LATIM, PRA QUE TE QUERO AINDA?
Hugo Martins
Um amigo me pergunta que significa, ao pé da letra, a palavra MISSIVISTA. Respondendo-lhe a indagação nos moldes que ele colocou, disse-lhe tratar-se de alguém que envia algo a alguém. Como sou dado a entrar (até onde me é possível) no âmago das palavras, discorri, em seguida, tal o professor que esclarece a coisa, contextualizando a palavra, como fazia comigo minha mãe querida quando, estando eu, ainda menino, a ler alguma coisa, gritava: ” mãe, que significa a palavra...? ” Ela dizia: “leia a frase. ” Prontamente vinha a resposta.
Assim, recorri ao velho latim. O dicionário latino apresenta, de regra, a categoria verbo (os regulares) por meio de cinco formas verbais: a primeira e segunda pessoas do presente do indicativo, o infinitivo impessoal, o pretérito perfeito do indicativo e o supino. Ao contrário do dicionário de língua portuguesa, que apresenta aquela categoria tão somente por meio do infinitivo impessoal. Se, em português, temos ENVIAR, em latim, temos, conforme a ordem acima explicitada: MITTO, IS, ERE, MISI, MISSUM. Pois bem, é da última forma que derivam as palavras MISSA, MISSAL, EMISSOR, MÍSSIL, PROMISSOR, MISSIVA, MISSIVISTA. Desse modo, a acepção geral do verbo é, repetindo e traduzindo: ENVIO, ENVIAS, ENVIAR, ENVIEI, PARA A ENVIAR...
Quando se diz que Machado de Assis era rigoroso e refinado MISSIVISTA, estamos nos referindo ao escritor carioca como alguém que manteve vasta correspondência epistolar com outras pessoas. Missivista, pois, é aquele que escreve cartas e, por evidente, envia a alguém ou faz de conta. Epístola é palavra, também, de origem latina sinônimo de carta ou missiva. Exemplo de missivista na Bíblia Sagrada é São Paulo, o apóstolo dos apóstolos. Fernando Sabino, o cronista mineiro, muito se correspondeu com o paulista Mário de Andrade e com o pernambucano Manuel Bandeira. Existe vasta produção epistolar, entre os missivistas Alphonsus de Guimaraens Filho e os dois escritores últimos supracitados.
O escrever cartas se constitui, por isso, numa espécie de gênero literário. O romance Les Liaisons Dangereuses (As ligações Perigosas), do francês Chordelos de Laclos, é romance de natureza epistolar. José de Alencar escreveu romances os quais ele iniciava, saudando alguém, em estilo epistolar, e lhe contando uma grande e saborosa história. Bom exemplo é o romance Lucíola, que fica como sugestão de leitura... É bom, né mermo?
É pra isso que nos serve o latim, que deveria voltar a ser ensinado nas escolas... Aqui no Ceará a UFC, em seu Departamento de Línguas Estrangeiras, no Centro de Cultura Clássica, vem formando, em latim e grego, boa leva de estudantes, geração que, sem dúvida, dará mais brilho, beleza e sabor ao ensino da língua portuguesa.
Sou superlativamente grato à UFC, que continuo frequentando. Aliás, a quem possa interessar, nossa Universidade Federal proporciona, a quem tem boa vontade, curso de grego, desenvolvido em seis semestres. O sintagma “boa vontade” quer alertar para o fato de que o curso funciona aos sábados das oito às onze e quarenta. Alguém dirá: “tipo assim”, brother, “ninguém merece”, “cumpadi”; tem as baladas de sexta-feira, mano”. Pô, cara, é mermo”. “Tô fora, falô?”. E disse...
Eis aí... Ave, verbum! (Ave, palavra!)
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