SAUDADE MUITA – II
Hugo Martins
Coisas que ficaram marcadas de modo indelével em minhas lembranças e me são mui caras... O tempo passou na sua pontualidade física ou nós passamos por ele? Não importa. Interessa que, de um modo ou de outro, ficaram respingos de sua “passagem” em nossa memória.
Recordo-me das tardes, em que brincando na pracinha de minha cidade natal, ouvia o badalar dos sinos e, com ele, flagrava a súbita revoada de bandos de andorinhas, que riscavam o ar numa cadência indisciplinada e fragorosa em busca de outras plagas. Às vezes, ouvia, de uma radiola a pilha, colocada em uma das torres da igreja, os acordes tristonhos da Serenata de Schubert. Nada entendia eu de música, mas aquilo me tocava fundo na alma. Ainda hoje, quando a ouço, vem-me à lembrança aquela atmosfera, acompanhada de pitadas de imensa tristeza. Creio que isso mais se introjetou e se fixou em minhas reminiscências porque o padre mandava o sacristão colocar aquela música toda vez que, por ali, passava um cortejo de gente a levar alguém a sepultar... Depois de alguns anos, a Serenata do compositor alemão era colocada a tocar, nas rádios, em todo fim de tarde, como a marcar a hora da Ave, Maria (Ave, Maria, gratia plena, dominus tecum...). Hoje, já não se ouve o bimbalhar de sinos, tampouco se veem andorinhas em revoos ou mesmo se ouve a gratuidade da ave, Maria anunciando a hora crepuscular...
Recordo-me de algumas manhãs, em que, do quintal de nossa casa, onde brincava com terra, em meio a árvores e bichos, corria ao ouvir o toque da banda de música do Tiro de Guerra, que entoava dobrados que me deixavam emocionado. Nunca me fugiu da lembrança a figura do Sargento Carlos, que, com seu porte marcial, marchava à frente de um pelotão formado de moços que serviam o Exército. Garboso, marcava a cadência com passos firmes... E lá se ia o pelotão evoluindo ao som do Hino do Exército brasileiro ou aos acordes tristonhos do Saudades da Minha Terra, espécie de hino feito em homenagem à FEB ou aos pracinhas brasileiros, que participaram da II Guerra em território italiano... Tudo aquilo, para mim, era uma festa para os olhos e um fervilhar de emoções mexendo no coração aberto do menino ingênuo e sensível...
Recordo-me das manhãs de férias escolares do meio do ano. Açude cheio até a tampa. Sangradouro a escorrer estirão de águas borbulhantes, contornando árvores, arbustos e pedras, nas quais a meninada se alçava para, de cesto na mão, pegar as piabinhas que saltitavam fazendo ginástica no ar. Depois, toda a gurizada subia as paredes do velho açude e, de lá, tibungo dentro. Lembro que aprendemos a nadar em suas águas, montados num pedação de mulungu, madeira leve como cortiça. Vez por outra, largávamos nossa segurança e ensaiávamos umas braçadas tímidas e medrosas. E nesse jogo, nesse ensaio aquático, nesse vaivém, acabávamos por dominar o medo... Em pouco tempo, estávamos atravessando o açude de uma ponta à outra, ou brincando de cangapé, dando, à moda jogo de capoeira, pontapés nos companheiros sem a intenção de lesá-los... Ludismo, jogo, brincadeira pueril, encenação...
A título de fecho, é bom lembrar que o verbo recordar provém do latim, do substantivo COR, CORDIS, assim apresentado no dicionário, e significa coração, para a primeira forma, e do coração para a outra. Daí cordial, cordialidade, concórdia, discórdia, concordância, discordância... Quanto ao verbo em pauta, é a ele acrescer o prefixo RE, na acepção de repetir, que resultará o significado de TRAZER AO CORAÇÃO. Claro que trazemos os fatos à memória, contrariando os antigos, que colocavam as emoções no coração... Ainda assim, basta o efeito, a sede é secundária.
Sempre “haverá um tempo em que...”
Tem mais...
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