O GURU VIII
Hugo
Martins
Escrevi
a Ridendo Sic com o fito de indagar-lhe sobre a avaliação da redação escolar.
Hoje me chegou às mãos sua resposta, eivada de reflexões com as quais concordei
e passo a transcrevê-las. Ei-las, devidamente aspeadas.
“De
caneta em punho, frente à frieza e indiferença da folha em branco, o redator se
esbate na busca da forma para as idéias que lhe fervilham na mente. Essa
atitude de procura torna-se mais angustiante ainda para o estudante que ensaia
escrever um texto a ser avaliado por um único interlocutor: o professor.
O
desempenho do falante poderá ser tanto mais positivo quanto mais claras se
revelem as pistas temáticas fornecidas. Certamente encontrará menor dificuldade
caso lhe seja fornecido um tema-roteiro, no qual se vislumbre algum caminho
para o desenvolvimento do texto. Se, porém, o tema se lhe apresenta sem nenhum
rumo definido, as dificuldades aumentarão, e o falante, as mais das vezes,
perder-se-á em garatujar a folha em branco e, se conseguir produzir algum
simulacro de texto, este se mostrará eivado de incoerências temáticas,
costurado assimetricamente tal uma colcha de retalhos.
Chegada
às mãos do professor, a redação poderá ser avaliada em seus aspectos globais ou
vista por um só aspecto. Professores há que valorizam o texto enquanto
instrumento de comunicação intersubjetiva, isto é, põem em relevo o modo como o
texto está organizado; outros preferem proceder à caça do erro, numa garimpagem
escrupulosa, que só tem olhos para os deslizes cometidos. Perdem, desse modo, a
visão do conjunto para dar ênfase àquilo que ensinaram (?) em suas aulas: a
gramática pela gramática.
A
nosso ver, o ato gratuito de redigir, longe do virtual policiamento pedagógico,
torna-se menos penoso: as idéias brotam com maior fluência, e pouca atenção se
dá aos eventuais deslizes gramaticais. Escrever, porém, visando a uma avaliação
da parte de um interlocutor único, rouba a espontaneidade e o texto soa falso.
Isso
posto, sou de opinião que avaliar a redação escolar supõe, antes de tudo, levar em conta enfrentamentos psicológicos
experimentados pelo redator neófito.
Comunicar
as idéias, amarrá-las pelos processos coesivos é o suficiente. Aspectos
referentes à gramática podem ser sanados por outras formas de treinamento,
sobremaneira pelo exercício constante e aplicado da leitura. Ser condescendente
com o falante relativamente aos “pecadilhos gramaticais” é ajudá-lo a superar
determinados bloqueios que o impedem de ser mais produtivo.
O orador
romano Marco Túlio Cícero recorria a um método sem precedentes, que traduzia
pela frase: “Nenhum dia sem nenhuma linha”.
Assim
se manifestou Ridendo Sic diante de tema tão áspero: o problema da avaliação da
redação escolar.
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