segunda-feira, 3 de julho de 2017

ELE AINDA NÃO MORREU...
Hugo Martins

Sob a cartola de cone alto e abas curtas, um rosto liso, alvo e sem rugas. Cabelos pretos, o olhar vivo e perscrutador. Sob o nariz bem desenhado, um bigodinho preto, aparado à moda Adolfo Hitler. O paletó curto e mais que apertado realçava-lhe o corpo delgado, de cuja cintura, descia-lhe um par de calças folgadas além da conta, de bainhas caídas sobre os sapatos exageradamente grandes, lembrando os dos palhaços de circos populares. Numa das mãos, a inseparável bengala de bambu, em que ele se apoiava, ou girava em movimentos contínuos do braço enquanto caminhava com passos aligeirados e pés abertos como ponteiros de relógios marcando a hora dez para as duas... A primeira vez que o vi numa tela de cinema, foi no Clube Maguari, em Fortaleza, onde, aos domingos à noite, projetavam-se filmes numa tela que mais parecia um lençol. Achava-o engraçado sem atinar que, aqueles trejeitos, aquele andar e aquela indumentária formavam um belo texto de uma retórica em que a ridicularia humana, as tolas vaidades e outros pecadilhos menores se constituíam em signos de gosto teatral de saltimbancos e da ópera-bufa, mas tangenciavam a sublimidade inebriante da Filosofia.
Colocar voz e cores nos seus filmes significaria negar-lhes a essência, pois, como existe uma linguagem do corpo (O Corpo Fala) que vem interessando à Psicologia moderna, esse cineasta e ator inglês, nascido em Londres em 1889, era empedernido defensor do cinema mudo, que via como a forma mais legítima de interpretar a realidade. Seu grande personagem figurou em dezoito películas de que ele era a personagem principal, dirigia e, muitas vezes, compunha o tema musical. Uma só vez, dirigiu filme falado e em cores, aquele protagonizado pelo ator norte-americano Marlon Brando e a atriz italiana Sofia Loren, e intitulado A Condessa de Hong Kong. Dentre os filmes mudos e em preto e branco, destacamos quatro de sua lavra, tecendo comentários sobre cada um deles: Tempos Modernos, O Grande Ditador, Luzes da Cidade e Luzes da Ribalta. Todos emocionantes e inesquecíveis pela temática universalizada em que o homem é colocado num cenário semelhante àquele que Machado de Assis pintou no capítulo VII (O Delírio) da obra Memórias Póstumas de Brás Cubas. Vaidade em todas suas nuanças, sede insaciável de poder, falta imperdoável de gratidão, corrida desesperada pela riqueza, eis o somatório de coisas humanas, que transformam o homem numa espécie de trapo, tal como ocorreu com Brás Cubas, sacudido pelas mãos imensas de Pandora, quando esta o transporta para o alto de um monte para ele contemplar melhor sua própria desdita, desfilando na sucessividade macabra dos séculos
Charles Chaplin nunca morreu, não existe nenhum “ainda” precedendo este verbo, pois o homenzinho de sorriso traduzindo decepção, inscreve-se na galeria dos bruxos mágicos, que olham a realidade com o terceiro olho, o da Arte, o único que eterniza criação e criador: “Ars longa, vita brevis est.”
I love him forever.
Voltaremos com textos apreciativos acerca dos quatro filmes suprarreferidos.

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