quarta-feira, 1 de agosto de 2012


O GURU  V

                                       Hugo Martins



          Ridendo Sic continua viajando. Para não faltar ao compromisso de colocar seu pensamento em evidência, continuei a dura faina de revirar-lhe o baú a ver se ali pescava alguma reflexão que valesse a pena. Depois de muito cascavilhar, dei de cara com uma folha de papel almaço com algumas notas que eu, de mão própria, tomara. O tema pareceu-me digno de ser publicado, pois trata de um assunto “humano, demasiadamente humano”: A VAIDADE. Explanarei as idéias mais relevantes sobre o assunto, visto pela ótica daquele guru.

            Em primeiro lugar, ressalta que, no prólogo do Eclesiastes, livro atribuído a Salomão, lê-se, como aperitivo do longo e amargo discurso, “Vanitas vanitatum et omnia vanitas” (Vaidade das vaidades e tudo é vaidade); em segundo, demonstra, ainda, que o rei de Israel em Jerusalém diz haver examinado “todas as ações que se fazem debaixo do sol, na verdade, não passam de vaidade e correr atrás do vento!”

            Depois de tais considerações, faz referência a uma obra literária pouco conhecida do povo brasileiro, a qual trata do assunto: REFLEXÕES SOBRE A VAIDADE DOS HOMENS do paulista Matias Aires (1705-1763), que elabora cortantes meditações sobre o assunto. Talvez uma das mais atassalhantes seja a que adverte ser ilimitada a nossa vaidade, pois “vivemos com vaidade, e com a vaidade morreremos”. Aliás, nossa vaidade se prolonga até mesmo post mortem, nas lousas das sepulturas onde se colocam data de nascimento, data do falecimento e as eternas saudades daqueles que ficaram. Às vezes, afixam-se fotografias risonhas do ex-vivente, como se este alimentasse a certeza de que jamais será esquecido...

 Os argumentos de Ridendo Sic são irrespondíveis?  Que haveríamos de dizer? Que o poder, a glória, a riqueza material e a beleza de um exemplar humano são perenes? Não, não! Tudo se esboroa com o tempo, essa categoria metafísica, terror de todos os homens.

            Ridendo Sic forneceu alguns exemplos, citando um verso do poeta francês François Villon: Oú sont les neiges d´antan?” ( Onde estão as neves de antanho?). E pergunta ele: onde está a glória o poder e a riqueza de Salomão, de Júlio César, de Alexandre Magno? E a beleza de Brigite Bardot? De Gina Lolobrígida? E a de tantas mulheres que nos enchiam os olhos de pasma admiração pelos seus mil encantos e, hoje, fogem aos espelhos devido aos estragos que os tempo lhes pespegou?

            Quem não lembra o armador grego Aristóteles Onássis, do empresário norte-americano Rockfeller e tantos outros magnatas, que vomitavam riqueza por todos os poros e hoje jazem nas entranhas da mamãe terra?

            E os poderosos de ontem, homens que só pisavam a terra que os tragou porque a Lei da Gravidade a isso os obrigava?

            Toda essa aparente amargura expelida e filtrada pela mente serena de Ridendo Sic calou-me fundo na alma. Diz ele que todos nós, sejamos remediadamente ricos;  iludamo-nos com um falso poder por ocuparmos aqui e ali carguinhos, que nos impam de orgulho; ou mesmo pensemos ser donos de razoável beleza para os padrões vigentes, todos nós, sem exceção alguma, cumpriremos, não o que está escrito (não sei bem o que isso) mas aquilo que as dores do mundo nos reservam: sete palmos de terra sobre os peitos e o inapelável esquecimento de nossos semelhantes. O resto é silêncio... O resto é o tempo, senhor absoluto de nossa destinação...

            Eis o que deixou meu amigo Ridendo Sic, tudo retirado do baú de nossas longas conversas e por mim devidamente anotadas.

           

           

           

           

Nenhum comentário:

Postar um comentário