CONVERSA DE MESA DE BAR II
Hugo Martins
Estamos ouvindo a canção Coração de Estudante, interpretada por Milton Nascimento e tema do filme Jango... As garrafas de vinho e cerveja vão caindo à mesa, alimentando a boa conversa e despertando a risada gratuita. Os assuntos vinham de roldão. Veio à tona um comentário sobre um livro de Harold Bloom, crítico literário e professor da Universidade de Cambridge. Tratava-se da obra Gênios, em que aquele amante das Belas –Letras apresentou, a seu critério, os cem maiores escritores da humanidade. Adivinha quantos brasileiros? Só um? Quem, quem, quem? - ´perguntaria seu Aldemar Vigário, personagem da Escolinha do Professor Raimundo. Ele, Machado de Assis. Pois bem. Depois, veio à baila outra obra daquele cultor das Letras. Trata-se do livro Como e Por que Ler. Nenhuma apologia à importância do ato de ler, mas uma profusão de falas sobre a leitura de contistas, poetas e romancistas, da literatura universal, ressaltando-lhes a grandeza e destreza na arte de recriar o mundo pela mimesis (imitação), referida por Aristóteles na Arte Poética.
Súbito, alguém faz referência à obra de Sartre, “L´Être et le Néant” (O Ser e o Nada). Dali tinha que sair a célebre frase “L´enfer sont les autres” (O Inferno são os Outros). Uma enxurrada de interpretações sobre a proposta do filósofo de que o homem é livre para promover suas próprias escolhas (nada com o discurso facebookiano , tampouco de padres arrumadinhos e metidos a filósofos), isto é, o homem traça e faz seu destino. Outra fala sobre a frase: o outro participa, de certa forma, do estar-no-mundo do seu outro, pois, por óbvio, vivemos em estado gregário... Somos diferentes, mas somos obrigados a aceitar o outro, aí está o inferno. Alguém lembrou outra obra do pensador francês: A portas Fechadas (A é preposição e não artigo), em que se colocam, no mesmo ambiente, quatro indivíduos que se odeiam entre si, mas estão condenados a viver juntos ad infinitum... Aí, meu amigo, é Freud, para não dizer “aí é foda... Um dos comensais fez um comentário hilário: “quer dizer, somos obrigados a levar a vida sempre preocupados com o olhar do outro?” “Comportar-nos tendo por vetor a expectativa deste?” Isso é sofrimento, é angústia.” Foi quando um dos companheiros propôs contar uma historieta, ajuntando como minorar esse peso, essa carga herdada pela nossa condição de homem, afligido pela sombra do outro. Todos se calaram, e o companheiro, entre uma beiçada e outra na cachacinha que vinha entornando, deu início à narrativa. Antes, acrescentou não lembrar onde leu, ou talvez a historieta lhe tenha chegado pela boca de alguém, como agora chega aos ouvidos dos aqui presentes nessa festa dionisíaca. Abramos as oiças...
Diz-se que, em alguma parte do mundo, existia um sujeito muito rico, de invejável beleza física e dono de resplendente inteligência. As pessoas não aceitavam tais virtudes numa só pessoa. O homem ficou pobre. As pessoas não aceitavam que um sujeito rico, belo e inteligente deixasse de ser rico e continuasse belo e inteligente. Então, o sujeito recorreu a algumas providências para ficar feio. As pessoas não aceitavam que um sujeito belo e inteligente ficasse, subitamente, feio, mas se mantivesse inteligente. O rapaz resolveu não mais manifestar qualquer atitude que revelasse sua inteligência. As pessoas não ficaram satisfeitas com o fato de alguém rico, belo e inteligente se tornasse pobre, feio e curto de inteligência... Nosso personagem resolveu buscar orientações de um sábio. Este, depois de tudo ouvir serenamente, despertou de suas meditações e disse ao rapaz, com invejável sabedoria, que este mandasse todos às favas, ou à puta que os pariu ou se foderem, que “o inferno” (parece que o sábio tinha lido Sartre) não deve ser tomado tão ao pé da letra, não. Desse modo, o rapaz, seguindo os conselhos do sábio, voltou a ser rico, belo e inteligente e mais feliz ainda...
Alguém aplaudiu a historieta e disse: “agora entendo o que vem a ser uma escolha”. Acrescentou: “quando eu via essa expressão no Facebook, provinda de filósofos, terapeutas e padres falastrões eu pensava haver ali alguma originalidade. Agora aprendi tratar-se de uma proposta existencialista...
Eu, redator, disse de mim para mim: “valha! ” Aliás, sou um mero portador do que ouvi em meio a generosas libações e altas gargalhadas.
Importa que a noite só acrescentou...
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