segunda-feira, 3 de julho de 2017

DÓI FUNDO

Hugo Martins

Nos anos 80, li Uma História da Minha Vida, de Charles Chaplin, autobiografia do ator inglês, redigida, pois, em primeira pessoa... Faz alguns dias, venho navegando em 1744 páginas numa biografia definitiva do insuperável Carlitos, escrita por David Robinson. A primeira, escrita em foco de primeira pessoa, pode desvirtuar, aqui e ali, alguns fatos, coisa perfeitamente esperável, pois a atitude confessional sempre é parcial,  pintando a realidade da perspectiva do autobiografando. A outra, escrita do ponto de vista da terceira pessoa, não cobra do biografador nenhuma concessão, nenhum fechamento de olhos... A narrativa rememorativa flui sem medo, sem o receio de que alguém possa ferir suscetibilidade de seu fulano e seu sicrano. Não. O biógrafo parece ao leitor alguém preocupado em se manter fiel à verdade dos fatos. Afinal é biografia definitiva ou palavra final acerca de figura cuja história é apinhada dos disse-que-me-disse e outros relatos de quem o vulgo espera o surpreendente, o escandaloso, o episódio desmitificador, coisa que adormenta expectativas de mentalidades mesquinhas e rasteiras.
Ainda não terminei a leitura da segunda. Há um fato, porém, que me tocou a alma: Carlitos reconhece que muitos dos trejeitos dos palhaços que ele conheceu serviram de inspiração para suas performances nos filmes que produziu ou em que atuou. Não sei por que nem quero saber, nessa passagem da leitura, as lágrimas começaram a escorrer no rego de minhas rugas. Penso que foi por conta da evocação do palhaço, ente que frequentou minha infância e por quem sempre nutri grande ternura. Quando menino, tive muito contato com a chegança de circos e palhaços em minha terra. Nos dias de espetáculos, importava-me, sobretudo, o palhaço, a maneira psicodélica com que se apresentava, e as pantomimas em que aparecia só para divertir o público... A figuração era a mesma: calças largas, acinturada por um aro de metal e sustentada por largos suspensórios, cabeça coberta por chapéu comum, realçando um rosto em que o nariz arredondado como uma pitomba sem a casca, punha em relevo uma boca exageradamente acentuada por maquiagem em que os lábios se alargavam e intumesciam. Todo palhaço era careca e tinha enterrada, sob o largo colarinho, a cabeçorra, que sumia e vinha à tona em perfeita obediência ao movimento do sobe e desce dos ombros.
Dos palhaços de minha infância, dois se mantiveram vivos: Carequinha e Trepinha. Carequinha era palhaço educador. Aparecia em programas de rádios ou televisivos cantando músicas de sabor pedagógico, pondo em relevo a importância de a gurizada respeitar os pais e levar a sério os estudos. Trepinha era malicioso e, vez por outra, apesar da censura, contava alguma história cabeluda. Sempre tendi para os palhaços que contavam histórias, se não imorais, pelo menos surpreendentes. Lembro de uma feita, tinha eu 12 anos, e fui ao circo com uma irmã e seu namorado. Súbito, surge uma cena, já clássica,  de veículo trazendo os palhaços que se metem numa confusão envolvendo alguns carros automotores. Depois de uma  colisão, em meio à fumaça, um dos palhaços é acudido pelos demais. Na hora em que um amigo se aproxima, levanta a perna e solta um sonoro peido. Alguém se aproxima e pergunta se ele havia morrido. O sujeito responde: "acaba de soltar o último suspiro". A risadaria era geral. Claro que minha irmã e o namorado se constrangeram. Quanto a mim, fiz coro à gargalhada coletiva...
Para mim e os da minha geração, a valoração positiva ou negativa da performance de um circo tinha por termômetro o palhaço. Quanto mais imoral, safado e sem-vergonha fosse, e mais contasse histórias em que a patifaria fosse a tônica, maior era a frequência ao circo... Pelo menos na avaliação dos meninos de meu tempo.
Quanto a Charles Chaplin, a história é outra.
Iremos a ela...

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