrar que o verbo recordar provém do latim, do substantivo COR, CORDIS, assim apresentado no dicionário, e significa coração, para a primeira forma, e do coração para a outra. Daí cordial, cordialidade, concórdia, discórdia, concordância, discordância... Quanto ao verbo em pauta, é a ele acrescer o prefixo RE, na acepção de repetir, que resultará o significado de TRAZER AO CORAÇÃO. Claro que trazemos os fatos à memória, contrariando os antigos, que colocavam as emoções no coração... Ainda assim, basta o efeito, a sede é secundária.
Sempre “haverá um tempo em que...”
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Hugo Martins
Coisas que ficaram marcadas de modo indelével em minhas lembranças e me são mui caras... O tempo passou na sua pontualidade física ou nós passamos por ele? Não importa. Interessa que, de um modo ou de outro, ficaram respingos de sua “passagem” em nossa memória.
Recordo-me das tardes, em que brincando na pracinha de minha cidade natal, ouvia o badalar dos sinos e, com ele, flagrava a súbita revoada de bandos de andorinhas, que riscavam o ar numa cadência indisciplinada e fragorosa em busca de outras plagas. Às vezes, ouvia, de uma radiola a pilha, colocada em uma das torres da igreja, os acordes tristonhos da Serenata de Schubert. Nada entendia eu de música, mas aquilo me tocava fundo na alma. Ainda hoje, quando a ouço, vem-me à lembrança aquela atmosfera, acompanhada de pitadas de imensa tristeza. Creio que isso mais se introjetou e se fixou em minhas reminiscências porque o padre mandava o sacristão colocar aquela música toda vez que, por ali, passava um cortejo de gente a levar alguém a sepultar... Depois de alguns anos, a Serenata do compositor alemão era colocada a tocar, nas rádios, em todo fim de tarde, como a marcar a hora da Ave, Maria (Ave, Maria, gratia plena, dominus tecum...). Hoje, já não se ouve o bimbalhar de sinos, tampouco se veem andorinhas em revoos ou mesmo se ouve a gratuidade da ave, Maria anunciando a hora crepuscular...
Recordo-me de algumas manhãs, em que, do quintal de nossa casa, onde brincava com terra, em meio a árvores e bichos, corria ao ouvir o toque da banda de música do Tiro de Guerra, que entoava dobrados que me deixavam emocionado. Nunca me fugiu da lembrança a figura do Sargento Carlos, que, com seu porte marcial, marchava à frente de um pelotão formado de moços que serviam o Exército. Garboso, marcava a cadência com passos firmes... E lá se ia o pelotão evoluindo ao som do Hino do Exército brasileiro ou aos acordes tristonhos do Saudades da Minha Terra, espécie de hino feito em homenagem à FEB ou aos pracinhas brasileiros, que participaram da II Guerra em território italiano... Tudo aquilo, para mim, era uma festa para os olhos e um fervilhar de emoções mexendo no coração aberto do menino ingênuo e sensível...
Recordo-me das manhãs de férias escolares do meio do ano. Açude cheio até a tampa. Sangradouro a escorrer estirão de águas borbulhantes, contornando árvores, arbustos e pedras, nas quais a meninada se alçava para, de cesto na mão, pegar as piabinhas que saltitavam fazendo ginástica no ar. Depois, toda a gurizada subia as paredes do velho açude e, de lá, tibungo dentro. Lembro que aprendemos a nadar em suas águas, montados num pedação de mulungu, madeira leve como cortiça. Vez por outra, largávamos nossa segurança e ensaiávamos umas braçadas tímidas e medrosas. E nesse jogo, nesse ensaio aquático, nesse vaivém, acabávamos por dominar o medo... Em pouco tempo, estávamos atravessando o açude de uma ponta à outra, ou brincando de cangapé, dando, à moda jogo de capoeira, pontapés nos companheiros sem a intenção de lesá-los... Ludismo, jogo, brincadeira pueril, encenação...
A título de fecho, é bom lembrar que o verbo recordar provém do latim, do substantivo COR, CORDIS, assim apresentado no dicionário, e significa coração, para a primeira forma, e do coração para a outra. Daí cordial, cordialidade, concórdia, discórdia, concordância, discordância... Quanto ao verbo em pauta, é a ele acrescer o prefixo RE, na acepção de repetir, que resultará o significado de TRAZER AO CORAÇÃO. Claro que trazemos os fatos à memória, contrariando os antigos, que colocavam as emoções no coração... Ainda assim, basta o efeito, a sede é secundária.
Sempre “haverá um tempo em que...”
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SAUDADE MUITA
Hugo Martins
A saudade não se explica, experimenta-se. Também não cabe em conceitos universais. Daí, aquele verso célebre de Catulo da Paixão Cearense: “como definir o que só sei sentir? ” Às vezes, vem travestida de outros sentimentos e acepções tais como nostalgia e banzo... Hoje se abateu sobre mim e, para entendê-la, faz-se necessário acionar o mecanismo da memória, deixar que os fatos se entremostrem. A primeira não subsiste senão com a segunda... Vamos a esta, pescando os episódios mais comezinhos do dia a dia, aqueles que já se foram e, aparentemente, não tiveram importância alguma em nossas vidas. Na verdade, estão hibernando, aguardando que o devir, a dolorosa passagem do tempo, nos cutuque, nos desperte e coloque, ante nossas fuças, momentos em que “fomos”, parafraseando Ataulfo Alves e Mário Lago, “felizes e não sabíamos”...
Muitas são as saudades das reuniões que nós, meninos, fazíamos, nas esquinas e ruas da cidade, para bater “racha” no calçamento, ou soltar arraia (alguns chamam pipa ou papagaio), jogar bila (bola de gude), brincar de “bandeira”, de “sete pecados” ou pular corda bambeada com “pimentão” e tudo. Tinha também o chicote queimado ou o “passarinho no ninho” e o “cobra no buraco”. “Tá quente, tá frio...”
Muitas são as saudades quando, à noitinha, depois da janta, meninos e meninas se encontravam para brincar de “roda” e cantar canções em que um grupo, oposto a outro, dizia “querer uma de vossas filhas” e o outro perguntava “que ofício dar a ela?” Em seguida, a cada fala, partida de um e de outro grupo, vinha um refrão que soava como se fosse da língua francesa e que ninguém sabia que significava. Mas era melodioso e se encaixava ao tom da cançoneta. “Bote aqui, bote aqui o seu pezinho, bem juntinho, bem juntinho do meu...” Às vezes, sentávamos na calçada, e brincávamos de “anel”, que consistia em passar as mãos, de palmas unidas, à moda corte, nas mãos, também espalmadas, de cada participante. No meio das palmas de quem cortava, estava o “anel”. Este era solto, ao bel-prazer, nas mãos de alguém com quem o “cortador” simpatizava. Olhares, sorrisos, desconfianças e comentários denunciavam o ingênuo namorico. Outras vezes, um dos brincantes sentava-se separadamente dos outros e fazia o papel de uma espécie de réu, a quem se abria um volumoso libelo de que saltava toda espécie de pergunta sobre assuntos da vida particular do sujeito, os quais ele não queria absolutamente que viessem à tona. Era a berlinda. As indagações eram de todo teor: inocentes, gaiatas, curiosas e maldosas. Como dizia um personagem de Chico Anísio: “só enfrenta quem aguenta. ” Havia também um tal “disparate”. Consistia em apresentar ao entrevistado uma série de perguntas, previamente enfileiradas num caderninho, que a tudo registrava. As perguntas eram, a princípio, “leves” e ingênuas. Do meio para o fim, esquentavam e se tornavam, muitas vezes, capciosas e escorregadias... Só enfrentava quem aguentava. Muita saudade das repetidas voltas em torno da pracinha, a trocar olhares ou oferecer bombom (pipper ou azedinho) como artimanha para uma aproximação. Desse ir e vir, podia resultar uma esticada ao cinema; duas semanas depois, o pegar na mão; ao fim de quatro semanas, o primeiro beijo. Tudo dependia do lugar, do momento, da audácia do rapazola e do assanhamento da moçoila. Tudo era festa, era encantamento, era amor derramado, do mais puro, cheio de sonho e doces quimeras...
