domingo, 30 de julho de 2017

POLÍTICA? QUE “DIABÉISSO”? MORDE?
Hugo Martins
O maior conhecimento que pode qualquer ente humano alcançar é aquele definido pelo Oráculo de Delfos ao responder a uma indagação que alguém fizera sobre Sócrates. A pessoa perguntara quem seria o homem mais sábio do mundo. Resposta: Sócrates. Por que? Resposta: porque, disse a Sibila, apoiando-se no próprio mestre de Platão, a maior virtude humana é o conhecimento, o qual, paradoxalmente, homem algum ousa alcançar. A coisa parece confusa. Pois bem. Não é não. Na resposta, encontra-se a própria essência do que vem a ser um filósofo. Quando indagado se era um Σοφός (sábio, douto), o pensador respondeu: “não, considero-me um φιλό-σοφος” (aquele que ama a sabedoria), isto é, aquele que está convencido de que conhecer é uma questão de amor, de busca da sabedoria. Não a busca da cultura pela cultura ou da erudição pela erudição, mas o encontro diário com o estudar, o desvendar, o encantar-se, o surpreender-se, enfim, tomar o estudo como uma espécie de lupa para emprestar maior dimensão às coisas do mundo. 
A pior doença de que pode padecer o bicho homem é a ignorância (΄αγνοια), situação em que o sujeito pensa de tudo saber e não despende esforço nenhum para buscar respostas às indagações, pois se julga senhor de resposta para tudo ou, por vezes, fornece respostas resultantes de um pensar torto, por isso ingênuo, sobre o mundo e as coisas que se lhe apresentam. Vamos a um exemplo ilustrativo.
O sujeito destila indignação sobre a política e diz dela cobras e lagartos. Detesta política e defende a tese de que ela não deveria existir. Volta-se para o interlocutor, que estava só a ouvir o despautério, e indaga: “que pensa você sobre a questão? ” Resposta: “penso que a política é própria ao homem e sempre será desde o dia em que resolveu cumprir seu ser: viver em estado gregário. ” Lembrou a máxima de Aristóteles que dizia ser o homem um animal político, isto é, não se realizar senão em sociedade. E continuou: “quando os homens se ajuntam, necessitam criar regras de convivência para que o grupo atinja os fins que tem em mira. Em todo o decorrer da História, sempre foi assim e será. Dessa maneira, a Política, a qual Aristóteles via como a arte de gerir a πόλις (cidade, cidade-estado, estado) é meramente isso: criação de leis por entes competentes, a aplicação das leis para o atingimento de finalidades e, por fim, existência de órgão que aplicará e vigiará a aplicação das leis. Nas mais comezinhas organizações sociais, a coisa assim funciona: na família, no bairro, na cidade, no Estado, no País... Não se faz necessário o conhecimento científico da ciência política. É tudo intuitivo...”
“Nas democracias modernas, a partir do pensamento do Barão de Montesquieu, na obra O Espírito das Leis, ficou firmada a existência de um só Poder, porém, tripartite, com atribuições definidas: quem cria as leis; quem aplica e vigia sua aplicação; quem as aplica tendo em vista a busca de fins por elas definidos... Ao fim e ao cabo, porém, nos estados democráticos de direito (está nas Constituição Federal em vigência), o Poder emana do povo. Este, pois, utilizando um mecanismo salvador ou remediador, o voto, delega poderes para que os entes referidos ponham em prática o exercício do tal Poder.”
Sabe como o interlocutor fechou sua fala? Disse: “meu nobre companheiro, o problema não é a política, a questão mesmo é A EDUCAÇÃO (palavrinha pouco ou pobremente compreendida por muitos)ou A VERGONHA NA CARA, aquela a que se referiu o historiador maranguapense Capistrano de Abreu. ” 
“O resto é muita conversa fiada, muita ignorância”. “O resto é silêncio. 
MAIS UM NOVO AMOR
Hugo Martins
Aqui venho cantar as alegrias do que é encontrar um novo amor. Aos que se foram, nada a dizer ou a declarar. Apenas se foram, seguiram sua estrada e deixaram aberta uma vaga no meu coração, que, exultante, deu vivas, saltando de alegria, ao novo amor, ao que revivifica, energiza, acalma e faz pensar, parafraseando Roberto Benigni, que a vida é bela, a que acrescento o chavão “o amor é lindo. ” Veio para ficar e se instalou em meu coração não como o “posseiro” de Chico Buarque, mas como alguém que, gratuitamente, encontrou quem tinha de encontrar. Simples. Só isso. Pois bem.
Estava eu posto em sossego tal Inês de Castro, não de coração e alma mortos, mas, sentado à mesa de trabalho a dialogar, diariamente, com meus mais fiéis amigos, meus caros livros, que, também, proporcionam-me, em larga profusão, alento, alegria, paz, harmonia e sossego. Só vim a perceber que faltava algo quando dei de cara com esse meu novo amor, esse doce amor. A coisa se deu num átimo, como num passe de mágica só semelhante às películas adocicadas das comédias de Hollywood. Só uma troca de olhar. E pronto. Depois, a aproximação sincera e desarmada. De repente, vi-me totalmente envolvido pelos tentáculos apertados de fragorosa paixão. Pior. Maior ainda minha felicidade, que, com rima e tudo, deu em reciprocidade. Hoje andamos de mãos dadas, numa troca de ternura que inebria e põe em nossos olhos uma luz mais que brilhante e faz vibrar em nossos corações sentimentos que só se explicam quando se dão os reencontros.
Dia desses, convenceu-me de que deveríamos viajar. Tentei mostrar-lhe que sou, de natural, sedentário e amante empedernido da cidade de Fortaleza, por isso nunca “curti adoidado” o viajar, a não ser nas asas da imaginação, no refulgir gratuito da poesia, no encantamento imanente à e emanante da obra literária. Não cedeu aos meus argumentos e conseguiu levar-me a outras plagas. São os sortilégios do amor. Embarcamos juntinhos, ali pertinho um do outro, sempre de mãos dadas e nos cotizando no jogo lírico da cumplicidade de olhares. Já fizemos duas belas viagens e já programamos mais quatro. Estamos em curso. A segunda viagem deve terminar agora, no próximo dia 13 deste mês de julho. Depois, faremos breve pausa para, no dia 2 de agosto, retomarmos essa espécie de périplo salpicado do mais puro amor, da mais envolvente ternura. A coisa só me tem feito um grande bem. Por isso, dou vivas aos deuses do Olimpo, sobretudo a Eros, que atirou certeiramente uma de suas setas, fazendo meu coração regurgitar, transbordante de um amor dos melhores. Eita... Ô curdiacho! Para onde, afinal, ela me levou? Vamos lá.
Meu grande e novíssimo amor me fez ver que viajar não se deve reduzir a simplesmente deslocar-se, mas, antes de tudo, decididamente aprender alguma coisa de proveito para a vida. E assim fizemos nas duas primeiras viagens e faremos nas quatro próximas. Se não houver alguma ruptura em nossa relação...
Na primeira estação, estivemos nos Pranayamas, paraíso que proporciona lição inesquecível: a arte de respirar para alcançar a energização do corpo, da alma e do espírito, ao tempo em que também se leva a efeito, no mesmo jogo, a fruição da calma, da quietude, da serenidade, da beatitude, do experimentar o aqui e o agora. Quando desperto, julgo haver valido a pena. Reflito que meu grande amor me ama de verdade sem esperar troca senão o amor pelo amor. Não precisa dizer que estou colado nele...
Na segunda estação, quedamo-nos na Yogaterapia. Aqui, também tiramos grande proveito turístico e pedagógico. Aprendemos, por exemplo, que as posturas (ásanas), associadas à respiração, à mentalização e à meditação, promovem curas realmente, não tem enganação, tampouco a recorrência à medicina alopática ou aos comprimidos para dormir, para livrar-se de depressões cotidianas, dores da alma ou do coração. Não. Suficientes os seis mil anos da coisa vinda lá da Índia, que não é mágica, tampouco irreal. Tão real, que muitos não dão crédito à eficácia advinda dos efeitos da Yogaterapia. Da minha parte, terminada uma sessão, saio de lá levitando e passo toda a semana assim, tranquilo e calmo. Pior ainda: meu grande amor obriga-me (ela é exigente) a praticar em casa também. Vôte, canhoto. Ainda assim, I love her forever...
Vem por aí uma terceira estação. Na programação, consta que visitaremos, por três sessões, apenas alguns rudimentos do sânscrito (língua das ciências hindus) a fim de que estabeleçamos familiaridade com a terminologia do Yoga (nos dicionários de língua portuguesa, a palavra pertence ao gênero feminino, daí o uso, por nós, do pronome her e não him). Depois, manteremos contato mais efetivo com os mantras e a meditação num plano mais teórico. Depois? Depois é relaxar e dizer, depois “eu vou pra galera.”
I will always love her. (Dizer isso em latim ou em português é mais fácil e me soa mais sincero). Retirei a frase de uma canção. Eis por que a transcrevo no original). Uauuauauauauauauauauaua!!!
E então? Um amor desses vale a pena? Of course! (até meu inglês melhorou).
FOI ASSIM.
Hugo Martins
Era o ano de 1985. Tarde de domingo. Cansado, liguei o televisor. Escolhi o canal cinco, a TV Cultura. Ia começar um filme qualquer. Em preto e branco. Sempre cultivei a mania de julgar bons os filmes em preto e branco, tal a vida como ela é. Nelson Rodrigues manteve, por alguns anos, página numa revista, não sei se Manchete ou Fatos e Fotos, em que mostrava a vida em preto e branco, sem maquiagem, sem retoques, sem plástica. Mostrava-a tal como ela é, com seus altos e baixos, em sua sordidez e solércia, com suas doces amarguras e seus engodos. Rio de Heráclito, tempo que escorre, imagens que se esboroam, sabor de não eternidade. Nada. Nihil. Gosto amargo na boca. As mentiras convencionais. O jogo do faz de conta. E o tempo passando e, na alma, a sensação de todas as nulidades. Era assim nas minhas reflexões.
