segunda-feira, 20 de agosto de 2012


 O GURU XV

                                                       Hugo Martins



            Escrevi a Ridendo Sic, perguntando-lhe se, para produzir alguma coisa com aparência de texto, o sujeito precisa escorar-se em alguma “inspiração.” Hoje recebi carta sua. Aí vai o que ele pensa.

            “Bom dizer que, se se trata de criação literária, existem dois tipos de escritor: de um lado, o da inspiração; de outro, o da transpiração. No rol dos primeiros, inscreve-se o poeta pernambucano Manuel Bandeira. Em suas memórias, Itinerário de Pasárgada, confessa haver perdido muitos versos, pois, quando assediado pela inspiração, em situações insólitas, não dispunha de uma caneta ou lápis. Na mesma obra, invoca o fato de, certa ocasião, estar lendo a Ciropédia (obra sobre a Pérsia) e ter a alma invadida por uma vontade incontrolável de pôr termo à vida, rabiscar o verso “Vou-me embora pra Pasárgada” e nada mais sair. Só depois de sete anos, experimentando a mesma sensação, o restante do poema saltou-lhe do espírito em borbotões. Ressalte-se que inspiração não deve ser vista como resultado de dores corriqueiras do cotidiano, é necessário ter e saber o que dizer. O sujeito deve, como diz Drummond, andar armado com palavras para não incidir no equívoco daquele que verseja “por dor de cotovelo, falta de dinheiro ou momentâneas tomadas com as forças líricas do mundo”. No segundo rol, encontra-se o também pernambucano João Cabral de Melo Neto, que deixava nas entrelinhas a regra “dê-me o tema que eu faço o poema”. É o poeta de gabinete, da oficina a que se refere Bilac no soneto A um Poeta.

            Tanto na poesia quanto na prosa, porém, o escritor costuma promover mondas ao texto. Cortar palavras, desentortar frases, acrescentar, reescrever passagens até que o espírito se sacie do ato criativo. Eça de Queirós dizia reescrever páginas e mais páginas mais de cinco vezes. Para apurar o estilo, Balzac respondia, de punho próprio, a todas as cartas enviadas por seus leitores. É a síndrome do perfeccionismo comum aos bons escritores...

            No entanto, quando se trata da feitura de texto sem preocupações estéticas, não se faz necessário nenhum tipo de inspiração. Basta a reflexão, a disciplina intelectual, o ter o que dizer, o cuidado a atenção à clareza, à precisão, à propriedade vocabular e, por último, enxotar a preguiça e lançar-se à obra com todo denodo.

            Engana-se quem diz ser tarefa difícil escrever um texto. Difícil mesmo é convencer-se de que o escrever supõe o ler. São atos que se supõem. Com a leitura, o indivíduo vai se assenhoreando das acontecências da vida e se familiarizando com os torneios sintático-semânticos, sempre recorrendo ao dicionário para desvendar sentidos e grafias vocabulares. O escrever é comparável ao ato de quem pretende andar de bicicleta. Depois de vacilações, medos e quedas, o sujeito vai, aos poucos adquirindo a coragem de enfrentar a solidão da folha em branco e, com o tempo, passa a dominar um modo próprio, a ser dono de um estilo.

            Considero a leitura ou a redação de um texto atividades mais temerárias que resolver um problema de matemática. O visgo das palavras, as intenções que se escondem por trás delas, o destrinçar de um texto, o arrumar as palavras no ordenamento sintático a fim de que traduzam o que mais se aproxima do que pretende  dizer, é tarefa dolorosa e que requer muito esforço e amor à leitura. A propósito lembro um livro de Othon M. Garcia- Comunicação em Prosa Moderna-, com o subtítulo Aprenda a Escrever Aprendendo a Pensar. Livro de cabeceira para todo aquele que deseja aventurar-se no ato de escrever. Não se trata de manual inédito sobre o assunto. Obra séria a que recorre todo aquele que lida com a faina de redigir e extremamente útil a quem deseja garatujar folhas de papel com algum sentido e alguma correção.

            Aliás, considero desnecessário o “ensinamento” de professores de redação. Não se ensina ninguém a escrever por meio de fórmulas nem por intermédio de regrinhas de acentuação gráfica e do sistema ortográfico em vigor. Necessário: ler, pensar e escrever. O mais não passa se conversa fiada.

            Não me consta que os grandes escritores e redatores da língua tenham sido excelentes alunos da língua portuguesa. Foram, antes de tudo, empedernidos leitores.

            Após a leitura da missiva, meditei e nada pude acrescentar algo de novo àquelas idéias... Lembrei, porém de duas frase lapidares; uma de Monteiro Lobato e outra de Castro Alves, que transcrevo, por ordem:

            “Um país se faz com homens e livros”

            “Bendito o que semeia livros, livros a mancheia, e manda o povo pensar.”

           

              

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