Muitas saudades do toque melancólico dos sinos, das novenas, trezenas, festas de santos padroeiros; dos leilões, da bandinha tocando dobrados no coreto da pracinha ou no patamar da igreja. Muitas saudades das quermesses, da roda-gigante, da “ispaia” brasa, dos barcos, do carrossel, dos laços de fita (o azul ou o vermelho?). Da menina de tranças, em cujas pontas também havia lacinhos... Muitas saudades mesmo do apagar das luzes da cidade em obediência a três sinais, que se sucediam em exatos quinze minutos. Assim, o sujeito, não fosse noite de lua cheia, teria tempo de tratar de ir para casa, tal o menino de Braçanã, que mesmo tarde, ia “embora, sem medo na escuridão” porque “quem anda com Jesus Cristo não tem medo de assombração”... E o menino dizia “e eu ando com Jesus Cristo no meu coração.” Saudade muita, mesmo...
Tem mais...
Hugo Martins
A saudade não se explica, experimenta-se. Também não cabe em conceitos universais. Daí, aquele verso célebre de Catulo da Paixão Cearense: “como definir o que só sei sentir? ” Às vezes, vem travestida de outros sentimentos e acepções tais como nostalgia e banzo... Hoje se abateu sobre mim e, para entendê-la, faz-se necessário acionar o mecanismo da memória, deixar que os fatos se entremostrem. A primeira não subsiste senão com a segunda... Vamos a esta, pescando os episódios mais comezinhos do dia a dia, aqueles que já se foram e, aparentemente, não tiveram importância alguma em nossas vidas. Na verdade, estão hibernando, aguardando que o devir, a dolorosa passagem do tempo, nos cutuque, nos desperte e coloque, ante nossas fuças, momentos em que “fomos”, parafraseando Ataulfo Alves e Mário Lago, “felizes e não sabíamos”...
Muitas são as saudades das reuniões que nós, meninos, fazíamos, nas esquinas e ruas da cidade, para bater “racha” no calçamento, ou soltar arraia (alguns chamam pipa ou papagaio), jogar bila (bola de gude), brincar de “bandeira”, de “sete pecados” ou pular corda bambeada com “pimentão” e tudo. Tinha também o chicote queimado ou o “passarinho no ninho” e o “cobra no buraco”. “Tá quente, tá frio...”
Muitas são as saudades quando, à noitinha, depois da janta, meninos e meninas se encontravam para brincar de “roda” e cantar canções em que um grupo, oposto a outro, dizia “querer uma de vossas filhas” e o outro perguntava “que ofício dar a ela?” Em seguida, a cada fala, partida de um e de outro grupo, vinha um refrão que soava como se fosse da língua francesa e que ninguém sabia que significava. Mas era melodioso e se encaixava ao tom da cançoneta. “Bote aqui, bote aqui o seu pezinho, bem juntinho, bem juntinho do meu...” Às vezes, sentávamos na calçada, e brincávamos de “anel”, que consistia em passar as mãos, de palmas unidas, à moda corte, nas mãos, também espalmadas, de cada participante. No meio das palmas de quem cortava, estava o “anel”. Este era solto, ao bel-prazer, nas mãos de alguém com quem o “cortador” simpatizava. Olhares, sorrisos, desconfianças e comentários denunciavam o ingênuo namorico. Outras vezes, um dos brincantes sentava-se separadamente dos outros e fazia o papel de uma espécie de réu, a quem se abria um volumoso libelo de que saltava toda espécie de pergunta sobre assuntos da vida particular do sujeito, os quais ele não queria absolutamente que viessem à tona. Era a berlinda. As indagações eram de todo teor: inocentes, gaiatas, curiosas e maldosas. Como dizia um personagem de Chico Anísio: “só enfrenta quem aguenta. ” Havia também um tal “disparate”. Consistia em apresentar ao entrevistado uma série de perguntas, previamente enfileiradas num caderninho, que a tudo registrava. As perguntas eram, a princípio, “leves” e ingênuas. Do meio para o fim, esquentavam e se tornavam, muitas vezes, capciosas e escorregadias... Só enfrentava quem aguentava. Muita saudade das repetidas voltas em torno da pracinha, a trocar olhares ou oferecer bombom (pipper ou azedinho) como artimanha para uma aproximação. Desse ir e vir, podia resultar uma esticada ao cinema; duas semanas depois, o pegar na mão; ao fim de quatro semanas, o primeiro beijo. Tudo dependia do lugar, do momento, da audácia do rapazola e do assanhamento da moçoila. Tudo era festa, era encantamento, era amor derramado, do mais puro, cheio de sonho e doces quimeras...
Muitas saudades do toque melancólico dos sinos, das novenas, trezenas, festas de santos padroeiros; dos leilões, da bandinha tocando dobrados no coreto da pracinha ou no patamar da igreja. Muitas saudades das quermesses, da roda-gigante, da “ispaia” brasa, dos barcos, do carrossel, dos laços de fita (o azul ou o vermelho?). Da menina de tranças, em cujas pontas também havia lacinhos... Muitas saudades mesmo do apagar das luzes da cidade em obediência a três sinais, que se sucediam em exatos quinze minutos. Assim, o sujeito, não fosse noite de lua cheia, teria tempo de tratar de ir para casa, tal o menino de Braçanã, que mesmo tarde, ia “embora, sem medo na escuridão” porque “quem anda com Jesus Cristo não tem medo de assombração”... E o menino dizia “e eu ando com Jesus Cristo no meu coração.” Saudade muita, mesmo...
Tem mais...
terça-feira, 13 de junho de 2017
VERSO
E LEITURA.
Hugo
Martins
Olavo Bilac escreveu dois
poemas famosos, espécie de diretrizes ao poeta filiado à estética parnasiana. O
primeiro é o longo poema Profissão de Fé; o outro é o soneto A Um Poeta. Em
ambos, o conteúdo não assume a mesma importância que a forma, sobretudo aquela
que se aproxima da perfeição do ideário da escola a que também se filiaram
Raimundo Corrêa, Alberto de Oliveira e Vicente de Carvalho. A doutrina da
chamada “arte pela arte” deixa entrever essa idéia da busca infrene pela
perfeição formal, que é traduzida na métrica, na rima e na escolha do
vocabulário...
Vamos transcrever o
primeiro quarteto do soneto referido, texto que aparentemente oferece
dificuldade de leitura. No entanto, desvendado o vocabulário e aplicadas as
regras sintáticas de colocação, de concordância e de regência, o espírito do
texto se elucida, claro como as manhãs das auroras claras. Já dissemos do título, que aponta para um
destinatário filiado ao Parnasianismo.
A
UM POETA
Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência, no
sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e
sofre, e sua!
Transpondo para a ordem
direta. Há duas frases no texto: a primeira, que vai de “Longe” a “escreve”. O
restante constitui a segunda frase. Leiamos a primeira. Observar que o verbo “escrever se encontra na segunda pessoa do singular
do modo imperativo, portanto, a pessoa a que se refere é o pronome pessoal tu. “Beneditino”
é mero vocativo, que pode ser colocado em qualquer lugar da frase, pois não
mantém vínculo sintático com nenhum outro termo. Seu vínculo é meramente
semântico-textual. Assim temos: “Escreve tu, Beneditino, longe do estéril turbilhão
da rua.” Bilac compara o poeta, quando escreve, a um monge beneditino, isolado
do mundo (no aconchego do claustro) e, por isso, (longe) distante de qualquer
influência que não seja tão só o fazer poético A poesia parnasiana não deve
estar atrelada a questões outras a não ser a essa quase obsessão pela forma, já
aqui ressaltada.
