O GURU IX
Hugo Martins
Quando
perguntei a Ridendo sobre emoções e gosto estético, disse-me que a vida não
vale a pena sem a presença da arte. Por mais emocionante que seja a fita a que
você assista, retirada a música, perde ela toda a graça. O suspense, o idílio e todas as emoções que
se possam encontrar em qualquer filme são expressas pela música. O poder desta
é tamanho, que o filme, mesmo que devorado pelo tempo, mesmo que não mais seja
exibido, ao se ouvirem as músicas nele presentes, rapidamente nos acorrem todas
as lembranças. É como os perfumes, evocam momentos bons, alegres, tristes, bem
como as pessoas que deles participaram.
Em
seguida, Ridendo Sic trouxe á baila alguns filmes que marcaram gerações e são
lembrados por suas canções e músicas. Muitas cenas do filme Casablanca (1942),
estrelado por Humphrey Bogart e Ingrid Bergmam nos vem à lembrança por causa da
música-tema As Time Goes By. Outro filme, cuja canção se torna inesquecível
é Love is a Many Splendored Thing
(1955), estrelado por William Holden e Jennifer Jones. São tantas: tema de o
Poderoso Chefão I; Love Story; Dio Como ti Amo; Romeu e Julieta, a
versão em que, durante um baile de máscaras, na propriedade dos Capuletos, um jovem
adolescente, entoa o A Time for Us, embevecendo todos: os participantes do baile, bem como os
espectadores. As películas de Alfred Hitchcock – Psicose, Um Corpo que Cai, Os
Pássaros, Pacto Sinistro, Janela Indiscreta... – sem desejar malbaratar a arte
daquele mestre em incutir nas pessoas tremelicos de pavor, mais se enriquece
com a presença da música. É antológica e imediatamente identificada por
qualquer cinéfilo a música de Psicose (1960), aquela em que Norman Bates
(Anthony Perkins) esfaqueia repetidas vezes Marion Crane ( Janet Leigh) . Na
chamada cena da banheira... Enquanto o psicótico Norman vibra a faca em Marion,
a música parece acentuar o macabro que nela se desenvolve, ao mesmo tempo em
que o espectador é tomado de grande medo, semelhante àquele que Robert Wagner
confessava sentir toda vez que ouvia a Quinta Sinfonia de Bethoveen. Nada
existirá de grandioso nos filmes épicos sem a interferência da música. Suprimir
o som de filmes como Os Dez Mandamentos de Cecil B. DeMille é retirar deles
todas as emoções e sentimentos de quem a eles assiste.
Não é
sem razão a existência de uma megaindústria discográfica, que joga no mercado
verdadeira enxurrada de CDs e DVs com músicas dos filmes que causaram maior
furor nos amantes da sétima arte. Os produtores de novelas televisivas, vendo
em tudo isso um filão a ser explorado, também não perderam tempo: copiaram o
cinema, não pela arte em si, mas para aumentar ainda mais seus lucros com o
poder encantatório da música.
Depois
dessa dissertação, Ridendo Sic fez alusão a alguns livros. Disse que se
afastou, por alguns dias, da chamada “leitura séria”. Coisa como literatura,
filosofia, ciência política, direito. Isso fez, diz ele, para recrear o
espírito. Literatura de rede ou espreguiçadeira, aquela que não exige muito
esforço intelectual, embora veicule ricas informações acerca da História, dos
dramas e alegrias humanos.
-
Deixei de lado duas releituras: Crime e Castigo e Memórias Póstumas de Brás
Cubas (10ª releitura). Larguei Castro Alves, Manuel Bandeira e Érico Veríssimo
para, no mês de julho me empanturrar da leitura amena – ajuntou.
Confessou-me
que, embora tenha ouvido largos elogios sobre a obra A Criação de Gore Vidal,
não titubeou e largou-a na página 289, dizendo nunca haver desistido da leitura
de um livro, mas aquele era detestável, chato entediante. Disse haver feito
esforço hercúleo, mas havia outros livros na fila e não iria perder tempo com
um livro que nada lhe dizia.
Perguntei-lhe
se indicaria alguns desses livros de rede de corda e espreguiçadeira.
Respondeu:
- Sem
dúvida. Li quatro obras do escritor carioca Ruy Castro: um sobre o bairro de
Ipanema dos anos 40 a 70; outro, que traça o perfil de 231 pessoas, entre elas
intelectuais, jornalistas, poetas, romancistas, atores, atrizes, críticos
literários, profissionais do futebol e toda aquele entourage que emprestou cores diferentes ao bairro carioca; outra
obra de grande valor do mesmo escritor é Chega de Saudade, título aproveitado
do poema de Vinicius e tom, celebrizada na voz do canto baiano João Gilberto.
Na obra há todo um apanhado desse movimento que deu nova faceta á música popular
brasileira, numa espécie de imitação da Semana de Arte Moderna de 1922; a
terceira trata da biografia de Mané Garrincha, é a obra A Estrela Solitária; e,
por fim, um livro sobre cinema Um Filme é para Sempre, que retrata a mística, a
vida, as dores, alegrias, sofrimentos, desilusões, as farsa e as mentiras de
tudo que ocorre fora dos bastidores e das telas. Comovente e divertido... De
leitura aconselhável
Continuou:
- Li
outras obras sobre música popular brasileira Noites Tropicais de Nélson Mota,
Gonzagão e Gonzaguinha e uma vasta biografia (proibida?) de Roberto Carlos.
Saborosos...
Rematou:
-
Quanto às obras estritamente literárias, combinaremos um dia para sobre elas
tecer comentários. Enquanto isso, continuo alimentando a alma com leituras
amenas... Isso serve de aquecimento para maiores enfrentamentos. Vários me
aguardam.
Despedimo-nos...
À
tarde calorenta de Fortaleza não sucedeu uma noite fresca. O calor continuou, a
vida continuou, o drama da vida não parou... Tudo é movimento, mas só a arte é
eterna. Lembrou-me um verso de Murilo Mendes; “As horas passam ,os homens caem,
a poesia fica.”
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