domingo, 31 de julho de 2016

VIAGEM – II
                                                       Hugo Martins
            Lido o primeiro quarteto do poema, em que se tem a visão de uma cidade sendo amortalhada pelo crepúsculo, bom lembrar que se trata, conforme dissemos, de um dos quadros no painel de um quadro maior, a que se somam outros dois. O que se apresenta agora se reduz ao segundo quarteto, que transcreveremos logo a seguir, ajuntando-se-lhe os comentários e digressões pertinentes e consentâneos com a visão do comentarista. A descrição do momento só finda no segundo terceto. Diríamos que cada bloco de versos, a estrofe, corresponde a uma pincelada do artista. Continuo ao seu lado, verificando a coerência pictórica entre o quadro e a paisagem física e espiritual que nele se imprime. Eis o quadro.

                        O ÂNGELUS PLANGE AO LONGE EM DOLOROSO DOBRE.
                        O ÚLTIMO OURO DO SOL MORRE NA CERRAÇÃO.
                        E AUSTERO, AMORTALHANDO A URBE GLORIOSA E POBRE,
                        O CREPÚSCULO CAI COMO UMA EXTREMA-UNÇÃO.

            No étimo grego e latino, a palavra ângelus significa mensageiro, núncio, que a igreja católica traduz por anjo e empresta a este as virtudes dos deuses pagãos Hermes/Mercúrio, com uma diferença, estes têm os pés e capacete alados; os anjos possuem asas. Os primeiros são apenas mensageiros dos deuses, os últimos, além dessa incumbência, assumem o papel de protetores...
            Na cultura nacional, é comum usar a locução “hora do ângelus” como anunciadora do final do dia, de regra, a hora do lusco-fusco. Nessa hora, as rádios e outros aparelhos tocavam a Ave, Maria com a música do compositor alemão Franz Schubert ou do francês Charles Gounod. O porquê da “hora do ângelus”, historicamente, está na Bíblia Sagrada. Para nós, importa tal hora como anunciadora do fim do dia e o começo da noite.
            Na verdade, não é o ângelus que plange (bate, dobra), mas os sinos, anunciando o ângelus... o emprego do adjetivo doloroso explica-se pelo fato de que os sinos batem em repiques ou dobre. Repique anuncia alegria; dobre, morte, tristeza. Efetivamente, o dia está a morrer, daí a sugestão semântica do emprego daquele adjetivo. Lembremos de “dobre de finados”, locução que aparece num soneto de Machado de Assis, no poema Desfecho, em que, retratando as dores e angústias de Prometeu, acorrentado ao monte Cáucaso, sob a ameaça da grande águia que lhe devora o fígado, vê “o desfilar dos séculos que vão com um dobre de finados”, Machado põe, às claras, em belíssima intuição, a marcha inexorável do tempo, que flui indiferente às dores e sofrimentos, às alegrias e ilusões do homem...
                        Essa ideia de morte se entremostra, mais vivamente, nos três versos seguintes por meio de palavras carregadas de sugerências latentes: “morre”, “amortalhando” (cuja raiz é mort), “crepúsculo” e “extrema-unção”, sacramento ofertado àqueles que estão à espera da “indesejada das gentes”, cuja vinda está decretada. O verbo “cair” também tem, no ambiente semântico, visível força, sobretudo porque faz parte de uma comparação, isto é, ele cai como se anunciasse a morte certa e irretorquível do dia. Os adjetivos “gloriosa” e “pobre” modificam o substantivo URBE, palavra de origem latina (urbs, urbis), que significa cidade. Parece a nós que se o poeta tivesse usado o termo cidade no lugar de urbe (mais adequada), a gravidade e sublimidade do momento (daí o predicativo austero) se esfacelariam na vulgaridade e insensibilidade de poetas menores. Não é o caso de nosso pintor...
Os dois primeiros versos já se estruturam na ordem direta. Quanto aos dois últimos, poderiam ser assim arrumados: o crepúsculo cai austero e amortalha a urbe gloriosa e pobre como uma extrema-unção...

Voltaremos

            

sexta-feira, 29 de julho de 2016

VIAGEM
                                     Hugo Martins
            Viajei para Minas Gerais. Precisamente para Ouro Preto, antiga Vila Rica, terra de inconfidentes, da corrida do ouro, do amor de Dirceu por Marília, terra de mistérios e fascínios... Não me demorei a contemplar a arquitetura vetusta dos tempos coloniais, tampouco me esgueirei por becos forrados de pedra tosca... Não. Apenas atravessei a cidadezinha e, chegando aos seus arredores, alcei-me ao cume de um outeiro.  Era fim de tarde, hora crepuscular no silêncio cavo, apenas quebrado pelo melancólico badalar dos sinos, saudando a hora indefinível da chegada das sombras e a retirada da luz. Ali deixei-me ficar quando, num átimo, alguém se avizinha e, em pinceladas verbais, apreendendo toda a mágica do momento, vai, pouco a pouco, construindo a tela. Não puxo conversa, não pergunto seu nome... Apenas observo o pintor, que, ungido de grande furor criativo, vai revelando uma paisagem que evoca a morte, num jogo metafórico em que a extrema-unção, caindo como uma cortina, assinala uma espécie de fim de ato. Logo depois, o firmamento, tal um pálio negro, ostenta uma miríade de pontos luminosos, pisca-piscando, como a anunciar aquela apoteose encantatória...
Como o quadro se revela em três cenários menores, vamos apresentar três textos de nossa lavra, acentuando os detalhes de cada um, salientados pelo poeta e por nós comentados por intermédio de pequenas digressões.
Aí vai o primeiro.

O OURO FULVO DO OCASO AS VELHAS CASAS COBRE;
SANGRAM, EM LAIVOS DE OURO, AS MINAS QUE A AMBIÇÃO
NA TORTURADA ENTRANHA ABRIU DA TERRA NOBRE:
E CADA CICATRIZ BRILHA COMO UM BRASÃO.

Contemplemo-lo. Primeiro olhar: a alma das palavras... o que embuçam... o que elas dizem... o que não dizem... que revelações fazem do mundo nesse jogo. A seguir, ainda no mesmo olhar: hierarquia, ordem, conjugação. Em outras palavras: vocabulário e sintaxe. Aí temos o jogo sintático-semântico, sempre indispensável para a apreensão de significados, que levará em conta, necessariamente o conhecimento de mundo.
A palavra ouro aparece duas vezes nesse quarteto e outras três vezes ao longo do soneto. Ora, o título deste é VILA RICA, hoje OURO PRETO. É o pano de fundo da tela. É aqui que o homem pugna, sofregamente, por encontrar ouro. Momento em que vem à tona o comportamento torpe, a ambição desmedida do homem, os jogos sujos, a cupidez aviltante.
Ouro fulvo do ocaso é locução que pode ser traduzida por hora crepuscular, momento em que o sol se põe. Assim, a primeira linha do poema assim pode ser lida: o ouro fulvo do ocaso cobre as velhas casas, Estrutura simples: ele as cobre. Simples... Observar, nos dois versos seguintes, as palavras: sangram, ambição cicatriz. Sugestivas, não? Na verdade, transpondo os dois versos referidos para a ordem direta, teremos: as minas sangram em laivos (pistas, sinais) de ouro; a ambição abriu as minas na entranha torturada da terra nobre. “Entranha torturada” sugere a insistência e o afã do homem em cavar e cavar e cavar; a fazer cicatrizes na terra nobre para encontrar o brilho daquilo que lhe vai satisfazer a cobiça. Assim, o poeta evoca o cenário da cidade – Vila Rica/Ouro Preto, sendo acobertado pela hora do ocaso, do crepúsculo, do pôr-do-sol, do arrebol, quatro palavras da mesma área semântica.

