segunda-feira, 27 de agosto de 2012


O ZÉ

                                     Hugo Martins

 

            A pequena chácara. Lua quase morta. Um só breu. No alpendre, muita conversa, risos, brincadeiras, anedotas. Em meio à mata, em frente à casa, escuridão, fru-fru das palhas do velho coqueiro. Pios de caburé. Súbito, um grito, um susto, risos esganiçados. Três jovens, entregues a folguedos, brincavam com coisas do além. Falou-se no Zé. Quem seria? Por que foi invocado se ali não se encontrava? Certamente uma ficção. O certo é que, naquele momento, naquela noite fria e silente, era invocado. Seu semblante e sua silhueta, certamente, desenhavam-se no espírito de cada uma do grupo. Talvez fosse alto e desengonçado, ar sombrio de pouca conversa, que se esgueirava por entre o bananeiral onde ninguém, àquela hora soturna, atrevia-se a se embrenhar. A voz, quem sabe, fosse tonitruante de causar medo, e os cabelos longos e revoltos emoldurassem a catadura impassível, em que se espraiavam rugas fundas, cortadas, por várias cicatrizes, que lembravam navalhadas. As vestimentas, esmolambadas, davam-lhe o ar de náufrago. As mãos eram medonhamente grandes e marcadas por veias proeminentes. Estava descalço. Os pés enormes de unhas maltratadas estavam cobertos de uma lama pegajosa que parecia estar ali fazia tempo. Mas o Zé ali não estava. A não ser na imaginação de quem ouvia a voz soturna de uma moçoila, que, escondida numa coluna, subitamente, surgia e proferia soturnamente:

            Eu sou o Zé!

            Tudo brincadeira para preencher o tempo curtido no alpendre depois do jantar. Enquanto a dona da casa daquele sítio e o marido, balançando-se numa rede, folheavam livros e comentavam, aqui e ali, uma passagem interessante estampada nas páginas, as meninas riam muito. A noite avançava indiferente ao fiapo de lua, que, bailando no céu, espalhava tênues raios de luz nas copas das árvores, que se arrepiavam pelo sopro frio do sussurrar do vento.

            Vez e outra, ouvia-se:

            Eu sou o Zé!!

            A risadaria surdia estremecida, sempre seguida de um pedido:

            - Para. Não gosto dessas brincadeiras. Elas me metem medo quando vou me recolher para dormir.

            O frio recrudesceu, e o vento, insistentemente, soprava com mais força, balançando a varanda das redes. Por fim, o tiritar mordente obrigou todos ao recolhimento tépido dos lençóis. Já passava da meia-noite.

            As velhas fechaduras ringiam à medida que as portas se iam fechando uma a uma. Lá fora o sibilar do vento e o pipilar melancólico dos caburés em meio ao silêncio cavo da noite escura. Apagaram-se as lâmpadas da grande sala. Agora, bom mesmo era dormir. O casal se metera sob o grande edredão da cama larga. As meninas também foram para suas alcovas. Duas ocuparam o mesmo quarto e se encostaram uma à outra como se o contato dos corpos exorcizasse algum laivo de medo provindo da lembrança do Zé. A outra jovem se dirigiu para um terceiro quarto, cuja porta dava para o grande terreno em frente à casa, mal iluminado pela lâmpada que o vento movia para lá e para cá, provocando no roça-roça com a parede um ruído rascante. Lá fora só as vozes da noite. O som de uma motocicleta rasgou o silêncio. Ao longe, o latido de um cão solitário. O farfalhar da copa das árvores fazia contraponto com o pio soturno de rasga-mortalhas, anunciando maus agouros. Aos poucos, a casa mergulhava em profundo silêncio, quebrado apenas pelo ronronar de seus habitantes...

            Súbito, um bate-bate alucinante de uma porta despertou a jovem que se trancara. Justamente a porta que ela fechara com o ferrolho enferrujado... Do outro lado do corredor, outra porta começou a bater numa espécie de estonteante frenesi. Quem àquela hora estaria fazendo tais peraltices? Uma voz ecoou de um dos quartos:

            - Mãeeeeeeeee?!

            No mesmo tom, outra voz espavorida gritou:

            - Paiiiiiiiiiiiiiiii?!!

            O silêncio persistia. Súbito, como se estivessem todos presos por um conluio, deixaram seus quartos e correram para a sala, tratando de acender a lâmpada presa à telha-vã. A porta da sala, conjugada à cozinha, que dava para o quintal, parecia falar. Dela vinha uma espécie de gemido. Alguém certamente estaria ali... Seria o Ze?

            A menina magricela de cabelos longos estreitou-se à mãe. As outras duas se entreolhavam como a se perguntar o que poderia ser. Finalmente, todos se armaram de facas, facões foices e pedaços de lenha que dormitavam sob o fogão e resolveram, a medo, abrir a porta que tremelicava pelos açoites do vento. Ninguém. Só as rajadas do vento gélido. As almas só não ficaram mais aliviadas porque, de repente, uma voz professoral anunciou:

            - Eu não sou o Zé. Eu não sou ninguém. Sou o eco da imaginação de cada um. Venho das priscas eras adormecidas do inconsciente. Habito os sonhos, os temores e as alucinações das sombras e dos ruídos da noite. Eu sou o desconhecido.  Eu sou o medo.

             

           

 

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