Observar que os verbos da
segunda frase se encontram no mesmo modo e pessoa que o verbo “escrever” da
primeira. A leitura deve começar por eles, que, repita-se, fazem alusão ao
pronome pessoal tu. Assim temos: “Beneditino, trabalha, e teima, e lima, e
sofre, e sua no aconchego do claustro, na paciência, no sossego”. A tarefa do
poeta deve ser levada a efeito, estando ele distanciado de tudo, escrevendo
paciente e sossegadamente. A repetição da conjunção “E”, no último verso
(polissíndeto), sugere o que dizem as formas verbais TRABALHAR, TEIMAR, LIMAR,
SOFRER, SUAR. É a luta insana do poeta, trabalhando, perseverando, desbastando
excessos, sofrendo e despendendo muito esforço para alcançar o a pureza formal.
O poeta parnasiano padece daquilo que Gustave
Flaubert, escritor francês, chamava de “a angústia da forma.” É próprio de todo
artista a busca, a luta, a angústia, o debater-se com o dizer. Ainda assim, a
maioria não fica satisfeita. “Lutar com palavras/é a luta mais vã./ Entanto
lutamos/ mal rompe a manhã”, no dizer de Drummond de Andrade.
Essa luta com a expressão
é divertida para nós, leigos. Torna-se menos árdua quando o indivíduo coloca
como divertimento diuturno a leitura, a leitura, a leitura, a leitura. Não se
necessita das regras mágicas do “professor de redação”. Machado de Assis,
Monteiro Lobato, Olavo Bilac e os grandes escritores de modo geral nunca
tiveram professor de redação... Eram empedernidos leitores de tudo que lhes
caía nas mãos.
SIMPLIFICANDO:
BENEDITINO, ESCREVE LONGE
DO TURBILHÃO ESTÉRIL DA RUA.
BENEDITINO, TRABALHA, E
TEIMA, E LIMA E SOFRE E SUA NO ACONCHEGO DO CLAUSTRO, NA PACIÊNCIA E NO
SOSSEGO.
Voilà.
Simples, não?
HORA CREPUSCULAR? ARREBOL? OCASO? PÔR DO SOL?
Hugo Martins
Quer o leitor entrar na ambiência da chamada “arte pela arte”, proposta maior do estilo de época da escola parnasiana? Quer constatar que os poetas filiados a essa proposta estética exalçam a forma em detrimento do conteúdo? Então vamos à leitura de um célebre soneto de Raimundo Corrêa, em que o poeta flagra um ocaso (aquilo que cai), um arrebol (de rubor, vermelhidão do pôr do sol), a hora crepuscular (lusco-fusco vespertino), um pôr do sol. Como se trata de um soneto, vamos proceder à leitura por parte.
Transcrevamos o texto, recorrendo, em seguida, ao jogo sintático-semântico a fim de se depreender, com segurança, a “pintura” do quadro com a tintura das palavras. Suficiente colocar todas as frases e expressões para a ordem direta. É mais de meio caminho andado. Arrumadas as ideias à luz da sintaxe, o passo seguinte é verificar o significado de expressões que possam escamotear sua real acepção sob o véu tênue da linguagem figurada. Vamos lá. São apenas catorze versos. A propósito, verso é retorno que o arado fazia ao findar a feitura de cada sulco na terra. Daí ser o verso uma linha descontínua, ao contrário da linha da linguagem em prosa. Vamos lá aos dois quartetos e aos dois tercetos, forma do soneto...
ANOITECER
Raimundo Corrêa
Esbraseia o Ocidente na agonia
O Sol... Aves, em bandos destacados,
Por céus de ouro e de púrpura raiados,
Fogem... Fecha-se a pálpebra do dia.
Temos três frases no primeiro quarteto. Vamos à ordem direta. O SOL NA AGONIA ESBRASEIA O OCIDENTE. AVES FOGEM, EM BANDOS DESTACADOS, POR CÉUS RAIADOS DE OURO E DE PÚRPURA. A PÁLBEBRA DO DIA SE FECHA. Comentários. Na primeira frase, o sintagma preposicional “na agonia” prende-se sintaticamente ao substantivo Sol, pois este é que se encontra agonizante, ideia sugerida pela palavra “ocidente”, de origem latina, que significa lugar em que ocorre “a “morte” do Sol. O verbo esbrasear, por sua vez, conjugado na primeira pessoa do presente do indicativo, tem parentesco formal com brasa, cuja coloração sugere a cor do firmamento quando o sol se põe. Tal sugerência é ainda fortalecida quando o poeta se refere a “de ouro” e “de púrpura”, complementos de céus”. Soma de amarelo (ouro) com vermelho (púrpura) resulta aquilo que, aqui no Ceará, chamamos de amarelo-queimado. Por fim, o poeta recorre à figura da personificação, emprestando ao dia um par de pálpebras, que se fecham como anunciando o dia cedendo lugar à noite. Observar que o fenômeno não se revelou de todo. Veja-se que, neste quarteto, e nas demais estrofes que virão, o poeta assinala o fechamento de frase com reticências, como a dizer que o quadro ainda não se completou. A última pincelada se dá com o último verbo da última estrofe...
Delineiam-se, além da serrania,
Os vértices de chama aureolados.
E em tudo, em torno, esbatem derramados,
Uns tons suaves de melancolia...
Vamos à ordem direta. OS VÉRTICES, QUE ESTÃO AUREOLADOS DE CHAMA, DELINEIAM-SE ALÉM DA SERRANIA. UNS TONS SUAVES DE MELANCOLIA ESBATEM DERRAMADOS EM TUDO EM TORNO. Comentários. Na expressão “aureolados de chama”, temos uma palavra derivada de auréola, que, por sua vez, deriva de áureo, de “aurum” (ouro, em latim), combinada com “chama”, que lembra fogo, ideia já presente francamente na primeira estrofe: a coloração do céu à hora crepuscular. Nos dois últimos versos, toda a natureza está tomada pela melancolia resultante do momento em si. Lembrar a auréola, aquele círculo luminoso, sobreposto à cabeça de santos, sobrepairando os cumes das serras... Bela imagem.
Um mundo de vapores no ar flutua...
Como uma informe nódoa, avulta e cresce
A sombra, à proporção que a luz recua...
A natureza apática esmaece...
Pouco a pouco, entre as árvores, a lua
Surge trêmula, trêmula... Anoitece.
Vamos à ordem direta dos dois tercetos. UM MUNDO DE VAPORES FLUTUA NO AR... A SOMBRA AVULTA E CRESCE SEMELHANTE A UMA NÓDOA (mancha) INFORME À PROPORÇÃO QUE A LUZ RECUA... Comentário. A luz do dia, em compasso proporcional, cede lugar às sombras da noite. Por fim, o segundo terceto. A NATUREZA ESMAECE APÁTICA...A LUA SURGE TRÊMULA, TRÊMULA, POUCO A POUCO, ENTRE AS ÁRVORES. ANOITECE. Plasticidade perfeita. Visão clara. Quadro completado. Lembrar que o uso repetido do adjetivo “trêmula” nada mais é que o uso superlativo do adjetivo. No lugar de tremulíssima, o poeta preferiu seguir o estilo do superlativo hebraico tal como fez Castro Alves quando, se referindo ao negror dos olhos de sua amada, disse, superlativamente: “TEUS OLHOS SÃO NEGROS, NEGROS COMO AS NOITES SEM LUAR”. Eugênia Câmara, sua musa, não teria gostado se o vate baiano tivesse utilizado “NEGRÍSSIMOS” no lugar de “NEGROS, NEGROS. ”
Eis aí... Quem quiser acrescente mais “arte pela arte” dos parnasianos. Disso não se duvide: leitura é ludismo, é brincadeira das mais agradáveis...
Hugo Martins
Quer o leitor entrar na ambiência da chamada “arte pela arte”, proposta maior do estilo de época da escola parnasiana? Quer constatar que os poetas filiados a essa proposta estética exalçam a forma em detrimento do conteúdo? Então vamos à leitura de um célebre soneto de Raimundo Corrêa, em que o poeta flagra um ocaso (aquilo que cai), um arrebol (de rubor, vermelhidão do pôr do sol), a hora crepuscular (lusco-fusco vespertino), um pôr do sol. Como se trata de um soneto, vamos proceder à leitura por parte.