Continua...





quarta-feira, 27 de julho de 2016

UMA VIAGEM PROUSTIANA – II
                                                         Hugo Martins
               
                Aqui estamos à porta da casa paterna. O poeta vai transpô-la. Quanto a mim, como vai ele à procura de algo parecido com que Dante buscava na Divina Comédia, depois de ter atravessado os reveses do Inferno e do Purgatório, ciceroneio, tal como Virgílio em relação a Dante, Luís Guimarães Júnior. Faço isso sem que ele perceba, afinal achamo-nos no campo diáfano da imaginação e do sonho, onde tudo é possível. Eis o segundo quarteto e os dois tercetos do poema, guias não só geográficos da casa mas também de toda a atmosfera onírica, submersa nas ânsias da infrene saudade, que revolve a alma do poeta. Vamos à viagem... É pura emoção...

                        ENTREI. UM GÊNIO CARINHOSO E AMIGO,
                        O FANTASMA, TALVEZ, DO AMOR MATERNO,
                        TOMOU-ME AS MÃOS, OLHOU-ME GRAVE E TERNO,
                        E, PASSO A PASSO, CAMINHOU COMIGO.

                        ERA ESTA A SALA... ((OH! SE ME LEMBRO! E QUANTO!)
                        EM QUE, DA LUZ NOTURNA À CLARIDADE,
                        MINHAS IRMÃS E MINHA MÃE... O PRANTO

                        JORROU-ME EM ONDAS... RESISTIR QUEM HÁ-DE?
                        - UMA ILUSÃO GEMIA EM CADA CANTO,
                        CHORAVA EM CADA CANTO UMA SAUDADE...

            A recepção ao poeta é plena. Tudo ali é só carinho, amizade, ternura e amor, laço forte de mãos carinhosas, que sustêm outras mãos rendidas ao maravilhamento provindo de um certo olhar, não de qualquer olhar, mas de um olhar definível tão só por quem se acha com a alma plenificada pela força do amor que dele dimana. Depois desse flagrante de amorosa entrega, observo que o fantasma do amor materno caminha, sem pressa, puxando o filho pelas mãos como a, pacientemente, permitir-lhe antegozar a recuperação de tudo aquilo que foi e não mais é. Súbito, o poeta entra em convulsão emotiva, que se traduz pelo espanto exclamativo ao lembrar com intensidade o cômodo a que se refere com o pronome demonstrativo ou dêixis ESTA, a sala... Em seguida, constrói uma frase aparentemente sem estrutura sintática definida, pois fruto de revoluteio emotivo. Por isso, impõe-se ao leitor reconstruí-la, preenchendo os vazios sintáticos. Com esse procedimento, a frase deveria ficar, mais ou menos, assim: QUANTO E COMO EU ME LEMBRO DESTA SALA EM QUE MINHAS IRMÃS E MINHA MÃE, SOB A CLARIDADE DA LUZ NOTURNA... Nesse passo, contendo, bruscamente, a marcha do pensamento pela interferência de intensa emoção, o poeta traz à lembrança uma cena doméstica corriqueira e assentada indelevelmente em suas recordações. Vem, pois, o pranto, e vem de roldão, em largos jorros hiperbólicos e a indagação: quem haveria de resistir a tanta lembrança dorida? Tudo se dirimiu nas fronteiras indefiníveis da ilusão e da saudade na eterna busca do tempo perdido. É por elas que chegamos a ele. Para o nosso consolo...


            

terça-feira, 26 de julho de 2016

UMA VIAGEM PROUSTIANA
                                                    Hugo Martins
            Antes de pegar o bonde rumo ao sonho, visitei outras eras, de mãos dadas à música. Conversei com Agostín Lara, Trio los Panchos, Consuelo Velasquez, Nat King Cole, Plácido Domingo, Pedro Vargas, enfim passei bom tempo ouvindo-os e, pelo que diziam, nada impediu, nem mesmo reflexões mais cerebrinas, de eu voltar ao passado. Por falar nisso, encerrei meu programa ouvindo, vejam só, Renato e seus Blue Caps, interpretando uma música exatamente intitulada Memórias, em que o conjunto, marcando o ritmo com o som de uma eloquente guitarra, vai aos chamados anos dourados e traz toda aquela atmosfera, executando uma música que em muito se assemelha ao Besame Mucho, de Consuelo Velasquez, popularizada no Brasil, sobretudo por Ray Conniff, à época em que se dançava de rosto colado nas tertúlias, espécie de saraus familiares ao som de radiola (esta palavra estaria já obsoleta?). Foram duas horas e meia de puro encantamento.
Agora vamos viajar por outras sendas e veredas, vamos dar as mãos à poesia, apertá-la nos braços e a ela rogar nos conte uma história, uma história igual àquela que Rosa contava a Manuel Bandeira em Pasárgada quando o impulso por se matar mortificava o espírito do poeta. Nessas horas, só havia um remédio: encostar a cabeça no colo de Rosa e mergulhar no devaneio doce de sua voz e aceitar o convite à viagem (um poema de Baudelaire Invitation au Voyage).
Nessa viagem que ora vamos empreender, visitamos o texto Visita à Casa Paterna, do poeta Luís Guimarães Júnior... Embora o título do poema refira-se à casa paterna, deixando de lado as marcas da sociedade patriarcalista, vamos ver que a visita, na verdade, foi à casa materna, essa instância onírica sempre presente em nossas lembranças, sonhos e saudades... Devo confessar que, toda vez que intento ler esse texto em voz alta, não consigo chegar ao seu final: engrolo a voz,  as lágrimas passam-me uma rasteira e caio estatelado na dureza de sentido silêncio... Deixemos isso pra lá e transcrevamos o primeiro quarteto, que assim diz:

                        Como a ave que volta ao ninho antigo,
                        Depois de um longo e tenebroso inverno,
                        Eu quis também rever o lar paterno,
                        O meu primeiro e virginal abrigo.

