domingo, 10 de julho de 2016

POIS É...
                                     Hugo Martins
Em outros tempos, gostava de ler frases em para-choques de caminhões. Chamavam-me atenção as de cunho filosófico como essa: “O Sol nasce para todos; a sombra, para quem merece.” Outras havia, que destilavam declarações amorosas: “Nas curvas do teu corpo, capotei meu coração.” E faziam pensar aquelas regadas pelo jogo ambíguo e poético da linguagem, em sua feição estética: “Motorista, olhe para a mulher do próximo, mas conserve a sua direita”. O bom de tudo isso era a preocupação em não resvalar em erros crassos de linguagem.
Hoje, não mais se veem caminhões, ostentando aqueles ditos. Coisas do progresso...
Migraram para os carros de passeio. Não com o mesmo bom gosto de outrora. Quando não se apresentam grosseiramente grávidos de estupidez e agressividade gratuita, fazem apologia farisaica, como se o dono do veículo pugnasse por mostrar quanto é ele observador dos preceitos bíblicos, mesmo que nunca tenham lido um só versículo do Evangelho, ou ostente, em casa, numa espécie de pedestal, na estante da sala, um volume da Bíblia Sagrada, empoeirado por só servir apenas de elemento de decoração. A poeira vem do fato de nunca ser folheada... Coisa de farisaísmo...
Assim, pode-se ler algo de que não se tem certeza: “Deus é fiel”. Ou, uma mentira de quem considera Cristo o detentor de imensa frota de veículos, pois, frequentemente, alguém põe à vista de todos: “Propriedade do Senhor Jesus”. Consta que Jesus Cristo se locomovia a pé ou, quando fosse o caso, de barco. Mas os fariseus querem, por força, considerar Cristo um capitalista. Coisa de ignorância histórica ou jogo de falsa humildade.
Hoje me chamou a atenção uma frasezinha colocada impunemente num automóvel: “Senhor acredito no que tu disse (sic) e obrigado pelo que tu fez(sic).
Comentando o fato com um amigo dado ao cultivo das Belas-Letras, dele ouvi:
- Comecemos por fazer vista grossa em relação à vírgula que devia estar assinalando o vocativo Senhor.
Aduziu:
- Benzam os céus a crença e a gratidão do redator. Que fique claro, porém, que esse sujeito parece nunca ter estudado conjugação de verbos.
Ao que acrescentei:
- Coisa de ignorância e analfabetismo funcional... Essa turma de pregoeiros da própria fé deveria ler realmente a Bíblia Sagrada. É obra sábia, de linguagem rica, prenhe de ricos exemplos e que não tropeça nos mais comezinhos acidentes da concordância verbal...

Aleluia, irmãos!!!!!!!!  

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