Transcrevamos o texto, recorrendo, em seguida, ao jogo sintático-semântico a fim de se depreender, com segurança, a “pintura” do quadro com a tintura das palavras. Suficiente colocar todas as frases e expressões para a ordem direta. É mais de meio caminho andado. Arrumadas as ideias à luz da sintaxe, o passo seguinte é verificar o significado de expressões que possam escamotear sua real acepção sob o véu tênue da linguagem figurada. Vamos lá. São apenas catorze versos. A propósito, verso é retorno que o arado fazia ao findar a feitura de cada sulco na terra. Daí ser o verso uma linha descontínua, ao contrário da linha da linguagem em prosa. Vamos lá aos dois quartetos e aos dois tercetos, forma do soneto...
ANOITECER
Raimundo Corrêa
Esbraseia o Ocidente na agonia
O Sol... Aves, em bandos destacados,
Por céus de ouro e de púrpura raiados,
Fogem... Fecha-se a pálpebra do dia.
Temos três frases no primeiro quarteto. Vamos à ordem direta. O SOL NA AGONIA ESBRASEIA O OCIDENTE. AVES FOGEM, EM BANDOS DESTACADOS, POR CÉUS RAIADOS DE OURO E DE PÚRPURA. A PÁLBEBRA DO DIA SE FECHA. Comentários. Na primeira frase, o sintagma preposicional “na agonia” prende-se sintaticamente ao substantivo Sol, pois este é que se encontra agonizante, ideia sugerida pela palavra “ocidente”, de origem latina, que significa lugar em que ocorre “a “morte” do Sol. O verbo esbrasear, por sua vez, conjugado na primeira pessoa do presente do indicativo, tem parentesco formal com brasa, cuja coloração sugere a cor do firmamento quando o sol se põe. Tal sugerência é ainda fortalecida quando o poeta se refere a “de ouro” e “de púrpura”, complementos de céus”. Soma de amarelo (ouro) com vermelho (púrpura) resulta aquilo que, aqui no Ceará, chamamos de amarelo-queimado. Por fim, o poeta recorre à figura da personificação, emprestando ao dia um par de pálpebras, que se fecham como anunciando o dia cedendo lugar à noite. Observar que o fenômeno não se revelou de todo. Veja-se que, neste quarteto, e nas demais estrofes que virão, o poeta assinala o fechamento de frase com reticências, como a dizer que o quadro ainda não se completou. A última pincelada se dá com o último verbo da última estrofe...
Delineiam-se, além da serrania,
Os vértices de chama aureolados.
E em tudo, em torno, esbatem derramados,
Uns tons suaves de melancolia...
Vamos à ordem direta. OS VÉRTICES, QUE ESTÃO AUREOLADOS DE CHAMA, DELINEIAM-SE ALÉM DA SERRANIA. UNS TONS SUAVES DE MELANCOLIA ESBATEM DERRAMADOS EM TUDO EM TORNO. Comentários. Na expressão “aureolados de chama”, temos uma palavra derivada de auréola, que, por sua vez, deriva de áureo, de “aurum” (ouro, em latim), combinada com “chama”, que lembra fogo, ideia já presente francamente na primeira estrofe: a coloração do céu à hora crepuscular. Nos dois últimos versos, toda a natureza está tomada pela melancolia resultante do momento em si. Lembrar a auréola, aquele círculo luminoso, sobreposto à cabeça de santos, sobrepairando os cumes das serras... Bela imagem.
Um mundo de vapores no ar flutua...
Como uma informe nódoa, avulta e cresce
A sombra, à proporção que a luz recua...
A natureza apática esmaece...
Pouco a pouco, entre as árvores, a lua
Surge trêmula, trêmula... Anoitece.
Vamos à ordem direta dos dois tercetos. UM MUNDO DE VAPORES FLUTUA NO AR... A SOMBRA AVULTA E CRESCE SEMELHANTE A UMA NÓDOA (mancha) INFORME À PROPORÇÃO QUE A LUZ RECUA... Comentário. A luz do dia, em compasso proporcional, cede lugar às sombras da noite. Por fim, o segundo terceto. A NATUREZA ESMAECE APÁTICA...A LUA SURGE TRÊMULA, TRÊMULA, POUCO A POUCO, ENTRE AS ÁRVORES. ANOITECE. Plasticidade perfeita. Visão clara. Quadro completado. Lembrar que o uso repetido do adjetivo “trêmula” nada mais é que o uso superlativo do adjetivo. No lugar de tremulíssima, o poeta preferiu seguir o estilo do superlativo hebraico tal como fez Castro Alves quando, se referindo ao negror dos olhos de sua amada, disse, superlativamente: “TEUS OLHOS SÃO NEGROS, NEGROS COMO AS NOITES SEM LUAR”. Eugênia Câmara, sua musa, não teria gostado se o vate baiano tivesse utilizado “NEGRÍSSIMOS” no lugar de “NEGROS, NEGROS. ”
Eis aí... Quem quiser acrescente mais “arte pela arte” dos parnasianos. Disso não se duvide: leitura é ludismo, é brincadeira das mais agradáveis...
PINTAR COM PALAVRAS
Hugo Martins
Descrever o mundo é apreendê-lo em sua feição plástica, ou seja, emprestar-lhe forma, volume, linha, enfim, retratá-lo usando a tintura das palavras, com especialidade o adjetivo. A palavra adjetivo, derivada do latim, é formada pela preposição AD, que significa junto a, e o radical JECTUS, que significa jogar, lançar. Este radical está presente, na língua portuguesa, em palavras como PROJETAR, INJETAR, ADJUNTO, ADJACÊNCIAS... Desse modo, adjetivo, em qualquer idioma, é a palavra “jogada” junto ao substantivo, modificando-o. Se este traduz a essência do mundo, o adjetivo diz da aparência do mundo. A boa adjetivação significa pintar o mundo. Tanto é que Voltaire já dizia que a união entre substantivo e adjetivo não admite ruptura. Quando esta acontece, não existiu compatibilidade entre um e outro, por isso podem se tornar inimigos figadais. Quando o leitor se impressiona com uma descrição, costuma dizer de si para si “parece que eu estou vendo”. Efeito do emprego acertado do adjetivo.
Na língua portuguesa, há legiões de adjetivadores. Uns exuberantes; outros mais comedidos; aquele elegante; este menos cuidadoso. Ao fim e ao cabo, tendo olhos para os estilos de época em literatura, todos são mestres em observar o que vai pelo mundo, em misturar as várias nuanças e variegados tons adjetivais para, ao final, terminar o quadro. Cabe ao leitor este emoldurar...
Na literatura portuguesa, a nosso ver, numa lista meramente exemplificativa, revelam-se grandes pintores: Luís Vaz de Camões, Almeida Garret, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Antonio Feliciano de Castilho, José Maria Eça de Queirós, Camilo Pessanha (com dois esses mesmo), José Régio, Fernando Pessoa e José Saramago...
Na literatura brasileira, no mesmo passo, Gregório de Matos Guerra, José de Alencar, Joaquim Maria Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Raimundo Corrêa (sem “i” mesmo), Olavo Bilac, Cruz e Sousa, José Bento Monteiro Lobato, Euclides da Cunha, Manuel Bandeira, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Carlos Drummond de Andrade... Lista, também, meramente exemplificativa...
Ler essa turma é começar a apreender a arte da adjetivação. Em aulas de língua portuguesa, não basta dizer o que é o adjetivo. Deve haver uma aproximação dele com a chamada leitura cuidadosa, no destrinçar o texto... O aluno com isso se entusiasma e pode, de súbito, querer tornar-se um leitor. Isso é possível. Não basta conhecer os aspectos mórficos, sintáticos e semânticos do adjetivo. Necessário sopesá-lo, descobrir suas possibilidades expressivas e aplicá-lo com precisão, de modo que ele não sobrenade na frase como mero figurante sem expressão alguma.
Só há uma forma de adjetivar com precisão: leitura, leitura e mais leitura. Mas leitura atenta, tomada com gosto, embebida como se faz com um copo de cerveja bem gelada. Depois de sorvida, estala-se a língua no palato para exprimir a satisfação de matar a sede atroz. Há também sede estética, “lombra” literária... Vamos a elas.
