quarta-feira, 29 de agosto de 2012


SOMOS CORRUPTOS

                                    Hugo Martins

 

 

               Não sei se existe um remédio específico para essa “doença”, que acomete a população brasileira desde que Dom João VI aqui deu com os costados, fugindo como cachorro assustado da sombra ameaçadora de Napoleão Bonaparte. Claro que, antes, quando Pedro Álvares Cabral, historicamente, tropeçou no Brasil, já trazia esse almirante luso das terras da Europa algum vírus de corrupção. Só que aquele rei criou o Banco do Brasil para pilhar seus recursos e lastro a fim de sustentar o número gigantesco de ociosos da imensa corte e, ao mesmo tempo, comprar-lhes a consciência. A voracidade sobre o tesouro foi tamanha, que aquela instituição financeira cedo foi à bancarrota. Quer dizer, corrupção é algo que se entranha na alma por lento processo histórico. Basta olhar para a classe política partidária, useira e vezeira na arte de corromper e ser corrompida. Mas não só nesse ambiente sujo prolifera a corrupção. Vai ela mais longe, estando, paradoxalmente, muito próxima de cada de cada um de nós.

            Ser corrupto é ser ou estar podre ou estragado, adjetivos extensivos a coisas e homens. Sobre as primeiras, ela se manifesta pelas intempéries, pela a ação corrosiva do tempo. Sobre os últimos, infiltra-se no espírito pelos processos educacionais, repassados pela família, pela escola e pelo discurso ideológico e subliminar de grupos sociais, cuja fala persuade os ingênuos e descerebrados a adotar comportamentos e visões de mundo.

            A corrupção não se enxerga apenas no insultante mensalão em que figurões da política posam de bandidos; também não se encontra ela nos festins dos jogos de influência; tampouco na pilhagem do dinheiro público, levada a efeito por lobos vorazes, que consideram a população como um rebanho de dóceis cordeiros, facilmente tangido pelo cajado da narcotização discurseira. Ela vai mais longe e pode ser encontrada como mercadoria suja nas diversas relações sociais.

            Somos corruptos quando recebemos um troco a mais e nos regozijamos de haver levado vantagem na coisa, malgrado o prejuízo causado a terceiros. Somos corruptos quando deixamos que o lojista se apodere de nossos centavos, temendo sofrer críticas dos circunstantes, quando, na verdade, aquele sujeito invade nosso direito à propriedade. Argumento: não é de bom tom “brigar” por ninharias. Somos corruptos quando, espreitando a prova do colega na carteira ao lado, pensamos estar enganando alguém, quando, na verdade, o enganado é o “pescador”. Somos corruptos quando elegemos o lema “o mundo é dos espertos” ou, quando, recorremos a meios ilícitos para auferir alguma vantagem e bradamos: “chapéu de otário é marreta”. Somos corruptos quando vendemos nossa consciência política, vendendo nosso voto por carradas de tijolos, por quantias de dinheiro ou promessas de empregos futuros caso o candidato seja eleito. Somos corruptos quando, diante de uma tarefa escolar, que devemos elaborar com nosso esforço, recorremos à prodigalidade de informações, nem sempre verdadeiras, da Internet e, num simples toque de botões, CtrlC+CtrlV, furtamos o autor da informação e pensamos estar enganando o professor. Nesse caso, somos três vezes corruptos, pois, além daqueles atos desonestos, estamos enganando a nós mesmos. Em outras palavras, somos corruptos toda vez que vendemos nossa alma por momentos vãos de uma falsa e transitória satisfação. É a corrupção doença. Não se sabe se está inscrita no CID, código bem conhecidos dos que lidam com problemas da saúde...

            É possível haver antídoto para esses envenenamentos da alma. Pensadores, do alto de sua sapiência, não transigem e dizem, peremptoriamente, ser a educação o mais eficiente remédio para combater esse mal que corrói e destrói civilizações.

 O Brasil parece alcançar proeminente posição no rol de países em que a corrupção é regra. Lamentável encontrar e abalroar cada esquina com um canalha. Triste participar de grupos sociais em que a corrupção se espraia como gafanhotos na lavoura. Triste sina a de um país que pode não ser bem sucedido em competições esportivas internacionais, mas é sempre grande vencedor quando se trata de miséria, fome, ladroeira, falta de decoro, imoralidade e desrespeito aos direitos humanos mais comezinhos, sobretudo quando se diz ser este país uma entre as dez maiores potências econômicas do mundo.

            É...  Não há motivo de alguém se orgulhar de ser brasileiro. Mais coerente e sincero, diria o filósofo: “Eu tenho vergonha de ser brasileiro.”

           

           

segunda-feira, 27 de agosto de 2012


O ZÉ

                                     Hugo Martins

 

            A pequena chácara. Lua quase morta. Um só breu. No alpendre, muita conversa, risos, brincadeiras, anedotas. Em meio à mata, em frente à casa, escuridão, fru-fru das palhas do velho coqueiro. Pios de caburé. Súbito, um grito, um susto, risos esganiçados. Três jovens, entregues a folguedos, brincavam com coisas do além. Falou-se no Zé. Quem seria? Por que foi invocado se ali não se encontrava? Certamente uma ficção. O certo é que, naquele momento, naquela noite fria e silente, era invocado. Seu semblante e sua silhueta, certamente, desenhavam-se no espírito de cada uma do grupo. Talvez fosse alto e desengonçado, ar sombrio de pouca conversa, que se esgueirava por entre o bananeiral onde ninguém, àquela hora soturna, atrevia-se a se embrenhar. A voz, quem sabe, fosse tonitruante de causar medo, e os cabelos longos e revoltos emoldurassem a catadura impassível, em que se espraiavam rugas fundas, cortadas, por várias cicatrizes, que lembravam navalhadas. As vestimentas, esmolambadas, davam-lhe o ar de náufrago. As mãos eram medonhamente grandes e marcadas por veias proeminentes. Estava descalço. Os pés enormes de unhas maltratadas estavam cobertos de uma lama pegajosa que parecia estar ali fazia tempo. Mas o Zé ali não estava. A não ser na imaginação de quem ouvia a voz soturna de uma moçoila, que, escondida numa coluna, subitamente, surgia e proferia soturnamente:

            Eu sou o Zé!

            Tudo brincadeira para preencher o tempo curtido no alpendre depois do jantar. Enquanto a dona da casa daquele sítio e o marido, balançando-se numa rede, folheavam livros e comentavam, aqui e ali, uma passagem interessante estampada nas páginas, as meninas riam muito. A noite avançava indiferente ao fiapo de lua, que, bailando no céu, espalhava tênues raios de luz nas copas das árvores, que se arrepiavam pelo sopro frio do sussurrar do vento.

            Vez e outra, ouvia-se:

            Eu sou o Zé!!

            A risadaria surdia estremecida, sempre seguida de um pedido:

            - Para. Não gosto dessas brincadeiras. Elas me metem medo quando vou me recolher para dormir.

            O frio recrudesceu, e o vento, insistentemente, soprava com mais força, balançando a varanda das redes. Por fim, o tiritar mordente obrigou todos ao recolhimento tépido dos lençóis. Já passava da meia-noite.

