sexta-feira, 9 de junho de 2017

NONADAS NUMA TARDE QUENTE NA BELA CIDADE DE FORTALEZA, "a loura desposada do Sol, que dorme à sombra dos Palmares", conforme diz Paula Ney. 15:34 h, 8-6-2017.

 Hugo Martins

Hoje não tenho quase nada para dizer, embora já o esteja dizendo. Aliás, boa parte dos cronistas recorre a este truque quando a inópia criativa os ataca. Nessa brincadeira do palavra puxa palavra, o texto vai surdindo até que chega a um ponto final, o outro lado da fronteira em que se escreve uma maiúscula. Entre um e outro se instala o talento de quem o tem para escrever. Se o medo se abate, o cronista tem que enfrentá-lo e garatujar o papel com palavras, ainda que sem nexo. Nesse jogo, de súbito, instaura-se o texto.
Como nenhuma inspiração ou ideia no momento me assalta, vou pensando em alguns enredos de livros, cuja leitura empreendi nestes últimos meses. Aliás. É bom que fique certo que se trata de releituras. Um dia, folheando um volume com sete obras de José Lins, vi que, para iniciar a leitura dos romances do ciclo-da-cana-de-açúcar do escritor paraibano, é imprescindível iniciar por Meus Verdes Anos, volume de memórias, as quais introduzem o leitor na compreensão daquele mundo de coronéis, meninos de engenho, cangaceiros e beatos. Para se inteirar deste mundo, deve-se principiar pela leitura de Menino de Engenho, Doidinho e Banguê, trilogia que tem por personagem central o menino Carlos Melo, alter ego romanceado de Zé Lins. Depois vem O Moleque Ricardo, obra que parece nada ter a ver com aquele ciclo. Embora a história se passe no Recife, as alusões e lembranças de Ricardo mantêm um elo com as vivências e ambiências do engenho. Em Usina, testemunha-se a débâcle do engenho artesanal ante o poderio das usinas. Há aqui o jogo do novo com o velho, o engenho de fogo morto e a imponência dos usineiros. Da mesma forma, contrapõe-se o administrador moderno com o que há de retrógrado nos coronéis.
O ciclo se fecha com Fogo Morto, obra maior do criador de Eurídice. Dividido em três partes, o romance põe às claras a decadência dos coronéis, os mesmos que figuram nas obras referidas. É aqui que surge um dos mais notáveis personagens da literatura brasileira, o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha, misto de herói de capa e espada com a ridicularia sublime e lírica do Dom Quixote de Cervantes. Vitorino é a própria contradição. Não aceita o desparecimento daquela estrutura social do desmando e do poder dos coronéis. Rejeita qualquer mudança que signifique a queda do prestígio daquelas figuras. Todos os seus atos são vistos como motivo para riso e motejo. Em compensação, constitui-se na figura mais coerente da obra, pois não abre mão de suas convicções e princípios. Se há um personagem grandioso em toda a galeria de Zé Lins, esse é o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha, o Papa Rabo.
Agora estou mesmo a rir dos palavrões cabeludos que o Capitão proferia quando era atingido pela gritaria dos moleques da bagaceira a atiçar-lhe a ira, gritando: Papa Rabo!!
Sublime Vitorino...
As obras Pedra Bonita e Cangaceiros retomam o bordão sociológico de duas figuras que, num sertão abandonado, ilhado e mal-educado, por se achar de tudo desprovido, lança mão de duas armas: o beatismo religioso ingênuo, que busca na metafísica barata, anunciando o fim dos tempos, alcançar o arrependimento dos pecadores; de outro lado, o cangaceirismo, atitude assumida por bando de celerados que fazem as próprias leis por ausência destas mesmas. É a lei da violência, dos desmandos, do desrespeito, da ignomínia. Beatos e cangaceiros formam, desse modo, colunas que rezam e matam para justificar a situação de abandono a que foram relegados...

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