quarta-feira, 15 de agosto de 2012


O GURU XIII

                                     Hugo Martins



            Hoje conversei longamente com Ridendo Sic. Nosso papo versou sobre sonhos e o significado que estes têm em nossa vida, não só como instrumento folclórico para alguém fazer uma fezinha no jogo do bicho, mas também por servirem de pasto a que psicanalistas fucem nossas almas à procura do que se esconde sob o manto diáfano das instâncias psíquicas do bicho homem.

            Narrou-me Ridendo algo insólito que lhe ocorreu. Diz que a coisa poderia ser real ou tenha se manifestado na fronteira tênue da vigília e do sono. Diz  ele ter conversado longamente com o escritor gaúcho Érico Veríssimo num banquinho de uma bucólica pracinha da cidade de Cruz Alta, local em que nasceu o criador de O Tempo e o Vento.

            O assunto espicaçou-me a curiosidade. Ouvir sobre Érico me fascina pelo prazer estético que suas obras sempre me causam e, sobretudo, por a ele chegar, agora, pelo testemunho de alguém em quem muito confio. Atento, acompanhei toda a conversa que meu amigo Ridendo Sic entabulou com o escritor gaúcho.

            Ridendo começou perguntando por que a crítica especializada parecia não reconhecer o justo valor da obra de Érico. Este assim respondeu:

            - Meu prezado, não escrevo para críticos. Minha missão de interpretar o mundo e a complexidade que lhe é própria está totalmente voltada para o leitor, a quem quero chamar a atenção para o que a existência tem de sublime e de grotesco por meio de um texto bem urdido, em cuja tessitura estejam presentes os problemas humanos. Se o leitor se emociona, sonha com os pés no chão e acha que a vida a pena ser vivida, é o bastante, dou-me por satisfeito. Procuro contar uma boa história sem, necessariamente, resvalar na vulgaridade própria da subliteratura e da paraliteratura escamoteadoras da realidade profunda da existência.

            Ridendo acrescentou:

            - Então talvez seja esta a razão de o senhor se considerar um contador de histórias. Já tenho lido muitos depoimentos em que o senhor diz isso abertamente. Dá para ser mais explícito?

            - É verdade. Meu lema literário é contar uma boa história. Que são A Ilíada e a Odisséia senão histórias bem contadas? A primeira conta um fato de uma guerra iniciada por causa do rapto de uma mulher. A segunda conta as aventuras e desventuras de um homem que, ao voltar para aos braços de sua mulher depois de vinte anos de ausência do lar, foi duramente perseguido pela fúria de um deus. Fique claro que estas  são a espinha dorsal dessas duas epopéias. Os demais acontecimentos se resumem em reflexões outras sobre a coragem, a bravura, a deslealdade, a nobreza e a esperteza, valores ínsitos a todo homem. Ao fim e ao cabo, o leitor se prende à estrutura de toda narrativa tradicional: apresentação, conflito, clímax, solução. Não retiro o valor de obras que fogem a esse esquema, aquelas que cansam, chateiam e o leitor, alguns seduzidos pela idéia de que os modernismos devem ser cultivados sob pena de o indivíduo considerar-se ultrapassado, fingem gostar. Balela pura. O leitor mediano não possui os olhos de lince que o crítico finge possuir para estruturar interpretações estapafúrdias, que o leitor ingênuo perfilha e defende com unhas e dentes mesmo que não demonstre segurança alguma para tal.

            - Então poderíamos inscrever o senhor no rol dos conservadores, a quem os discursos novidadeiros e as mudanças atemorizam? – refletiu Ridendo.

            Érico arqueou as sobrancelhas grossas, enrugou o nariz, exatamente ali onde faz fronteira com os olhos, assumiu ar pensativo e, depois de instantes em que parecia enlevado por alguma reflexão, contrapôs:

            - Se ser conservador é irmanar-se com o leitor sem, necessariamente, recorrer a psicologismos chãos, sou exatamente isso. Interessa-me no entrecho da obra chamar o leitor para reflexões que tenham por objeto o homem, com seus problemas existenciais, suas dores e suas perplexidades ante a vida e sua finitude.

            - Quando li sua obra Olhai os Lírios do Campo, pressenti, nas entrelinhas, ser o senhor muito voltado para a religião.

            Érico sorriu e dissertou:

            - Literariamente, esta é uma das minhas obras menos importantes, mas a mais popular pelo fato de tratar do assunto ressurreição tal como se encontra nas Escrituras Sagradas. No entanto considero-me agnóstico em relação a metáforas difusas, que são lidas ao pé da letra e desvinculadas do tempo histórico. A filosofia cristã tem seus momentos de sublimidade, infelizmente desvirtuados por interpretações que não dizem respeito ao homem em sua essência, pois atende a conveniências de padres, pastores e rabinos, profundamente interessados em manter o homem na atmosfera negra dos tempos medievos.  E disso tirar lucro político e pecuniário. Vejo o fenômeno religioso por prisma diferente do mesmismo e dos discursos psitacistas...

            - Li toda sua obra e pergunto-lhe:

            - Qual você elegeria como a mais bem acabada?

            - Sem dúvida O Tempo e o Vento. Verdadeira saga do povo gaúcho, apinhada de personagens de vida interior em que se sobrepõem a grandeza, a lealdade e a coragem; por outro lado, personagens de vidinha pequena, insignificante e sem brilho. Mas o que mais me agrada na obra é seu tempo cronológico, quando portugueses e espanhóis se envolveram em renhida luta pela posse da Banda Oriental até os tempos negros da era Vargas. Só a presença de Ana Terra, Rodrigo Cambará, Bibiana e Maria Valéria pagam o preço da obra. Sem modéstia, diria que O Tempo e o Vento é minha obra prima...

            Fiquei muito tempo a pensar nessa conversa esdrúxula de Ridendo Sic e o criador de Música ao Longe e refletir sobre quanto proveito se pode tirar como orientação para escolhas literárias tão necessárias a quem pretende ler o que vale a pena num mundo tão cheio de frivolidades e mentiras...

           



           

           

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