SAUDADE MUITA
Hugo Martins
A saudade não se explica, experimenta-se. Também não cabe em conceitos universais. Daí, aquele verso célebre de Catulo da Paixão Cearense: “como definir o que só sei sentir? ” Às vezes, vem travestida de outros sentimentos e acepções tais como nostalgia e banzo... Hoje se abateu sobre mim e, para entendê-la, faz-se necessário acionar o mecanismo da memória, deixar que os fatos se entremostrem. A primeira não subsiste senão com a segunda... Vamos a esta, pescando os episódios mais comezinhos do dia a dia, aqueles que já se foram e, aparentemente, não tiveram importância alguma em nossas vidas. Na verdade, estão hibernando, aguardando que o devir, a dolorosa passagem do tempo, nos cutuque, nos desperte e coloque, ante nossas fuças, momentos em que “fomos”, parafraseando Ataulfo Alves e Mário Lago, “felizes e não sabíamos”...
Muitas são as saudades das reuniões que nós, meninos, fazíamos, nas esquinas e ruas da cidade, para bater “racha” no calçamento, ou soltar arraia (alguns chamam pipa ou papagaio), jogar bila (bola de gude), brincar de “bandeira”, de “sete pecados” ou pular corda bambeada com “pimentão” e tudo. Tinha também o chicote queimado ou o “passarinho no ninho” e o “cobra no buraco”. “Tá quente, tá frio...”
Muitas são as saudades quando, à noitinha, depois da janta, meninos e meninas se encontravam para brincar de “roda” e cantar canções em que um grupo, oposto a outro, dizia “querer uma de vossas filhas” e o outro perguntava “que ofício dar a ela?” Em seguida, a cada fala, partida de um e de outro grupo, vinha um refrão que soava como se fosse da língua francesa e que ninguém sabia que significava. Mas era melodioso e se encaixava ao tom da cançoneta. “Bote aqui, bote aqui o seu pezinho, bem juntinho, bem juntinho do meu...” Às vezes, sentávamos na calçada, e brincávamos de “anel”, que consistia em passar as mãos, de palmas unidas, à moda corte, nas mãos, também espalmadas, de cada participante. No meio das palmas de quem cortava, estava o “anel”. Este era solto, ao bel-prazer, nas mãos de alguém com quem o “cortador” simpatizava. Olhares, sorrisos, desconfianças e comentários denunciavam o ingênuo namorico. Outras vezes, um dos brincantes sentava-se separadamente dos outros e fazia o papel de uma espécie de réu, a quem se abria um volumoso libelo de que saltava toda espécie de pergunta sobre assuntos da vida particular do sujeito, os quais ele não queria absolutamente que viessem à tona. Era a berlinda. As indagações eram de todo teor: inocentes, gaiatas, curiosas e maldosas. Como dizia um personagem de Chico Anísio: “só enfrenta quem aguenta. ” Havia também um tal “disparate”. Consistia em apresentar ao entrevistado uma série de perguntas, previamente enfileiradas num caderninho, que a tudo registrava. As perguntas eram, a princípio, “leves” e ingênuas. Do meio para o fim, esquentavam e se tornavam, muitas vezes, capciosas e escorregadias... Só enfrentava quem aguentava. Muita saudade das repetidas voltas em torno da pracinha, a trocar olhares ou oferecer bombom (pipper ou azedinho) como artimanha para uma aproximação. Desse ir e vir, podia resultar uma esticada ao cinema; duas semanas depois, o pegar na mão; ao fim de quatro semanas, o primeiro beijo. Tudo dependia do lugar, do momento, da audácia do rapazola e do assanhamento da moçoila. Tudo era festa, era encantamento, era amor derramado, do mais puro, cheio de sonho e doces quimeras...
Muitas saudades do toque melancólico dos sinos, das novenas, trezenas, festas de santos padroeiros; dos leilões, da bandinha tocando dobrados no coreto da pracinha ou no patamar da igreja. Muitas saudades das quermesses, da roda-gigante, da “ispaia” brasa, dos barcos, do carrossel, dos laços de fita (o azul ou o vermelho?). Da menina de tranças, em cujas pontas também havia lacinhos... Muitas saudades mesmo do apagar das luzes da cidade em obediência a três sinais, que se sucediam em exatos quinze minutos. Assim, o sujeito, não fosse noite de lua cheia, teria tempo de tratar de ir para casa, tal o menino de Braçanã, que mesmo tarde, ia “embora, sem medo na escuridão” porque “quem anda com Jesus Cristo não tem medo de assombração”... E o menino dizia “e eu ando com Jesus Cristo no meu coração.” Saudade muita, mesmo...
Tem mais...
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