Transpondo para a ordem direta, temos: Eu quis também rever o lar paterno, o meu primeiro e virginal abrigo tal a ave que volta ao ninho antigo depois de um longo e tenebroso inverno. Agora fica mais fácil desencavar do texto as significações nele camufladas. Em primeiro lugar, na estrutura mais ampla do texto, temos uma comparação marcada pelo conectivo como, interligando a oração subordinada (dois primeiros versos) à oração principal (dois últimos versos). Depois, resta ao leitor, estabelecer outras comparações entre palavras e locuções numa relação de equivalência. Assim temos: “ave e eu”; “ninho antigo e lar paterno”; “depois de um longo e tenebroso inverno”, que lembra, para o homem, os sofrimentos e reveses da existência; a locução “o meu primeiro e virginal abrigo” serve de aposto “a lar paterno” e a “ninho antigo”.
            De fato, o poeta, combalido pelas dores da existência, chega à casa paterna, à procura de alento, onde será, no segundo quarteto, recebido por um conhecido morador da casa. Esta, também, assemelha-se àquela do avô de Manuel Bandeira, que, apesar de fisicamente demolida, permanece suspensa no ar... Façamos uma pausa. Retomaremos a caminhada na  próxima estação...



                        

segunda-feira, 25 de julho de 2016

HISTÓRIA E HISTÓRIAS - III
                                                    Hugo Martins

            Transcrevemos, agora, ainda em caixa alta, os dois tercetos do soneto de Bilac, a cuja leitura estamos procedendo, com o fim único de vislumbrar na sua estrutura sintático-semântica alusões à história da “última flor do Lácio”, salpicada de apologias à beleza e à potencialidade desse idioma decantado aqui em terras tupiniquins, bem como depois das fronteiras das terras do além-mar. Bó...

                        AMO O TEU VIÇO AGRESTE E TEU AROMA
                        DE VIRGENS SELVAS E OCEANO LARGO!
                        AMO-TE, Ó RUDE E DOLOROSO IDIOMA,

                        EM QUE DA VOZ MATERNA OUVI: “MEU FILHO”,
                        E EM QUE CAMÕES CHOROU, NO EXÍLIO AMARGO,
                        O GÊNIO SEM VENTURA E O AMOR SEM BRILHO!

            Nas duas primeiras linhas do primeiro terceto, em mais uma declaração de amor à língua, que tão bem cultuou, Bilac faz duas referências fundamentais ao caráter da língua portuguesa: “o viço agreste” (palavra derivada do latim ager, agris: campo) e “viço” ( do latim vitiu, por via semerudita) que, literalmente, significa vigor de vegetação nas plantas, clara alusão à flora brasileira ao tempo em que os portugueses aqui chegaram, conforme se aprende na História oficial. Logo em seguida, o poeta reforça essa ideia quando refere “virgens selvas”, sintagma subordinado a “aroma” pela preposição DE. Por fim, ainda nos dois primeiros versos aqui analisados agrega outro sintagma preposicionado “de oceano largo”, subordinando-o ao nome aroma. Desse modo, sugere o traslado da língua portuguesa das terras lusas para o Brasil por ocasião do tal descobrimento...
            Façamos, recorrendo aos instrumentos sintáticos, a leitura do último verso do primeiro terceto, somando-o ao segundo terceto. Temos que levar em conta que o pronome relativo QUE, antecedido da preposição EM, substitui “rude e doloroso idioma”. Desse modo, a melhor leitura desse trecho seria: no rude e doloroso idioma, eu ouvi “meu filho”, expressão vinda da voz de minha mãe; no rude e doloroso idioma, Camões chorou o gênio sem ventura e o amor sem brilho, estando no exílio.
            “Meu filho” é expressão eterna e imorredoura na boca das mães e, sem dúvida, é a cara delas no uso cotidiano e, no leito em que recebem o rebento, se não proferem a expressão tão grávida de ternura, olham para o filho recém-nascido e dizem de si para si: “eis meu filho amado!!”
            Por ser, na opinião de muitos, a estrela de primeira grandeza nas letras lusófonas, mas tão açoitado pelo esquecimento e maltratado pela ingratidão, Luís Vaz de Camões, é aqui homenageado por Bilac, que traz à tona duas facetas na história de vida do vate português: o autoexílio do poeta na África e sua fama de amante inveterado, a cujas musas dedicou mais de duas centenas de sonetos, tingidos da mais profunda e fina ternura.
            Eis aí...

Depois, pretendemos fazer algumas viagens em alguns textos de nomeada na literatura de língua portuguesa no Brasil. Viagem impagável... Não se gasta nada, não se corre o perigo de despencar lá do alto ou morrer num infeliz abalroamento de veículos... Nada disso... Tais viagens têm maior graça porque só exigem do viajante a coragem de manter um diálogo com o texto sem a interferência de críticos literários ou intérpretes outros, que, por vezes, desejam impor sua leitura em detrimento da leitura do aqui viajante, que, com sinceridade, deve mandar esses senhores às favas. A viagem deve ser livre de amarras e, melhor ainda, sem a chatice de companhias inoportunas. Diz Montaigne, nos seus Ensaios, que o viajante deve seguir seu roteiro com os olhos da alma. E existem caminho e itinerário mais enfeitiçantes que o da literatura? Eu dou por visto... E é por ele que vou...
           
           
           




domingo, 24 de julho de 2016

HISTÓRIA E HISTÓRIAS -  II
                                                    Hugo Martins
                       
            Findos os comentários ao primeiro quarteto do poema LÍNGUA PORTUGUESA, de Bilac, transcrevamos o segundo e continuemos nossa análise...

                        AMO-TE ASSIM, DESCONHECIDA E OBSCURA,
                        TUBA DE ALTO CLANGOR, LIRA SINGELA
                        QUE TENS O TROM E O SILVO DA PROCELA,
                        E O ARROLO DA SAUDADE E DA TERNURA!

            O primeiro verso encerra uma rica declaração de amor sincero. Ao ASSIM, adjungem-se dois sintagmas adjetivais, que podem ser lidos, à luz da gramática normativa como aposto ou, se preferir o leitor, como oração subordinada adverbial concessiva, assim ficando a frase: ÚLTIMA FLOR DO LÁCIO, MESMO QUE EU RECONHEÇA SEJAS TU DESCONHECIDA E OBSCURA, MEU AMOR POR TI CONTINUA O MESMO...
            De fato, a língua portuguesa nasceu ontem. Há notícias de que seu primeiro texto literário foi a tal Cantiga da Ribeirinha, “canção de amigo”, elaborada pelo poeta lusitano Paio Soares de Taveirós e dedicada a uma senhorita que portava o patronímico Ribeiro. Isso no ano de 1189 ou 1198...  Vê-se, pois, que Bilac é coerente ao aplicar aqueles dois adjetivos à língua que, em seu tempo (Bilac morreu em 1918), não tinha a projeção que vem alcançando hoje, inclusive tendo já um dos seus cultores abiscoitado o Prêmio Nobel. Lembremos, também, que, conforme se tem notícia, a língua portuguesa passou a ser obrigatória como idioma oficial, no Brasil, quando o Marquês de Pombal, ainda no século XVIII, expulsou daqui os jesuítas e laicizou o ensino. À época, entre quatro brasileiros, três falavam o tupi-guarani...
A interpretação do Brasil, na pena de Euclides da Cunha, Monteiro Lobato e, mais tarde, estudiosos do porte de Gylberto Freire, Caio Prado Junior, Sérgio Buarque de Holanda e outros, confirma uma não-integração sócio-político-cultural, incluindo o fator linguístico, do homem brasileiro, sobremaneira o homem de algumas regiões (Norte-Nordeste), que de tudo vivia ilhado... Não é à toa que surgiram os problemas atinentes ao cangaço e ao sebastianismo ou beatismo religioso. Não é à toa o aparecimento de Jeca-Tatu, Antônio Conselheiro, Clara dos Anjos, Policarpo Quaresma e, mais tarde, Fabiano, Sinhá Vitória, os personagens amadianos, enfim, os anti-heróis da literatura de 30, tão sofridos e massacrados por injunções políticas de todos conhecidas no devir de nossa triste História.
            Repitamos: Bilac está sendo coerente e provoca largas reflexões (cabem outras)  na relação biunívoca língua e realidade... Nem por isso desconhece, ainda num jogo antitético, as potencialidades de nosso belo idioma, no qual vislumbra não só as possibilidades do exprimir o épico, o grandioso, o maravilhoso, o narrativo e o nós, bem como o emotivo, o que tange a alma, o individual, o sofrido, o lírico, o amoroso, o aparentemente ridículo nos derramamentos sentimentais e doridos dos que sofrem de alguma forma quando se conflitam com as dores do mundo...
            Se os sintagmas “tuba de alto clangor” e “trom e silvo da procela” sugerem o épico, a “lira singela” e o “arrolo da saudade e da ternura” lembram o lirismo.
            A língua portuguesa é pródiga em tudo isso. Como descobrir?  Há uma receita? Sim. Chá de leitura da rica literatura luso-brasileira. Mais justo seria falar em literatura lusófona. Como não tenho conhecimento bastante sobre esta, contento-me em aludir tão-só à primeira.