            As velhas fechaduras ringiam à medida que as portas se iam fechando uma a uma. Lá fora o sibilar do vento e o pipilar melancólico dos caburés em meio ao silêncio cavo da noite escura. Apagaram-se as lâmpadas da grande sala. Agora, bom mesmo era dormir. O casal se metera sob o grande edredão da cama larga. As meninas também foram para suas alcovas. Duas ocuparam o mesmo quarto e se encostaram uma à outra como se o contato dos corpos exorcizasse algum laivo de medo provindo da lembrança do Zé. A outra jovem se dirigiu para um terceiro quarto, cuja porta dava para o grande terreno em frente à casa, mal iluminado pela lâmpada que o vento movia para lá e para cá, provocando no roça-roça com a parede um ruído rascante. Lá fora só as vozes da noite. O som de uma motocicleta rasgou o silêncio. Ao longe, o latido de um cão solitário. O farfalhar da copa das árvores fazia contraponto com o pio soturno de rasga-mortalhas, anunciando maus agouros. Aos poucos, a casa mergulhava em profundo silêncio, quebrado apenas pelo ronronar de seus habitantes...

            Súbito, um bate-bate alucinante de uma porta despertou a jovem que se trancara. Justamente a porta que ela fechara com o ferrolho enferrujado... Do outro lado do corredor, outra porta começou a bater numa espécie de estonteante frenesi. Quem àquela hora estaria fazendo tais peraltices? Uma voz ecoou de um dos quartos:

            - Mãeeeeeeeee?!

            No mesmo tom, outra voz espavorida gritou:

            - Paiiiiiiiiiiiiiiii?!!

            O silêncio persistia. Súbito, como se estivessem todos presos por um conluio, deixaram seus quartos e correram para a sala, tratando de acender a lâmpada presa à telha-vã. A porta da sala, conjugada à cozinha, que dava para o quintal, parecia falar. Dela vinha uma espécie de gemido. Alguém certamente estaria ali... Seria o Ze?

            A menina magricela de cabelos longos estreitou-se à mãe. As outras duas se entreolhavam como a se perguntar o que poderia ser. Finalmente, todos se armaram de facas, facões foices e pedaços de lenha que dormitavam sob o fogão e resolveram, a medo, abrir a porta que tremelicava pelos açoites do vento. Ninguém. Só as rajadas do vento gélido. As almas só não ficaram mais aliviadas porque, de repente, uma voz professoral anunciou:

            - Eu não sou o Zé. Eu não sou ninguém. Sou o eco da imaginação de cada um. Venho das priscas eras adormecidas do inconsciente. Habito os sonhos, os temores e as alucinações das sombras e dos ruídos da noite. Eu sou o desconhecido.  Eu sou o medo.

             

           

 

segunda-feira, 20 de agosto de 2012


 O GURU XV

                                                       Hugo Martins



            Escrevi a Ridendo Sic, perguntando-lhe se, para produzir alguma coisa com aparência de texto, o sujeito precisa escorar-se em alguma “inspiração.” Hoje recebi carta sua. Aí vai o que ele pensa.

            “Bom dizer que, se se trata de criação literária, existem dois tipos de escritor: de um lado, o da inspiração; de outro, o da transpiração. No rol dos primeiros, inscreve-se o poeta pernambucano Manuel Bandeira. Em suas memórias, Itinerário de Pasárgada, confessa haver perdido muitos versos, pois, quando assediado pela inspiração, em situações insólitas, não dispunha de uma caneta ou lápis. Na mesma obra, invoca o fato de, certa ocasião, estar lendo a Ciropédia (obra sobre a Pérsia) e ter a alma invadida por uma vontade incontrolável de pôr termo à vida, rabiscar o verso “Vou-me embora pra Pasárgada” e nada mais sair. Só depois de sete anos, experimentando a mesma sensação, o restante do poema saltou-lhe do espírito em borbotões. Ressalte-se que inspiração não deve ser vista como resultado de dores corriqueiras do cotidiano, é necessário ter e saber o que dizer. O sujeito deve, como diz Drummond, andar armado com palavras para não incidir no equívoco daquele que verseja “por dor de cotovelo, falta de dinheiro ou momentâneas tomadas com as forças líricas do mundo”. No segundo rol, encontra-se o também pernambucano João Cabral de Melo Neto, que deixava nas entrelinhas a regra “dê-me o tema que eu faço o poema”. É o poeta de gabinete, da oficina a que se refere Bilac no soneto A um Poeta.

            Tanto na poesia quanto na prosa, porém, o escritor costuma promover mondas ao texto. Cortar palavras, desentortar frases, acrescentar, reescrever passagens até que o espírito se sacie do ato criativo. Eça de Queirós dizia reescrever páginas e mais páginas mais de cinco vezes. Para apurar o estilo, Balzac respondia, de punho próprio, a todas as cartas enviadas por seus leitores. É a síndrome do perfeccionismo comum aos bons escritores...

            No entanto, quando se trata da feitura de texto sem preocupações estéticas, não se faz necessário nenhum tipo de inspiração. Basta a reflexão, a disciplina intelectual, o ter o que dizer, o cuidado a atenção à clareza, à precisão, à propriedade vocabular e, por último, enxotar a preguiça e lançar-se à obra com todo denodo.

            Engana-se quem diz ser tarefa difícil escrever um texto. Difícil mesmo é convencer-se de que o escrever supõe o ler. São atos que se supõem. Com a leitura, o indivíduo vai se assenhoreando das acontecências da vida e se familiarizando com os torneios sintático-semânticos, sempre recorrendo ao dicionário para desvendar sentidos e grafias vocabulares. O escrever é comparável ao ato de quem pretende andar de bicicleta. Depois de vacilações, medos e quedas, o sujeito vai, aos poucos adquirindo a coragem de enfrentar a solidão da folha em branco e, com o tempo, passa a dominar um modo próprio, a ser dono de um estilo.

            Considero a leitura ou a redação de um texto atividades mais temerárias que resolver um problema de matemática. O visgo das palavras, as intenções que se escondem por trás delas, o destrinçar de um texto, o arrumar as palavras no ordenamento sintático a fim de que traduzam o que mais se aproxima do que pretende  dizer, é tarefa dolorosa e que requer muito esforço e amor à leitura. A propósito lembro um livro de Othon M. Garcia- Comunicação em Prosa Moderna-, com o subtítulo Aprenda a Escrever Aprendendo a Pensar. Livro de cabeceira para todo aquele que deseja aventurar-se no ato de escrever. Não se trata de manual inédito sobre o assunto. Obra séria a que recorre todo aquele que lida com a faina de redigir e extremamente útil a quem deseja garatujar folhas de papel com algum sentido e alguma correção.

            Aliás, considero desnecessário o “ensinamento” de professores de redação. Não se ensina ninguém a escrever por meio de fórmulas nem por intermédio de regrinhas de acentuação gráfica e do sistema ortográfico em vigor. Necessário: ler, pensar e escrever. O mais não passa se conversa fiada.

            Não me consta que os grandes escritores e redatores da língua tenham sido excelentes alunos da língua portuguesa. Foram, antes de tudo, empedernidos leitores.

