O GURU XI
Hugo Martins
O jogo perverso se inicia.
Algumas crianças testemunham, dão depoimentos e asseguram que suas vidas
mudaram para melhor. O cenário, de regra, é uma academia ou uma pequena
orquestra, regida por maestro que se inscreve na legião dos homens de boa
vontade. Ali a criança executa números em instrumentos musicais ou mostra
possuir talento para uma determinada arte, joga capoeira ou pratica esporte em
quadras e ginásios bem cuidados. Nesse contexto, em que se espalham sorrisos e
agradecimentos, o repórter só falta dizer que o programa CRIANÇA ESPERANÇA, promovido pela Rede Globo, é a grande jogada
política para se resolverem os antológicos problemas relacionados com o
abandono a que foram relegados nossas crianças e adolescentes. As crianças dalí
saídas não mais cometerão delitos, não mais cheirarão cola, tampouco se empanturrarão
de drogas nas esquinas da vida. Eis a perversidade: a mentira, encoberta por um
discurso caramelado, de quem quer, como diz o vulgo, impedir a incidência dos
raios solares com uma peneira.
Por
que o cidadão traria para si mesmo a odiosa ação de minar problemas sociais,
apanágio do poder público, que os deve remediar com o emprego dos tributos,
também odiosos, pagos por todos? Se o cidadão atende ao apelo edulcorado,
certamente deve ser useiro e vezeiro na sonegação do pagamento de tributos ou
rende-se à situação de ser tributado mais de uma vez. É de se crer que, por
trás dessa preocupação evangélico-franciscana, urdida por cabeças ladinas e
maléficas, há algo mais podre que o que ocorria no reino da Dinamarca, na visão
do bardo inglês.
Ora,
neste país de gente tão voltada para a pureza dos atos realmente cristãos e,
por isso, tão preocupada com a má sina de seus semelhantes, pagam-se tributos,
e escorchantes. Se o filósofo diz que começamos a morrer quando nascemos,
também no Brasil a faina de impor tributos ao indivíduo já começa mal ele
nasce. Paga-se taxa de iluminação pública até mesmo quando o poste não existe
ou sua lâmpada não existe, algo parecido como o poste da atual prefeita de
Fortaleza. Ao acordar e apanhar o ônibus, paga-se tributo; ao comprar uma
caneta, paga-se tributo; ao colocar gasolina, paga-se tributo e outras
modalidades de tributo que é de todo desnecessário aqui mencionar. Quando não
há cobrança de tributo por inexistência de uma situação fática que o
justifique, o poder público inventa. No início de todo ano, o contribuinte (?)
é obrigado a declarar sua renda ou o que auferiu a título de salário para
também ser garfado pelos tentáculos vorazes do Estado. Alguns estudiosos do
Direito Tributário afirmam que, a cada ano, o poder público vai à bolsa do
cidadão e dela retira um terço daquilo que o Estado considera renda, algo
equivalente a quatro salários... E salve-se quem puder. Ocasiões há em que, no
transcurso do tempo, o poder público já mete sua pata no bolso do contribuinte/lesado
e de lá vai arrancando pequenas parcelas mensais... Desse modo, é com a força
do trabalho, como regra, pois há muita renda obtida ilicitamente, que se devem
financiar as necessidades básicas da comunidade. Aqui não cabe perguntar para
onde vai tanto dinheiro; aqui não cabe indagar o porquê de tanta miséria? Aqui
não se deve indagar por que poucos com tão muito e muitos com tão pouco.
Não,
não se façam perguntas sobre a questão. Os versados na arte de furtar, os
inescrupulosos, os pilantróides engravatados, os patifes endomingados
freqüentam assiduamente páginas de processos em que se investigam os mais
hediondos crimes de rapinagem institucionalizada e, juram pelos céus sua inocência. O pior é que, quase sempre, não
recebem nenhuma punição nem são persuadidos a devolver o que furtaram, o que
extorquiram e o de que se apoderaram. E bote cinismo em tudo isso.
Os
homens sérios da nação, os que não vendem sua alma, os que acreditam num mundo
melhor, com oportunidades para todos, de modo que seja banida a fome, que
envilece e a ignorância, que cega, estes não se deixam levar pelo discurso
meloso dos programas criança-esperança e outros engodos cínicos, pois têm
consciência de que já pagam, e até demais, para que problemas sociais desse
jaez sejam debelados, e todos durmam com sua consciência em paz.
Talvez
a nação esteja carecendo de remédio mais eficaz para todos os fins, tendo em
vista o destino da comunidade. Lembremos aqui o historiador cearense de
Maranguape Capistrano de Abreu que, indagado acerca da redação de hipotética
Constituição para traçar os rumos políticos do Brasil, assim se manifestou:
- A
Constituição ideal para esse fim, se redigida por mim, teria um só artigo e um
só parágrafo. Assim: Art. 1º Todo brasileiro é obrigado a ter
vergonha na cara. Parágrafo único. Revogam-se
as disposições em contrário.
Pronto, com isso, certamente, grande parte dos problemas
nacionais seria resolvida, inclusive o criança esperança.
Ridendo
Sic escreveu o texto supra quando lhe expus o cinismo de programas dessa
natureza, que insistem em tratar a população com zumbis descerebrados.
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