Na tela, inicia-se a película. Era Chaplin, nosso valoroso e universal palhaço. Sempre admirei e continuo admirando a figura do palhaço. Em minha infância, quando ia assistir a peças circenses, sempre ficava na expectativa de ver os palhaços. Lembro, aqui no Ceará, o palhaço Trepinha. Só faltava me lascar de achar graça... Havia outros que eu conhecia por meio da leitura de histórias em quadrinhos. Fuzarca e Torresmo (isso é nome de gente?), também tinha um tal de Arrelia, não lembro o nome do que fazia par com ele. Carequinha, mais astro de rádio e de TV que de circo, era o palhaço que contava histórias engraçadas e exercia no espírito da criançada papel pedagógico, lembrando, em suas músicas que “o bom menino não faz xixi na cama”, “o bom menino respeita os seus pais” e que “Papai do céu protege o bom menino...” Nos últimos tempos, o Grande Chico Anísio chamou Carequinha para participar das aulas do professor Raimundo. E ele se saía mais do que bem. Quando chamado, levantava-se, levava à proximidade dos lábios as duas mãos em forma de concha e gritava: “chama minha mãe aí.” Em seguida contava uma história qualquer, relacionada às traquinagens e patifarias dos homens públicos e perguntava ao professor: “por acaso serei eu um palhaço? ” O professor Raimundo, com um nariz de palhaço, respondia com ar de troça, concordando e se irmanando com Carequinha e a população brasileira. Pois bem.
Os comediantes, humoristas e palhaços, poetas e romancistas, toda a casta de animais ridentes, risonhos e engraçados, nas suas pantomimas, nas histórias que contam, nos versos que fazem, por suas geniais gestualidades e produção literária, costumam dar tapas, com luvas de pelica na cara cínica de presunçosos, de falsos moralistas, de poderosos e outros animais da mesma fauna, que, em seu doentio narcisismo, julgam-se acima dos demais mortais... Charles Chaplin é um dos tais, talvez um dos melhores que, malgrado seus momentos de ternura comoventes e seu confessado amor pela humanidade, às vezes, bate forte, açoita a ignomínia, castiga a presunção e a vaidade de tutti quanti...
Ora, mergulhei em reflexões e me esqueci de comentar o filme a que acabara de assistir. Maravilhoso, trágico, surpreendente. Na última cena, arrancou-me muitas lágrimas. Aliás, quase todos os filmes dele provocam no espectador uma mistura mágica de risos e lágrimas como a salientar a dubiedade existente nas acontecências da vida.
Farei esforço para, no próximo texto, não fugir ao tema, perdendo-me em outras reflexões. Juro que me manterei preso aos propósitos temáticos que planejei. Certamente farei um comentário, que deveria ter feito acerca do filme de Chaplin a que me referi... Vamos nós.
Namastê.
E LA NAVE VA, MIO BAMBINO!
Hugo Martins
O Direito acompanha o homem desde quando este ainda se encontra na vida uterina até o momento em que deixa esta vida. O nascituro é senhor de direitos como, por exemplo, os inerentes à sucessão; assim como o que morreu, embora não os possa exercer, deixa problemas na terra caso tenha sido senhor de bens materiais, que serão pasto de largas discussões e a consequente intervenção do direito. Robinson Crusoé, personagem de Daniel Defoe, no romance homônimo, enquanto viveu aparentemente sozinho na ilha em companhia das cabrinhas, não podia, ali, exercer direitos, pois, para a existência deste, fazem-se necessários conflitos de interesse. A partir do momento em que apareceu o índio Sexta-Feira, o direito se instalou... Quer dizer, não passa de crassa ingenuidade a afirmação de que não existe direito aqui ou acolá, seja ele direito ou torto. Questão de educação e grau de civilidade. O resto são palavras ao vento.
Muitas vezes me indagaram se eu defenderia em juízo um estuprador ou um homicida, ambos mergulhados no mais vil dos dolos. Sempre disse eu que sim. Então o perguntador tirava da cartola o argumento dos mais ingênuos: “mesmo sabendo que fora o indiciado que cometera o delito? ” Respondia eu que sim. Aí o sujeitinho vinha com outro argumento mais chinfrim ainda: “e a questão ética? ” Eis aí questões e argumentos acríticos, portanto, destituídos de mais franca cientificidade. É o senso comum de que nada se extrai... Vamos às ponderações necessárias.
Em primeiro lugar, todo homem tem direito à defesa em toda a sua plenitude. Os membros do Congresso Nacional, serpentário de criminosos engravatados e bem-falantes, o batedor de carteiras, o Presidente da República ou o descuidista, todos, sem exceção, gozam dessa prerrogativa, posta na Constituição e, por via de consequência, nas leis nela fundamentadas, próprias dos chamados estados democráticos de direito.
A narração bíblica diz que o Deus dos hebreus, mesmo sabedor do delito de Caim, concede a este o direito de se explicar em “juízo”, ao dele indagar: “Caim, que fizeste a teu irmão? ” Mesmo que todos os advogados do mundo, “por questão de foro íntimo”, se negassem a proceder à defesa de um réu, o Estado, pelos primados da lei, obriga-se a nomear defensor ad hoc (para isso) ...
Em segundo lugar, a tarefa de julgar, por determinação legal, cabe ao Estado-Juiz. Como se explicar “o mesmo sabendo que seu fulano cometera o delito. ” Cabe ao defensor ouvir a versão do acusado a fim de verificar a que estratégia recorrer para entretecer a defesa mais adequada ao caso relatado, bem como verificar o que consta dos autos do processo. Não cabe ao advogado emitir prejulgamentos, mas levar a efeito a melhor das defesas que pode fazer. Vem-me à lembrança o caso antológico dos irmãos Naves, exemplo vivo de como ocorrem os erros judiciários. Se o advogado deles, João Alamy Filho não tivesse dado ouvidos à versão dos dois irmãos, como fizera toda a população brasileira, teriam ambos sido condenados por um crime que não cometeram. Emociona ler as palavras de um dos redatores do Código Penal em vigor, o senhor Roberto Lyra, que, antes defendia a condenação dos réus e, ao saber da verdade, dissera: “nada mais dói na alma que a inocência ultrajada; é preferível absolver mil culpados a condenar um inocente."Como fecho do parágrafo, aquela perguntinha cretina supra-aspeada caberia ao médico que, ante a evidência da morte próxima de um paciente, dissesse à família: “já que sabemos que ele vai morrer dentro de poucos minutos, vamos logo matá-lo.” Nesse passo, o direito à vida assemelha-se ao direito à liberdade, colocados no art.5º, da Carta de 5 de outubro de 1985.
Em terceiro lugar, não vai de encontro aos princípios éticos aquele que patrocina a defesa de alguém. Se a ética é a ciência que aprecia o comportamento humano tendo por critério os limites e conceitos do bem e do mal, que mal estaria fazendo um defensor, que cumpre seu dever de acordo com a Deontologia (tratado de deveres) que orienta a prática de sua profissão? Silêncio, então, senhores! FIAT LUX! FIAT LUX!
Mais estudo e mais reflexão é o remédio mais adequado para afastar o perigo da mera opinião (doxa, em Platão) e para trazer à tona a epistéme (ciência, em Platão).
Voilà.
IMPROVISOS
Hugo Martins
Hoje nada tenho a dizer. Esterilidade quase absoluta. Dedos rijos. Pensamento indisciplinado, teimando em não se fixar num assunto. Lembrei Drummond exprimindo a luta que, às vezes, o redator empreende com as palavras para fazer parir o texto, mas a mão teima em não escrever. É a luta vã a que o poeta itabirano se refere ao dizer que vivemos sempre esse conflito diário com as palavras mal raia a manhã. Vem a vontade de desistir. Mas os dedos, apesar de tudo, cooperativos, teimam em zabumbar o teclado à espera de que o parto se dê. Há quem diga que texto algum deixa de nascer com vida, não há texto natimorto. O mundo aí está, e este vive um romance diuturno com cheiro de eternidade com as palavras. Desse elo necessário, o texto há de surdir. Paciência e deixar que o pensamento acompanhe o galope dos dedos. É a saída. Parece que deveria ser o contrário, mas as ideias caminham trôpegas, montadas numa preguiça de bicho preguiça, ensaiando passadas que mais parecem aquele movimento em câmara lenta das cenas de determinados filmes ou em transmissão de jogadas futebolísticas. Daqui a pouco, o leitor vai dizer que tudo isso não passa de “enchimento de linguiça”, de conversa fiada de quem não tem o que dizer. Claro que ele se engana. Como não ter o que dizer se algo está sendo dito ainda que a duras penas? Mas havemos de dizer algo palpável, sem tergiversações ou fugas, pois este texto que assim se espraia na página, parece não ter pé nem cabeça. No início, sentei-me à mesa pensando em fazer um paralelo entre o texto O Samba do Crioulo Doido, de Stanislaw Ponte Preta, o Lalau, e a poesia absurda do poeta paraibano Zé Limeira. A coisa daria panos para o texto, pois os textos de ambos em muito se assemelham pela absurdidade da linguagem. Stanislaw, naquele samba, satiriza o desconhecimento da História do Brasil, a seu aviso, por parte dos compositores de samba-enredo, à época os crioulos habitantes dos morros no Rio de Janeiro. Já o poeta paraibano era conhecido pela alcunha Poeta do Absurdo, não que ele misturasse assuntos díspares da História ou de histórias sem pé nem cabeça, mas porque, recorrendo a uma linguagem, ás vezes, sem nenhum sentido, fugia à censura de quem quer que seja pela maestria com que tirava proveito da musicalidade das palavras de nossa língua portuguesa. Se eu tentasse fazer o paralelo, teria que copiar algumas passagens dos textos de cada um dos autores citados, do que resultaria um texto longo não cabível aqui neste espaço. Além do mais, a transcrição exigiria análise acurada dos textos com o fito de clarear pontos obscuros e de difícil exegese de cada um deles. Afora o tédio que provocaria certamente no espírito do leitor preguiçoso.
