quarta-feira, 8 de agosto de 2012


O GURU X

                                                  Hugo Martins



               Perguntei a Ridendo Sic a que método se deve recorrer para aprender um idioma, sobretudo a velha “flor do Lácio inculta e bela”.

            Dissertou:

            - Meu caro, não se aprende uma língua. Talvez fosse mais apropriado dizer que o falante procura se familiarizar com o modo de ser do idioma, seu espírito, suas idiossincrasias. Todos os falantes da língua portuguesa, por exemplo, conhecem a língua portuguesa, “sabem a língua portuguesa”. Tanto é verdade que, do mais iletrado ao mais letrado, todos a utilizam como meio de comunicação e compreensão do mundo. O equívoco é se pensar que estudar gramática normativa e suas inumeráveis regrinhas e exceções é aprender português. Em outros tempos, havia a admiração folclórica de determinadas figuras, que se celebrizaram, sobretudo no exercício do magistério, pela capacidade que demonstravam em depositar no cérebro um rol sem tamanho daquelas receitinhas que mais “enrolavam” e embasbacavam do que esclareciam. Era a mania reinante de explicar os fatos linguísticos, apoiando-se nas regras famigeradas.

            Não estou querendo dizer que a gramática é dispensável no aprendizado de um idioma. Não se deve é tomá-la como fim em si mesma. Toda língua tem sua gramática própria, que o falante passa a dela aproximar-se com o exercício da leitura. Por isso, quando alguém me pede fórmula agradável de se aprender a gramática do português, respondo serenamente: a receita é simples, descomplicada e acessível a qualquer um: pela manhã, leitura; à tarde, leitura; à noite, leitura. Caso se encontre no banheiro atendendo alguma necessidade fisiológica, leitura. Em filas de bancos, paradas de ônibus, consultórios médicos, leitura. Outro ingrediente infalível: ande armado. Calma, a arma a que me refiro é inofensiva e só faz bem à saúde: um exemplar qualquer de um livro, seja um ro- mance, uma coletânea de contos ou crônicas, seja, se preferir, uma revista de qualidade, são armas que debelam o tédio, preenchem a solidão e afastam os inoportunos. As escolhas de tais armas se definirão à medida que o indivíduo mais faz uso delas. O exercício sugerido pela receita também serve de malhação para o cérebro. O raciocínio é simples: se alguém procura as academias e calçadões de praias e praças com o intuito de queimar gordura e se, nisso, encontra resultado positivo, não há dúvida de que, lendo, também irá queimar as “adiposidades” de seu cérebro, beneficiando-se com o pensar claro, o pensar magro, o pensar diet. Todo aquele que adotar tal receita, caro companheiro, não encontrará dificuldades para aprender a gramática de seu idioma e de qualquer outro que, porventura, venha a estudar.

            Indaguei a Ridendo com chegara ele a tal conclusão.

            Soltou sua risadinha e respondeu como o personagem de Conan Doyle:

            Elementar, meu caro! Observe que os grandes autores, em todo o mundo, detestam a gramática pela gramática. Temos como exemplo, aqui no Brasil, Monteiro Lobato e Lima Barreto, que não se cansavam de vergastar as ancas dos gramatiqueiros com o chicote da mais fina ironia, colocando-os no pedestal dos toleirões e pretensiosos.

            - Além do mais - continuou – os escritores de escol são leitores empedernidos, buscam em outros escritores de nomeada a essência do dizer, traduzida na presteza e precisão da expressão, perpassada pela virtude que assinala o bom redator e bom intérprete da vida: a clareza.

            Rematou sua exposição:

            - Por isso, poderíamos ter dispensado toda essa lengalenga para responder à indagação que você me fez no início e dizer de modo sucinto: quer aprender a gramática do idioma? LEIA, LEIA, LEIA. O resto vem por acréscimo.

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