Voltaremos à análise do restante do soneto...
           
           




sexta-feira, 22 de julho de 2016

HISTÓRIA E HISTÓRIAS
                                                   Hugo Martins
Pediram-me escrevesse um texto em cujo bojo se pudesse ter uma visão, ainda que superficial, da História da língua portuguesa. O texto tinha que ser objetivo, sem se emaranhar em longas digressões, que, na opinião da pessoa, só atrapalha e dificulta a apreensão dos significados e significações. Aceitei a proposta, afinal, a pessoa está desembolsando alguns trocados para esconder sua preguiça mental. Quer dizer: alugou-me a pena, como se dizia antes, quando o redator lançava mão do calamo (étimo latino), palavra bonita para designar a caneta, hoje quase obsoleta para a tarefa do escrever. Pois bem, propus-lhe um método seguro, embora aparentemente enfadonho, de discorrer sobre o assunto, fundamentando-o na leitura de um texto literário, seccionando-o e explicando-o em todos os seus aspectos, dele retirando o que há de também mimético e estético. Pois bem: elegemos o soneto de Olavo Bilac LÍNGUA PORTUGUESA, verdadeira apologia aos encantos e possibilidades de significações e ressignificações do idioma, entranhadas nas várias passagens por nós doravante analisadas. Desse modo, transcreveremos, em caixa alta, um trecho que encerre uma ideia que permita ser submetida a escavações interpretativas e informativas, de modo que a leitura do texto se faça distanciada de toda e qualquer superficialidade vã. E vamos nós.
ÚLTIMA FLOR DO LÁCIO, INCULTA E BELA,
ÉS, A UM TEMPO, ESPLENDOR E SEPULTURA
OURO NATIVO QUE NA GANGA IMPURA,
A BRUTA MINA ENTRE OS CASCALHOS VELA.

O primeiro verso do quarteto, com um vocativo seguido de um aposto, se traz neste uma apologia reverente, no primeiro sugere ao leitor atento a possibilidade de nele desencavar uma rica gama no que diz respeito à história da língua, em seus primórdios. Comecemos pelo termo Lácio (Latium) uma região da Itália. Daqui, em sua sede de expansão, os romanos saíram, e chegaram à Península Ibérica, hoje território de Portugal e Espanha. Ali se instalaram por mais de dez séculos.  O latim (de latium) por eles falado, o latim vulgar, misturou-se a outros falares por conta das invasões, a primeira pelos germanos, e a outra pelos árabes... Pois bem, dessa mescla exsurgiram as línguas neolatinas, o italiano, o francês, o espanhol, para falar das mais expressivas, além da língua portuguesa, que, na visão de Bilac, foi a última provinda daquele latim amalgamado...Daí o sintagma “última flor do Lácio”. Claro que “flor” está aí a lembrar o verbo florescer, o surgir, o brotar...O termo “inculta” é alusão à rudeza originária dos que a utilizavam, normalmente, homens do povo, soldados, artesãos, camponeses e pessoas incultas. Nem por isso o poeta deixa de vislumbrar a beleza ínsita à língua portuguesa, mesmo no seu nascedouro. Só depois de Camões é que a última flor do Lácio vai assumindo personalidade e vestindo a roupa da cultura e dos processos civilizatórios.
Nos versos seguintes, o poeta atribui três predicados inseparáveis e casados à língua portuguesa. No primeiro verso, esplendor e sepultura, utilizados antiteticamente, apontam para as potencialidades do idioma que, a um só tempo, permite enfocar o real, nele derramando luz e sombra, entusiasmo e tristeza, força e impotência, tom épico e tom lírico...
Nos dois últimos versos, encontramos o último predicado da língua portuguesa, traduzido na locução “ouro nativo”, joia preciosa, escondida em meio à lama, ao cascalho. Transponham-se os versos aludidos para a ordem direta e teremos: A BRUTA MINA VELA (esconde, camufla) O OURO NATIVO, NA GANGA (lama) IMPURA, ENTRE OS CASCALHOS. Assim, para se chegar às possibilidades expressivas daquele “ouro”, o usuário há de fuçar a mina, revolvê-la, afastar impurezas... Encontrado o ouro, vem a satisfação da procura, e a beleza há de perpassar pela frase, pelo período, pelo texto, pelo dizer.





Voltaremos para a leitura do segundo quarteto...

