segunda-feira, 6 de agosto de 2012


O GURU IX

                                                                                          Hugo Martins



            Quando perguntei a Ridendo sobre emoções e gosto estético, disse-me que a vida não vale a pena sem a presença da arte. Por mais emocionante que seja a fita a que você assista, retirada a música, perde ela toda a graça.  O suspense, o idílio e todas as emoções que se possam encontrar em qualquer filme são expressas pela música. O poder desta é tamanho, que o filme, mesmo que devorado pelo tempo, mesmo que não mais seja exibido, ao se ouvirem as músicas nele presentes, rapidamente nos acorrem todas as lembranças. É como os perfumes, evocam momentos bons, alegres, tristes, bem como as pessoas que deles participaram.

            Em seguida, Ridendo Sic trouxe á baila alguns filmes que marcaram gerações e são lembrados por suas canções e músicas. Muitas cenas do filme Casablanca (1942), estrelado por Humphrey Bogart e Ingrid Bergmam nos vem à lembrança por causa da música-tema As Time Goes By.  Outro filme, cuja canção se torna inesquecível é Love is a Many Splendored Thing (1955), estrelado por William Holden e Jennifer Jones. São tantas: tema de o Poderoso Chefão I;  Love Story;  Dio Como ti Amo; Romeu e Julieta, a versão em que, durante um baile de máscaras, na propriedade dos Capuletos, um jovem adolescente, entoa o A Time for Us, embevecendo  todos: os participantes do baile, bem como os espectadores. As películas de Alfred Hitchcock – Psicose, Um Corpo que Cai, Os Pássaros, Pacto Sinistro, Janela Indiscreta... – sem desejar malbaratar a arte daquele mestre em incutir nas pessoas tremelicos de pavor, mais se enriquece com a presença da música. É antológica e imediatamente identificada por qualquer cinéfilo a música de Psicose (1960), aquela em que Norman Bates (Anthony Perkins) esfaqueia repetidas vezes Marion Crane ( Janet Leigh) . Na chamada cena da banheira... Enquanto o psicótico Norman vibra a faca em Marion, a música parece acentuar o macabro que nela se desenvolve, ao mesmo tempo em que o espectador é tomado de grande medo, semelhante àquele que Robert Wagner confessava sentir toda vez que ouvia a Quinta Sinfonia de Bethoveen. Nada existirá de grandioso nos filmes épicos sem a interferência da música. Suprimir o som de filmes como Os Dez Mandamentos de Cecil B. DeMille é retirar deles todas as emoções e sentimentos de quem a eles assiste.

            Não é sem razão a existência de uma megaindústria discográfica, que joga no mercado verdadeira enxurrada de CDs e DVs com músicas dos filmes que causaram maior furor nos amantes da sétima arte. Os produtores de novelas televisivas, vendo em tudo isso um filão a ser explorado, também não perderam tempo: copiaram o cinema, não pela arte em si, mas para aumentar ainda mais seus lucros com o poder encantatório da música.

            Depois dessa dissertação, Ridendo Sic fez alusão a alguns livros. Disse que se afastou, por alguns dias, da chamada “leitura séria”. Coisa como literatura, filosofia, ciência política, direito. Isso fez, diz ele, para recrear o espírito. Literatura de rede ou espreguiçadeira, aquela que não exige muito esforço intelectual, embora veicule ricas informações acerca da História, dos dramas e alegrias humanos.

            - Deixei de lado duas releituras: Crime e Castigo e Memórias Póstumas de Brás Cubas (10ª releitura). Larguei Castro Alves, Manuel Bandeira e Érico Veríssimo para, no mês de julho me empanturrar da leitura amena – ajuntou.

            Confessou-me que, embora tenha ouvido largos elogios sobre a obra A Criação de Gore Vidal, não titubeou e largou-a na página 289, dizendo nunca haver desistido da leitura de um livro, mas aquele era detestável, chato entediante. Disse haver feito esforço hercúleo, mas havia outros livros na fila e não iria perder tempo com um livro que nada lhe dizia.

            Perguntei-lhe se indicaria alguns desses livros de rede de corda e espreguiçadeira.

            Respondeu:

            - Sem dúvida. Li quatro obras do escritor carioca Ruy Castro: um sobre o bairro de Ipanema dos anos 40 a 70; outro, que traça o perfil de 231 pessoas, entre elas intelectuais, jornalistas, poetas, romancistas, atores, atrizes, críticos literários, profissionais do futebol e toda aquele entourage que emprestou cores diferentes ao bairro carioca; outra obra de grande valor do mesmo escritor é Chega de Saudade, título aproveitado do poema de Vinicius e tom, celebrizada na voz do canto baiano João Gilberto. Na obra há todo um apanhado desse movimento que deu nova faceta á música popular brasileira, numa espécie de imitação da Semana de Arte Moderna de 1922; a terceira trata da biografia de Mané Garrincha, é a obra A Estrela Solitária; e, por fim, um livro sobre cinema Um Filme é para Sempre, que retrata a mística, a vida, as dores, alegrias, sofrimentos, desilusões, as farsa e as mentiras de tudo que ocorre fora dos bastidores e das telas. Comovente e divertido... De leitura aconselhável

            Continuou:

            - Li outras obras sobre música popular brasileira Noites Tropicais de Nélson Mota, Gonzagão e Gonzaguinha e uma vasta biografia (proibida?) de Roberto Carlos. Saborosos...

            Rematou:

            - Quanto às obras estritamente literárias, combinaremos um dia para sobre elas tecer comentários. Enquanto isso, continuo alimentando a alma com leituras amenas... Isso serve de aquecimento para maiores enfrentamentos. Vários me aguardam.

            Despedimo-nos...

            À tarde calorenta de Fortaleza não sucedeu uma noite fresca. O calor continuou, a vida continuou, o drama da vida não parou... Tudo é movimento, mas só a arte é eterna. Lembrou-me um verso de Murilo Mendes; “As horas passam ,os homens caem, a poesia fica.”

           



              

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