sábado, 11 de agosto de 2012


O GURU XII

                                  Hugo Martins





               Conheci-o nos idos de 1971. O Brasil sorvia os ares irrespiráveis da ditadura militarista, agora mais linha dura devido à edição do chamado AI-5 em 1968. O ambiente era pesado. Instituiu-se a caça às bruxas. Era proibido pensar. Fazer qualquer tipo de arte era uma temeridade. Quando se permitia a publicação de algum livro, a encenação de alguma peça teatral ou a projeção de algum filme, é porque havia a tesoura da censura, cortando tudo o que o pensamento ditatorial considerasse ofensivo à moral e aos bons costumes ou, por outro, visse na criação artística a presença de algum vírus maldoso que pudesse ofender a segurança nacional.  Pois foi nesse ambiente escuro e malfazejo, foi nessa época de horror e amordaçamento da livre expressão, que o conheci.

            Era um tipo longilíneo, cuja elegância era realçada pelas calças rigorosamente vincadas e a camisa de linho enfiada no cós, cingido por um fino cinto de couro com fivela de metal. Um par de óculos de grave e grossa armação dava-lhe um ar professoral. No alto, uma boina de pano delicado cobria-lhe a cabeça, totalmente desprovida de cabelos. Mais parecia um grande queijo de coalho. Na mão direita, encostada ao peito, um exemplar do Les Fleurs du Mal; na outra, um cigarro aceso, que era tragado seguidas vezes. Distinção no trato com as pessoas lhe sobejava... Além disso, sua cultura enciclopédia, provinda de muita leitura e constantes viagens,  encantava e desafiava qualquer sujeito versado na arte de conversar.

            Certa feita, entrei em sala de aula. Esta já se tinha iniciado. Acomodei-me numa carteira e vi que a maioria dos colegas parecia extasiada, como se um misterioso feiticeiro houvesse lançado mão de passes mágicos e transportados meus colegas para as regiões do sonho. À frente deles, um senhor, livro aberto, comentava o poema de Charles Baudelaire Invitation au Voyage. Com efeito, o texto faz referência ao onírico, à ordem, à beleza, ao luxo, à calma e à volúpia, que acode ao espírito de quem sorve algum tipo de estupefaciente. E o poeta francês era dado a tal prática. Mas o que maravilhava a turma era o modo como o mestre ministrava sua aula, centrada no texto, que lhe servia de norte para a viagem a outras áreas do conhecimento, sobremaneira, o mundo feérico da literatura, da filosofia e da sociologia. A aula, em si era um poema grávido de um lirismo pleno e encantador. Quem dali saía não podia deixar de freqüentar a aula de literatura francesa, disciplina que o Milton Dias ministrava na Faculdade de Letras da UFC nos idos de 1973.

            Um dia a Revista Manchete, em entrevista, chamou-lhe professor. Fez uma pequena emenda, acrescentando que, antes de tudo, era um boêmio. Homem viajado, só de França tinha mais de dez anos, muito deve ter saboreado o vinho francês nos  bas- fonds de Paris, na chiqueza do Quartier Latin e nas ruelas e becos de Pigalle. Nessas andanças, deve ter tido contato com toda espécie de gente: o pintor fracassado, a prostituta decaída o cafetão inescrupulosos e outros tipos da noite francesa...

            Continuou esse hábito de ir a cabarés e puteiros de Fortaleza. Dizia ele que ali estava a vida, de onde ele retirou muitas vezes assunto para suas crônicas, publicadas no jornal o Povo por um período de mais de vinte e cinco anos. Essa produção foi depois enfeixada em livros, cujos títulos aqui enfileiro, convidando o leitor a apreciá-los: A ILHA DO HOMEM SÓ, O SETE-ESTRELO, AS CUNHÃS, AS OUTRAS CUNHÃS, A CAPITOA, ENTRE A BOCA DA NOITE E A MADRUGADA... Depois de sua morte, a UFC editou uma antologia com algumas crônicas e intitulou-a com o sugestivo RELEMBRANÇAS. Iria ser matéria de vestibular.

            Milton Dias em nada fica a dever a Rubem Braga, a Fernando Sabino, a Paulo Mendes Campos, a Rachel de Queiroz na arte de fazer a crônica, na presteza de flagrar o cotidiano e captar nele o acidental com ares de essencial. Prosa ligeira, alegre, bem urdida e, a um tempo, divertida e humana, Teve a infelicidade, por este prisma de ter nascido na província. Se vive em Ipanema, certamente seria tão decantado quanto aqueles pela crítica amante da crônica.

            Quando Ridendo Sic fez essa exposição sobre figura tão humana, tratei de caçar notícias biográficas e correr aos “sebos” a ver se encontrava algumas daquelas obras. Penso que serei feliz nesta última empreitada, afinal não se trata de livros de moda, tampouco de autoajuda ou sobre a lengalenga otimista de padres e vivaldinos da mesma fauna, que ganham tempo e dinheiro vendendo aos incautos otimismo a conta-gotas.

            Boa indicação literária. Vamos a ela.

Nenhum comentário:

Postar um comentário