NADA
DISSO QUE SE PENSA
Hugo
Martins
A frase “navegar é
preciso, viver não é preciso”, tradução da frase latina “Navigare necesse est,
vivere non est necesse” chegou até nós pelo cancioneiro popular. Interpretava a
letra da canção, em que aquela frase estava inserida, a cantora baiana Maria
Bethânia. Por isso, o vulgo logo atribuiu a Caetano Veloso a autoria. Depois,
aventou-se a hipótese de a frase pertencer ao poeta português Fernando Pessoa,
vate muito declamado por Bethânia. O infante Dom Henrique utilizou-a como lema
da Escola de Sagres. Depois, foi atribuída ao poeta romano Virgílio...
Meras suposições. E pior:
surgiram interpretações de toda sorte. Transcrevo de um dicionário de máximas e
expressões latinas a verdadeira história de onde surgiu a parêmia. Vai aspeada.
“No ano 56 a.C, o
historiador grego Plutarco relata que os cereais se tornaram escassos em Roma.
Violentas tempestades tornam arriscadas travessias para a África do Norte, para
onde normalmente podiam ser organizadas. Nessa situação, o general Pompeu
organizou pessoalmente uma viagem, e proferindo as palavras “Navigare necesse
est, vivere non est necesse”, foi o primeiro a embarcar no navio. Pompeu
partiu, portanto, para uma verdadeira viagem e não por um compromisso
apaixonado pela navegação, como suas palavras mais tarde foram interpretadas”
As miríades de interpretações abortadas para a frase se perdem em filosofices
vãs, arrancada a muque de cabecinhas intelectualoides. Da conversa frívola de
mesa de bar...
Lembra-me um cineasta que
fizera um filme e o intitulara AMENIC. Certo dia, numa entrevista, uma repórter
enfilerou uma vasta gama de interpretações para o AMENIC. Dentre as
interpretações, pariu-se o existencialismo de Sartre, o absurdo da existência
em Albert Camus e o desconstrucionismo em Jacques Derrida. Todas elas,
fundamentadas no pensamento daqueles três, provinham de gente metida a entendida
na sétima arte. Deixo de listar outros nomes, pois aqueles, por si sós, são o
bastante para entender o porquê de tanta parvoíce. A repórter indagou do cineasta se as
interpretações tinham uma razão de ser,
O cineasta alisou a
barba, cofiou os largos bigodes, pendurou um riso grávido de mais cruel
sarcasmo na comissura dos lábios e disse descansadamente:
- Nada disso, minha
filha! Como eu não tinha um título para o filme, lancei mão da palavra CINEMA e
escrevi-a ao contrário... Pura gozação.
Antes de se retirar de cabeça baixa e ar
pensativo, espichou o olhar para a mocinha e deixou escapar mais um riso
escarninho.
Conheço muita gente
metida a douta que se compraz em pescar inexistentes significados absurdos e
impossíveis nas mais comezinhas cenas da arte do cinema, para quê mesmo, não se
sabe. Talvez por mero furor interpretativo sem nenhum fundamento.
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