terça-feira, 13 de junho de 2017

HORA CREPUSCULAR? ARREBOL? OCASO? PÔR DO SOL?
Hugo Martins
Quer o leitor entrar na ambiência da chamada “arte pela arte”, proposta maior do estilo de época da escola parnasiana? Quer constatar que os poetas filiados a essa proposta estética exalçam a forma em detrimento do conteúdo? Então vamos à leitura de um célebre soneto de Raimundo Corrêa, em que o poeta flagra um ocaso (aquilo que cai), um arrebol (de rubor, vermelhidão do pôr do sol), a hora crepuscular (lusco-fusco vespertino), um pôr do sol. Como se trata de um soneto, vamos proceder à leitura por parte.
Transcrevamos o texto, recorrendo, em seguida, ao jogo sintático-semântico a fim de se depreender, com segurança,  a “pintura” do quadro com a tintura das palavras. Suficiente colocar todas as frases e expressões para a ordem direta. É mais de meio caminho andado. Arrumadas as ideias à luz da sintaxe, o passo seguinte é verificar o significado de expressões que possam escamotear sua real acepção sob o véu tênue da linguagem figurada. Vamos lá. São apenas catorze versos. A propósito, verso é retorno que o arado fazia ao findar a feitura de cada sulco na terra. Daí ser o verso uma linha descontínua, ao contrário da linha da linguagem em prosa. Vamos lá aos dois quartetos e aos dois tercetos, forma do soneto...
ANOITECER
Raimundo Corrêa
Esbraseia o Ocidente na agonia
O Sol... Aves, em bandos destacados,
Por céus de ouro e de púrpura raiados,
Fogem... Fecha-se a pálpebra do dia.
Temos três frases no primeiro quarteto. Vamos à ordem direta. O SOL NA AGONIA ESBRASEIA O OCIDENTE. AVES FOGEM, EM BANDOS DESTACADOS, POR CÉUS RAIADOS DE OURO E DE PÚRPURA. A PÁLBEBRA DO DIA SE FECHA. Comentários. Na primeira frase, o sintagma preposicional “na agonia” prende-se sintaticamente ao substantivo Sol, pois este é que se encontra agonizante, ideia sugerida pela palavra “ocidente”, de origem latina, que significa lugar em que ocorre “a “morte” do Sol. O verbo esbrasear, por sua vez, conjugado na primeira pessoa do presente do indicativo, tem parentesco formal com brasa, cuja coloração sugere a cor do firmamento quando o sol se põe. Tal sugerência é ainda fortalecida quando o poeta se refere a “de ouro” e “de púrpura”, complementos de céus”. Soma de amarelo (ouro) com vermelho (púrpura) resulta aquilo que, aqui no Ceará, chamamos de amarelo-queimado. Por fim, o poeta recorre à figura da personificação, emprestando ao dia um par de pálpebras, que se fecham como anunciando o dia cedendo lugar à noite. Observar que o fenômeno não se revelou de todo. Veja-se que, neste quarteto, e nas demais estrofes que virão, o poeta assinala o fechamento de frase com reticências, como a dizer que o quadro ainda não se completou. A última pincelada se dá com o último verbo da última estrofe...
Delineiam-se, além da serrania,
Os vértices de chama aureolados.
E em tudo, em torno, esbatem derramados,
Uns tons suaves de melancolia...
Vamos à ordem direta. OS VÉRTICES, QUE ESTÃO AUREOLADOS DE CHAMA, DELINEIAM-SE ALÉM DA SERRANIA. UNS TONS SUAVES DE MELANCOLIA ESBATEM DERRAMADOS EM TUDO EM TORNO. Comentários. Na expressão “aureolados de chama”, temos uma palavra derivada de auréola, que, por sua vez, deriva de áureo, de “aurum” (ouro, em latim), combinada com “chama”, que lembra fogo, ideia já presente francamente na primeira estrofe: a coloração do céu à hora crepuscular. Nos dois últimos versos, toda a natureza está tomada pela melancolia resultante do momento em si. Lembrar a auréola, aquele círculo luminoso, sobreposto à cabeça de santos, sobrepairando os cumes das serras... Bela imagem.

Um mundo de vapores no ar flutua...
Como uma informe nódoa, avulta e cresce
A sombra, à proporção que a luz recua...
A natureza apática esmaece...
Pouco a pouco, entre as árvores, a lua
Surge trêmula, trêmula... Anoitece.
Vamos à ordem direta dos dois tercetos. UM MUNDO DE VAPORES FLUTUA NO AR... A SOMBRA AVULTA E CRESCE SEMELHANTE A UMA NÓDOA (mancha) INFORME À PROPORÇÃO QUE A LUZ RECUA... Comentário. A luz do dia, em compasso proporcional, cede lugar às sombras da noite. Por fim, o segundo terceto. A NATUREZA ESMAECE APÁTICA...A LUA SURGE TRÊMULA, TRÊMULA, POUCO A POUCO, ENTRE AS ÁRVORES. ANOITECE. Plasticidade perfeita. Visão clara. Quadro completado. Lembrar que o uso repetido do adjetivo “trêmula” nada mais é que o uso superlativo do adjetivo. No lugar de tremulíssima, o poeta preferiu seguir o estilo do superlativo hebraico tal como fez Castro Alves quando, se referindo ao negror dos olhos de sua amada, disse, superlativamente: “TEUS OLHOS SÃO NEGROS, NEGROS COMO AS NOITES SEM LUAR”. Eugênia Câmara, sua musa, não teria gostado se o vate baiano tivesse utilizado “NEGRÍSSIMOS” no lugar de “NEGROS, NEGROS. ”
Eis aí... Quem quiser acrescente mais “arte pela arte” dos parnasianos. Disso não se duvide: leitura é ludismo, é brincadeira das mais agradáveis...

Nenhum comentário:

Postar um comentário