            Após a leitura da missiva, meditei e nada pude acrescentar algo de novo àquelas idéias... Lembrei, porém de duas frase lapidares; uma de Monteiro Lobato e outra de Castro Alves, que transcrevo, por ordem:

            “Um país se faz com homens e livros”

            “Bendito o que semeia livros, livros a mancheia, e manda o povo pensar.”

           

              

quinta-feira, 16 de agosto de 2012


O GURU XIV

                                              Hugo Martins



          A indignação com a classe política é algo antológico, que faz o povo abrir a gorja hiante e soltar sua grita e protestos contra a desfaçatez e o cinismo de alguns sujeitinhos que, à época de eleições, abrem seu baú de mentiras e, em meio a sorrisos amarelos e pancadinhas no ombro, intentam angariar votos de eleitores ingênuos e desavisados. Só que, depois desse preâmbulo teatral, vem à tona a verdade, e os eleitores ficam a ver navios mesmo nas suas necessidades mais comezinhas.

 Fiz a reflexão e enviei-a a Ridendo Sic, que não titubeou e assestou suas baterias reflexivas para comentar um fato ultimamente ocorrido em Fortaleza, comprovando nossa tese. Ouçamo-lo.

            Começou Ridendo lembrando o fato de que, nas redes sociais, boa parte da população cearense lança seu protesto contra atos do chefe do executivo do estado do Ceará que, para abrilhantar a inauguração de um Centro de Convenções trouxe, a peso de ouro, R$ 3.000.000,00 (três) milhões de reais, o tenor espanhol Plácido Domingo. O mais grave, porém, é que, para o convescote, só foi convidado um número reduzido de privilegiados amigos do rei, os quais se regalaram e se empanturraram com bebidas e pratos os mais refinados, tudo financiado pelos tributos arrancados à bolsa do povão.

            Notícias há que, em São Paulo, o tenor se apresentou para cento e cinquenta mil pessoas, que ouviram Plácido Domingo interpretar músicas do compositor Manuel Alejandro (El Grito da América, Serenata Tapatia), bem como do arranjador Lee Holdridge (Sonhadores de Espanha, Malaguena e Siboney). Quanto a nós, cearenses, somos brindados com a antimúsica desvirginadora de tímpanos e os gritos histéricos de intérpretes mal-ajambrados, coadjuvados por moçoilas louras de farmácia e com as vergonhas de fora, que, com aqueles, conseguem assassinar, irremediavelmente, a música genuína do Nordeste.

            Fica a pergunta: por que não fez ele como sua amiga e mágica prefeita, que certamente não elegerá nenhum porte sem lâmpada, mas pelo menos, nas festas de fim de ano, traz pão e circo para o povo, superfaturando cachês e correndo às léguas da ação do Ministério Publico? Nela, pelo menos, vê-se certa coerência politiqueira. Quanto a ele, que, em conluio com a detestável figura do irmão, também lança mão de todo expediente para eleger candidato sem expressão e sem préstimo, derrama nos meios de comunicação propaganda de seus feitos e intenções que, bem se sabe, não passam de balela e mistificação, traduzidas em “conversa pra boi dormir.”  A propaganda nazista  do Ministro de Adolf Hitler, Joseph Goebbels, perde longe do jogo de convencimento daquele rapazinho a impressão de que no Ceará tudo corre a mil maravilhas. Suficiente abster-se das propagandas e olhar a realidade: escolas entregues às baratas; hospitais públicos abarrotados de pacientes atendidos em corredores superlotados; segurança pública praticada por meganhas, envergando fulgurantes fardas e passeando pelas ruas desprotegidas da cidade a bordo de carros ultraconfortáveis, enquanto a bandidagem, leve, livre e solta, pratica toda sorte de crimes contra a população enclausurada nas suas casas ou temendo sair às ruas, premida pela eventual e quase certa agressão, partida de toda sorte de sicários... Onde está o dinheiro? pergunta o compositor da marchinha carnavalesca. E ele mesmo responde “o gato comeu, o gato comeu”. Traduzindo: para onde vão mesmo os tributos pagos pela população?

            Para Ridendo, não foi o gato que comeu, mas as ratazanas, que os desviam para custear viagens de recreio e financiar festins a que o povo não pode comparecer, pois seus mínimos direitos são solapados pela pouca vergonha e pela rapinagem da classe política, pós-graduada na arte de furtar sem se importar.

            Arte também é alimento, e dos melhores. Um pouco dela alimenta o espírito e engrandece a alma. Não bastam o circo e o pão, há de se insistir na necessidade da arte num mundo tão cheio de mentiras e desenganos.

            Parodiando um programa global, vale a pena refletir sempre para que expurguemos dos redis políticos ratos, lobos et caterva.

            Ridendo Sic ressaltou, ainda, que se apoiou no art. 5º, IV da Constituição da República do Brasil, ainda em vigor, para expender o juízo em pauta.

            Ainda bem...

quarta-feira, 15 de agosto de 2012


O GURU XIII

                                     Hugo Martins



            Hoje conversei longamente com Ridendo Sic. Nosso papo versou sobre sonhos e o significado que estes têm em nossa vida, não só como instrumento folclórico para alguém fazer uma fezinha no jogo do bicho, mas também por servirem de pasto a que psicanalistas fucem nossas almas à procura do que se esconde sob o manto diáfano das instâncias psíquicas do bicho homem.

            Narrou-me Ridendo algo insólito que lhe ocorreu. Diz que a coisa poderia ser real ou tenha se manifestado na fronteira tênue da vigília e do sono. Diz  ele ter conversado longamente com o escritor gaúcho Érico Veríssimo num banquinho de uma bucólica pracinha da cidade de Cruz Alta, local em que nasceu o criador de O Tempo e o Vento.

            O assunto espicaçou-me a curiosidade. Ouvir sobre Érico me fascina pelo prazer estético que suas obras sempre me causam e, sobretudo, por a ele chegar, agora, pelo testemunho de alguém em quem muito confio. Atento, acompanhei toda a conversa que meu amigo Ridendo Sic entabulou com o escritor gaúcho.

            Ridendo começou perguntando por que a crítica especializada parecia não reconhecer o justo valor da obra de Érico. Este assim respondeu:

            - Meu prezado, não escrevo para críticos. Minha missão de interpretar o mundo e a complexidade que lhe é própria está totalmente voltada para o leitor, a quem quero chamar a atenção para o que a existência tem de sublime e de grotesco por meio de um texto bem urdido, em cuja tessitura estejam presentes os problemas humanos. Se o leitor se emociona, sonha com os pés no chão e acha que a vida a pena ser vivida, é o bastante, dou-me por satisfeito. Procuro contar uma boa história sem, necessariamente, resvalar na vulgaridade própria da subliteratura e da paraliteratura escamoteadoras da realidade profunda da existência.

            Ridendo acrescentou:

            - Então talvez seja esta a razão de o senhor se considerar um contador de histórias. Já tenho lido muitos depoimentos em que o senhor diz isso abertamente. Dá para ser mais explícito?