Só sei que, nessa lengalenga, nesse não diz mas diz, acabamos por escrever o texto que não queria sair, mas não suportou a teimosia deste escriba.
A falta de assunto pode ser assunto rico e pródigo para a produção de um texto.
Aí está o texto... Da próxima, sairá um mais espontâneo. Um breve toque de silêncio...
Namastê.
ΠΑΡΘΕΝΟΣ ou παρτένος - VIRGEM
Hugo Martins
A palavra grega, acima transcrita, à guisa de título, em caracteres maiúsculos e minúsculos, seguida da tradução em português, corresponde, em latim, a VIRGO-VIRGINIS, e se aplica à deusa grega Atena (Minerva dos romanos), que era casta, pura e inocente tal como a virgem Maria, que concebeu sem haver mantido relação sexual com quem quer que seja, pois seu filho unigênito foi concebido “por obra e graça do Espírito Santo. ” Assim, a virgindade é signo que designa toda mulher que “nunca conheceu homem”, conforme diz o eufemismo aspeado. O emprego corriqueiro desta palavra em tal acepção surge, de tempos em tempos, acobertada por toda sorte de preconceitos ao longo da História, de tal forma que algumas mulheres já casadas ou experimentadas, muitas vezes brincam, colocando em si mesmas o rótulo de virgens, como se a condição de permanecer virgem fosse uma virtude. Outro sentido que a palavrinha assume na cultura brasileira é “nunca fui propriedade de ninguém”. Para muitas, o casamento se dava porque mantinham “a virtude” de ser virgem, isto é, não “deitaram, antes, em outro leito, com algum homem. ” A coisa era levada tão a sério, que o Código Civil Brasileiro de 1916, revogado ou modificado em 2002, trazia um artigo, dando a prerrogativa ao homem de pedir a anulação do casamento se alegasse, no prazo de dez dias, contados do enlace, não ser mais virgem a mulher... Era o que chamavam “erro essencial de pessoa.” É mole? O macaco Simão diria que sim, mas sobe.
E quem não lembra os “casamentos na polícia? ” O sujeito cometia o crime de sedução, previsto no art. 217 do Código Penal, dispositivo já revogado, que também recebia a designação popular de defloramento. Era esta a redação: “seduzir mulher virgem, menor de dezoito anos e maior de catorze e ter com ela conjunção carnal, aproveitando-se de sua inexperiência ou justificável confiança. ” Nesse contexto, dizia-se que o praticante de tal delito “fizera mal” a uma moça. O sujeito era coagido a casar com a “vítima. Vi um caso, na cidade de Itapipoca, em que o cabra foi castrado pelo pai, pois não quis assumir, e nem podia, pois deflorou duas jovens irmãs. Quando a moça engravidava e o casamento não se concretizava, fazia uma longa viagem, ou o pai da jovem se tornava pai do neto ou da neta. É mole? Sei não.
Algumas palavras existem, em português que assentam na forma e no conteúdo do radical que veicula a ideia da palavra virgem. Por exemplo: partenofilia aponta para o sujeito que demonstra inclinação exagerada por mulher virgem. Do mesmo modo, a palavra partenófobo designa o sujeito que tem medo de virgens... É o homem, é a cultura, é a linguagem.
Χαιρετε, ω φιλόι. (alegrai-vos, amigos).
HOMENS E RATOS
Hugo Martins
Estou pensando no fato inusitado de que resolveram também dedicar ao homem um dia, com data fixada, comemoração e outras tolices semelhantes. Muito bem. Ficou-me, porém, uma dúvida: trata-se do homem, tomada esta palavra em sua acepção genérica, ou a data diz respeito ao ente pensante do sexo masculino? A reflexão assaltou-me, mas, logo, aquietei-me. Se existe um dia da mulher, um dia das crianças, um dia das mães e um dia dos pais, aquela data deve dizer respeito mesmo ao homem na sua acepção “strictu sensu”, isto é, em seu sentido particular.
A mania reflexiva continuou a me espicaçar o espírito com outras pertinentes indagações: e o veste-calça? E o canalha? E o cafajeste? E o inescrupuloso? E o que vende a alma? E o que não mede esforços para passar a perna no outro? E o mentiroso? O salafrário? O calhorda? E o adulador? E o lambe-botas? Toda essa casta está inclusa naquela data? Se assim for, parabéns a quem teve essa brilhante ideia...
E os senhores do Congresso Nacional? E os demais ladrões de gravata? Enfim, e todos os que pertencem à casta de predadores da riqueza nacional, que engabelam o povo ingênuo durante o processo eleitoral e continuam a enganar esse mesmo poviléu ignóbil? Deveriam estes últimos ( os que fazem parte do Poder) serem lançados num dos nove círculos do inferno de Dante ou deveriam ser homenageados também nessa data? Embora em muito se assemelhem a ratos ladravazes pelo talento que demonstram em bater carteiras e furtar, devem, também, ser agraciados. Afinal, "todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza..." Por esse prisma, pilhar o Tesouro Nacional, parece ser um direito que se estende a todos. Só alguns, porém, leem com propriedade tão sombria isonomia.
E vivas aos dias do Homem...
HISTÓRIA e histórias
Hugo Martins
Por dois caminhos se pode narrar a História, não importa se a local se a universal: ou da perspectiva do historiador oficial ou a partir da ótica do historiador revisionista. Se este cuida de expor os fatos perscrutando fontes que lhe oportunizem levar ao texto maior veracidade, sem se render aos arroubos patrioteiros, preso que fica à documentação comprobatória de todo jaez; aquele não passa de subserviente, um lambe-botas do poder, um desonesto, que busca pintar os fatos com as tintas do falso otimismo, colocando em evidência apenas o que exalta homens “importantes” ou põe em evidência fatos que interessem à classe que detém nas mãos o poder. Quem se der ao trabalho de ler a história do Brasil, que vai de 1º de abril de 1964 à eleição indireta de Tancredo Neves em 1986, período durante o qual o povo foi torturado, amordaçado por senhores de baraço e cutelo e engabelado pelo engodo da propaganda governista; ou, por outro lado, tiver a pachorra de ler os episódios da Guerra do Paraguai, em que Brasil, Argentina e Uruguai, entrelaçados numa ridícula e desigual tríplice aliança, cometeram contra o povo guarani toda sorte de atrocidades, que o historiador oficial finge não ver, certamente, este leitor poderá bem distinguir por que caminho optar.
A História oficial tem por vezo sapecar no período medieval (séc. V – XV) a tarja de “idade das trevas”. Tirante a igreja católica e as práticas nada delicadas da Santa Inquisição, não se há de malbaratar a filosofia daqueles tempos, a posta em evidência por Santo Agostinho, Abelardo, Santo Anselmo, e Santo Tomás de Aquino, a título de exemplo. Não vamos falar da Teoria Heliocêntrica do polonês Nicolau Copérnico... Quer dizer, o pensamento preconceituoso sobre os tempos medievais foi obra do homem renascentista, que nega o caráter de continuidade da História. Nenhuma ruptura existiu. A não ser a opção do pensador renascentista em guindar-se por eleger o modelo clássico de pensar o mundo.
Os sofistas, classe de filósofos na Grécia antiga, que costumavam ensinar mediante pagamento, também foram vítimas do preconceito. Na verdade, eram professores, cujas lições se traduziam em porfiar por desenvolver no e com o discípulo a habilidade da leitura e da escritura, bem como a de construir discursos bem estruturados, sobretudo os voltados para a arte de convencer alguém. Se nos acostumamos a ver os sofistas como aqueles que ensinam a arte de enganar, pregando “verdades” por meio de construções lógicas que apenas aparentam veicular a verdade, devemos isso a Platão, que, no livro O Sofista, tratou de caricaturá-los. Ora, embair alguém por meio de engodos verbais não é apanágio dos sofistas, mas de qualquer homem que desenvolveu a habilidade lógico-linguística de levar ao interlocutor a miragem da verdade. Veja-se, por exemplo, Ciro Gomes, um tal de pastor Malafaia ou a farândola de políticos profissionais versada na arte de enganar o povo ingênuo. Não pretendo aqui ofender os sofistas Górgias e Protágoras, tampouco seus seguidores.
O sentido pejorativo do termo assumiu tal extensão, que o adjetivo “sofisticado” deriva diretamente da palavra sofista, como a designar aquilo que vem arreado, enfeitado, ajaezado de penduricalhos de variadas naturezas a desvirtuar o real sentido da palavra: professor itinerante que ensina, repetimos, a arte de argumentar e convencer.
Digamos, plagiando Vandré: vamos com “a certeza na frente, a história na mão. ”
Só isso.
PARA MINHA FLOR.
Hugo Martins
A palavra flor e a própria flor sempre se revelam ao observador grávidas de uma força semântica, que mistura brandura, ternura, singeleza e pureza. Não é à toa que o próprio Cristo, como noticia São Mateus, no seu Evangelho, escolheu os lírios do campo para tecer a bela alegoria da força da simplicidade, que se agiganta e se coloca acima de qualquer glória, mesmo a do sábio filho do rei Davi.
O principezinho de Antoine Saint-Exupéry cuidava de uma delas num dos planetas a que chegou. Enquanto o piloto do avião, que sofrera uma pane, tentava consertar o motor do pássaro de aço, o príncipe de cabelos amarelos esvoaçantes filosofava sobre a única flor que possuía. Dizia temer que algum carneiro a devorasse, apesar dos quatro espinhos que ela mantinha no fino caule e lhe podiam servir de defesa. Aliás, sua teoria sobre espinhos é que estes são a única maldade de uma flor.
