quarta-feira, 21 de junho de 2017

SAUDADE MUITA – III
Hugo Martins

Tudo se resolvia no Centro. Era como o fórum romano ou a ágora grega. Não havia essa coisa de bairro independente. A cidade não possuía ainda ares de metrópole. Nada de catedral de consumo. Havia o “quarteirão sucesso” da cidade, onde se podia comprar roupas, sapatos, eletrodomésticos e tudo para o lar. Geografia: rua Barão do Rio Branco, rua Major Facundo, Rua Guilherme Rocha e Rua Liberato Barroso, Ali estavam a Casa Parente, as Lojas Rouvâni Modas, as Lojas Flama (símbolo de distinção), a Farmácia Pasteur, A CVB Cearense, as Lojas Pernambucanas, as Lojas de Variedades, A Ocapana, Foto Sales, Cine Majestic, Cine Moderno, Cine Diogo, Cine São Luiz, Lojas Vox, o Café Cearazinho, o Romcy, as Lojas Esquisitas, a Miscelânea, a Farmácia Osvaldo Cruz, as lojas Silveira Alencar,  a loja a Cruzeiro e a Casa das Máquinas, o maior crediário do Ceará, onde você podia comprar, em módicas prestações, um piano Essenfelder. Gêneros alimentícios só na feira ou nas mercearias e bodegas, em que se podia fazer uso de crediário nas famosas cadernetas. Nelas, feita a compra, o comerciante especificava a mercadoria, acompanhada do preço correspondente. No final do mês, feito o pagamento, abria-se nova linha de crédito... Muito bom.
Postar uma carta nos Correios só no Centro. Tomar conhecimento de uma ordem de pagamento bancária só no Centro. Enviar telegrama pela Western (o destinatário recebia essa correspondência em 24 horas) só no Centro. Comprar pão semolina só no centro. Pegar ônibus para ir à praia só no centro. Saber das novidades do esporte local só no Centro, precisamente no Abrigo Central. Assistir a uma luta livre só no Centro, na Fênix Caixeiral. Os bairros eram só bairros, conglomerados residenciais com ares de província, pouco trânsito e muita tranquilidade
Saber a que filme assistir só no Centro. Era um programão sair de casa, apanhar um ônibus a fim de ir “ver os cartazes”, fotografias de determinadas cenas da ambiência do filme, bem como do elenco. Os jornais ainda não se ocupavam do assunto, tampouco faziam resenhas deste ou daquele filme. A valoração que se fazia das possibilidades de o filme ser bom ou não levava em conta os atores e atrizes principais. Eram estrelas na época: Burt Lancaster, Tony Curtis, Gary Cooper, Raff Valonne, Gina Lolobrígida, Brigite Bardot, Milena Demongéot, Pascale Petit, Gregory Peck, Sal Míneo, Paul Newman, Kirk Douglas, Alain Delon, Ives Montand, Jean Gabin, Elke Sommer, Cláudia Cardinale, Randolph Scott, Rock Hudson, Clark Gable, Spencer Tracy, Katharine Hepburn, Pedro Armendáriz, Sarita Montiel, Cary Grant, John Waine, Stewart Granger, Henry Fonda James Stewart, Jeff Chandler, Audrey Hepburn, Grace Kelly, Debra Pajet, Elisabeth Taylor, para citar os mais presentes nas telas. Aqui no Brasil: Cyl Farney, Eliana, Grande Otelo, Oscarito, Zé Trindade, Dercy Gonçalves, Violeta Ferraz, atores das chamadas chanchadas ou comédias da Atlântida. Essa turma causava muita alegria e emoção nas sessões vespertinas durante a semana, nas matinais de domingo no cine São Luiz, cine Diogo, bem como nos cines Majestic, Moderno, Samburá, Jangada e Toaçu, todos no Centro de Fortaleza. Agora, digo como Chico Anísio ao fim da aula na Escolinha do Professor Raimundo: “ e a saudade? Oh!” E abria os braços para exprimir a imensidão dela...
Tem mais...

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