            - É verdade. Meu lema literário é contar uma boa história. Que são A Ilíada e a Odisséia senão histórias bem contadas? A primeira conta um fato de uma guerra iniciada por causa do rapto de uma mulher. A segunda conta as aventuras e desventuras de um homem que, ao voltar para aos braços de sua mulher depois de vinte anos de ausência do lar, foi duramente perseguido pela fúria de um deus. Fique claro que estas  são a espinha dorsal dessas duas epopéias. Os demais acontecimentos se resumem em reflexões outras sobre a coragem, a bravura, a deslealdade, a nobreza e a esperteza, valores ínsitos a todo homem. Ao fim e ao cabo, o leitor se prende à estrutura de toda narrativa tradicional: apresentação, conflito, clímax, solução. Não retiro o valor de obras que fogem a esse esquema, aquelas que cansam, chateiam e o leitor, alguns seduzidos pela idéia de que os modernismos devem ser cultivados sob pena de o indivíduo considerar-se ultrapassado, fingem gostar. Balela pura. O leitor mediano não possui os olhos de lince que o crítico finge possuir para estruturar interpretações estapafúrdias, que o leitor ingênuo perfilha e defende com unhas e dentes mesmo que não demonstre segurança alguma para tal.

            - Então poderíamos inscrever o senhor no rol dos conservadores, a quem os discursos novidadeiros e as mudanças atemorizam? – refletiu Ridendo.

            Érico arqueou as sobrancelhas grossas, enrugou o nariz, exatamente ali onde faz fronteira com os olhos, assumiu ar pensativo e, depois de instantes em que parecia enlevado por alguma reflexão, contrapôs:

            - Se ser conservador é irmanar-se com o leitor sem, necessariamente, recorrer a psicologismos chãos, sou exatamente isso. Interessa-me no entrecho da obra chamar o leitor para reflexões que tenham por objeto o homem, com seus problemas existenciais, suas dores e suas perplexidades ante a vida e sua finitude.

            - Quando li sua obra Olhai os Lírios do Campo, pressenti, nas entrelinhas, ser o senhor muito voltado para a religião.

            Érico sorriu e dissertou:

            - Literariamente, esta é uma das minhas obras menos importantes, mas a mais popular pelo fato de tratar do assunto ressurreição tal como se encontra nas Escrituras Sagradas. No entanto considero-me agnóstico em relação a metáforas difusas, que são lidas ao pé da letra e desvinculadas do tempo histórico. A filosofia cristã tem seus momentos de sublimidade, infelizmente desvirtuados por interpretações que não dizem respeito ao homem em sua essência, pois atende a conveniências de padres, pastores e rabinos, profundamente interessados em manter o homem na atmosfera negra dos tempos medievos.  E disso tirar lucro político e pecuniário. Vejo o fenômeno religioso por prisma diferente do mesmismo e dos discursos psitacistas...

            - Li toda sua obra e pergunto-lhe:

            - Qual você elegeria como a mais bem acabada?

            - Sem dúvida O Tempo e o Vento. Verdadeira saga do povo gaúcho, apinhada de personagens de vida interior em que se sobrepõem a grandeza, a lealdade e a coragem; por outro lado, personagens de vidinha pequena, insignificante e sem brilho. Mas o que mais me agrada na obra é seu tempo cronológico, quando portugueses e espanhóis se envolveram em renhida luta pela posse da Banda Oriental até os tempos negros da era Vargas. Só a presença de Ana Terra, Rodrigo Cambará, Bibiana e Maria Valéria pagam o preço da obra. Sem modéstia, diria que O Tempo e o Vento é minha obra prima...

            Fiquei muito tempo a pensar nessa conversa esdrúxula de Ridendo Sic e o criador de Música ao Longe e refletir sobre quanto proveito se pode tirar como orientação para escolhas literárias tão necessárias a quem pretende ler o que vale a pena num mundo tão cheio de frivolidades e mentiras...

           



           

           

sábado, 11 de agosto de 2012


O GURU XII

                                  Hugo Martins





               Conheci-o nos idos de 1971. O Brasil sorvia os ares irrespiráveis da ditadura militarista, agora mais linha dura devido à edição do chamado AI-5 em 1968. O ambiente era pesado. Instituiu-se a caça às bruxas. Era proibido pensar. Fazer qualquer tipo de arte era uma temeridade. Quando se permitia a publicação de algum livro, a encenação de alguma peça teatral ou a projeção de algum filme, é porque havia a tesoura da censura, cortando tudo o que o pensamento ditatorial considerasse ofensivo à moral e aos bons costumes ou, por outro, visse na criação artística a presença de algum vírus maldoso que pudesse ofender a segurança nacional.  Pois foi nesse ambiente escuro e malfazejo, foi nessa época de horror e amordaçamento da livre expressão, que o conheci.

            Era um tipo longilíneo, cuja elegância era realçada pelas calças rigorosamente vincadas e a camisa de linho enfiada no cós, cingido por um fino cinto de couro com fivela de metal. Um par de óculos de grave e grossa armação dava-lhe um ar professoral. No alto, uma boina de pano delicado cobria-lhe a cabeça, totalmente desprovida de cabelos. Mais parecia um grande queijo de coalho. Na mão direita, encostada ao peito, um exemplar do Les Fleurs du Mal; na outra, um cigarro aceso, que era tragado seguidas vezes. Distinção no trato com as pessoas lhe sobejava... Além disso, sua cultura enciclopédia, provinda de muita leitura e constantes viagens,  encantava e desafiava qualquer sujeito versado na arte de conversar.

            Certa feita, entrei em sala de aula. Esta já se tinha iniciado. Acomodei-me numa carteira e vi que a maioria dos colegas parecia extasiada, como se um misterioso feiticeiro houvesse lançado mão de passes mágicos e transportados meus colegas para as regiões do sonho. À frente deles, um senhor, livro aberto, comentava o poema de Charles Baudelaire Invitation au Voyage. Com efeito, o texto faz referência ao onírico, à ordem, à beleza, ao luxo, à calma e à volúpia, que acode ao espírito de quem sorve algum tipo de estupefaciente. E o poeta francês era dado a tal prática. Mas o que maravilhava a turma era o modo como o mestre ministrava sua aula, centrada no texto, que lhe servia de norte para a viagem a outras áreas do conhecimento, sobremaneira, o mundo feérico da literatura, da filosofia e da sociologia. A aula, em si era um poema grávido de um lirismo pleno e encantador. Quem dali saía não podia deixar de freqüentar a aula de literatura francesa, disciplina que o Milton Dias ministrava na Faculdade de Letras da UFC nos idos de 1973.

            Um dia a Revista Manchete, em entrevista, chamou-lhe professor. Fez uma pequena emenda, acrescentando que, antes de tudo, era um boêmio. Homem viajado, só de França tinha mais de dez anos, muito deve ter saboreado o vinho francês nos  bas- fonds de Paris, na chiqueza do Quartier Latin e nas ruelas e becos de Pigalle. Nessas andanças, deve ter tido contato com toda espécie de gente: o pintor fracassado, a prostituta decaída o cafetão inescrupulosos e outros tipos da noite francesa...