Furtei do pequeno príncipe e perfilhei a mais bela lição sobre o amor que se pode ter por alguém. Não vou traduzir temeroso de tropeçar em algum esquecimento. Por isso, transcrevo as palavras dele, aspeando-as: “Se alguém ama uma flor da qual só existe um exemplar em milhões e milhões de estrelas, isso basta para que seja feliz quando a contempla. ” Assim também penso de minha única flor, minha flor.
Carlos Drummond de Andrade, no poema A Flor e a Náusea, tece um discurso deplorando a violência, o desamor, o desencanto e a frieza d´alma nos dias que correm. Ante a dureza dos tempos modernos, marcados pela crueza dessa realidade, o poeta itabirano conseguiu um flagrante: viu, de súbito, surdir, do áspero negrume do asfalto, uma flor e registrou nesses versos; “Uma flor nasceu na rua. Uma flor ainda desbotada. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.”
Assim é minha flor. Única. Com espinhos, bem certo. Ante ela, dobro-me numa espécie de reverência. E ela é para mim “aquela flor”, plagiando o principezinho, para quem, em meio a milhares de outras, meus olhos se voltam e sempre se enchem de encantamento e êxtase e, tal como a flor de Drummond, rompe a carapaça do meu ser, aparentemente duro e áspero, e hiberna nos refolhos do meu coração.
Toda flor é mágica. Não a defino. Vinicius de Moraes já fez isso, referindo-se à rosa, dizendo que: “uma rosa é uma rosa, simplesmente, e nada mais". Assim são as flores que amamos: indefiníveis em sua singeleza.
GRANDE SUSPIRO.
Hugo Martins
Virei a última página. Um tormento. Se a comédia pune pelo riso (Ridendo castigat mores. Rindo-se castigam-se os costumes), a tragédia, pelo espanto, o medo e o terror. Quando os deuses gregos querem afligir o homem, escolhem uma “vítima”, e o leitor que se aguente e suporte o suplício. Não é preciso passar por provas semelhantes às de Prometeu ou Sísifo. Necessário tão só ser animal pensante e convencer-se de que a dor doída faz parte da natureza do Ser. Só ter consciência da essência do Não-SER já constitui doloroso sofrimento
Pois bem. Não li a obra de uma só cacetada. Não. Por tratar-se de releitura, sabia a que fui. Reli-a em pequenos sorvos. Não por masoquismo intelectual, mas para antegozar os acontecimentos, como sói acontecer (mutatis mutandis, mudando o que deve ser mudado) com noveleiros televisivos. Comparação meio infeliz, mas é a que me veio...
A peça se abre com o Rei Édipo pedindo paciência aos habitantes de Tebas, pois ele não regatearia esforços para encontrar o assassino de Laios, marido de Jocasta. O primeiro era seu pai, e Jocasta sua mãe e, depois, esposa com quem teve quatro filhos.
O deus Apolo jogara no destino de Édipo tal infortúnio. Bem que Laios tentou afastar-se, mandando dar sumiço no filho. O que não ocorreu. Terminou o bebê sendo criado pelo rei da cidade de Corinto. Já adulto, e dirigindo-se a Tebas, encontrou a cidade ameaçada pela Esfinge, que dizia só se afastar dali quando alguém decifrasse seus enigmas. Num deles, perguntava a quem se atrevesse a responder, sob pena de por ela ser devorado, “que animal, pela manhã, anda sobre quatro pés; à tarde, sobre dois; e, à noite, sobre três". O homem, disse Édipo. Casou-se com a rainha. O pai ele já matara num conflito de meio de estrada. O livro não fornece uma só pista do porquê Édipo teria que enfrentar tanto sofrimento. Cremos que pelo fato de ser homem. O personagem poderia ser qualquer outro. Há o suplício de Prometeu, acorrentado ao Monte Cáucaso, aonde vinha, diariamente, uma grande águia devorar-lhe o fígado, que renascia todo santo dia; há o sofrimento de Sísifo, condenado rolar uma grande pedra da base ao pico de uma montanha. Só que a coisa se deu durante toda a eternidade, ele nunca chegava ao pináculo, pois a pedra voltava ao lugar de onde ele partira. O problema é que Édipo nada devia aos deuses. Era simplesmente um homem. Aos deuses gregos isso era suficiente. E os oráculos, muitas vezes, não se enganam. Ai do desgraçado sobre cujos ombros pesarem as predições de um deus. Vôte, canhoto. Ufa!!!!
Vale a pena ler a peça de Sófocles.
PERGUNTA SINGULAR
Hugo Martins
Que diabos vem a ser a tal felicidade? Faço a indagação porque acabo de ler duas frases: a primeira, do filósofo e economista inglês John Stuar Mill; e a segunda, do poeta português Fernando Antonio Nogueira Pessoa.
Não vou aqui repetir a questão, coisa em frequentes pautas na reflexão de filósofos, poetas, bêbados; bem como na fala melíflua de padres modernosos, pastores e psicólogos, gente de escol, conhecedora do que vai na alma dos outros com uma facilidade que assusta...
Não trago também à colação o que pensam sobre o assunto Sócrates e os pensadores cínicos Diógenes e Antístenes. Tampouco trago do texto de Vinícius a comparação em que felicidade é algo semelhante a uma gota de orvalho pousada numa pétala de flor, gota que, "brilha tranquila, depois, de leve, oscila e cai como uma lágrima de amor." Ou ainda, no poema de Vicente de Carvalho, em que homem algum alcança a felicidade, pois ela "está sempre onde nós a pomos e nunca a pomos onde nós estamos". Aí é freud. Seria inútil perguntar-se como alcançá-la... Não queríamos trazer à baila aquela "verdade" sábia que alguns apregoam e, por isso, se afogam num mar de tautologia ou obviedade tão gritante, que nos deu vontade de não transcrevê-la. Olha que pérola: "Não existe felicidade, o que existem são momentos felizes". Dá um time, meu. Gritemos: onde está a liberdade de expressão? Não é esse o problema. É outro. Vamos parar a discussão e transcrevamos as frases referidas na abertura do texto. Deixemos de lado o que aí está e pensemos nisso: Stuart Mill: "Pergunte-se a si próprio se você é feliz, e você deixa de sê-lo". Fernando Pessoa: "Por que é que, para ser feliz, é preciso não sabê-lo?"
Sei não. Voilà la question.
NADA DE ENGRAÇADO
Hugo Martins.
A canção ABC do Sertão, composição de Zé Dantas, em parceria com Luiz Gonzaga, traz a expressão “Lá no meu sertão pros caboclos lê/ Têm que aprender um outro ABC...” Daí então, o rei do baião repete, de cor e salteado, o “ABC do sertão”, arrimando-se numa suposta pronúncia matuta, emprestando a ela um tom de gracejo sadio. Entende-se a intenção dos letristas em salpicar suas canções com a “nordestinidade”, preocupação sempre presente na obra de um de outro, mas a letra não espelha a verdade. Vejamos por que.
Em qualquer aula sobre fonologia e fonética, a primeira coisa que se deve levar a efeito é a diferença entre grafema (letra) e fonema (som). Ensina-se que temos, em língua portuguesa, cinco vogais. Falso. Na verdade, temos cinco letras vocálicas para representar, foneticamente, os sons vocálicos, que, na realidade, são sete (a, é ê, i, ó, ô, u). O mesmo se dá com os sons consonantais, que podem ser representados por diversos grafemas (letras), tudo depende do contexto. A letra C, por exemplo, tem duas realizações fônicas, (ká) em casa, cavalo, mas (cê) em cidade, cessão, cedo. Pensemos no grafema J, que tem valor de (gê), em jato, jeito, jia, jota, junto... Já o grafema G tem duas realizações fônicas, (guê) em garrafa, garupa, garoa, praga, mas pode representar o som (gê) em girafa, página, gelo. O grafema S é (zê) em mesa, (cê) em sala e sola.
Para entender o mecanismo das realizações fônicas respeitantes às chamadas consoantes, há de se entender que estas recebem este nome para o qual não temos olhos nem ouvidos. Consoante é o que “soa com”. Por isso, a consoante só se realiza quando se apoia no fonema vocálico. Experimente iniciar a pronúncia da palavra “pé”, “pá”, “pó” sem pronunciar o fonema vocálico “. Antes de fazer o sugerido, tire uma fotografia, que, certamente, mostrará você apertando o lábio superior ao inferior. Quer dizer, não existe, foneticamente, o fonema consonantal senão se apoiado em qualquer fonema vocálico. Sem este, só há esgares e caretas.
Como na canção, é claro que o J é (gê) ou (gi) como diz o compositor. Claro que o L é (lê), bem como o M é (ê) e o N é (nê). Nem sempre, pois muitas vezes estas duas letras podem servir apenas para assinalar a nasalidade de uma dada vogal. Em “campo”, “cento”, “cinto”, “sinto”, “sonso”, assim como em sombra, semblante e simples, o M e o N não são (mê), tampouco (nê), apenas indicadores de nasalização da vogal com que se relacionam.
Só para lembrar, a letra Y, que voltou , oficialmente, a fazer parte do abecedário da língua portuguesa, grafema a que João do Vale, interpretado por Jackson do Pandeiro, na letra Sebastiana, chama de Pissilone, no lugar de “ípsilon” (proparoxítona) ou ipisílon (paroxítona), conforme registram os dicionários, na verdade deve ser chamada de “i” grego (como dizem os franceses), pois os falantes desta língua pronunciam-na como se fosse um misto de “u” e “”i”, sempre com os lábios arredondados, formando o famoso “bico francês”. Entre nós, lusófonos, o Y soa I. Nós, brasileiros, também pronunciamos alguns de nossos sons vocálicos “ó”, “ô” e “u”, fazendo biquinho. Faça-se a experiência pronunciando as palavras “ovo, “uma”, “vovô, “bora”, “uva”, “burro”, “porrada”. Legal, né não?
Assim, no sertão, o ABC continua o mesmo sem tirar nem pôr e, também, sem nenhum toque humorístico. Continua o mesmo, sim, porque pronunciado pelos falantes de língua portuguesa... Cada letra ou o encontro delas com a tintura fônica adequada...
Fiquem ressalvadas, porém, as boas intenções dos compositores.
É isso...