Noutro dia, virá texto exemplificativo: descrição e adjetivo na pena do poeta parnasiano Raimundo Corrêa. Um primor. Uau!!!
Namastê.
Hugo Martins
Descrever o mundo é apreendê-lo em sua feição plástica, ou seja, emprestar-lhe forma, volume, linha, enfim, retratá-lo usando a tintura das palavras, com especialidade o adjetivo. A palavra adjetivo, derivada do latim, é formada pela preposição AD, que significa junto a, e o radical JECTUS, que significa jogar, lançar. Este radical está presente, na língua portuguesa, em palavras como PROJETAR, INJETAR, ADJUNTO, ADJACÊNCIAS... Desse modo, adjetivo, em qualquer idioma, é a palavra “jogada” junto ao substantivo, modificando-o. Se este traduz a essência do mundo, o adjetivo diz da aparência do mundo. A boa adjetivação significa pintar o mundo. Tanto é que Voltaire já dizia que a união entre substantivo e adjetivo não admite ruptura. Quando esta acontece, não existiu compatibilidade entre um e outro, por isso podem se tornar inimigos figadais. Quando o leitor se impressiona com uma descrição, costuma dizer de si para si “parece que eu estou vendo”. Efeito do emprego acertado do adjetivo.
Na língua portuguesa, há legiões de adjetivadores. Uns exuberantes; outros mais comedidos; aquele elegante; este menos cuidadoso. Ao fim e ao cabo, tendo olhos para os estilos de época em literatura, todos são mestres em observar o que vai pelo mundo, em misturar as várias nuanças e variegados tons adjetivais para, ao final, terminar o quadro. Cabe ao leitor este emoldurar...
Na literatura portuguesa, a nosso ver, numa lista meramente exemplificativa, revelam-se grandes pintores: Luís Vaz de Camões, Almeida Garret, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Antonio Feliciano de Castilho, José Maria Eça de Queirós, Camilo Pessanha (com dois esses mesmo), José Régio, Fernando Pessoa e José Saramago...
Na literatura brasileira, no mesmo passo, Gregório de Matos Guerra, José de Alencar, Joaquim Maria Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Raimundo Corrêa (sem “i” mesmo), Olavo Bilac, Cruz e Sousa, José Bento Monteiro Lobato, Euclides da Cunha, Manuel Bandeira, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Carlos Drummond de Andrade... Lista, também, meramente exemplificativa...
Ler essa turma é começar a apreender a arte da adjetivação. Em aulas de língua portuguesa, não basta dizer o que é o adjetivo. Deve haver uma aproximação dele com a chamada leitura cuidadosa, no destrinçar o texto... O aluno com isso se entusiasma e pode, de súbito, querer tornar-se um leitor. Isso é possível. Não basta conhecer os aspectos mórficos, sintáticos e semânticos do adjetivo. Necessário sopesá-lo, descobrir suas possibilidades expressivas e aplicá-lo com precisão, de modo que ele não sobrenade na frase como mero figurante sem expressão alguma.
Só há uma forma de adjetivar com precisão: leitura, leitura e mais leitura. Mas leitura atenta, tomada com gosto, embebida como se faz com um copo de cerveja bem gelada. Depois de sorvida, estala-se a língua no palato para exprimir a satisfação de matar a sede atroz. Há também sede estética, “lombra” literária... Vamos a elas.
Noutro dia, virá texto exemplificativo: descrição e adjetivo na pena do poeta parnasiano Raimundo Corrêa. Um primor. Uau!!!
Namastê.
sexta-feira, 9 de junho de 2017
NONADAS NUMA TARDE QUENTE NA BELA CIDADE DE FORTALEZA, "a loura desposada do Sol, que dorme à sombra dos Palmares", conforme diz Paula Ney. 15:34 h, 8-6-2017.
Hugo Martins
Hoje não tenho quase nada para dizer, embora já o esteja dizendo. Aliás, boa parte dos cronistas recorre a este truque quando a inópia criativa os ataca. Nessa brincadeira do palavra puxa palavra, o texto vai surdindo até que chega a um ponto final, o outro lado da fronteira em que se escreve uma maiúscula. Entre um e outro se instala o talento de quem o tem para escrever. Se o medo se abate, o cronista tem que enfrentá-lo e garatujar o papel com palavras, ainda que sem nexo. Nesse jogo, de súbito, instaura-se o texto.
Como nenhuma inspiração ou ideia no momento me assalta, vou pensando em alguns enredos de livros, cuja leitura empreendi nestes últimos meses. Aliás. É bom que fique certo que se trata de releituras. Um dia, folheando um volume com sete obras de José Lins, vi que, para iniciar a leitura dos romances do ciclo-da-cana-de-açúcar do escritor paraibano, é imprescindível iniciar por Meus Verdes Anos, volume de memórias, as quais introduzem o leitor na compreensão daquele mundo de coronéis, meninos de engenho, cangaceiros e beatos. Para se inteirar deste mundo, deve-se principiar pela leitura de Menino de Engenho, Doidinho e Banguê, trilogia que tem por personagem central o menino Carlos Melo, alter ego romanceado de Zé Lins. Depois vem O Moleque Ricardo, obra que parece nada ter a ver com aquele ciclo. Embora a história se passe no Recife, as alusões e lembranças de Ricardo mantêm um elo com as vivências e ambiências do engenho. Em Usina, testemunha-se a débâcle do engenho artesanal ante o poderio das usinas. Há aqui o jogo do novo com o velho, o engenho de fogo morto e a imponência dos usineiros. Da mesma forma, contrapõe-se o administrador moderno com o que há de retrógrado nos coronéis.
O ciclo se fecha com Fogo Morto, obra maior do criador de Eurídice. Dividido em três partes, o romance põe às claras a decadência dos coronéis, os mesmos que figuram nas obras referidas. É aqui que surge um dos mais notáveis personagens da literatura brasileira, o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha, misto de herói de capa e espada com a ridicularia sublime e lírica do Dom Quixote de Cervantes. Vitorino é a própria contradição. Não aceita o desparecimento daquela estrutura social do desmando e do poder dos coronéis. Rejeita qualquer mudança que signifique a queda do prestígio daquelas figuras. Todos os seus atos são vistos como motivo para riso e motejo. Em compensação, constitui-se na figura mais coerente da obra, pois não abre mão de suas convicções e princípios. Se há um personagem grandioso em toda a galeria de Zé Lins, esse é o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha, o Papa Rabo.
Agora estou mesmo a rir dos palavrões cabeludos que o Capitão proferia quando era atingido pela gritaria dos moleques da bagaceira a atiçar-lhe a ira, gritando: Papa Rabo!!
Sublime Vitorino...
As obras Pedra Bonita e Cangaceiros retomam o bordão sociológico de duas figuras que, num sertão abandonado, ilhado e mal-educado, por se achar de tudo desprovido, lança mão de duas armas: o beatismo religioso ingênuo, que busca na metafísica barata, anunciando o fim dos tempos, alcançar o arrependimento dos pecadores; de outro lado, o cangaceirismo, atitude assumida por bando de celerados que fazem as próprias leis por ausência destas mesmas. É a lei da violência, dos desmandos, do desrespeito, da ignomínia. Beatos e cangaceiros formam, desse modo, colunas que rezam e matam para justificar a situação de abandono a que foram relegados...
Hugo Martins
Hoje não tenho quase nada para dizer, embora já o esteja dizendo. Aliás, boa parte dos cronistas recorre a este truque quando a inópia criativa os ataca. Nessa brincadeira do palavra puxa palavra, o texto vai surdindo até que chega a um ponto final, o outro lado da fronteira em que se escreve uma maiúscula. Entre um e outro se instala o talento de quem o tem para escrever. Se o medo se abate, o cronista tem que enfrentá-lo e garatujar o papel com palavras, ainda que sem nexo. Nesse jogo, de súbito, instaura-se o texto.