domingo, 10 de julho de 2016

VIAGENS
                                               Hugo Martins

Sou sedentário por vocação. Às vezes, bate-me uma vontade de passear, viajar, montar a garupa da minguada vocação de viajante, que pouco me resta, e sair por aí, ao deus-dará, chutando tampinhas, chapinhando poças d´água, olhando outros céus, conversando com as gentes e conhecendo lugares. Desejo chegar aos destinos seguro e de alma aberta. Dispenso companhias, a não ser alguns amigos fiéis, que conversam, discutem, alegram o mundo e distraem a alma, sem enchimento de saco das mesmices dos blá-blá-blás cotidianos: livros, livros e livros a mancheia. Quanto ao transporte, não me apetece entrar em avião. Aliás, neles nunca entrei nem pretendo fazê-lo. Para quem viaja todo santo dia, o transporte mais aconselhável são as asas da imaginação. Com elas, não há sedentarismo; São seguras, não se desviam do rumo e sempre chegam ao destino desejado, sem perigo de quedas, desastres ou sequestros. E com elas, você vai aonde bem quiser e entender. Não há barreira humanas, tampouco alfandegárias.
Durante a semana que se está findando, empreendi algumas “viagens. ” Todas me foram proveitosas. Uma, porém, pungiu-me fundo a sensibilidade. Primeiro, cheguei a Pasárgada, não à cidade da antiga Pérsia, mas àquela em que Manuel Bandeira, de uma feita, refugiou-se e fez tudo o que a vida lhe sonegou: tornou-se amigo do rei, fez ginástica, montou burro brabo, tomou banho de mar e, quando cansou, ouviu as histórias de Rosa, contadas pela mãe-d´água, e teve a mulher que queria, na cama que ele escolheu. O poeta estava feliz por ter feito tudo aquilo que devia ter sido e que não foi. Não sei por que cargas d´água, toda vez que a isso me refiro, os olhos se me enchem de lágrimas. Acho que são as emoções da viagem. Pois bem, dali viajei ao Rio de Janeiro, visitar Bandeira no Morro de Santa Teresa, lugar em que o poeta pernambucano morou por algum tempo. Entrei em seus aposentos de mãos dadas com as da imaginação. Estava ele sentado a rabiscar uma folha de papel. Olhei por cima de seus ombros: redigia seu testamento. Documento simples, sem volteios e sem a rigidez hierática do linguajar dos notários. Diferente: vazado em cinco estrofes, com versos em redondilha maior (sete sílabas poéticas), transpira o “documento” a secura das frustrações inomináveis, sempre preso à temática daquilo que devia ter sido e não foi. Eis o conteúdo: a perda de dinheiros e de amores não compungia tanto o poeta; das terras que visitou, só uma ficou marcada no olhar, aquela que inventou (Pasárgada); traz abrigado no peito o filho que não nasceu, pois nunca teve um filho de seu; o enterro de uma vocação (arquiteto) por causa da doença de que foi acometido na juventude. Por fim, ajoelha-se e roga: “Sou poeta menor, perdoai”. O último item do “testamento”, o derramamento lúcido e melancólico por não poder ter lutado.
Ora, Bandeira foi arquiteto e escultor. Construiu grandes edifícios poéticos e cinzelou versos imorredouros, singelos, profundos e, sobretudo, grandes. Nunca será um poeta menor, jamais. Não sei que alma boa, lançando mão do sintagma “poeta menor”, reconheceu a grandeza do poeta Manuel Carneiro Bandeira de Souza Filho, fazendo este jogo morfofonético em que sobressai a sublimidade das palavras em que se esconde a poesia. Contemplemos:
POETAMENORMENORMENORMENOSMENORMENORMENORMENORME...
Não se exige do leitor nada, a não ser observar o tamanho da “palavra”, cuja leitura permite a supressão do “menor”, que se traveste em ENORME.
Cheguei da viagem. Nenhum cansaço ou fadiga. Só alegria interior e bem-estar. É diferente, é poesia, é emoção das boas...
Au revoir... Arrivederci...


POIS É...
                                     Hugo Martins
Em outros tempos, gostava de ler frases em para-choques de caminhões. Chamavam-me atenção as de cunho filosófico como essa: “O Sol nasce para todos; a sombra, para quem merece.” Outras havia, que destilavam declarações amorosas: “Nas curvas do teu corpo, capotei meu coração.” E faziam pensar aquelas regadas pelo jogo ambíguo e poético da linguagem, em sua feição estética: “Motorista, olhe para a mulher do próximo, mas conserve a sua direita”. O bom de tudo isso era a preocupação em não resvalar em erros crassos de linguagem.
Hoje, não mais se veem caminhões, ostentando aqueles ditos. Coisas do progresso...
Migraram para os carros de passeio. Não com o mesmo bom gosto de outrora. Quando não se apresentam grosseiramente grávidos de estupidez e agressividade gratuita, fazem apologia farisaica, como se o dono do veículo pugnasse por mostrar quanto é ele observador dos preceitos bíblicos, mesmo que nunca tenham lido um só versículo do Evangelho, ou ostente, em casa, numa espécie de pedestal, na estante da sala, um volume da Bíblia Sagrada, empoeirado por só servir apenas de elemento de decoração. A poeira vem do fato de nunca ser folheada... Coisa de farisaísmo...
Assim, pode-se ler algo de que não se tem certeza: “Deus é fiel”. Ou, uma mentira de quem considera Cristo o detentor de imensa frota de veículos, pois, frequentemente, alguém põe à vista de todos: “Propriedade do Senhor Jesus”. Consta que Jesus Cristo se locomovia a pé ou, quando fosse o caso, de barco. Mas os fariseus querem, por força, considerar Cristo um capitalista. Coisa de ignorância histórica ou jogo de falsa humildade.
Hoje me chamou a atenção uma frasezinha colocada impunemente num automóvel: “Senhor acredito no que tu disse (sic) e obrigado pelo que tu fez(sic).
Comentando o fato com um amigo dado ao cultivo das Belas-Letras, dele ouvi:
- Comecemos por fazer vista grossa em relação à vírgula que devia estar assinalando o vocativo Senhor.
Aduziu:
- Benzam os céus a crença e a gratidão do redator. Que fique claro, porém, que esse sujeito parece nunca ter estudado conjugação de verbos.
Ao que acrescentei:
- Coisa de ignorância e analfabetismo funcional... Essa turma de pregoeiros da própria fé deveria ler realmente a Bíblia Sagrada. É obra sábia, de linguagem rica, prenhe de ricos exemplos e que não tropeça nos mais comezinhos acidentes da concordância verbal...

Aleluia, irmãos!!!!!!!!  
DEDOS TALENTOSOS.
                                                       Hugo Martins
Estive hoje no consultório de um profissional da saúde, mais precisamente, uma nutricionista. Sempre que me encontro em consultórios, filas de banco, filas de qualquer espécie, ou no interior de ônibus municipais na hora do ruge-ruge de fim de tarde, invariavelmente estou em companhia de um amigo ou de uma amiga. Em outras palavras, nessas situações, sempre tenho nas mãos um livro ou uma revista. Mera estratégia de preencher o tempo e não abrir oportunidade a que alguém puxe conversa mole. A companhia de tais amigos e amigas me preenche, dá-me alento e evita a presença de inoportunos.
Hoje, porém, alguma coisa chamou-me a atenção e tive que cessar o diálogo que mantinha com uma amiga. Conversávamos sobre um assunto de minha especial predileção: a literatura. Mesmo assim, fui fisgado pelo insólito da cena. Espalhadas em poltronas, as pessoas, jovens e adultos, mergulhadas em fundo silêncio, estavam todas, sem exceção, olhando para o telefone celular movimentando os dedos, sobretudo os polegares, como se estivessem passando as contas de um terço ou debulhando uma invisível espiga de milhos.