QUESTÃO ORTOGRÁFICA COM FIAPOS ETIMOLÓGICOS.
Hugo Martins
O problema ortográfico, em sede de língua portuguesa, foi parcialmente resolvido a partir de 1911 quando aqui se adotou a tal ortografia simplificada, calcada no pensamento do filólogo português Gonçalves Viana, dissertado em obra homônima. Passou a viger no Brasil, entretanto, a partir do ano de 1943. Conquanto não se afaste dos moldes etimológicos, a obra A Ortografia Simplificada bane os helenismos (do grego) e latinismos (do latim) complicados e procura como que “adaptar” a grafia de algumas palavras sem se dobrar ao cientificismo sem peias... Por exemplo, se alguém quiser se manter fiel à etimologia pela etimologia, deveria escrever “mixtura” ou “mixto” e não mistura ou misto. Razão? As duas primeiras palavras pertencem ao léxico latino e escrevem-se: a primeira, do gênero dos nomes substantivos MIXTURA, AE; e a segunda, do adjetivo triforme MIXTUS, MIXTA, MIXTUM. Quando a palavra CONSCIÊNCIA mantém aquele S depois do prefixo CON (M), segue-se a via etimológica, pois o verbo CONHECER, no infinitivo impessoal em latim, assim se grafa SCIRE. Aquela letra também se mantém no substantivo latino CONSCIENTIA, CONSCIENTIAE. Ainda assim, o filólogo português poderia ter optado por grafá-la sem o S. Lembrar que ortografia é convenção...
A reflexão foi motivada por uma pequena discussão que mantivemos com alguém quando utilizou a forma verbal SOE, do verbo SOER, em português, e eu lhe disso que a forma deveria ser SÓI, como MÓI do verbo MOER. Não lhe tirei a razão quando arrancou da algibeira a questão etimológica para justificar sua opção por SOE. O verbo SOER, português, que significa costumar, ser comum, ser habitual e assume tal acepção em latim, português e italiano, deriva do verbo latino SOLERE. Como toda palavra, também sofreu transformações em seu corpo ao longo do tempo. Desse modo, sofre a queda do E final (apócope) e fica SOLER; em seguida, ocorre a queda do L (síncope), resultando o SOER tal como se encontra na língua portuguesa. Deveria ser SOE, mas não é, por razões de simplificação. Como sói acontecer, as questões de linguagem sempre suscitam bons debates em que se cotizam experiências e se lucra aprendizagem.
A palavra insólita (atentar para o prefixo IN) é corriqueira em português, significando aquilo que não é habitual. É muito comum, na língua italiana, o uso da locução DI SOLITO, significando o que é costumeiro e habitual.
Para fechar o blá-blpa-blá: quem consultar os bons dicionários de língua portuguesa, verá que a palavra SÓLITO lá estará registrada ainda que seu uso seja quase nenhum.
Isto posto, fica firmado que a grafia do verbo SOER, em português, na terceira pessoa do singular do presente do indicativo, é SÓI e não SOE, como grafa meu amigo, estando assentado em argumentos etimológicos.
Como SÓI acontecer, fujo aos debates insossos acerca de corrupção e outros assuntos INSÓLITOS para me entregar a reflexões, a meu ver, menos nocivas...
Voilà.
"TROLANDO" COM COISA SÉRIA.
Hugo Martins
Não posso deixar de aplaudir iniciativas que visam a trazer para este espaço a coisa pedagógica, a cotização de informações e até mesmo a conversa sobre "miolo de pote".
Da mesma forma, não dispenso tecer críticas (essa palavra de origem grega significa sopesar e avaliar) a deslizes, a cometimentos de erros crassos, cujos efeitos levam os desavisados a propalar os pecadilhos. Sobre a palavra TRIPLEX, que não é oxítona, mas paroxítona, devendo receber acento gráfico na primeira sílaba, já dissertamos, fundamentando nosso parecer na língua latina e aconselhando às pessoas consultar o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, publicação da Academia Brasileira de Letras. É nele que se encontra a grafia oficial do idioma. Não mais vou me perder em especulações sobre a palavra TRÍPLEX.
Outro dia, vi, aqui por estas bandas, alguém propondo uma questãozinha acerca de concordância. Após a proposição, vinham as opções. Que dizia a questão? Vou aspear. "Marcar a alternativa correta". Entre as quatro listadas, o sujeito proponente considerou correta a seguinte, também aspeada: "São meio dia e meio." Aí, meu amigo, é de lascar os camburões. Quer dizer, na questão "correta" encontram-se três erros imoralmente crassos. Vamos desentortar a coisa em caixa alta. É MEIO-DIA E MEIA. Tudo bem que se trata de gramatiquice, mas as duas questões aqui trazidas podem induzir alguém, que se submete a concurso público ou que escreve textos, a cair na esparrela... Dá um tempo, porra! "Meio-dia" leva o verbo para a terceira pessoa do singular. "Meia" concorda com a palavra hora, subjacente na frase Além disso, esta palavrinha composta deve ser grafada com seus elementos separados por hífen. E vamos nós. Agora por outros rumos, já que são milhares de falas, deblaterando contra toda corrupção nossa de cada dia. As que ocorrem, a céu aberto, no Congresso Nacional, nas Assembleias estaduais, em Câmaras de vereadores, nos grandes e pequenos negócios, nas pequenas tentativas de subornos ocorrentes no cotidiano... É coisa que dói lá no fundo da alma. Penso que só gritar não leva a nada. As grandes reformas, (pronto, descobri a pólvora), começam em nossas almas. Tudo muito simples, como dizia o pensador francês Voltaire, "Chacun doit cultiver son jardin" (Cada um deve cultivar seu jardim), basta não se deixar levar pelo canto mavioso de alguma sereia, canto do lucro fácil, das pequenas corrupções perfeitamente visíveis em países que fundaram sua moral nos alicerces de corrupções trazidas à baila pela História revisionista.
O preâmbulo aqui saltou porque, em algum dia, li uma frase não sei em que texto de Machado de Assis, que me deixou ressabiado. Vinha travestida da roupagem cínica e ceticista do romancista carioca. A fala era de um personagem. Transcrevo-a como forma de colaborar com os "conselheiros" , "moralistas" e com aqueles que aplaudem tão dignas pessoas. Quando leio Machado, saio da página com o espírito conturbado pelo mar de reflexões que o escritor alquimista das palavras nos impõe sem saciar. O que vou transcrever pesquei da memória da leitura de um de seus enfeitiçantes e atuais textos, cheios de contemporaneidade no que diz respeito ao que vai na alma do homem. É uma cacetada. Lá vai, e já vou. "SE ENCONTRARES PERDIDOS CINCO TOSTÕES, DEVOLVE-OS AO LEGÍTIMO DONO; SE ENCONTRARES CINCO MILHÕES, DEPOSITA-OS NA TUA CONTA".
PÁ !