Como nenhuma inspiração ou ideia no momento me assalta, vou pensando em alguns enredos de livros, cuja leitura empreendi nestes últimos meses. Aliás. É bom que fique certo que se trata de releituras. Um dia, folheando um volume com sete obras de José Lins, vi que, para iniciar a leitura dos romances do ciclo-da-cana-de-açúcar do escritor paraibano, é imprescindível iniciar por Meus Verdes Anos, volume de memórias, as quais introduzem o leitor na compreensão daquele mundo de coronéis, meninos de engenho, cangaceiros e beatos. Para se inteirar deste mundo, deve-se principiar pela leitura de Menino de Engenho, Doidinho e Banguê, trilogia que tem por personagem central o menino Carlos Melo, alter ego romanceado de Zé Lins. Depois vem O Moleque Ricardo, obra que parece nada ter a ver com aquele ciclo. Embora a história se passe no Recife, as alusões e lembranças de Ricardo mantêm um elo com as vivências e ambiências do engenho. Em Usina, testemunha-se a débâcle do engenho artesanal ante o poderio das usinas. Há aqui o jogo do novo com o velho, o engenho de fogo morto e a imponência dos usineiros. Da mesma forma, contrapõe-se o administrador moderno com o que há de retrógrado nos coronéis.
O ciclo se fecha com Fogo Morto, obra maior do criador de Eurídice. Dividido em três partes, o romance põe às claras a decadência dos coronéis, os mesmos que figuram nas obras referidas. É aqui que surge um dos mais notáveis personagens da literatura brasileira, o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha, misto de herói de capa e espada com a ridicularia sublime e lírica do Dom Quixote de Cervantes. Vitorino é a própria contradição. Não aceita o desparecimento daquela estrutura social do desmando e do poder dos coronéis. Rejeita qualquer mudança que signifique a queda do prestígio daquelas figuras. Todos os seus atos são vistos como motivo para riso e motejo. Em compensação, constitui-se na figura mais coerente da obra, pois não abre mão de suas convicções e princípios. Se há um personagem grandioso em toda a galeria de Zé Lins, esse é o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha, o Papa Rabo.
Agora estou mesmo a rir dos palavrões cabeludos que o Capitão proferia quando era atingido pela gritaria dos moleques da bagaceira a atiçar-lhe a ira, gritando: Papa Rabo!!
Sublime Vitorino...
As obras Pedra Bonita e Cangaceiros retomam o bordão sociológico de duas figuras que, num sertão abandonado, ilhado e mal-educado, por se achar de tudo desprovido, lança mão de duas armas: o beatismo religioso ingênuo, que busca na metafísica barata, anunciando o fim dos tempos, alcançar o arrependimento dos pecadores; de outro lado, o cangaceirismo, atitude assumida por bando de celerados que fazem as próprias leis por ausência destas mesmas. É a lei da violência, dos desmandos, do desrespeito, da ignomínia. Beatos e cangaceiros formam, desse modo, colunas que rezam e matam para justificar a situação de abandono a que foram relegados...
terça-feira, 6 de junho de 2017
INSISTÊNCIA
Hugo Martins
Nasci para ser eterno estudante e cuidadoso professor de língua portuguesa... Estudante porque não há um só dia em que não me ocupe quer lendo alguma coisa, quer escrevinhando textos ou mesmo observando o emprego da linguagem em suas diversas modalidades. O ser professor e amar minha profissão, bem como a língua portuguesa, é coisa que me espicaçou o espírito quando, servindo a Marinha de Guerra, costumava levar para bordo alguns livros que lia com sofreguidão quando, em alto mar, navegando para onde quer que fosse, refugiava-me em algum lugar silencioso e lá me entregava aos prazeres da leitura. Cedo descobri Jorge Amado e devo a ele e à minha mãe querida o amor que desenvolvi pelos livros. Li Terras do Sem Fim e São Jorge dos Ilhéus. Foi amor á primeira vista. Depois disso, tratei de ler a obra inteira do escritor baiano e, com ele, fiquei "viciado"... Ainda hoje, vez e outra, faço algumas visitas a ele. E sempre me comovo com o lirismo de sua linguagem, e solto largas gargalhadas quando o criador de Gabriela abre o baú de palavrões, e eu não aguento, rio a bandeiras despregadas... O emprego do palavrão é uma das coisas mais sinceras na obra de Jorge Amado e um traço do seu estilo coloquial e gostoso como é a fala desabrida do povão que ele tanto ama, respeita e protege, denunciando as injustiças e descalabros que caem sobre aquele zé povão. Jorge Amado abriu o caminho das letras para mim. Daí em diante, "eu fui pra galera"... E aconteceu o melhor: dando baixa da Marinha, resolvi ingressar no Curso de Letras, uma das muitas coisas acertadas que fiz na vida. Mesmo tendo frequentado outros cursos, nunca me afastei das Letras, tanto é que fui e sou professor durante toda minha vida laboral. As Belas-Letras são uma das poucas coisas que me preenchem a alma e digo, com Ovídio, poeta romana clássico, curto esse otium (ócio), essa convivência diuturna com o estético ínsito à Literatura, como que curtindo uma embraguez a que nada se compara. Mesmo afastado da sala de aula, local em que me sentia muito à vontade e alegre, continuo ensinando alguma coisa ou estimulando alguém a aprender alguma coisa...
Há momentos em que não perco a paciência por não valer a pena,mas não posso negar que fico muito puto com a insistência dos meios de comunicação em induzir as pessoas à pronúncia e à escrita errôneas de palavras que se subordinam ao étimo latino.
Os jornalistas e locutores continuam se referindo a um tal TRIPLEX, com pronúncia e escrita de intensidade oxítona. Erro brutal semelhante às pronúncia e grafia de DUPLEX. Porra, caralho, na língua latina não existe palavra oxítona. As palavras referidas são paroxítonas, tanto é que vêm graficamente acentuadas em língua portuguesa... Quer constatar? Consulte-se qualquer dicionário de língua portuguesa. Se quer ter mais certeza, consulte-se o VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), obra que enfeixa a grafia correta das palavras em língua portuguesa, publicação da Academia Brasileira de Letras.
Assim, doravante, lembremos de pronunciar DÚPLEX e TRÍPLEX. Não se trata de gramatiquice ingênua, mas de observância à etimologia, parte dos estudos linguísticos que cuida da origem das palavras.
Observar que TRÍPLICE e DUPLICIDADE provém daquelas duas palavras que ingressaram no léxico português com a mesma grafia e intensidade latinas. Insistamos: são elas paroxítonas tanto quanto cateter é oxítona e não paroxítona como se ouve por aí.
Nos estudos, vale a insistência. Por via de consequência, aprendizagem segura e não improviso. Parafraseando o imperador romano Pompeu e não Fernando Pessoa, como muitos pensam, "estudar é preciso" e viver também é preciso...
E vivas aos estudos e ao professor
Hugo Martins
Nasci para ser eterno estudante e cuidadoso professor de língua portuguesa... Estudante porque não há um só dia em que não me ocupe quer lendo alguma coisa, quer escrevinhando textos ou mesmo observando o emprego da linguagem em suas diversas modalidades. O ser professor e amar minha profissão, bem como a língua portuguesa, é coisa que me espicaçou o espírito quando, servindo a Marinha de Guerra, costumava levar para bordo alguns livros que lia com sofreguidão quando, em alto mar, navegando para onde quer que fosse, refugiava-me em algum lugar silencioso e lá me entregava aos prazeres da leitura. Cedo descobri Jorge Amado e devo a ele e à minha mãe querida o amor que desenvolvi pelos livros. Li Terras do Sem Fim e São Jorge dos Ilhéus. Foi amor á primeira vista. Depois disso, tratei de ler a obra inteira do escritor baiano e, com ele, fiquei "viciado"... Ainda hoje, vez e outra, faço algumas visitas a ele. E sempre me comovo com o lirismo de sua linguagem, e solto largas gargalhadas quando o criador de Gabriela abre o baú de palavrões, e eu não aguento, rio a bandeiras despregadas... O emprego do palavrão é uma das coisas mais sinceras na obra de Jorge Amado e um traço do seu estilo coloquial e gostoso como é a fala desabrida do povão que ele tanto ama, respeita e protege, denunciando as injustiças e descalabros que caem sobre aquele zé povão. Jorge Amado abriu o caminho das letras para mim. Daí em diante, "eu fui pra galera"... E aconteceu o melhor: dando baixa da Marinha, resolvi ingressar no Curso de Letras, uma das muitas coisas acertadas que fiz na vida. Mesmo tendo frequentado outros cursos, nunca me afastei das Letras, tanto é que fui e sou professor durante toda minha vida laboral. As Belas-Letras são uma das poucas coisas que me preenchem a alma e digo, com Ovídio, poeta romana clássico, curto esse otium (ócio), essa convivência diuturna com o estético ínsito à Literatura, como que curtindo uma embraguez a que nada se compara. Mesmo afastado da sala de aula, local em que me sentia muito à vontade e alegre, continuo ensinando alguma coisa ou estimulando alguém a aprender alguma coisa...
