O GURU V
Hugo
Martins
Ridendo Sic continua
viajando. Para não faltar ao compromisso de colocar seu pensamento em
evidência, continuei a dura faina de revirar-lhe o baú a ver se ali pescava
alguma reflexão que valesse a pena. Depois de muito cascavilhar, dei de cara
com uma folha de papel almaço com algumas notas que eu, de mão própria, tomara.
O tema pareceu-me digno de ser publicado, pois trata de um assunto “humano,
demasiadamente humano”: A VAIDADE. Explanarei as idéias mais relevantes sobre o
assunto, visto pela ótica daquele guru.
Em
primeiro lugar, ressalta que, no prólogo do Eclesiastes, livro atribuído a
Salomão, lê-se, como aperitivo do longo e amargo discurso, “Vanitas vanitatum et omnia vanitas”
(Vaidade das vaidades e tudo é vaidade); em segundo, demonstra, ainda, que o
rei de Israel em Jerusalém diz haver examinado “todas as ações que se fazem
debaixo do sol, na verdade, não passam de vaidade e correr atrás do vento!”
Depois
de tais considerações, faz referência a uma obra literária pouco conhecida do
povo brasileiro, a qual trata do assunto: REFLEXÕES SOBRE A VAIDADE DOS HOMENS
do paulista Matias Aires (1705-1763), que elabora cortantes meditações sobre o
assunto. Talvez uma das mais atassalhantes seja a que adverte ser ilimitada a
nossa vaidade, pois “vivemos com vaidade, e com a vaidade morreremos”. Aliás,
nossa vaidade se prolonga até mesmo post
mortem, nas lousas das sepulturas onde se colocam data de nascimento, data
do falecimento e as eternas saudades daqueles que ficaram. Às vezes, afixam-se
fotografias risonhas do ex-vivente, como se este alimentasse a certeza de que
jamais será esquecido...
Os argumentos de Ridendo Sic são
irrespondíveis? Que haveríamos de dizer?
Que o poder, a glória, a riqueza material e a beleza de um exemplar humano são
perenes? Não, não! Tudo se esboroa com o tempo, essa categoria metafísica,
terror de todos os homens.
Ridendo
Sic forneceu alguns exemplos, citando um verso do poeta francês François
Villon: Oú sont les neiges d´antan?” ( Onde estão as neves de antanho?). E
pergunta ele: onde está a glória o poder e a riqueza de Salomão, de Júlio
César, de Alexandre Magno? E a beleza de Brigite Bardot? De Gina Lolobrígida? E
a de tantas mulheres que nos enchiam os olhos de pasma admiração pelos seus mil
encantos e, hoje, fogem aos espelhos devido aos estragos que os tempo lhes
pespegou?
Quem
não lembra o armador grego Aristóteles Onássis, do empresário norte-americano
Rockfeller e tantos outros magnatas, que vomitavam riqueza por todos os poros e
hoje jazem nas entranhas da mamãe terra?
E os
poderosos de ontem, homens que só pisavam a terra que os tragou porque a Lei da
Gravidade a isso os obrigava?
Toda
essa aparente amargura expelida e filtrada pela mente serena de Ridendo Sic
calou-me fundo na alma. Diz ele que todos nós, sejamos remediadamente ricos; iludamo-nos com um falso poder por ocuparmos
aqui e ali carguinhos, que nos impam de orgulho; ou mesmo pensemos ser donos de
razoável beleza para os padrões vigentes, todos nós, sem exceção alguma,
cumpriremos, não o que está escrito (não sei bem o que isso) mas aquilo que as
dores do mundo nos reservam: sete palmos de terra sobre os peitos e o
inapelável esquecimento de nossos semelhantes. O resto é silêncio... O resto é
o tempo, senhor absoluto de nossa destinação...
Eis o
que deixou meu amigo Ridendo Sic, tudo retirado do baú de nossas longas
conversas e por mim devidamente anotadas.
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