O GURU XIII
Hugo Martins
Hoje
conversei longamente com Ridendo Sic. Nosso papo versou sobre sonhos e o
significado que estes têm em nossa vida, não só como instrumento folclórico
para alguém fazer uma fezinha no jogo do bicho, mas também por servirem de
pasto a que psicanalistas fucem nossas almas à procura do que se esconde sob o
manto diáfano das instâncias psíquicas do bicho homem.
Narrou-me
Ridendo algo insólito que lhe ocorreu. Diz que a coisa poderia ser real ou
tenha se manifestado na fronteira tênue da vigília e do sono. Diz ele ter conversado longamente com o escritor
gaúcho Érico Veríssimo num banquinho de uma bucólica pracinha da cidade de Cruz
Alta, local em que nasceu o criador de O Tempo e o Vento.
O
assunto espicaçou-me a curiosidade. Ouvir sobre Érico me fascina pelo prazer
estético que suas obras sempre me causam e, sobretudo, por a ele chegar, agora,
pelo testemunho de alguém em quem muito confio. Atento, acompanhei toda a
conversa que meu amigo Ridendo Sic entabulou com o escritor gaúcho.
Ridendo
começou perguntando por que a crítica especializada parecia não reconhecer o
justo valor da obra de Érico. Este assim respondeu:
- Meu
prezado, não escrevo para críticos. Minha missão de interpretar o mundo e a
complexidade que lhe é própria está totalmente voltada para o leitor, a quem
quero chamar a atenção para o que a existência tem de sublime e de grotesco por
meio de um texto bem urdido, em cuja tessitura estejam presentes os problemas
humanos. Se o leitor se emociona, sonha com os pés no chão e acha que a vida a
pena ser vivida, é o bastante, dou-me por satisfeito. Procuro contar uma boa
história sem, necessariamente, resvalar na vulgaridade própria da subliteratura
e da paraliteratura escamoteadoras da realidade profunda da existência.
Ridendo
acrescentou:
-
Então talvez seja esta a razão de o senhor se considerar um contador de
histórias. Já tenho lido muitos depoimentos em que o senhor diz isso
abertamente. Dá para ser mais explícito?
- É
verdade. Meu lema literário é contar uma boa história. Que são A Ilíada e a
Odisséia senão histórias bem contadas? A primeira conta um fato de uma guerra
iniciada por causa do rapto de uma mulher. A segunda conta as aventuras e
desventuras de um homem que, ao voltar para aos braços de sua mulher depois de
vinte anos de ausência do lar, foi duramente perseguido pela fúria de um deus.
Fique claro que estas são a espinha
dorsal dessas duas epopéias. Os demais acontecimentos se resumem em reflexões
outras sobre a coragem, a bravura, a deslealdade, a nobreza e a esperteza,
valores ínsitos a todo homem. Ao fim e ao cabo, o leitor se prende à estrutura
de toda narrativa tradicional: apresentação, conflito, clímax, solução. Não
retiro o valor de obras que fogem a esse esquema, aquelas que cansam, chateiam
e o leitor, alguns seduzidos pela idéia de que os modernismos devem ser
cultivados sob pena de o indivíduo considerar-se ultrapassado, fingem gostar.
Balela pura. O leitor mediano não possui os olhos de lince que o crítico finge
possuir para estruturar interpretações estapafúrdias, que o leitor ingênuo
perfilha e defende com unhas e dentes mesmo que não demonstre segurança alguma
para tal.
-
Então poderíamos inscrever o senhor no rol dos conservadores, a quem os
discursos novidadeiros e as mudanças atemorizam? – refletiu Ridendo.
Érico
arqueou as sobrancelhas grossas, enrugou o nariz, exatamente ali onde faz
fronteira com os olhos, assumiu ar pensativo e, depois de instantes em que
parecia enlevado por alguma reflexão, contrapôs:
- Se
ser conservador é irmanar-se com o leitor sem, necessariamente, recorrer a
psicologismos chãos, sou exatamente isso. Interessa-me no entrecho da obra
chamar o leitor para reflexões que tenham por objeto o homem, com seus
problemas existenciais, suas dores e suas perplexidades ante a vida e sua
finitude.
-
Quando li sua obra Olhai os Lírios do Campo, pressenti, nas entrelinhas, ser o
senhor muito voltado para a religião.
Érico
sorriu e dissertou:
-
Literariamente, esta é uma das minhas obras menos importantes, mas a mais
popular pelo fato de tratar do assunto ressurreição tal como se encontra nas
Escrituras Sagradas. No entanto considero-me agnóstico em relação a metáforas difusas,
que são lidas ao pé da letra e desvinculadas do tempo histórico. A filosofia
cristã tem seus momentos de sublimidade, infelizmente desvirtuados por
interpretações que não dizem respeito ao homem em sua essência, pois atende a
conveniências de padres, pastores e rabinos, profundamente interessados em
manter o homem na atmosfera negra dos tempos medievos. E disso tirar lucro político e pecuniário. Vejo o fenômeno religioso por prisma diferente
do mesmismo e dos discursos psitacistas...
- Li
toda sua obra e pergunto-lhe:
- Qual
você elegeria como a mais bem acabada?
- Sem
dúvida O Tempo e o Vento. Verdadeira saga do povo gaúcho, apinhada de personagens
de vida interior em que se sobrepõem a grandeza, a lealdade e a coragem; por
outro lado, personagens de vidinha pequena, insignificante e sem brilho. Mas o
que mais me agrada na obra é seu tempo cronológico, quando portugueses e
espanhóis se envolveram em renhida luta pela posse da Banda Oriental até os
tempos negros da era Vargas. Só a presença de Ana Terra, Rodrigo Cambará,
Bibiana e Maria Valéria pagam o preço da obra. Sem modéstia, diria que O Tempo
e o Vento é minha obra prima...
Fiquei
muito tempo a pensar nessa conversa esdrúxula de Ridendo Sic e o criador de
Música ao Longe e refletir sobre quanto proveito se pode tirar como orientação
para escolhas literárias tão necessárias a quem pretende ler o que vale a pena
num mundo tão cheio de frivolidades e mentiras...
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