domingo, 30 de julho de 2017

FOI ASSIM.
Hugo Martins
Era o ano de 1985. Tarde de domingo. Cansado, liguei o televisor. Escolhi o canal cinco, a TV Cultura. Ia começar um filme qualquer. Em preto e branco. Sempre cultivei a mania de julgar bons os filmes em preto e branco, tal a vida como ela é. Nelson Rodrigues manteve, por alguns anos, página numa revista, não sei se Manchete ou Fatos e Fotos, em que mostrava a vida em preto e branco, sem maquiagem, sem retoques, sem plástica. Mostrava-a tal como ela é, com seus altos e baixos, em sua sordidez e solércia, com suas doces amarguras e seus engodos. Rio de Heráclito, tempo que escorre, imagens que se esboroam, sabor de não eternidade. Nada. Nihil. Gosto amargo na boca. As mentiras convencionais. O jogo do faz de conta. E o tempo passando e, na alma, a sensação de todas as nulidades. Era assim nas minhas reflexões.
Na tela, inicia-se a película. Era Chaplin, nosso valoroso e universal palhaço. Sempre admirei e continuo admirando a figura do palhaço. Em minha infância, quando ia assistir a peças circenses, sempre ficava na expectativa de ver os palhaços. Lembro, aqui no Ceará, o palhaço Trepinha. Só faltava me lascar de achar graça... Havia outros que eu conhecia por meio da leitura de histórias em quadrinhos. Fuzarca e Torresmo (isso é nome de gente?), também tinha um tal de Arrelia, não lembro o nome do que fazia par com ele. Carequinha, mais astro de rádio e de TV que de circo, era o palhaço que contava histórias engraçadas e exercia no espírito da criançada papel pedagógico, lembrando, em suas músicas que “o bom menino não faz xixi na cama”, “o bom menino respeita os seus pais” e que “Papai do céu protege o bom menino...” Nos últimos tempos, o Grande Chico Anísio chamou Carequinha para participar das aulas do professor Raimundo. E ele se saía mais do que bem. Quando chamado, levantava-se, levava à proximidade dos lábios as duas mãos em forma de concha e gritava: “chama minha mãe aí.” Em seguida contava uma história qualquer, relacionada às traquinagens e patifarias dos homens públicos e perguntava ao professor: “por acaso serei eu um palhaço? ” O professor Raimundo, com um nariz de palhaço, respondia com ar de troça, concordando e se irmanando com Carequinha e a população brasileira. Pois bem.
Os comediantes, humoristas e palhaços, poetas e romancistas, toda a casta de animais ridentes, risonhos e engraçados, nas suas pantomimas, nas histórias que contam, nos versos que fazem, por suas geniais gestualidades e produção literária, costumam dar tapas, com luvas de pelica na cara cínica de presunçosos, de falsos moralistas, de poderosos e outros animais da mesma fauna, que, em seu doentio narcisismo, julgam-se acima dos demais mortais... Charles Chaplin é um dos tais, talvez um dos melhores que, malgrado seus momentos de ternura comoventes e seu confessado amor pela humanidade, às vezes, bate forte, açoita a ignomínia, castiga a presunção e a vaidade de tutti quanti...
Ora, mergulhei em reflexões e me esqueci de comentar o filme a que acabara de assistir. Maravilhoso, trágico, surpreendente. Na última cena, arrancou-me muitas lágrimas. Aliás, quase todos os filmes dele provocam no espectador uma mistura mágica de risos e lágrimas como a salientar a dubiedade existente nas acontecências da vida.
Farei esforço para, no próximo texto, não fugir ao tema, perdendo-me em outras reflexões. Juro que me manterei preso aos propósitos temáticos que planejei. Certamente farei um comentário, que deveria ter feito acerca do filme de Chaplin a que me referi... Vamos nós.
Namastê.

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