segunda-feira, 3 de julho de 2017

ELE AINDA NÃO MORREU...
Hugo Martins

Sob a cartola de cone alto e abas curtas, um rosto liso, alvo e sem rugas. Cabelos pretos, o olhar vivo e perscrutador. Sob o nariz bem desenhado, um bigodinho preto, aparado à moda Adolfo Hitler. O paletó curto e mais que apertado realçava-lhe o corpo delgado, de cuja cintura, descia-lhe um par de calças folgadas além da conta, de bainhas caídas sobre os sapatos exageradamente grandes, lembrando os dos palhaços de circos populares. Numa das mãos, a inseparável bengala de bambu, em que ele se apoiava, ou girava em movimentos contínuos do braço enquanto caminhava com passos aligeirados e pés abertos como ponteiros de relógios marcando a hora dez para as duas... A primeira vez que o vi numa tela de cinema, foi no Clube Maguari, em Fortaleza, onde, aos domingos à noite, projetavam-se filmes numa tela que mais parecia um lençol. Achava-o engraçado sem atinar que, aqueles trejeitos, aquele andar e aquela indumentária formavam um belo texto de uma retórica em que a ridicularia humana, as tolas vaidades e outros pecadilhos menores se constituíam em signos de gosto teatral de saltimbancos e da ópera-bufa, mas tangenciavam a sublimidade inebriante da Filosofia.
Colocar voz e cores nos seus filmes significaria negar-lhes a essência, pois, como existe uma linguagem do corpo (O Corpo Fala) que vem interessando à Psicologia moderna, esse cineasta e ator inglês, nascido em Londres em 1889, era empedernido defensor do cinema mudo, que via como a forma mais legítima de interpretar a realidade. Seu grande personagem figurou em dezoito películas de que ele era a personagem principal, dirigia e, muitas vezes, compunha o tema musical. Uma só vez, dirigiu filme falado e em cores, aquele protagonizado pelo ator norte-americano Marlon Brando e a atriz italiana Sofia Loren, e intitulado A Condessa de Hong Kong. Dentre os filmes mudos e em preto e branco, destacamos quatro de sua lavra, tecendo comentários sobre cada um deles: Tempos Modernos, O Grande Ditador, Luzes da Cidade e Luzes da Ribalta. Todos emocionantes e inesquecíveis pela temática universalizada em que o homem é colocado num cenário semelhante àquele que Machado de Assis pintou no capítulo VII (O Delírio) da obra Memórias Póstumas de Brás Cubas. Vaidade em todas suas nuanças, sede insaciável de poder, falta imperdoável de gratidão, corrida desesperada pela riqueza, eis o somatório de coisas humanas, que transformam o homem numa espécie de trapo, tal como ocorreu com Brás Cubas, sacudido pelas mãos imensas de Pandora, quando esta o transporta para o alto de um monte para ele contemplar melhor sua própria desdita, desfilando na sucessividade macabra dos séculos
Charles Chaplin nunca morreu, não existe nenhum “ainda” precedendo este verbo, pois o homenzinho de sorriso traduzindo decepção, inscreve-se na galeria dos bruxos mágicos, que olham a realidade com o terceiro olho, o da Arte, o único que eterniza criação e criador: “Ars longa, vita brevis est.”
I love him forever.
Voltaremos com textos apreciativos acerca dos quatro filmes suprarreferidos.
LATIM, PRA QUE TE QUERO AINDA?
Hugo Martins

