quarta-feira, 29 de agosto de 2012


SOMOS CORRUPTOS

                                    Hugo Martins

 

 

               Não sei se existe um remédio específico para essa “doença”, que acomete a população brasileira desde que Dom João VI aqui deu com os costados, fugindo como cachorro assustado da sombra ameaçadora de Napoleão Bonaparte. Claro que, antes, quando Pedro Álvares Cabral, historicamente, tropeçou no Brasil, já trazia esse almirante luso das terras da Europa algum vírus de corrupção. Só que aquele rei criou o Banco do Brasil para pilhar seus recursos e lastro a fim de sustentar o número gigantesco de ociosos da imensa corte e, ao mesmo tempo, comprar-lhes a consciência. A voracidade sobre o tesouro foi tamanha, que aquela instituição financeira cedo foi à bancarrota. Quer dizer, corrupção é algo que se entranha na alma por lento processo histórico. Basta olhar para a classe política partidária, useira e vezeira na arte de corromper e ser corrompida. Mas não só nesse ambiente sujo prolifera a corrupção. Vai ela mais longe, estando, paradoxalmente, muito próxima de cada de cada um de nós.

            Ser corrupto é ser ou estar podre ou estragado, adjetivos extensivos a coisas e homens. Sobre as primeiras, ela se manifesta pelas intempéries, pela a ação corrosiva do tempo. Sobre os últimos, infiltra-se no espírito pelos processos educacionais, repassados pela família, pela escola e pelo discurso ideológico e subliminar de grupos sociais, cuja fala persuade os ingênuos e descerebrados a adotar comportamentos e visões de mundo.

            A corrupção não se enxerga apenas no insultante mensalão em que figurões da política posam de bandidos; também não se encontra ela nos festins dos jogos de influência; tampouco na pilhagem do dinheiro público, levada a efeito por lobos vorazes, que consideram a população como um rebanho de dóceis cordeiros, facilmente tangido pelo cajado da narcotização discurseira. Ela vai mais longe e pode ser encontrada como mercadoria suja nas diversas relações sociais.

            Somos corruptos quando recebemos um troco a mais e nos regozijamos de haver levado vantagem na coisa, malgrado o prejuízo causado a terceiros. Somos corruptos quando deixamos que o lojista se apodere de nossos centavos, temendo sofrer críticas dos circunstantes, quando, na verdade, aquele sujeito invade nosso direito à propriedade. Argumento: não é de bom tom “brigar” por ninharias. Somos corruptos quando, espreitando a prova do colega na carteira ao lado, pensamos estar enganando alguém, quando, na verdade, o enganado é o “pescador”. Somos corruptos quando elegemos o lema “o mundo é dos espertos” ou, quando, recorremos a meios ilícitos para auferir alguma vantagem e bradamos: “chapéu de otário é marreta”. Somos corruptos quando vendemos nossa consciência política, vendendo nosso voto por carradas de tijolos, por quantias de dinheiro ou promessas de empregos futuros caso o candidato seja eleito. Somos corruptos quando, diante de uma tarefa escolar, que devemos elaborar com nosso esforço, recorremos à prodigalidade de informações, nem sempre verdadeiras, da Internet e, num simples toque de botões, CtrlC+CtrlV, furtamos o autor da informação e pensamos estar enganando o professor. Nesse caso, somos três vezes corruptos, pois, além daqueles atos desonestos, estamos enganando a nós mesmos. Em outras palavras, somos corruptos toda vez que vendemos nossa alma por momentos vãos de uma falsa e transitória satisfação. É a corrupção doença. Não se sabe se está inscrita no CID, código bem conhecidos dos que lidam com problemas da saúde...

            É possível haver antídoto para esses envenenamentos da alma. Pensadores, do alto de sua sapiência, não transigem e dizem, peremptoriamente, ser a educação o mais eficiente remédio para combater esse mal que corrói e destrói civilizações.

 O Brasil parece alcançar proeminente posição no rol de países em que a corrupção é regra. Lamentável encontrar e abalroar cada esquina com um canalha. Triste participar de grupos sociais em que a corrupção se espraia como gafanhotos na lavoura. Triste sina a de um país que pode não ser bem sucedido em competições esportivas internacionais, mas é sempre grande vencedor quando se trata de miséria, fome, ladroeira, falta de decoro, imoralidade e desrespeito aos direitos humanos mais comezinhos, sobretudo quando se diz ser este país uma entre as dez maiores potências econômicas do mundo.

            É...  Não há motivo de alguém se orgulhar de ser brasileiro. Mais coerente e sincero, diria o filósofo: “Eu tenho vergonha de ser brasileiro.”

           

           

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