            Continuou esse hábito de ir a cabarés e puteiros de Fortaleza. Dizia ele que ali estava a vida, de onde ele retirou muitas vezes assunto para suas crônicas, publicadas no jornal o Povo por um período de mais de vinte e cinco anos. Essa produção foi depois enfeixada em livros, cujos títulos aqui enfileiro, convidando o leitor a apreciá-los: A ILHA DO HOMEM SÓ, O SETE-ESTRELO, AS CUNHÃS, AS OUTRAS CUNHÃS, A CAPITOA, ENTRE A BOCA DA NOITE E A MADRUGADA... Depois de sua morte, a UFC editou uma antologia com algumas crônicas e intitulou-a com o sugestivo RELEMBRANÇAS. Iria ser matéria de vestibular.

            Milton Dias em nada fica a dever a Rubem Braga, a Fernando Sabino, a Paulo Mendes Campos, a Rachel de Queiroz na arte de fazer a crônica, na presteza de flagrar o cotidiano e captar nele o acidental com ares de essencial. Prosa ligeira, alegre, bem urdida e, a um tempo, divertida e humana, Teve a infelicidade, por este prisma de ter nascido na província. Se vive em Ipanema, certamente seria tão decantado quanto aqueles pela crítica amante da crônica.

            Quando Ridendo Sic fez essa exposição sobre figura tão humana, tratei de caçar notícias biográficas e correr aos “sebos” a ver se encontrava algumas daquelas obras. Penso que serei feliz nesta última empreitada, afinal não se trata de livros de moda, tampouco de autoajuda ou sobre a lengalenga otimista de padres e vivaldinos da mesma fauna, que ganham tempo e dinheiro vendendo aos incautos otimismo a conta-gotas.

            Boa indicação literária. Vamos a ela.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012


O GURU XI

                                                Hugo Martins



               O jogo perverso se inicia. Algumas crianças testemunham, dão depoimentos e asseguram que suas vidas mudaram para melhor. O cenário, de regra, é uma academia ou uma pequena orquestra, regida por maestro que se inscreve na legião dos homens de boa vontade. Ali a criança executa números em instrumentos musicais ou mostra possuir talento para uma determinada arte, joga capoeira ou pratica esporte em quadras e ginásios bem cuidados. Nesse contexto, em que se espalham sorrisos e agradecimentos, o repórter só falta dizer que o programa CRIANÇA ESPERANÇA, promovido pela Rede Globo, é a grande jogada política para se resolverem os antológicos problemas relacionados com o abandono a que foram relegados nossas crianças e adolescentes. As crianças dalí saídas não mais cometerão delitos, não mais cheirarão cola, tampouco se empanturrarão de drogas nas esquinas da vida. Eis a perversidade: a mentira, encoberta por um discurso caramelado, de quem quer, como diz o vulgo, impedir a incidência dos raios solares com uma peneira.

            Por que o cidadão traria para si mesmo a odiosa ação de minar problemas sociais, apanágio do poder público, que os deve remediar com o emprego dos tributos, também odiosos, pagos por todos? Se o cidadão atende ao apelo edulcorado, certamente deve ser useiro e vezeiro na sonegação do pagamento de tributos ou rende-se à situação de ser tributado mais de uma vez. É de se crer que, por trás dessa preocupação evangélico-franciscana, urdida por cabeças ladinas e maléficas, há algo mais podre que o que ocorria no reino da Dinamarca, na visão do bardo inglês.

            Ora, neste país de gente tão voltada para a pureza dos atos realmente cristãos e, por isso, tão preocupada com a má sina de seus semelhantes, pagam-se tributos, e escorchantes. Se o filósofo diz que começamos a morrer quando nascemos, também no Brasil a faina de impor tributos ao indivíduo já começa mal ele nasce. Paga-se taxa de iluminação pública até mesmo quando o poste não existe ou sua lâmpada não existe, algo parecido como o poste da atual prefeita de Fortaleza. Ao acordar e apanhar o ônibus, paga-se tributo; ao comprar uma caneta, paga-se tributo; ao colocar gasolina, paga-se tributo e outras modalidades de tributo que é de todo desnecessário aqui mencionar. Quando não há cobrança de tributo por inexistência de uma situação fática que o justifique, o poder público inventa. No início de todo ano, o contribuinte (?) é obrigado a declarar sua renda ou o que auferiu a título de salário para também ser garfado pelos tentáculos vorazes do Estado. Alguns estudiosos do Direito Tributário afirmam que, a cada ano, o poder público vai à bolsa do cidadão e dela retira um terço daquilo que o Estado considera renda, algo equivalente a quatro salários... E salve-se quem puder. Ocasiões há em que, no transcurso do tempo, o poder público já mete sua pata no bolso do contribuinte/lesado e de lá vai arrancando pequenas parcelas mensais... Desse modo, é com a força do trabalho, como regra, pois há muita renda obtida ilicitamente, que se devem financiar as necessidades básicas da comunidade. Aqui não cabe perguntar para onde vai tanto dinheiro; aqui não cabe indagar o porquê de tanta miséria? Aqui não se deve indagar por que poucos com tão muito e muitos com tão pouco.

            Não, não se façam perguntas sobre a questão. Os versados na arte de furtar, os inescrupulosos, os pilantróides engravatados, os patifes endomingados freqüentam assiduamente páginas de processos em que se investigam os mais hediondos crimes de rapinagem institucionalizada  e, juram pelos céus sua inocência. O pior é que, quase sempre, não recebem nenhuma punição nem são persuadidos a devolver o que furtaram, o que extorquiram e o de que se apoderaram. E bote cinismo em tudo isso.

            Os homens sérios da nação, os que não vendem sua alma, os que acreditam num mundo melhor, com oportunidades para todos, de modo que seja banida a fome, que envilece e a ignorância, que cega, estes não se deixam levar pelo discurso meloso dos programas criança-esperança e outros engodos cínicos, pois têm consciência de que já pagam, e até demais, para que problemas sociais desse jaez sejam debelados, e todos durmam com sua consciência em paz.

            Talvez a nação esteja carecendo de remédio mais eficaz para todos os fins, tendo em vista o destino da comunidade. Lembremos aqui o historiador cearense de Maranguape Capistrano de Abreu que, indagado acerca da redação de hipotética Constituição para traçar os rumos políticos do Brasil, assim se manifestou:

            - A Constituição ideal para esse fim, se redigida por mim, teria um só artigo e um só parágrafo.  Assim: Art. 1º Todo brasileiro é obrigado a ter vergonha na cara. Parágrafo único. Revogam-se as disposições em contrário.

            Pronto, com isso, certamente, grande parte dos problemas nacionais seria resolvida, inclusive o criança esperança.

            Ridendo Sic escreveu o texto supra quando lhe expus o cinismo de programas dessa natureza, que insistem em tratar a população com zumbis descerebrados.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012


O GURU X

                                                  Hugo Martins



               Perguntei a Ridendo Sic a que método se deve recorrer para aprender um idioma, sobretudo a velha “flor do Lácio inculta e bela”.