Há momentos em que não perco a paciência por não valer a pena,mas não posso negar que fico muito puto com a insistência dos meios de comunicação em induzir as pessoas à pronúncia e à escrita errôneas de palavras que se subordinam ao étimo latino.
Os jornalistas e locutores continuam se referindo a um tal TRIPLEX, com pronúncia e escrita de intensidade oxítona. Erro brutal semelhante às pronúncia e grafia de DUPLEX. Porra, caralho, na língua latina não existe palavra oxítona. As palavras referidas são paroxítonas, tanto é que vêm graficamente acentuadas em língua portuguesa... Quer constatar? Consulte-se qualquer dicionário de língua portuguesa. Se quer ter mais certeza, consulte-se o VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), obra que enfeixa a grafia correta das palavras em língua portuguesa, publicação da Academia Brasileira de Letras.
Assim, doravante, lembremos de pronunciar DÚPLEX e TRÍPLEX. Não se trata de gramatiquice ingênua, mas de observância à etimologia, parte dos estudos linguísticos que cuida da origem das palavras.
Observar que TRÍPLICE e DUPLICIDADE provém daquelas duas palavras que ingressaram no léxico português com a mesma grafia e intensidade latinas. Insistamos: são elas paroxítonas tanto quanto cateter é oxítona e não paroxítona como se ouve por aí.
Nos estudos, vale a insistência. Por via de consequência, aprendizagem segura e não improviso. Parafraseando o imperador romano Pompeu e não Fernando Pessoa, como muitos pensam, "estudar é preciso" e viver também é preciso...
E vivas aos estudos e ao professor
sexta-feira, 2 de junho de 2017
POIS É.
Hugo Martins
Ouço notícia em jornal televisivo no mínimo engraçada: alguém pede ao amigo fiar uma compra a crédito; outro roga caução ou garantia fiduciária num empréstimo bancário; aquele solocita fiança em aluguer de imóvel... Há deles que pedem emprestado o cartão de crédito. Resultado: dezessete por cento dos devedores encrencados com os órgãos de proteção ao crédito ali estão por se mostrarem garantidores solidários aos amigos, "mui amigos."
Os filósofos de mesa de bar fornecem conselho sábio a quem não quiser se tornar vítima em tais arapucas: em primeiro lugar, analisar fundamente o caráter do solicitador e rezar aos céus que sua análise encontre guarida no seu santo de devoção; em segundo lugar, usar de explícita franqueza, daquelas que produzem na alma do golpista falsa indignação. Como funciona o segundo passo? Olhar para o descarado e dizer, rindo, sem tirar os olhos dele: "meu nobre amigo, não fio, não empresto, tampouco dou caução". Ele vai perguntar por que tanta indelicadeza. Então a "quase vítima" contrapõe: "pelo contrário, recorro a toda gentileza possível que está na minha alma". "Por quê?" "Ora, ora, ora, meu caro", dirá a "quase vítima": "porque não quero perder parte do meu patrimônio, tampouco sua amizade." Quem assim age é corajoso, sincero e perspicaz conhecedor da alma dos pilantras...
Este escrevinhador, do alto de sua ingenuidade e boa vontade, nunca frequentou cadastros de proteção ao crédito nem caiu numa daquelas esparrelas. Hein? Lembrei: certa feita, um grande "amigo" me fez cair nas malhas de uma conversa bonita, convencendo-me a emprestar-lhe dada quantia, que me seria rembolsada no mês seguinte. Recebi? Sim. Mas não no período assinalado. Fui reembolsado, no curto espaço de apenas quatro anos.
Nada de trágico ou cômico em tudo isso, mas tragicômico: meu "mui amigo" intrigou-se comigo de sangue a fogo...
É mole? A partir de então, passei a observar os conselhos daquele filósofo. Estou me dando bem.
Hugo Martins
Ouço notícia em jornal televisivo no mínimo engraçada: alguém pede ao amigo fiar uma compra a crédito; outro roga caução ou garantia fiduciária num empréstimo bancário; aquele solocita fiança em aluguer de imóvel... Há deles que pedem emprestado o cartão de crédito. Resultado: dezessete por cento dos devedores encrencados com os órgãos de proteção ao crédito ali estão por se mostrarem garantidores solidários aos amigos, "mui amigos."
Os filósofos de mesa de bar fornecem conselho sábio a quem não quiser se tornar vítima em tais arapucas: em primeiro lugar, analisar fundamente o caráter do solicitador e rezar aos céus que sua análise encontre guarida no seu santo de devoção; em segundo lugar, usar de explícita franqueza, daquelas que produzem na alma do golpista falsa indignação. Como funciona o segundo passo? Olhar para o descarado e dizer, rindo, sem tirar os olhos dele: "meu nobre amigo, não fio, não empresto, tampouco dou caução". Ele vai perguntar por que tanta indelicadeza. Então a "quase vítima" contrapõe: "pelo contrário, recorro a toda gentileza possível que está na minha alma". "Por quê?" "Ora, ora, ora, meu caro", dirá a "quase vítima": "porque não quero perder parte do meu patrimônio, tampouco sua amizade." Quem assim age é corajoso, sincero e perspicaz conhecedor da alma dos pilantras...
Este escrevinhador, do alto de sua ingenuidade e boa vontade, nunca frequentou cadastros de proteção ao crédito nem caiu numa daquelas esparrelas. Hein? Lembrei: certa feita, um grande "amigo" me fez cair nas malhas de uma conversa bonita, convencendo-me a emprestar-lhe dada quantia, que me seria rembolsada no mês seguinte. Recebi? Sim. Mas não no período assinalado. Fui reembolsado, no curto espaço de apenas quatro anos.
Nada de trágico ou cômico em tudo isso, mas tragicômico: meu "mui amigo" intrigou-se comigo de sangue a fogo...
É mole? A partir de então, passei a observar os conselhos daquele filósofo. Estou me dando bem.
CONVERSA DE MESA DE BAR II
Hugo Martins
Estamos ouvindo a canção Coração de Estudante, interpretada por Milton Nascimento e tema do filme Jango... As garrafas de vinho e cerveja vão caindo à mesa, alimentando a boa conversa e despertando a risada gratuita. Os assuntos vinham de roldão. Veio à tona um comentário sobre um livro de Harold Bloom, crítico literário e professor da Universidade de Cambridge. Tratava-se da obra Gênios, em que aquele amante das Belas –Letras apresentou, a seu critério, os cem maiores escritores da humanidade. Adivinha quantos brasileiros? Só um? Quem, quem, quem? - ´perguntaria seu Aldemar Vigário, personagem da Escolinha do Professor Raimundo. Ele, Machado de Assis. Pois bem. Depois, veio à baila outra obra daquele cultor das Letras. Trata-se do livro Como e Por que Ler. Nenhuma apologia à importância do ato de ler, mas uma profusão de falas sobre a leitura de contistas, poetas e romancistas, da literatura universal, ressaltando-lhes a grandeza e destreza na arte de recriar o mundo pela mimesis (imitação), referida por Aristóteles na Arte Poética.
