segunda-feira, 25 de julho de 2016

HISTÓRIA E HISTÓRIAS - III
                                                    Hugo Martins

            Transcrevemos, agora, ainda em caixa alta, os dois tercetos do soneto de Bilac, a cuja leitura estamos procedendo, com o fim único de vislumbrar na sua estrutura sintático-semântica alusões à história da “última flor do Lácio”, salpicada de apologias à beleza e à potencialidade desse idioma decantado aqui em terras tupiniquins, bem como depois das fronteiras das terras do além-mar. Bó...

                        AMO O TEU VIÇO AGRESTE E TEU AROMA
                        DE VIRGENS SELVAS E OCEANO LARGO!
                        AMO-TE, Ó RUDE E DOLOROSO IDIOMA,

                        EM QUE DA VOZ MATERNA OUVI: “MEU FILHO”,
                        E EM QUE CAMÕES CHOROU, NO EXÍLIO AMARGO,
                        O GÊNIO SEM VENTURA E O AMOR SEM BRILHO!

            Nas duas primeiras linhas do primeiro terceto, em mais uma declaração de amor à língua, que tão bem cultuou, Bilac faz duas referências fundamentais ao caráter da língua portuguesa: “o viço agreste” (palavra derivada do latim ager, agris: campo) e “viço” ( do latim vitiu, por via semerudita) que, literalmente, significa vigor de vegetação nas plantas, clara alusão à flora brasileira ao tempo em que os portugueses aqui chegaram, conforme se aprende na História oficial. Logo em seguida, o poeta reforça essa ideia quando refere “virgens selvas”, sintagma subordinado a “aroma” pela preposição DE. Por fim, ainda nos dois primeiros versos aqui analisados agrega outro sintagma preposicionado “de oceano largo”, subordinando-o ao nome aroma. Desse modo, sugere o traslado da língua portuguesa das terras lusas para o Brasil por ocasião do tal descobrimento...
            Façamos, recorrendo aos instrumentos sintáticos, a leitura do último verso do primeiro terceto, somando-o ao segundo terceto. Temos que levar em conta que o pronome relativo QUE, antecedido da preposição EM, substitui “rude e doloroso idioma”. Desse modo, a melhor leitura desse trecho seria: no rude e doloroso idioma, eu ouvi “meu filho”, expressão vinda da voz de minha mãe; no rude e doloroso idioma, Camões chorou o gênio sem ventura e o amor sem brilho, estando no exílio.
            “Meu filho” é expressão eterna e imorredoura na boca das mães e, sem dúvida, é a cara delas no uso cotidiano e, no leito em que recebem o rebento, se não proferem a expressão tão grávida de ternura, olham para o filho recém-nascido e dizem de si para si: “eis meu filho amado!!”
            Por ser, na opinião de muitos, a estrela de primeira grandeza nas letras lusófonas, mas tão açoitado pelo esquecimento e maltratado pela ingratidão, Luís Vaz de Camões, é aqui homenageado por Bilac, que traz à tona duas facetas na história de vida do vate português: o autoexílio do poeta na África e sua fama de amante inveterado, a cujas musas dedicou mais de duas centenas de sonetos, tingidos da mais profunda e fina ternura.
            Eis aí...

Depois, pretendemos fazer algumas viagens em alguns textos de nomeada na literatura de língua portuguesa no Brasil. Viagem impagável... Não se gasta nada, não se corre o perigo de despencar lá do alto ou morrer num infeliz abalroamento de veículos... Nada disso... Tais viagens têm maior graça porque só exigem do viajante a coragem de manter um diálogo com o texto sem a interferência de críticos literários ou intérpretes outros, que, por vezes, desejam impor sua leitura em detrimento da leitura do aqui viajante, que, com sinceridade, deve mandar esses senhores às favas. A viagem deve ser livre de amarras e, melhor ainda, sem a chatice de companhias inoportunas. Diz Montaigne, nos seus Ensaios, que o viajante deve seguir seu roteiro com os olhos da alma. E existem caminho e itinerário mais enfeitiçantes que o da literatura? Eu dou por visto... E é por ele que vou...
           
           
           




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