terça-feira, 13 de junho de 2017

PINTAR COM PALAVRAS  

Hugo Martins

Descrever o mundo é apreendê-lo em sua feição plástica, ou seja, emprestar-lhe forma, volume, linha, enfim, retratá-lo usando a tintura das palavras, com especialidade o adjetivo. A palavra adjetivo, derivada do latim, é formada pela preposição AD, que significa junto a, e o radical JECTUS, que significa jogar, lançar. Este radical está presente, na língua portuguesa, em palavras como PROJETAR, INJETAR, ADJUNTO, ADJACÊNCIAS... Desse modo, adjetivo, em qualquer idioma, é a palavra “jogada” junto ao substantivo, modificando-o. Se este traduz a essência do mundo, o adjetivo diz da aparência do mundo. A boa adjetivação significa pintar o mundo. Tanto é que Voltaire já dizia que a união entre substantivo e adjetivo não admite ruptura. Quando esta acontece, não existiu compatibilidade entre um e outro, por isso podem se tornar inimigos figadais.  Quando o leitor se impressiona com uma descrição, costuma dizer de si para si “parece que eu estou vendo”. Efeito do emprego acertado do adjetivo.
Na língua portuguesa, há legiões de adjetivadores. Uns exuberantes; outros mais comedidos; aquele elegante; este menos cuidadoso. Ao fim e ao cabo, tendo olhos para os estilos de época em literatura, todos são mestres em observar o que vai pelo mundo, em misturar as várias nuanças e variegados tons adjetivais para, ao final, terminar o quadro. Cabe ao leitor este emoldurar...
Na literatura portuguesa, a nosso ver, numa lista meramente exemplificativa, revelam-se grandes pintores: Luís Vaz de Camões, Almeida Garret, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Antonio Feliciano de Castilho, José Maria Eça de Queirós, Camilo Pessanha (com dois esses mesmo), José Régio, Fernando Pessoa e José Saramago...
Na literatura brasileira, no mesmo passo, Gregório de Matos Guerra, José de Alencar, Joaquim Maria Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Raimundo Corrêa (sem “i” mesmo), Olavo Bilac, Cruz e Sousa, José Bento Monteiro Lobato, Euclides da Cunha, Manuel Bandeira, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Carlos Drummond de Andrade... Lista, também, meramente exemplificativa...
Ler essa turma é começar a apreender a arte da adjetivação. Em aulas de língua portuguesa, não basta dizer o que é o adjetivo. Deve haver uma aproximação dele com a chamada leitura cuidadosa, no destrinçar o texto... O aluno com isso se entusiasma e pode, de súbito, querer tornar-se um leitor. Isso é possível. Não basta conhecer os aspectos mórficos, sintáticos e semânticos do adjetivo. Necessário sopesá-lo, descobrir suas possibilidades expressivas e aplicá-lo com precisão, de modo que ele não sobrenade na frase como mero figurante sem expressão alguma.
Só há uma forma de adjetivar com precisão: leitura, leitura e mais leitura. Mas leitura atenta, tomada com gosto, embebida como se faz com um copo de cerveja bem gelada. Depois de sorvida, estala-se a língua no palato para exprimir a satisfação de matar a sede atroz. Há também sede estética, “lombra” literária... Vamos a elas.
Noutro dia, virá texto exemplificativo: descrição e adjetivo na pena do poeta parnasiano Raimundo Corrêa. Um primor. Uau!!!

Namastê.

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