Súbito, alguém faz referência à obra de Sartre, “L´Être et le Néant” (O Ser e o Nada). Dali tinha que sair a célebre frase “L´enfer sont les autres” (O Inferno são os Outros). Uma enxurrada de interpretações sobre a proposta do filósofo de que o homem é livre para promover suas próprias escolhas (nada com o discurso facebookiano , tampouco de padres arrumadinhos e metidos a filósofos), isto é, o homem traça e faz seu destino. Outra fala sobre a frase: o outro participa, de certa forma, do estar-no-mundo do seu outro, pois, por óbvio, vivemos em estado gregário... Somos diferentes, mas somos obrigados a aceitar o outro, aí está o inferno. Alguém lembrou outra obra do pensador francês: A portas Fechadas (A é preposição e não artigo), em que se colocam, no mesmo ambiente, quatro indivíduos que se odeiam entre si, mas estão condenados a viver juntos ad infinitum... Aí, meu amigo, é Freud, para não dizer “aí é foda... Um dos comensais fez um comentário hilário: “quer dizer, somos obrigados a levar a vida sempre preocupados com o olhar do outro?” “Comportar-nos tendo por vetor a expectativa deste?” Isso é sofrimento, é angústia.” Foi quando um dos companheiros propôs contar uma historieta, ajuntando como minorar esse peso, essa carga herdada pela nossa condição de homem, afligido pela sombra do outro. Todos se calaram, e o companheiro, entre uma beiçada e outra na cachacinha que vinha entornando, deu início à narrativa. Antes, acrescentou não lembrar onde leu, ou talvez a historieta lhe tenha chegado pela boca de alguém, como agora chega aos ouvidos dos aqui presentes nessa festa dionisíaca. Abramos as oiças...
Diz-se que, em alguma parte do mundo, existia um sujeito muito rico, de invejável beleza física e dono de resplendente inteligência. As pessoas não aceitavam tais virtudes numa só pessoa. O homem ficou pobre. As pessoas não aceitavam que um sujeito rico, belo e inteligente deixasse de ser rico e continuasse belo e inteligente. Então, o sujeito recorreu a algumas providências para ficar feio. As pessoas não aceitavam que um sujeito belo e inteligente ficasse, subitamente, feio, mas se mantivesse inteligente. O rapaz resolveu não mais manifestar qualquer atitude que revelasse sua inteligência. As pessoas não ficaram satisfeitas com o fato de alguém rico, belo e inteligente se tornasse pobre, feio e curto de inteligência... Nosso personagem resolveu buscar orientações de um sábio. Este, depois de tudo ouvir serenamente, despertou de suas meditações e disse ao rapaz, com invejável sabedoria, que este mandasse todos às favas, ou à puta que os pariu ou se foderem, que “o inferno” (parece que o sábio tinha lido Sartre) não deve ser tomado tão ao pé da letra, não. Desse modo, o rapaz, seguindo os conselhos do sábio, voltou a ser rico, belo e inteligente e mais feliz ainda...
Alguém aplaudiu a historieta e disse: “agora entendo o que vem a ser uma escolha”. Acrescentou: “quando eu via essa expressão no Facebook, provinda de filósofos, terapeutas e padres falastrões eu pensava haver ali alguma originalidade. Agora aprendi tratar-se de uma proposta existencialista...
Eu, redator, disse de mim para mim: “valha! ” Aliás, sou um mero portador do que ouvi em meio a generosas libações e altas gargalhadas.
Importa que a noite só acrescentou...
Hugo Martins
Estamos ouvindo a canção Coração de Estudante, interpretada por Milton Nascimento e tema do filme Jango... As garrafas de vinho e cerveja vão caindo à mesa, alimentando a boa conversa e despertando a risada gratuita. Os assuntos vinham de roldão. Veio à tona um comentário sobre um livro de Harold Bloom, crítico literário e professor da Universidade de Cambridge. Tratava-se da obra Gênios, em que aquele amante das Belas –Letras apresentou, a seu critério, os cem maiores escritores da humanidade. Adivinha quantos brasileiros? Só um? Quem, quem, quem? - ´perguntaria seu Aldemar Vigário, personagem da Escolinha do Professor Raimundo. Ele, Machado de Assis. Pois bem. Depois, veio à baila outra obra daquele cultor das Letras. Trata-se do livro Como e Por que Ler. Nenhuma apologia à importância do ato de ler, mas uma profusão de falas sobre a leitura de contistas, poetas e romancistas, da literatura universal, ressaltando-lhes a grandeza e destreza na arte de recriar o mundo pela mimesis (imitação), referida por Aristóteles na Arte Poética.
Súbito, alguém faz referência à obra de Sartre, “L´Être et le Néant” (O Ser e o Nada). Dali tinha que sair a célebre frase “L´enfer sont les autres” (O Inferno são os Outros). Uma enxurrada de interpretações sobre a proposta do filósofo de que o homem é livre para promover suas próprias escolhas (nada com o discurso facebookiano , tampouco de padres arrumadinhos e metidos a filósofos), isto é, o homem traça e faz seu destino. Outra fala sobre a frase: o outro participa, de certa forma, do estar-no-mundo do seu outro, pois, por óbvio, vivemos em estado gregário... Somos diferentes, mas somos obrigados a aceitar o outro, aí está o inferno. Alguém lembrou outra obra do pensador francês: A portas Fechadas (A é preposição e não artigo), em que se colocam, no mesmo ambiente, quatro indivíduos que se odeiam entre si, mas estão condenados a viver juntos ad infinitum... Aí, meu amigo, é Freud, para não dizer “aí é foda... Um dos comensais fez um comentário hilário: “quer dizer, somos obrigados a levar a vida sempre preocupados com o olhar do outro?” “Comportar-nos tendo por vetor a expectativa deste?” Isso é sofrimento, é angústia.” Foi quando um dos companheiros propôs contar uma historieta, ajuntando como minorar esse peso, essa carga herdada pela nossa condição de homem, afligido pela sombra do outro. Todos se calaram, e o companheiro, entre uma beiçada e outra na cachacinha que vinha entornando, deu início à narrativa. Antes, acrescentou não lembrar onde leu, ou talvez a historieta lhe tenha chegado pela boca de alguém, como agora chega aos ouvidos dos aqui presentes nessa festa dionisíaca. Abramos as oiças...
Diz-se que, em alguma parte do mundo, existia um sujeito muito rico, de invejável beleza física e dono de resplendente inteligência. As pessoas não aceitavam tais virtudes numa só pessoa. O homem ficou pobre. As pessoas não aceitavam que um sujeito rico, belo e inteligente deixasse de ser rico e continuasse belo e inteligente. Então, o sujeito recorreu a algumas providências para ficar feio. As pessoas não aceitavam que um sujeito belo e inteligente ficasse, subitamente, feio, mas se mantivesse inteligente. O rapaz resolveu não mais manifestar qualquer atitude que revelasse sua inteligência. As pessoas não ficaram satisfeitas com o fato de alguém rico, belo e inteligente se tornasse pobre, feio e curto de inteligência... Nosso personagem resolveu buscar orientações de um sábio. Este, depois de tudo ouvir serenamente, despertou de suas meditações e disse ao rapaz, com invejável sabedoria, que este mandasse todos às favas, ou à puta que os pariu ou se foderem, que “o inferno” (parece que o sábio tinha lido Sartre) não deve ser tomado tão ao pé da letra, não. Desse modo, o rapaz, seguindo os conselhos do sábio, voltou a ser rico, belo e inteligente e mais feliz ainda...
Alguém aplaudiu a historieta e disse: “agora entendo o que vem a ser uma escolha”. Acrescentou: “quando eu via essa expressão no Facebook, provinda de filósofos, terapeutas e padres falastrões eu pensava haver ali alguma originalidade. Agora aprendi tratar-se de uma proposta existencialista...
Eu, redator, disse de mim para mim: “valha! ” Aliás, sou um mero portador do que ouvi em meio a generosas libações e altas gargalhadas.
Importa que a noite só acrescentou...
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