A cena induziu-me a uma ilação: as pessoas, com raras exceções, podem não ser dadas a reflexões, a escrever; podem possuir um vocabulário exíguo, pobre e limitado, mas de uma coisa pode-se ter certeza: são todos exímios digitadores...
NÉ NÃO. É?
                                          Hugo Martins

O povo brasileiro é preconceituoso quer queira, quer não. Antes da promulgação da atual Constituição, em 5 de outubro de 1988, era comum a polícia prender as prostitutas, chamadas, à época, mariposas, bem como prender os hoje chamados homoafetivos que, à época, eram conhecidos como veados (com e mesmo, não existe a grafia viado). Era corriqueiro, em Fortaleza, vaiar todo aquele a quem a população tomasse como bode expiatório, porque assumia comportamento destoante da opinião do populacho. Quem praticasse o candomblé era preso também, e os chamados “despachos”, eram destruídos. Sobre o negro, existem livros famosos em que a manifestação preconceituosa em relação a esse grupo étnico se mostrava às escâncaras. O escritor cearense Leonardo Mota isso fez nos seus Adágios (existe uma edição publicado sob os auspícios do Banco do Nordeste), bem como no volume No Tempo de Lampião. Terminada a leitura deste, enfileira-se um elenco de frases desgraciosas com relação ao negro, que hoje levariam o famoso folclorista às barras dos tribunais.
O povo brasileiro é preconceituoso, sim.  Impede-o de manifestá-lo a presença da lei, inspirada no princípio da isonomia, expresso no art, 5º da Carta Política, bem como no art. 3º, IV do mesmo documento político. Tais dispositivos, por sua vez, abeberaram-se nas Declarações Universais de direitos, cuja orientação se finca nos princípios do Cristianismo sincero.
Em outros tempos, não muito distantes, corria o boato de que um clube de grã-finos, aqui em Fortaleza, proibia a entrada de negros em suas dependências. Pelé foi vítima da coisa. No clube do Fluminense do Rio de Janeiro, aos jogadores de futebol negros era proibida a entrada pela porta da frente. Colhemos da leitura do livro Minhas Duas Estrelas, biografia sobre Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, escrita pelo filho Pery Ribeiro, que no clube Quitandinha, no Rio de Janeiro, Grande Otelo e Nilo Chagas (que formava o Trio de Ouro com Dalva e Herivelto) só ingressavam no clube por influência de Herivelto Martins. Há pouco, correu notícias de manifestações de preconceito racial contra a atriz Thaís de Araújo... Ora, meus amigos, às favas com essa


O HOMEM QUE ANDAVA BEM ARMADO
                                                         Hugo Martins

                Folheando o livro de Pedro Paulo Filho – Grandes Advogados, Grandes Julgamentos – encontro alguns episódios no Tribunal do Júri em que avulta eloquentemente a figura do advogado, José Quintino Cunha (1875-1943). Para o que interessa, ressalte-se, além de repentista mordaz e hilariante, Quintino era dotado de raciocínio cartesianamente anavalhante, tingindo de atassalhante ironia, cujos efeitos discursivos nocauteavam os adversários nas contendas verbais ocorridas no plenário do júri. Os episódios narrados a seguir são da lavra do autor do livro. Transcrevemo-los “ipse dixit” (ele próprio diz). O aspeado é da lavra do autor da obra referida..
1-
          “Certa feita, depois de uma longa arenga com o promotor público, ouviu deste uma frase comprometedora:
            - Senhores do conselho de sentença, eu estou montado no Código Penal!
          E, fulminante, Quintino Cunha rebateu:
            - Pois V. Exa. Faz muito mal em montar animal que não conhece.”
2             
          “De passagem por Manaus, compareceu a um Júri no qual foi brutalmente agredido pelo promotor, porque trazia a assistência numa hilaridade constante.
            Quintino teve uma grande idéia e respondeu:
            - V. Exa., Sr., promotor, me chamou de palhaço com bagagem. Para tanto, seria preciso que o senhor presidente do Tribunal fosse o mestre do circo, e que o picadeiro fosse assinalado pelos tronos. Que seriam os senhores do conselho que circualam a mesa do centro.
            Pois bem, dê-me agora permissão para que o humilde palhaço salte na arena e declare, com toda a força de sua voz de falsete, que está aberta uma vaga para uma égua amestrada. Venha, dance à sua vontade.”

            Embora seja o Tribunal do Júri o espaço mais democrático do Direito, pois ali os pares julgam os pares, em outras palavras, quem condena ou deixa de condenar o reú, aqui no Brasil, é um grupo, formado de sete cidadãos leigos. Quanto ao juiz togado, cabe-lhe administrar os trabalhos da sessão e redigir a sentença de acordo com a decisão dos jurados. É comum dizer-se que “levava” a questão aquele que for mais hábil, sobretudo se melhor souber esgrimir com a palavra.
            Daquele tempo pra cá, muita coisa mudou no rito do Júri. Os recursos cênicos, a recorrência a carpideiras, a manobras ladinas e a rabulice chicaneira cederam lugar a posturas mais sincronizadas com a ciência do direito, sem, por isso, negligenciar o discurso bonito e persuasivo.
            Sempre me vem à cachola a lição de Evandro Lins e Silva: o desenvolvimento jurídico de uma questão no Tribunal do Júri é muito semelhante a uma aula que se vai ministrar. Se bem preparada, bem estudada, bem ilustrada, certamente alcançará o objetivo em mira. Uma defesa no plenário do júri também atingirá seu fim, caso seja devidamente preparada no que dizem os autos. O defensor deve ler da primeira palavra do inquérito à última da pronúncia. Deve ser científica e não estear-se em frívolas improvisações.



           

                                                                 

                                                                   

sexta-feira, 8 de julho de 2016

NIHIL NOVI SUB SOLE (Nada de novo sob o Sol)
                                                                Hugo Martins

