DÓI MESMO...
Hugo Martins
Desde cedo me enfiaram de goela abaixo uma verdade cultural: “homem que é homem não chora. ” O tempo correu, e, com ele, aprendi a lição de que todo homem chora exatamente por ser homem. Como estancar lágrimas quando elas teimam em descer de olho abaixo? O degas aqui é, sem tugir nem mugir, um chorão de primeira grandeza. Também não costura explicações e porquês. O degas aqui chora com a leitura de determinados romances, com dados filmes e outros fatos comezinhos do cotidiano, quando vê, por exemplo, fotos em que aparecem crianças sofrendo... E, também, quando lê a poesia ardidamente lírica, sobremaneira quando o faz em voz alta. Com a leitura do romance Os Miseráveis, do francês Victor Hugo, quase me lasco de chorar com algumas cenas, sobretudo as referentes à menina Cosette; quando vi pela primeira vez o filme O Grande Ditador, de Charles Chaplin, sobretudo a cena final, quase me fodo de chorar; quando alguns inconsequentes teimam em postar, nas redes sociais, crianças portadoras de anencefalia, o degas aqui sente vontade de chorar, mas retém o pranto pois não fica a olhar o quadro triste, que lembra um quadro de Murilo, em que figura uma criança tristonha, sofrendo de solidão e desamparo. Está ela sentada ao pé de uma janela de um quarto escuro por onde entram alguns tímidos raios de Sol. É a dor, não qualquer dor, mas a universalizada por tintas, letras, pincéis, sons e movimentos. Ler Manuela Bandeira muito me comove. Os temas ligados “ao que deveria ter sido e não foi” e os cantos de morte doem-me lá no fundo da alma... Às vezes, chego a chorar...
Quando iniciei a escritura do presente texto, trazia em mente escrever alguma coisa sobre Charles Chaplin, mas os dedos teimaram em tocar no assunto supra. Súbito, pensei: “meninos, não estou fugindo ao tema. Tem ele tudo a ver com Carlitos. ” Claro que não me interessa comentar a vida sofrida do genial Charles, vivendo com a família em situação de extrema penúria e tendo que testemunhar, impotente, a ebriedade do pai e a loucura da mãe; tampouco salientarei a morte prematura de ambos. Aliás, traziam no sangue o talento herdado pelos filhos Charles e Sidney. Não, longe de mim lembrar alguns lances da biografia do adorável palhaço universal... Prefiro rememorar quatro filmes dele, que estão dormitando nas prateleiras de meu cérebro, e são portadores de indelével marca da universalidade da dor humana neles presente. Trata-se das películas O Grande Ditador, Luzes da Cidade, Luzes da Ribalta e Tempos Modernos. Inexcedíveis tragicomédias em que riso e pranto se misturam de tal forma, como se o espectador, diante de um espelho, olhasse o próprio semblante e dissesse de si para si: “quanto eu sou ridículo, dissimulado, mentiroso, interesseiro e enganador. ” Só conheço outro artista capaz de levar o leitor maduro a experimentar isso: Joaquim Maria Machado de Assis na tríade Memórias Póstuma de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro, sem esquecer uma centena de contos que se afinam pelo mesmo diapasão.
Antes de relembrar alguns episódios daqueles quatro filmes, bom colocar em evidência algumas facetas de Charles Chaplin. Era ator e diretor de seus próprios filmes. Para alguns, compôs a música-tema. Por vezes, levava o ator a repetir mais de cinquenta vezes um mesmo determinado gesto ou o modo de olhar ou sorrir. Sofria de uma doença incurável: o perfeccionismo. Era severo consigo mesmo e com atores de ponta ou figurantes. Quando ia montar a fita, cortava mais da metade do que nela continha. Era, nesse sentido, um divino doente.
O texto está ficando longo. “Depois eu conto” mais, como diziam os vaidosos e vivaldinos cronistas sociais, que vivem de explorar a vaidade dos néscios. Só quero deles a frasezinha aspeada... Depois eu conto... Depois eu conto mais das peripécias daqueles filmes...
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