O GURU XV
Hugo Martins
Escrevi
a Ridendo Sic, perguntando-lhe se, para produzir alguma coisa com aparência de
texto, o sujeito precisa escorar-se em alguma “inspiração.” Hoje recebi carta
sua. Aí vai o que ele pensa.
“Bom
dizer que, se se trata de criação literária, existem dois tipos de escritor: de
um lado, o da inspiração; de outro, o da transpiração. No rol dos primeiros,
inscreve-se o poeta pernambucano Manuel Bandeira. Em suas memórias, Itinerário
de Pasárgada, confessa haver perdido muitos versos, pois, quando assediado pela
inspiração, em situações insólitas, não dispunha de uma caneta ou lápis. Na
mesma obra, invoca o fato de, certa ocasião, estar lendo a Ciropédia (obra
sobre a Pérsia) e ter a alma invadida por uma vontade incontrolável de pôr
termo à vida, rabiscar o verso “Vou-me embora pra Pasárgada” e nada mais sair.
Só depois de sete anos, experimentando a mesma sensação, o restante do poema
saltou-lhe do espírito em borbotões. Ressalte-se que inspiração não deve ser
vista como resultado de dores corriqueiras do cotidiano, é necessário ter e
saber o que dizer. O sujeito deve, como diz Drummond, andar armado com palavras
para não incidir no equívoco daquele que verseja “por dor de cotovelo, falta de
dinheiro ou momentâneas tomadas com as forças líricas do mundo”. No segundo
rol, encontra-se o também pernambucano João Cabral de Melo Neto, que deixava
nas entrelinhas a regra “dê-me o tema que eu faço o poema”. É o poeta de
gabinete, da oficina a que se refere Bilac no soneto A um Poeta.
Tanto
na poesia quanto na prosa, porém, o escritor costuma promover mondas ao texto.
Cortar palavras, desentortar frases, acrescentar, reescrever passagens até que
o espírito se sacie do ato criativo. Eça de Queirós dizia reescrever páginas e
mais páginas mais de cinco vezes. Para apurar o estilo, Balzac respondia, de
punho próprio, a todas as cartas enviadas por seus leitores. É a síndrome do
perfeccionismo comum aos bons escritores...
No
entanto, quando se trata da feitura de texto sem preocupações estéticas, não se
faz necessário nenhum tipo de inspiração. Basta a reflexão, a disciplina
intelectual, o ter o que dizer, o cuidado a atenção à clareza, à precisão, à
propriedade vocabular e, por último, enxotar a preguiça e lançar-se à obra com
todo denodo.
Engana-se
quem diz ser tarefa difícil escrever um texto. Difícil mesmo é convencer-se de
que o escrever supõe o ler. São atos que se supõem. Com a leitura, o indivíduo
vai se assenhoreando das acontecências da vida e se familiarizando com os
torneios sintático-semânticos, sempre recorrendo ao dicionário para desvendar
sentidos e grafias vocabulares. O escrever é comparável ao ato de quem pretende
andar de bicicleta. Depois de vacilações, medos e quedas, o sujeito vai, aos
poucos adquirindo a coragem de enfrentar a solidão da folha em branco e, com o
tempo, passa a dominar um modo próprio, a ser dono de um estilo.
Considero
a leitura ou a redação de um texto atividades mais temerárias que resolver um
problema de matemática. O visgo das palavras, as intenções que se escondem por
trás delas, o destrinçar de um texto, o arrumar as palavras no ordenamento
sintático a fim de que traduzam o que mais se aproxima do que pretende dizer, é tarefa dolorosa e que requer muito
esforço e amor à leitura. A propósito lembro um livro de Othon M. Garcia-
Comunicação em Prosa Moderna-, com o subtítulo Aprenda a Escrever Aprendendo a
Pensar. Livro de cabeceira para todo aquele que deseja aventurar-se no ato de escrever.
Não se trata de manual inédito sobre o assunto. Obra séria a que recorre todo
aquele que lida com a faina de redigir e extremamente útil a quem deseja
garatujar folhas de papel com algum sentido e alguma correção.
Aliás,
considero desnecessário o “ensinamento” de professores de redação. Não se
ensina ninguém a escrever por meio de fórmulas nem por intermédio de regrinhas
de acentuação gráfica e do sistema ortográfico em vigor. Necessário: ler,
pensar e escrever. O mais não passa se conversa fiada.
Não
me consta que os grandes escritores e redatores da língua tenham sido
excelentes alunos da língua portuguesa. Foram, antes de tudo, empedernidos
leitores.
Após
a leitura da missiva, meditei e nada pude acrescentar algo de novo àquelas
idéias... Lembrei, porém de duas frase lapidares; uma de Monteiro Lobato e
outra de Castro Alves, que transcrevo, por ordem:
“Um
país se faz com homens e livros”
“Bendito
o que semeia livros, livros a mancheia, e manda o povo pensar.”
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