Em que estou pensando?  Só em coisa ruim. Entre elas, o rigor com que a Ordem dos Advogados do Brasil vem promovendo seus certames para a concessão de carta de advogado. O sujeito faz o curso de Direito; outros sujeitos fazem outros cursos de nível superior. Só o primeiro se submete a exames, sob pena de não poder propor ações ou contestá-las. Vê-se aí um claro desrespeito ao princípio da isonomia. Na verdade, muitos profissionais saídos de outros cursos que não o de Direito, caso fossem chamados a prestar exames a ver como estaria seu nível, seriam certamente reprovados  assim como a grande leva de bacharéis em Direito que, impiedosamente, são massacrados em provas que, aplicadas a juízes, promotores, delegados e outros operadores do direito, certamente levariam muitos desses senhores  a fragorosa e rotunda reprovação.
Houve um tempo em que o candidato se submetia a uma provícula de múltipla escolha. Obtida a aprovação, deveria resolver uma prova prática, que levava em consideração a área por ele escolhida: direito penal, direito civil e direito do trabalho. Desse modo, o bacharel deveria demonstrar possuir habilidade mínima para lidar com o caso hipotético apresentado na sua natureza material e processual. Não havia necessidade de adquirir bibliografia especializada para tanto. Bastava tão só o empenho, a perseverança e o gosto com que o estudante se entregou durante os cinco anos de curso.
Hoje há uma espécie de indústria. As livrarias especializadas vendem mais livros para o exame da Ordem que qualquer outra bibliografia atinente ao curso. O aluno se neurotiza, vive atormentado pela idéia de fazer o exame e, depois ser juiz, promotor, delegado, procurador, defensor público, menos advogado. Dia desses, contei, enfileirados numa prateleira de livraria, trinta e dois títulos que o candidato deveria adquirir se tivesse a pretensão de obter aprovação nos exames da OAB...
Minha turma, a que escolheu direito penal, na prova prática, levou para a sala apenas um exemplar da Constituição Federal, um Código Penal e um Código de Processo Penal não comentados. O caso hipotético apresentado para o bacharel procurar uma solução sugeria a impetração de um “habeas corpus”. Bastava ao candidato ir ao art. 5º, LXVIII da CF/88, combinando a leitura deste dispositivo com o art. 647 e seguintes do Código de Processo Penal. O fazer, a técnica jurídica e redacional ficavam subordinados ao preparo, leitura e à maturidade intelectual do candidato. Sempre bom lembrar a parêmia do pensador francês Holbach, que ensina: “quem estuda só direito não sabe direito”. Portanto, a leitura de obras outras, que cuidam do homem e do seu drama na História são indispensáveis e necessárias. Não é à toa que se trata de curso de ciências jurídicas e sociais... Um mundo enciclopédico de informações... além da exigência do manejo do idioma para o desenvolvimento do raciocínio jurídico
Há candidatos que perdem o estímulo, pois, muitas vezes, são obrigados a concorrer no certame por mais de três vezes! Hipóteses: candidato despreparado; curso de Direito sem a devida competência; elaboração da prova com nível de exigência massacrante. Primeira hipótese, plausível; segunda, possível; ultima provável.
De uma relativa verdade não se pode fugir: o curso de direito, no aspecto profissional, não tinha quase prestígio antes da promulgação da Constituição de 1988, momento em que o País passou a experimentar a democratização solapada entre os anos de 64 a 85. Nesse lapso aí, não havia aplicar o direito, salvo algumas exceções. Daí o desprestígio dos cursos de ciências jurídicas e sociais. Hoje qualquer um quer ser doutor “adevogado”, mesmo os dados à rabulice, e os vocacionados a uma prática do direito que envergonha a advocacia e provoca desencanto e vergonha na grande massa de cidadãos. Depois de 88, “as sinceras vocações” deram sua cara. Daí a grande procura pelo curso
Era nisso que eu vinha pensando quando caminhava ao longo da Avenida Barão de Studart, saído do restaurante onde costumo fazer refeições.
Um lembrete: o art. 5º, IV da CF/88 diz-se, explicitamente: “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato.”
Falei. Espero ter dito.



ENTÃO É NATAL...
                                            Hugo Martins

Nestes tempos de Natal, em que a solidariedade humana mais se acentua nos espíritos desarmados dos homens, cedi, ontem, a um impulso imperdoável a que não costumo fazer qualquer concessão: deixei-me vencer pela impulsão do consumismo frívolo e inconsequente. Abri a bolsa de parcos recursos e danei-me a comprar. Não sei se obedecia ao desejo de preencher algum vazio interior ou buscava dar vaza ao prazer anódino de gastar por gastar com o fim de mitigar minhas dores existenciais. Não desejo pensar nisso. O que está feito está feito. Pois bem...
Pois bem, as tais mercadorias que adquiri talvez sejam, de fato, necessárias, pois nada acrescentam à atmosfera desses tempos de desencanto. Nada acrescentam ao homem moderno. Constituem matéria sem nenhuma serventia. Não sei por que algumas pessoas curtem esse tipo de coisa. Aventurei-me para ver no que ia dar. Vejamos: cuidei de adquirir o que se segue. Perdoem-me se fui leviano, e minhas preferências não tenham se coadunado com a ordem do dia. Vou arriscar, enumerando as mercadorias adquiridas, frutos da minha insensatez. Peço condescendência, sem suplicar perdão, pois continuo buscando dar ouvidos à minha voz interior... Eis o que comprei, gastando, pasmem, R$ 69,00 (sessenta e nove) reais. É muito dinheiro pra tão pouco...
Memorial do Convento, de José Saramago; Foucault em 90 minutos; Sartre em 90 minutos; Crépuscule des idoles, de um tal Nietzsche; Vies e doctrines des philosophes de l Antiquité, de um tal Diógenes Laércio; David Hume em 90 minutos; Kierkegaard em 90 minutos. Só gentinha sem nenhuma expressividade, sem nenhuma importância para esses tempos imediatistas. De todo modo, vou arriscar-me a fruir esse povinho. Depois, quem sabe, a sensatez não me socorra e eu tenha que voltar ao rebanho?
Questão de tempo, questão prenhe de questões... Afinal o Natal é uma festa profundamente cristã. Dizem os comerciantes e os iniciados na arte de persuadir os tolos.
Pois não é que caí nessa esparrela... Que hei de fazer? Enfronhar-me na leitura daqueles sujeitos. Não sei se a empreitada vale a pena.


NEM MUDOU O NATAL NEM MUDAMOS NÓS

                                                                                          Hugo Martins


                        Não é que está se aproximando mais um Natal! Todos se programarão para experimentar as mesmas emoções de outros já idos natais. Luzes, pisca-piscando, ornarão ruas e praças. As lojas elegerão os mais feéricos motivos natalinos para atrair compradores de bolsos risonhos com o minguado décimo terceiro. Nas casas, portas e janelas ostentarão a caraça de um Papai Noel, encimada pelas indefectíveis locuções “Feliz Natal e Próspero Ano Novo”. Na sala, a árvore de Natal, com ar de inverno europeu, também acenará, com seu antipático e monocórdio pisca-pisca, para um Natal de mais exuberante luz. Supriria esta a carência da interior de muitos, já narcotizados pela indisfarçável e insopitável insensibilidade, então travestida de sorrisos e salamaleques de polichinelo desencantado?

                        Dia a dia, as lojas se apinharão do vazio das gentes, cacarejando como galináceos desorientados, no afã de encontrar o presente adequado à pessoa que, de sua parte, também retribuirá com o presente adequado, acompanhado de cartão com discurso pré-fabricado, a fim de que reinem entre os homens a paz e a harmonia.

                        Sobre grandes e largas mesas, espalhar-se-ão acepipes e iguarias do mais fino gosto para o agrado de todos os paladares. Homens e mulheres, enfatiotados, pavonearão sua vaidade sob os auspícios de “griffes” as mais distintas para, sob efeitos etílicos, esperar que à meia-noite, o espírito natalino, personificado na figura balofa e idiotizada de um Papai Noel de riso fácil, baixe, ao som do “Jingle Bell”, e traga conforto à consciência de cada um. Tudo bonitinho e de acordo com os paradigmas ditados pela indústria cultural, na sua sempiterna faina de institucionalizar a imbecilidade e a mentira convencional.

                        No dia seguinte, as coisas voltarão ao seu devir natural. Virá o novo ano. Chegará o Carnaval. O espetáculo da vida retomará a deixa do ano que passou. Nossa sensibilidade readormecerá na longa hibernação da indiferença. Calçaremos as sandálias aladas de Mercúrio. Desafiaremos a Lei da Gravidade. Sobranceiros, adejantes e impávidos de pérfida soberba, aguardaremos o próximo Natal para desejar, no mesmo diapasão monocórdio de antanho, Feliz Natal e Próspero Ano Novo.