Um amigo me pergunta que significa, ao pé da letra, a palavra MISSIVISTA. Respondendo-lhe a indagação nos moldes que ele colocou, disse-lhe tratar-se de alguém que envia algo a alguém. Como sou dado a entrar (até onde me é possível) no âmago das palavras, discorri, em seguida, tal o professor que esclarece a coisa, contextualizando a palavra, como fazia comigo minha mãe querida quando, estando eu, ainda menino, a ler alguma coisa, gritava: ” mãe, que significa a palavra...? ” Ela dizia: “leia a frase. ” Prontamente vinha a resposta.
Assim, recorri ao velho latim. O dicionário latino apresenta, de regra, a categoria verbo (os regulares) por meio de cinco formas verbais: a primeira e segunda pessoas do presente do indicativo, o infinitivo impessoal, o pretérito perfeito do indicativo e o supino. Ao contrário do dicionário de língua portuguesa, que apresenta aquela categoria tão somente por meio do infinitivo impessoal. Se, em português, temos ENVIAR, em latim, temos, conforme a ordem acima explicitada: MITTO, IS, ERE, MISI, MISSUM. Pois bem, é da última forma que derivam as palavras MISSA, MISSAL, EMISSOR, MÍSSIL, PROMISSOR, MISSIVA, MISSIVISTA. Desse modo, a acepção geral do verbo é, repetindo e traduzindo: ENVIO, ENVIAS, ENVIAR, ENVIEI, PARA A ENVIAR...
Quando se diz que Machado de Assis era rigoroso e refinado MISSIVISTA, estamos nos referindo ao escritor carioca como alguém que manteve vasta correspondência epistolar com outras pessoas. Missivista, pois, é aquele que escreve cartas e, por evidente, envia a alguém ou faz de conta. Epístola é palavra, também, de origem latina sinônimo de carta ou missiva. Exemplo de missivista na Bíblia Sagrada é São Paulo, o apóstolo dos apóstolos. Fernando Sabino, o cronista mineiro, muito se correspondeu com o paulista Mário de Andrade e com o pernambucano Manuel Bandeira. Existe vasta produção epistolar, entre os missivistas Alphonsus de Guimaraens Filho e os dois escritores últimos supracitados.
O escrever cartas se constitui, por isso, numa espécie de gênero literário. O romance Les Liaisons Dangereuses (As ligações Perigosas), do francês Chordelos de Laclos, é romance de natureza epistolar. José de Alencar escreveu romances os quais ele iniciava, saudando alguém, em estilo epistolar, e lhe contando uma grande e saborosa história. Bom exemplo é o romance Lucíola, que fica como sugestão de leitura... É bom, né mermo?
É pra isso que nos serve o latim, que deveria voltar a ser ensinado nas escolas... Aqui no Ceará a UFC, em seu Departamento de Línguas Estrangeiras, no Centro de Cultura Clássica, vem formando, em latim e grego, boa leva de estudantes, geração que, sem dúvida, dará mais brilho, beleza e sabor ao ensino da língua portuguesa.
Sou superlativamente grato à UFC, que continuo frequentando. Aliás, a quem possa interessar, nossa Universidade Federal proporciona, a quem tem boa vontade, curso de grego, desenvolvido em seis semestres. O sintagma “boa vontade” quer alertar para o fato de que o curso funciona aos sábados das oito às onze e quarenta. Alguém dirá: “tipo assim”, brother, “ninguém merece”, “cumpadi”; tem as baladas de sexta-feira, mano”. Pô, cara, é mermo”. “Tô fora, falô?”. E disse...
Eis aí... Ave, verbum! (Ave, palavra!)
DÓI MESMO...
Hugo Martins

Desde cedo me enfiaram de goela abaixo uma verdade cultural:   “homem que é homem não chora. ” O tempo correu, e, com ele, aprendi a lição de que todo homem chora exatamente por ser homem. Como estancar lágrimas quando elas teimam em descer de olho abaixo? O degas aqui é, sem tugir nem mugir, um chorão de primeira grandeza. Também não costura explicações e porquês. O degas aqui chora com a leitura de determinados romances, com dados filmes e outros fatos comezinhos do cotidiano, quando vê, por exemplo, fotos em que aparecem crianças sofrendo... E, também, quando lê a poesia ardidamente lírica, sobremaneira quando o faz em voz alta. Com a leitura do romance Os Miseráveis, do francês Victor Hugo, quase me lasco de chorar com algumas cenas, sobretudo as referentes à menina Cosette; quando vi pela primeira vez o filme O Grande Ditador, de Charles Chaplin, sobretudo a cena final, quase me fodo de chorar; quando alguns inconsequentes teimam em postar, nas redes sociais, crianças portadoras de anencefalia, o degas aqui sente vontade de chorar, mas retém o pranto pois não fica a olhar o quadro triste, que lembra um quadro de Murilo, em que figura uma criança tristonha, sofrendo de solidão e desamparo. Está ela sentada ao pé de uma janela de um quarto escuro por onde entram alguns tímidos raios de Sol. É a dor, não qualquer dor, mas a universalizada por tintas, letras, pincéis, sons e movimentos. Ler Manuela Bandeira muito me comove. Os temas ligados “ao que deveria ter sido e não foi” e os cantos de morte doem-me lá no fundo da alma... Às vezes, chego a chorar...
Quando iniciei a escritura do presente texto, trazia em mente escrever alguma coisa sobre Charles Chaplin, mas os dedos teimaram em tocar no assunto supra. Súbito, pensei: “meninos, não estou fugindo ao tema. Tem ele tudo a ver com Carlitos. ” Claro que não me interessa comentar a vida sofrida do genial Charles, vivendo com a família em situação de extrema penúria e tendo que testemunhar, impotente, a ebriedade do pai e a loucura da mãe; tampouco salientarei a morte prematura de ambos. Aliás, traziam no sangue o talento herdado pelos filhos Charles e Sidney. Não, longe de mim lembrar alguns lances da biografia do adorável palhaço universal... Prefiro rememorar quatro filmes dele, que estão dormitando nas prateleiras de meu cérebro, e são portadores de indelével marca da universalidade da dor humana neles presente. Trata-se das películas O Grande Ditador, Luzes da Cidade, Luzes da Ribalta e Tempos Modernos. Inexcedíveis tragicomédias em que riso e pranto se misturam de tal forma, como se o espectador, diante de um espelho, olhasse o próprio semblante e dissesse de si para si: “quanto eu sou ridículo, dissimulado, mentiroso, interesseiro e enganador. ” Só conheço outro artista capaz de levar o leitor maduro a experimentar isso: Joaquim Maria Machado de Assis na tríade Memórias Póstuma de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro, sem esquecer uma centena de contos que se afinam pelo mesmo diapasão.
Antes de relembrar alguns episódios daqueles quatro filmes, bom colocar em evidência algumas facetas de Charles Chaplin. Era ator e diretor de seus próprios filmes. Para alguns, compôs a   música-tema. Por vezes, levava o ator a repetir mais de cinquenta vezes um mesmo determinado gesto ou o modo de olhar ou sorrir. Sofria de uma doença incurável: o perfeccionismo. Era severo consigo mesmo e com atores de ponta ou figurantes. Quando ia montar a fita, cortava mais da metade do que nela continha. Era, nesse sentido, um divino doente.
O texto está ficando longo. “Depois eu conto” mais, como diziam os vaidosos e vivaldinos cronistas sociais, que vivem de explorar a vaidade dos néscios. Só quero deles a frasezinha aspeada... Depois eu conto... Depois eu conto mais das peripécias daqueles filmes...
DÓI FUNDO