            Dissertou:

            - Meu caro, não se aprende uma língua. Talvez fosse mais apropriado dizer que o falante procura se familiarizar com o modo de ser do idioma, seu espírito, suas idiossincrasias. Todos os falantes da língua portuguesa, por exemplo, conhecem a língua portuguesa, “sabem a língua portuguesa”. Tanto é verdade que, do mais iletrado ao mais letrado, todos a utilizam como meio de comunicação e compreensão do mundo. O equívoco é se pensar que estudar gramática normativa e suas inumeráveis regrinhas e exceções é aprender português. Em outros tempos, havia a admiração folclórica de determinadas figuras, que se celebrizaram, sobretudo no exercício do magistério, pela capacidade que demonstravam em depositar no cérebro um rol sem tamanho daquelas receitinhas que mais “enrolavam” e embasbacavam do que esclareciam. Era a mania reinante de explicar os fatos linguísticos, apoiando-se nas regras famigeradas.

            Não estou querendo dizer que a gramática é dispensável no aprendizado de um idioma. Não se deve é tomá-la como fim em si mesma. Toda língua tem sua gramática própria, que o falante passa a dela aproximar-se com o exercício da leitura. Por isso, quando alguém me pede fórmula agradável de se aprender a gramática do português, respondo serenamente: a receita é simples, descomplicada e acessível a qualquer um: pela manhã, leitura; à tarde, leitura; à noite, leitura. Caso se encontre no banheiro atendendo alguma necessidade fisiológica, leitura. Em filas de bancos, paradas de ônibus, consultórios médicos, leitura. Outro ingrediente infalível: ande armado. Calma, a arma a que me refiro é inofensiva e só faz bem à saúde: um exemplar qualquer de um livro, seja um ro- mance, uma coletânea de contos ou crônicas, seja, se preferir, uma revista de qualidade, são armas que debelam o tédio, preenchem a solidão e afastam os inoportunos. As escolhas de tais armas se definirão à medida que o indivíduo mais faz uso delas. O exercício sugerido pela receita também serve de malhação para o cérebro. O raciocínio é simples: se alguém procura as academias e calçadões de praias e praças com o intuito de queimar gordura e se, nisso, encontra resultado positivo, não há dúvida de que, lendo, também irá queimar as “adiposidades” de seu cérebro, beneficiando-se com o pensar claro, o pensar magro, o pensar diet. Todo aquele que adotar tal receita, caro companheiro, não encontrará dificuldades para aprender a gramática de seu idioma e de qualquer outro que, porventura, venha a estudar.

            Indaguei a Ridendo com chegara ele a tal conclusão.

            Soltou sua risadinha e respondeu como o personagem de Conan Doyle:

            Elementar, meu caro! Observe que os grandes autores, em todo o mundo, detestam a gramática pela gramática. Temos como exemplo, aqui no Brasil, Monteiro Lobato e Lima Barreto, que não se cansavam de vergastar as ancas dos gramatiqueiros com o chicote da mais fina ironia, colocando-os no pedestal dos toleirões e pretensiosos.

            - Além do mais - continuou – os escritores de escol são leitores empedernidos, buscam em outros escritores de nomeada a essência do dizer, traduzida na presteza e precisão da expressão, perpassada pela virtude que assinala o bom redator e bom intérprete da vida: a clareza.

            Rematou sua exposição:

            - Por isso, poderíamos ter dispensado toda essa lengalenga para responder à indagação que você me fez no início e dizer de modo sucinto: quer aprender a gramática do idioma? LEIA, LEIA, LEIA. O resto vem por acréscimo.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012


O GURU IX

                                                                                          Hugo Martins



            Quando perguntei a Ridendo sobre emoções e gosto estético, disse-me que a vida não vale a pena sem a presença da arte. Por mais emocionante que seja a fita a que você assista, retirada a música, perde ela toda a graça.  O suspense, o idílio e todas as emoções que se possam encontrar em qualquer filme são expressas pela música. O poder desta é tamanho, que o filme, mesmo que devorado pelo tempo, mesmo que não mais seja exibido, ao se ouvirem as músicas nele presentes, rapidamente nos acorrem todas as lembranças. É como os perfumes, evocam momentos bons, alegres, tristes, bem como as pessoas que deles participaram.

            Em seguida, Ridendo Sic trouxe á baila alguns filmes que marcaram gerações e são lembrados por suas canções e músicas. Muitas cenas do filme Casablanca (1942), estrelado por Humphrey Bogart e Ingrid Bergmam nos vem à lembrança por causa da música-tema As Time Goes By.  Outro filme, cuja canção se torna inesquecível é Love is a Many Splendored Thing (1955), estrelado por William Holden e Jennifer Jones. São tantas: tema de o Poderoso Chefão I;  Love Story;  Dio Como ti Amo; Romeu e Julieta, a versão em que, durante um baile de máscaras, na propriedade dos Capuletos, um jovem adolescente, entoa o A Time for Us, embevecendo  todos: os participantes do baile, bem como os espectadores. As películas de Alfred Hitchcock – Psicose, Um Corpo que Cai, Os Pássaros, Pacto Sinistro, Janela Indiscreta... – sem desejar malbaratar a arte daquele mestre em incutir nas pessoas tremelicos de pavor, mais se enriquece com a presença da música. É antológica e imediatamente identificada por qualquer cinéfilo a música de Psicose (1960), aquela em que Norman Bates (Anthony Perkins) esfaqueia repetidas vezes Marion Crane ( Janet Leigh) . Na chamada cena da banheira... Enquanto o psicótico Norman vibra a faca em Marion, a música parece acentuar o macabro que nela se desenvolve, ao mesmo tempo em que o espectador é tomado de grande medo, semelhante àquele que Robert Wagner confessava sentir toda vez que ouvia a Quinta Sinfonia de Bethoveen. Nada existirá de grandioso nos filmes épicos sem a interferência da música. Suprimir o som de filmes como Os Dez Mandamentos de Cecil B. DeMille é retirar deles todas as emoções e sentimentos de quem a eles assiste.

            Não é sem razão a existência de uma megaindústria discográfica, que joga no mercado verdadeira enxurrada de CDs e DVs com músicas dos filmes que causaram maior furor nos amantes da sétima arte. Os produtores de novelas televisivas, vendo em tudo isso um filão a ser explorado, também não perderam tempo: copiaram o cinema, não pela arte em si, mas para aumentar ainda mais seus lucros com o poder encantatório da música.

            Depois dessa dissertação, Ridendo Sic fez alusão a alguns livros. Disse que se afastou, por alguns dias, da chamada “leitura séria”. Coisa como literatura, filosofia, ciência política, direito. Isso fez, diz ele, para recrear o espírito. Literatura de rede ou espreguiçadeira, aquela que não exige muito esforço intelectual, embora veicule ricas informações acerca da História, dos dramas e alegrias humanos.

            - Deixei de lado duas releituras: Crime e Castigo e Memórias Póstumas de Brás Cubas (10ª releitura). Larguei Castro Alves, Manuel Bandeira e Érico Veríssimo para, no mês de julho me empanturrar da leitura amena – ajuntou.

            Confessou-me que, embora tenha ouvido largos elogios sobre a obra A Criação de Gore Vidal, não titubeou e largou-a na página 289, dizendo nunca haver desistido da leitura de um livro, mas aquele era detestável, chato entediante. Disse haver feito esforço hercúleo, mas havia outros livros na fila e não iria perder tempo com um livro que nada lhe dizia.

            Perguntei-lhe se indicaria alguns desses livros de rede de corda e espreguiçadeira.