                        Arre! não é à toa que o pançudo velhote de brancas barbaças e avantajados borzeguins milicianos traz às costas UM SACO. Quem sabe abarrotado de maçantes mesmices...

                        Terei construído um discurso cínico acerca do Natal?! Direi com Machado: “questão prenhe de questões...” Não creio. Apenas a tessitura de mais uma leitura possível do que se esconde por trás de símbolos e signos, bem manipulados pela indústria cultural com objetivos nada nobres.

                        Enquanto isso, aí está o mundo, tal um grande cartão, a merecer de nós uma leitura, através da qual nos revelemos mais homens e menos discurso.
                        Se você, neste ano, inclui-se no rol dos sessenta e quatro por cento de brasileiros inadimplentes e endividados, não terá nenhum motivo para usufruir do lirismo teatral do Natal. Pague suas contas e sossegue sua alma.

                       









NATAL
                                Hugo Martins

            No soneto O Desfecho, que abre o volume Ocidentais, Machado de Assis lança mão do mito de Prometeu e entretece uma metáfora trágica da condição humana no que esta tem de efêmera, sujeita à irrefutável passagem do tempo.
            Qualquer dicionário de mitologia grega informa que Prometeu, tal o mito hebraico de Adão, fora castigado por, na sua soberbia (soberba hiperbólica). enfrentar os deuses. Cometera aquilo que os cristãos chamam de pecado. Por isso, foi acorrentado num monte, aonde, diariamente vinha uma grande águia devorar-lhe o fígado, que, logo, logo renascia. Esse suplício, quase interminável, só findou quando Héracles o libertou definitivamente.
            O leitor percuciente, se bem pensar no que tem de mágico a literatura no seu interpretar o mundo, logo chega à conclusão de que o devoramento do fígado aponta para uma significação: o dormir. O renascer da víscera, por outro lado, significa o acordar. Desse modo, o homem passa boa parte da vida entregue ao primo da morte, o sono, quando se entrega aos braços de Morfeu; e a outra , mergulhado na ilusão fugidia da luz, quando acordado.
            A libertação de Prometeu, por uma perspectiva metafórica, significa a libertação, o desprender-se das amarras da vida para empreender seu grande salto para a noite infindável do nada.
            O poeta, no último terceto, anunciando a “libertação” de Prometeu, fecha o poema assim: “Acabara o suplício e acabara o homem”, isto é, morrer é arrebentar as correntes dolorosas do viver.
            Por esse ângulo, na cosmovisão machadiana, o Natal dá-se todo dia. Haverá, porém, em certo dia, num dia certo, que ele deixa de existir. Badalem os sinos, entoem-se cantilenas choramingas; enviem-se cartões com mensagens pré-fabricadas, tudo é inútil. Até mesmo o velhinho ridículo de barbaças e grossos borzeguins perderá seu sentido comercial nos natais em que se visa a uma coisa: vender torrencialmente e consumir dolorosamente. No mais, cada um terá seu Natal: é suficiente acordar.  

Ho, Ho, Ho, Ho...
NATAL É OSSO.
                                        Hugo Martins
Não me afeiçoo a nenhum credo religioso. Não me perco em vãs discussões acerca da existência ou não-existência de Deus. Leio a Bíblia Sagrada sem tomá-la como esteio para covardes e medrosos, que só buscam alento nela quando se veem emaranhados em problemas existenciais que não devem ser da alçada daquela ou daquel´outra  divindade. Meu porto seguro se encontra nas páginas da grande literatura ou da filosofia, que se ocupam das inquietações humanas e matérias afins. Tendo em minha volta livros a mancheia, silêncio necessário e ausência de inoportunos, encontro-me num paraíso em que respiro paz, reflito, leio, escrevo, penso, ouço musica e mantenho-me no justo grau de distância e proximidade  necessárias ao convívio humano. Se nenhum homem pode ser uma ilha, sou, com muito gosto, uma península.  Alguns psicólogos pretensiosos, citando autores que nunca leram, a não ser as orelhas dos livros, ou os leram de afogadilho, dirão: isso não é estilo de vida, é fuga. Mando-os às favas e permaneço na minha bolha imaginária, assistindo ao espetáculo da vida...
Um dos livros bíblicos que frequento com certa assiduidade é O Eclesiastes, cuja autoria é atribuída a Salomão. Trata de temas eternos como a busca da felicidade, a fugacidade de tudo e o tempo que passa (nada de novo sob o Sol). Acresçam-se: a preocupação humana com o acúmulo de riquezas, a sabedoria e o discernimento, a insensatez e a prudência. É livro que vale a pena ser lido seja pelo valor literário, seja pelas largas lições de filosofia disseminadas em suas páginas. Suas lições terão, para muitos homens, o gosto amargo do pessimismo bem próximo dos cínicos gregos Antístenes e Diógenes, cujo pensamento se encontra em pequenos fragmentos de textos ou em citações dos historiadores da filosofia.
Na filosofia ocidental não há um só filósofo que não tenha se voltado para a questão do fenômeno religioso. Afinal, é ele ínsito ao homem.  Mesmo que não tenham tangenciado o assunto, como o fizeram Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino e Chardin, pra exemplificar, tomaram-no como tema, colocando o homem no centro de todas as atenções metafísicas e transcendentais.  Nos textos da grande literatura, existe mais análises sérias do problema religioso que determinadas obras de pastores e padres televisivos, espécies de novéis pregadores voltados para a salvação do homem  (não se sabe de quê), sempre de olho no sofrimento dos ingênuos e simples para deles angariar algum lucro imoral, resultante  do sermão bem entretecido em que se pescam ainda ameaças de castigo eterno no fogo do inferno.
O Natal não tem nada de religioso. Não precisa lembrar e enumerar os porquês. Estes já se tornaram lugar-comum repetidos por ceca e meca. As árvores com ar de inverno europeu, as lapinhas, as luzes pisca-piscando, os presente ao pé da árvore, a generosidade de São Nicolau, encarnada no velho pançudo com um saco nas costas, riscando os céus num carro puxado por renas estúpidas, tudo isso é o antinatal, constitui sucessivas crucificações do Cristo, pois, daquele cordeiro manso e amoroso nada se pesca na suntuosidade dessa festa nada cristã.
Rabindranath Tagore (1861/1941), poeta indiano, prêmio Nobel de literatura em 1913, atinge com sublimidade, nos versos a seguir transcritos, a essência nua do que deveria ser o Natal. Não são necessárias muitas palavras... Basta sentir.
“Aqui é o estrado para os teus pés, que repousam aqui, onde vivem os mais pobres, mais humildes e perdidos”
“Quando tento inclinar-me diante de ti, a minha reverência não consegue alcançar a profundidade onde os teus pés repousam, entre os mais pobres, os mais humildes e perdidos.”
“O orgulho nunca pode se aproximar desse lugar onde caminhas com as roupas do miserável, entre os mais pobres, mais humildes e perdidos.”
O meu coração jamais pode encontrar o caminho onde fazes companhia ao que não tem companheiro, entre os mais pobres, mais humildes e perdidos.”


É osso.