O GURU X
Hugo Martins
Perguntei a Ridendo Sic a
que método se deve recorrer para aprender um idioma, sobretudo a velha “flor do
Lácio inculta e bela”.
Dissertou:
- Meu
caro, não se aprende uma língua. Talvez fosse mais apropriado dizer que o
falante procura se familiarizar com o modo de ser do idioma, seu espírito, suas
idiossincrasias. Todos os falantes da língua portuguesa, por exemplo, conhecem a
língua portuguesa, “sabem a língua portuguesa”. Tanto é verdade que, do mais
iletrado ao mais letrado, todos a utilizam como meio de comunicação e
compreensão do mundo. O equívoco é se pensar que estudar gramática normativa e suas
inumeráveis regrinhas e exceções é aprender português. Em outros tempos, havia
a admiração folclórica de determinadas figuras, que se celebrizaram, sobretudo
no exercício do magistério, pela capacidade que demonstravam em depositar no
cérebro um rol sem tamanho daquelas receitinhas que mais “enrolavam” e
embasbacavam do que esclareciam. Era a mania reinante de explicar os fatos
linguísticos, apoiando-se nas regras famigeradas.
Não
estou querendo dizer que a gramática é dispensável no aprendizado de um idioma.
Não se deve é tomá-la como fim em si mesma. Toda língua tem sua gramática
própria, que o falante passa a dela aproximar-se com o exercício da leitura.
Por isso, quando alguém me pede fórmula agradável de se aprender a gramática do
português, respondo serenamente: a receita é simples, descomplicada e acessível
a qualquer um: pela manhã, leitura; à tarde, leitura; à noite, leitura. Caso se
encontre no banheiro atendendo alguma necessidade fisiológica, leitura. Em filas
de bancos, paradas de ônibus, consultórios médicos, leitura. Outro ingrediente
infalível: ande armado. Calma, a arma a que me refiro é inofensiva e só faz bem
à saúde: um exemplar qualquer de um livro, seja um ro- mance, uma coletânea de
contos ou crônicas, seja, se preferir, uma revista de qualidade, são armas que
debelam o tédio, preenchem a solidão e afastam os inoportunos. As escolhas de
tais armas se definirão à medida que o indivíduo mais faz uso delas. O exercício
sugerido pela receita também serve de malhação para o cérebro. O raciocínio é
simples: se alguém procura as academias e calçadões de praias e praças com o
intuito de queimar gordura e se, nisso, encontra resultado positivo, não há
dúvida de que, lendo, também irá queimar as “adiposidades” de seu cérebro,
beneficiando-se com o pensar claro, o pensar magro, o pensar diet. Todo aquele que adotar tal
receita, caro companheiro, não encontrará dificuldades para aprender a
gramática de seu idioma e de qualquer outro que, porventura, venha a estudar.
Indaguei
a Ridendo com chegara ele a tal conclusão.
Soltou
sua risadinha e respondeu como o personagem de Conan Doyle:
Elementar,
meu caro! Observe que os grandes autores, em todo o mundo, detestam a gramática
pela gramática. Temos como exemplo, aqui no Brasil, Monteiro Lobato e Lima
Barreto, que não se cansavam de vergastar as ancas dos gramatiqueiros com o
chicote da mais fina ironia, colocando-os no pedestal dos toleirões e
pretensiosos.
-
Além do mais - continuou – os escritores de escol são leitores empedernidos,
buscam em outros escritores de nomeada a essência do dizer, traduzida na
presteza e precisão da expressão, perpassada pela virtude que assinala o bom
redator e bom intérprete da vida: a clareza.
Rematou
sua exposição:
- Por
isso, poderíamos ter dispensado toda essa lengalenga para responder à indagação
que você me fez no início e dizer de modo sucinto: quer aprender a gramática do
idioma? LEIA, LEIA, LEIA. O resto vem por acréscimo.
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