            Respondeu:

            - Sem dúvida. Li quatro obras do escritor carioca Ruy Castro: um sobre o bairro de Ipanema dos anos 40 a 70; outro, que traça o perfil de 231 pessoas, entre elas intelectuais, jornalistas, poetas, romancistas, atores, atrizes, críticos literários, profissionais do futebol e toda aquele entourage que emprestou cores diferentes ao bairro carioca; outra obra de grande valor do mesmo escritor é Chega de Saudade, título aproveitado do poema de Vinicius e tom, celebrizada na voz do canto baiano João Gilberto. Na obra há todo um apanhado desse movimento que deu nova faceta á música popular brasileira, numa espécie de imitação da Semana de Arte Moderna de 1922; a terceira trata da biografia de Mané Garrincha, é a obra A Estrela Solitária; e, por fim, um livro sobre cinema Um Filme é para Sempre, que retrata a mística, a vida, as dores, alegrias, sofrimentos, desilusões, as farsa e as mentiras de tudo que ocorre fora dos bastidores e das telas. Comovente e divertido... De leitura aconselhável

            Continuou:

            - Li outras obras sobre música popular brasileira Noites Tropicais de Nélson Mota, Gonzagão e Gonzaguinha e uma vasta biografia (proibida?) de Roberto Carlos. Saborosos...

            Rematou:

            - Quanto às obras estritamente literárias, combinaremos um dia para sobre elas tecer comentários. Enquanto isso, continuo alimentando a alma com leituras amenas... Isso serve de aquecimento para maiores enfrentamentos. Vários me aguardam.

            Despedimo-nos...

            À tarde calorenta de Fortaleza não sucedeu uma noite fresca. O calor continuou, a vida continuou, o drama da vida não parou... Tudo é movimento, mas só a arte é eterna. Lembrou-me um verso de Murilo Mendes; “As horas passam ,os homens caem, a poesia fica.”

           



              

sábado, 4 de agosto de 2012


O GURU VIII

                                             Hugo Martins

            Escrevi a Ridendo Sic com o fito de indagar-lhe sobre a avaliação da redação escolar. Hoje me chegou às mãos sua resposta, eivada de reflexões com as quais concordei e passo a transcrevê-las. Ei-las, devidamente aspeadas.

            “De caneta em punho, frente à frieza e indiferença da folha em branco, o redator se esbate na busca da forma para as idéias que lhe fervilham na mente. Essa atitude de procura torna-se mais angustiante ainda para o estudante que ensaia escrever um texto a ser avaliado por um único interlocutor: o professor.

            O desempenho do falante poderá ser tanto mais positivo quanto mais claras se revelem as pistas temáticas fornecidas. Certamente encontrará menor dificuldade caso lhe seja fornecido um tema-roteiro, no qual se vislumbre algum caminho para o desenvolvimento do texto. Se, porém, o tema se lhe apresenta sem nenhum rumo definido, as dificuldades aumentarão, e o falante, as mais das vezes, perder-se-á em garatujar a folha em branco e, se conseguir produzir algum simulacro de texto, este se mostrará eivado de incoerências temáticas, costurado assimetricamente tal uma colcha de retalhos.

            Chegada às mãos do professor, a redação poderá ser avaliada em seus aspectos globais ou vista por um só aspecto. Professores há que valorizam o texto enquanto instrumento de comunicação intersubjetiva, isto é, põem em relevo o modo como o texto está organizado; outros preferem proceder à caça do erro, numa garimpagem escrupulosa, que só tem olhos para os deslizes cometidos. Perdem, desse modo, a visão do conjunto para dar ênfase àquilo que ensinaram (?) em suas aulas: a gramática pela gramática.

            A nosso ver, o ato gratuito de redigir, longe do virtual policiamento pedagógico, torna-se menos penoso: as idéias brotam com maior fluência, e pouca atenção se dá aos eventuais deslizes gramaticais. Escrever, porém, visando a uma avaliação da parte de um interlocutor único, rouba a espontaneidade e o texto soa falso.

            Isso posto, sou de opinião que avaliar a redação escolar supõe, antes de tudo,  levar em conta enfrentamentos psicológicos experimentados pelo redator neófito.

            Comunicar as idéias, amarrá-las pelos processos coesivos é o suficiente. Aspectos referentes à gramática podem ser sanados por outras formas de treinamento, sobremaneira pelo exercício constante e aplicado da leitura. Ser condescendente com o falante relativamente aos “pecadilhos gramaticais” é ajudá-lo a superar determinados bloqueios que o impedem de ser mais produtivo.

            O orador romano Marco Túlio Cícero recorria a um método sem precedentes, que traduzia pela frase: “Nenhum dia sem nenhuma linha”.

            Assim se manifestou Ridendo Sic diante de tema tão áspero: o problema da avaliação da redação escolar.


sexta-feira, 3 de agosto de 2012


O GURU VII

                                            Hugo Martins



               Hoje recebi mais uma carta de meu amigo Ridendo Sic. Vazada em impecável estilo que me lembrou Eça.  Trouxe à tona assunto relacionado com a aplicação da lei neste país abarrotado de tantos e quantos doutores de lei. Trata-se crime praticado por um membro do Ministério Público aqui no Ceará, que teria incorrido no revogado art. 214 do Código Penal, dispositivo que tipifica (define) o crime de Atentado Violento ao Pudor, tendo por vítimas duas meninas de nove anos de idade.

            Ridendo não demonstra nenhum laivo de indignação por haver o delito sido cometido por um promotor de justiça, pois, em sua opinião, qualquer ser humano está sujeito a render-se às artimanhas e às peças com que a vida costuma nos surpreender. O que o deixou mais indignado não foi o direito de defesa que a todo réu deve ser deferido, mas a argumentação urdida pelo advogado daquele. Sobretudo no ponto em que o causídico declarava, nos meios de comunicação, a existência de setenta e três contradições nas declarações da família das vítimas. Ora, com esse elenco de provas, certamente a absolvição seria favas contadas. Só que, exarada a sentença, os julgadores, certamente com a aplicação dos rigores da lei, sapecaram nos costados do réu a pena de dezessete anos e alguns meses de reclusão, a serem cumpridos no regime fechado, aquele em que o condenado curte o castigo, por um tempo, trancafiado...

            Depois, Ridendo passa a tecer considerações, enfocando o estarrecimento da população em ver uma “autoridade” ser agadanhada pelos tentáculos da lei. Nada que deva comover, pois, o ordenamento jurídico deve estender-se a todos. Se bem que a população não deixa de ter a razão quando se rende a certo ceticismo ao ver alguma pessoa “importante” sentada no banco dos réus e é julgada e condenada por seus pares ou por quem a lei processual determina a competência, como ocorreu no caso em foco. O populacho sempre é de opinião que os réus “importantes” sempre são absolvidos...

