SOMOS CORRUPTOS
Hugo Martins
Não sei se existe um remédio
específico para essa “doença”, que acomete a população brasileira desde que Dom
João VI aqui deu com os costados, fugindo como cachorro assustado da sombra
ameaçadora de Napoleão Bonaparte. Claro que, antes, quando Pedro Álvares Cabral,
historicamente, tropeçou no Brasil, já trazia esse almirante luso das terras da
Europa algum vírus de corrupção. Só que aquele rei criou o Banco do Brasil para
pilhar seus recursos e lastro a fim de sustentar o número gigantesco de ociosos
da imensa corte e, ao mesmo tempo, comprar-lhes a consciência. A voracidade
sobre o tesouro foi tamanha, que aquela instituição financeira cedo foi à bancarrota.
Quer dizer, corrupção é algo que se entranha na alma por lento processo
histórico. Basta olhar para a classe política partidária, useira e vezeira na
arte de corromper e ser corrompida. Mas não só nesse ambiente sujo prolifera a
corrupção. Vai ela mais longe, estando, paradoxalmente, muito próxima de cada
de cada um de nós.
Ser
corrupto é ser ou estar podre ou estragado, adjetivos extensivos a coisas e
homens. Sobre as primeiras, ela se manifesta pelas intempéries, pela a ação corrosiva
do tempo. Sobre os últimos, infiltra-se no espírito pelos processos
educacionais, repassados pela família, pela escola e pelo discurso ideológico e
subliminar de grupos sociais, cuja fala persuade os ingênuos e descerebrados a
adotar comportamentos e visões de mundo.
A
corrupção não se enxerga apenas no insultante mensalão em que figurões da
política posam de bandidos; também não se encontra ela nos festins dos jogos de
influência; tampouco na pilhagem do dinheiro público, levada a efeito por lobos
vorazes, que consideram a população como um rebanho de dóceis cordeiros, facilmente
tangido pelo cajado da narcotização discurseira. Ela vai mais longe e pode ser
encontrada como mercadoria suja nas diversas relações sociais.
Somos
corruptos quando recebemos um troco a mais e nos regozijamos de haver levado
vantagem na coisa, malgrado o prejuízo causado a terceiros. Somos corruptos
quando deixamos que o lojista se apodere de nossos centavos, temendo sofrer
críticas dos circunstantes, quando, na verdade, aquele sujeito invade nosso
direito à propriedade. Argumento: não é de bom tom “brigar” por ninharias.
Somos corruptos quando, espreitando a prova do colega na carteira ao lado,
pensamos estar enganando alguém, quando, na verdade, o enganado é o “pescador”.
Somos corruptos quando elegemos o lema “o mundo é dos espertos” ou, quando,
recorremos a meios ilícitos para auferir alguma vantagem e bradamos: “chapéu de
otário é marreta”. Somos corruptos quando vendemos nossa consciência política,
vendendo nosso voto por carradas de tijolos, por quantias de dinheiro ou
promessas de empregos futuros caso o candidato seja eleito. Somos corruptos
quando, diante de uma tarefa escolar, que devemos elaborar com nosso esforço,
recorremos à prodigalidade de informações, nem sempre verdadeiras, da Internet
e, num simples toque de botões, CtrlC+CtrlV, furtamos o autor da informação e
pensamos estar enganando o professor. Nesse caso, somos três vezes corruptos,
pois, além daqueles atos desonestos, estamos enganando a nós mesmos. Em outras
palavras, somos corruptos toda vez que vendemos nossa alma por momentos vãos de
uma falsa e transitória satisfação. É a corrupção doença. Não se sabe se está
inscrita no CID, código bem conhecidos dos que lidam com problemas da saúde...
É
possível haver antídoto para esses envenenamentos da alma. Pensadores, do alto
de sua sapiência, não transigem e dizem, peremptoriamente, ser a educação o
mais eficiente remédio para combater esse mal que corrói e destrói
civilizações.
O Brasil parece alcançar proeminente posição
no rol de países em que a corrupção é regra. Lamentável encontrar e abalroar
cada esquina com um canalha. Triste participar de grupos sociais em que a
corrupção se espraia como gafanhotos na lavoura. Triste sina a de um país que
pode não ser bem sucedido em competições esportivas internacionais, mas é
sempre grande vencedor quando se trata de miséria, fome, ladroeira, falta de
decoro, imoralidade e desrespeito aos direitos humanos mais comezinhos, sobretudo
quando se diz ser este país uma entre as dez maiores potências econômicas do
mundo.
É... Não há motivo
de alguém se orgulhar de ser brasileiro. Mais coerente e sincero, diria o
filósofo: “Eu tenho vergonha de ser brasileiro.”
Nenhum comentário:
Postar um comentário