Hugo Martins

Nos anos 80, li Uma História da Minha Vida, de Charles Chaplin, autobiografia do ator inglês, redigida, pois, em primeira pessoa... Faz alguns dias, venho navegando em 1744 páginas numa biografia definitiva do insuperável Carlitos, escrita por David Robinson. A primeira, escrita em foco de primeira pessoa, pode desvirtuar, aqui e ali, alguns fatos, coisa perfeitamente esperável, pois a atitude confessional sempre é parcial,  pintando a realidade da perspectiva do autobiografando. A outra, escrita do ponto de vista da terceira pessoa, não cobra do biografador nenhuma concessão, nenhum fechamento de olhos... A narrativa rememorativa flui sem medo, sem o receio de que alguém possa ferir suscetibilidade de seu fulano e seu sicrano. Não. O biógrafo parece ao leitor alguém preocupado em se manter fiel à verdade dos fatos. Afinal é biografia definitiva ou palavra final acerca de figura cuja história é apinhada dos disse-que-me-disse e outros relatos de quem o vulgo espera o surpreendente, o escandaloso, o episódio desmitificador, coisa que adormenta expectativas de mentalidades mesquinhas e rasteiras.
Ainda não terminei a leitura da segunda. Há um fato, porém, que me tocou a alma: Carlitos reconhece que muitos dos trejeitos dos palhaços que ele conheceu serviram de inspiração para suas performances nos filmes que produziu ou em que atuou. Não sei por que nem quero saber, nessa passagem da leitura, as lágrimas começaram a escorrer no rego de minhas rugas. Penso que foi por conta da evocação do palhaço, ente que frequentou minha infância e por quem sempre nutri grande ternura. Quando menino, tive muito contato com a chegança de circos e palhaços em minha terra. Nos dias de espetáculos, importava-me, sobretudo, o palhaço, a maneira psicodélica com que se apresentava, e as pantomimas em que aparecia só para divertir o público... A figuração era a mesma: calças largas, acinturada por um aro de metal e sustentada por largos suspensórios, cabeça coberta por chapéu comum, realçando um rosto em que o nariz arredondado como uma pitomba sem a casca, punha em relevo uma boca exageradamente acentuada por maquiagem em que os lábios se alargavam e intumesciam. Todo palhaço era careca e tinha enterrada, sob o largo colarinho, a cabeçorra, que sumia e vinha à tona em perfeita obediência ao movimento do sobe e desce dos ombros.
Dos palhaços de minha infância, dois se mantiveram vivos: Carequinha e Trepinha. Carequinha era palhaço educador. Aparecia em programas de rádios ou televisivos cantando músicas de sabor pedagógico, pondo em relevo a importância de a gurizada respeitar os pais e levar a sério os estudos. Trepinha era malicioso e, vez por outra, apesar da censura, contava alguma história cabeluda. Sempre tendi para os palhaços que contavam histórias, se não imorais, pelo menos surpreendentes. Lembro de uma feita, tinha eu 12 anos, e fui ao circo com uma irmã e seu namorado. Súbito, surge uma cena, já clássica,  de veículo trazendo os palhaços que se metem numa confusão envolvendo alguns carros automotores. Depois de uma  colisão, em meio à fumaça, um dos palhaços é acudido pelos demais. Na hora em que um amigo se aproxima, levanta a perna e solta um sonoro peido. Alguém se aproxima e pergunta se ele havia morrido. O sujeito responde: "acaba de soltar o último suspiro". A risadaria era geral. Claro que minha irmã e o namorado se constrangeram. Quanto a mim, fiz coro à gargalhada coletiva...
Para mim e os da minha geração, a valoração positiva ou negativa da performance de um circo tinha por termômetro o palhaço. Quanto mais imoral, safado e sem-vergonha fosse, e mais contasse histórias em que a patifaria fosse a tônica, maior era a frequência ao circo... Pelo menos na avaliação dos meninos de meu tempo.
Quanto a Charles Chaplin, a história é outra.
Iremos a ela...

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UM PADRE PADRE.

Hugo Martins

Nunca lhe esqueci o porte retilíneo, esguio e esgrouvinhado, cuja elegância natural era realçada pela batina preta que lhe chegava aos calcanhares. Cabeça afilada, cabelos à escovinha, nariz bem desenhado, olhos vivazes, acentuados pelos óculos de aros, por cujas grossas lentes, que escondiam espessas sobrancelhas negras, podia-se pressentir a luz da bondade e a sinceridade com que abraçou a missão vocacional.
Exercia sobre nós, meninos, um certo e explicável temor reverencial. Era o professor que ensinava pelo exemplo. Caso flagrasse algum garoto fazendo traquinagens e estripulias em ruas e praças, puxava-lhe, torcendo, uma das orelhas, declinando o nome dos pais, a quem bem devia conhecer. Assim agia, nessas ocasiões, para fazer ver ao moleque que tinha ele, o padre, conhecimento de causa... E como tinha... Essa austeridade de homem justo também se estendia aos adultos e a homens metidos a poderosos que, por exercerem cargos públicos em assembleias legislativas, escondiam-se por trás de uma falsa popularidade, mas eram homens com certa tendência à tirania e à prepotência.
Um deles possuía um serviço de comunicação, isso nos anos 50, num município enterrado no atraso, cuja população, muita vezes, tinha que mendigar, por exemplo, uma vaga na escola pública. Aquele serviço de comunicação servia para o político fazer programas musicais, mas, também para exaltar sua imagem como bem fazem os ditadores. Pois bem, o padre também criou, na própria igreja-matriz, sua Voz do Campanário, cujo serviço se voltava para as programações eclesiásticas e para rechaçar alguns discursos de políticos assanhados. Parecia existir entre o padre e os políticos locais algum laivo de inimizade ou malquerença. A bem da verdade, respeitavam-se, embora, aqui e ali, surgisse uma ou outra rusga sem graves consequências. Numa delas, um dado político puxou um revólver para o padre como a querer intimidá-lo. O padre não se fez de rogado: meteu a mão no bolso, puxou, também, um pau-de-fogo e disse, sem medo: "sou padre e sou macho". E era mesmo.
Há três obras na cidade do meu tempo de menino surgidas da iniciativa do padre: o Círculo Operário, o Colégio Pio XII e o Patronato, instituições voltadas para a educação. Ainda hoje servem, e bem, aos filhos da terra
Não sou chegado a herois, mas não posso fugir ao reconhecimento de ações que determinados homens de coração puro e bom desenvolvem, gratuitamente, em prol de outros, sem esperar recompensas ou aplausos. Por isso, quando me pedem declinar o nome de um desses homens, que conheci em minha terra natal no tempo de eu menino, não titubeio: padre Abelardo Montenegro, homem querido de todos, cujo retrato aí está debuxado e faz parte da galeria de seres humanos que admiro.
O LATIM e o VERNÁCULO

Hugo Martins

Existe uma palavra no léxico português, que provém diretamente do léxico latino. É palavra de intensidade proparoxítona, assinalada graficamente por um chamado acento agudo na língua portuguesa. Como os acentos (notações gráficas) não existem em latim, nos dicionários latinos temos a grafia ALIBI e, nos de língua portuguesa ÁLIBI. Esta palavrinha é formada do pronome Alius, que significa outro, e do advérbio Ibi, que significa lugar. Desse modo, ALIBI ou ÁlLIBI, em latim ou em português, significa NOUTRO LUGAR. Na ciência do Direito, é meio de prova. Por exemplo, o sujeito é acusado de haver cometido um delito num dado lugar e em determinada hora. Caso comprove que, naquelas circunstâncias, encontrava-se noutro lugar, eis seu ALIBI. Simples, não?

2- Em outra ocasião, trouxemos à baila uma palavrinha de largo uso nos últimos tempos. Insisto em bater no assunto porque na porra deste país vocacionado à subserviência cultural, no ensino/aprendizagem de uma língua estrangeira, não se medem esforços para que o aprendiz não resvale na pronúncia de dadas palavras. Uma gracinha a gravidade pedagógica do escrúpulo. Na língua nativa, é permitido que se pronunciem erroneamente ou às avessas muitas palavras: "pespectiva" no lugar de perspectiva; "supertição" em lugar de superstição; há mesmo quem pronuncie "parcipação" em lugar de participação...
Agora inventaram uma tal TRIPLEX, com pronúncia oxítona. É dizer como o padre Quevedo diante de alguns impostores dados a atropelar a ordem natural das coisas: essa pronúncia não existe e existe, mas é errônea.
Basta um argumento: a palavra em pauta também provém da língua latina com pronúncia paroxítona. Meio de prova? Consulte-se o dicionário de língua portuguesa e lá se verá TRÍPLEX com um acento gráfico do tamanho de um elefante, de um bonde ou de um trem
O argumento serve, também, para DÚPLEX.
Algum "idiota da objetividade" trará na algibeira o argumento de que DUREX  é  palavra oxítona. Não se lhe tira a razão, mas a ele mostrando que não é a mesma coisa. No  exemplo fornecido, o elemento EX nada mais é que um sufixo que intensifica o adjetivo, espécie de elemento formador de advérbio. Durex seria algo duro a que se pode colocar uma juntex. Muito duro, muito junto e muito justo...
Massa, meu brother, nada a ver. Ninguém merece argumentos pobres e ingênuos, tampouco imposturas... Vamos estudar, vamos ler...
Ave, verbum !