            Continuou seu arrazoado, defendendo com unhas e dentes o direito de defesa, que, conforme ele, abebera-se nos primados da filosofia cristã e nas Declarações Universais de Direitos Humanos. Assim, um advogado que assume a defesa de um réu, não se deve apresentar dizendo quem é, mas fazer como um advogado francês, cujo nome Ridendo não declina, o qual, antes de iniciar seu discurso, dizia, alto e bom som: aqui não está fulano, aqui está a defesa, em toda sua plenitude. Porém, melancólico e decepcionado com a enxurrada de verborréia inútil, apanágio de alguns defensores, acusou o advogado do promotor de falastrão, pretensioso e tolo. Acrescentou que, pelo fato de tal advogado estar inscrito no rol dos que assumem defesas possíveis, que visam à absolvição impossível, não é suficiente para que o juízo comum e os julgadores se deixem seduzir por mise em scène tão chinfrin. Tanto é que as setenta e três contradições referidas parecem não ter alcançado êxito. E suas palavras o vento as levou.

            E mais não disse, deixando-me a refletir até onde se estende o caudal da vaidade, essa tênia insaciável, que nos corrói a alma e nos incute a ilusão de que somos invencíveis em nossos projetos de vida, mesmo quando recorremos à mentira que pouco caso faz da dignidade do ser humano.

            A propósito, como se sente a criança que teve sua pureza conspurcada e malferida.

            Isso é assunto que vamos levar ao sempre sensato Ridendo Sic.

           

           

           

quinta-feira, 2 de agosto de 2012


O GURU VI

                                               Hugo Martins

            “Domingo, sete da manhã. Ligo o rádio e ouço o locutor Wilson Machado anunciar a Parada dos Maiorais, uma sucessão das músicas mais tocadas durante a semana. O programa tinha como música de abertura, executada pelo saxofone brilhante de Ivanildo, a dolente Petite Fleur (Pequena Flor). Sempre tendo por contraponto essa canção, Wilson Machado anunciava do décimo quinto ao primeiro lugar. Nas minhas infância e adolescência, ouvi todo tipo de música, pois se vivia a era do rádio; lembro-me de que em nossa casa se comprava a Revista do Rádio e outras do mesmo gênero, que traziam as letras das músicas de então. Como amostra, enfilarei o nome de alguns intérpretes e compositores que embalaram meu “vício” pela música lírico-amorosa, as que contavam casos de amores fracassados, abandonos, paixões recolhidas, mágoas e tantos outros dramas sentimentais, que decorávamos e cantávamos. Adelino Moreira, a dupla Jair Amorim/Evaldo Gouveia celebrizaram e puseram na crista da onda Nélson Gonçalves e Altemar Dutra, respectivamente. Caubi Peixoto cantava Conceição. Dalva de Oliveira, Nora Ney, Ângela Maria e outras deusas do rádio rasgavam corações com Lencinho Branco, Ninguém me Ama e Seria Tão Diferente... Era também tempo em que o cantor norte-americano Nat King Cole (não conheço voz igual) bandeou-se para a música latina e gravou todos os boleros em voga: Aqueles Olhos Verdes, Cachito, La Golondrina, Noite de Ronda... Havia também Ray Conniff, que embalava as festas com o Besame Mucho e continuava alegrando o baile com música de gosto latino.

            Enquanto lia a carta de Ridendo Sic, não atinava aonde queria ele chegar com esse mar de nostalgia e de recordações que nos fazem lembrar a música Meus Tempos de Criança do sambista Ataulfo Alves, em cujo texto lê-se o verso “eu era feliz e não sabia”.

            “Meu caro, desencavo essas recordações porque vi há pouco, num programa televisivo, um grupelho de pseudo-intelectuais falando sobre a chamada música brega. Entre outras asneiras, tomavam como referência o início desse estilo musical os anos setenta. Cometeram vários equívocos com os quais não concordo e rebato-os argumentando.

            Em primeiro lugar, não sei se trata de uma etimologia popular com aparência de falsa, mas que faz sentido faz. Já li, em algum dia, que o nome brega seria uma redução de nome próprio Nóbrega, que dava nome a uma rua. Pela ação do tempo e da negligência do poder municipal, a primeira sílaba do nome se foi apagando. Como era uma rua em que funcionavam lupanares, cabarés, bordéis, puteiros (nome mais adequado), a palavra se firmou no léxico porque, quem os conhece sabe que ali só se rodam músicas em que se manifestam os sinceros paixões e dramas humanos. Eu, por exemplo, prezado amigo, conheci muitos desses lugares em boa parte do Brasil. Aí em Fortaleza, as boates do centro: A Boate Guarani, Fascinação e Oitenta, a Casa da Leila, em Parangaba, sem contar com o Farol do Mucuripe. No Rio de Janeiro, aprendi a dançar com as meninas da Lapa e bebi muita cerveja nos bares da Praça Mauá, quase próxima à Radio Nacional, no Bar Flórida e Hanseática. Em Salvador, muito me diverti no Julião, no Maciel e na boate Tabaris, ali próximo ao Elevador Lacerda. Em Recife, quando por lá passei, freqüentei a Rua da Guia, verdadeiro celeiro de putas de toda espécie, das que, devoradas pela sífilis, já dormem nas sarjetas, até as ninfetas que se iniciam na vida nada fácil de quem vende o corpo para sobreviver. Essa é a explicação mais plausível para o nome brega. Hoje esse comércio é corriqueiro, funcionando sem nome e sem luz vermelha na fachada...

            Em segundo lugar, não há música brega. Existe a música, com suas nuanças e sua vocação para despertar em todos nós o lirismo, o romantismo, os dramas e lembranças que nos acorrem toda vez que ouvimos a “música brega.” Existe coisa mais brega que as músicas de Frank Sinatra? Que desperta em nós a música francesa Ne me quites pas senão o canto de desespero de quem se vê na iminência de ser abandonado pelo ser amado? Mesmo cantada por Maísa (conheço interpretação mais convincente da cantora Mireille Mhathieu).          E Noche de Ronda, apelo a que alguém volte (dile que la quiero, dile que me muero de tanto esperar). E tantas outras que só os amantes da música conseguem intuir, mesmo numa sonata de Beethoven ou numa suíte de Bach? Quem é maior brega que Roberto Carlos, que iniciou a carreira imitando João Gilberto, em seguida migrou para o “rock” e, por fim, abraçou a música romântica, que ele dá vida com seu sopro interpretativo e conduz multidões a estádios ou a qualquer show que promova? Em qualquer lugar do mundo em que exista alguém que sofra, que sinta saudades, que, por fim, transporta alguma amargura na alma por força de dores sentimentais, existirá a música brega. Ela é universal, e faz parte de nosso universo psíquico.

            Por fim, a hipocrisia (em grego, hipócrita é o ator) de quem diz não gostar de música brega não passa de uma atitude falsa daquele que não pensa e teme ser tomado por pessoa de mau gosto. No entanto, se letra e música provierem de países estrangeiros, sobretudo dos em que se fala inglês, não há, na opinião dos tolos, nenhuma possibilidade de que seja brega. É como tirar meleca do nariz: em público é feio, mas nos cantinhos em que se não pode ser surpreendido, o sujeito atola o dedão nas ventas, retira a meleca grudenda, contempla-a e sente grande e solitário prazer em limpar o nasal...

            Fecho esta missiva, apoiando-me no clichê dos dados à inútil arte de distribuir conselhos: “Pense nisso!”

            Fechei a carta, coloquei-a de volta ao envelope e comecei a pensar nisso. Não nas melecas, mas nas palavras sensatas de meu grande amigo.