HISTÓRIA E HISTÓRIAS - III
Hugo Martins
Transcrevemos,
agora, ainda em caixa alta, os dois tercetos do soneto de Bilac, a cuja leitura
estamos procedendo, com o fim único de vislumbrar na sua estrutura
sintático-semântica alusões à história da “última flor do Lácio”, salpicada de
apologias à beleza e à potencialidade desse idioma decantado aqui em terras
tupiniquins, bem como depois das fronteiras das terras do além-mar. Bó...
AMO
O TEU VIÇO AGRESTE E TEU AROMA
DE
VIRGENS SELVAS E OCEANO LARGO!
AMO-TE,
Ó RUDE E DOLOROSO IDIOMA,
EM
QUE DA VOZ MATERNA OUVI: “MEU FILHO”,
E
EM QUE CAMÕES CHOROU, NO EXÍLIO AMARGO,
O
GÊNIO SEM VENTURA E O AMOR SEM BRILHO!
Nas duas primeiras
linhas do primeiro terceto, em mais uma declaração de amor à língua, que tão
bem cultuou, Bilac faz duas referências fundamentais ao caráter da língua
portuguesa: “o viço agreste” (palavra derivada do latim ager, agris: campo) e “viço”
( do latim vitiu, por via semerudita) que, literalmente, significa vigor de
vegetação nas plantas, clara alusão à flora brasileira ao tempo em que os
portugueses aqui chegaram, conforme se aprende na História oficial. Logo em
seguida, o poeta reforça essa ideia quando refere “virgens selvas”, sintagma
subordinado a “aroma” pela preposição DE. Por fim, ainda nos dois primeiros
versos aqui analisados agrega outro sintagma preposicionado “de oceano largo”,
subordinando-o ao nome aroma. Desse modo, sugere o traslado da língua
portuguesa das terras lusas para o Brasil por ocasião do tal descobrimento...
Façamos,
recorrendo aos instrumentos sintáticos, a leitura do último verso do primeiro
terceto, somando-o ao segundo terceto. Temos que levar em conta que o pronome
relativo QUE, antecedido da preposição EM, substitui “rude e doloroso idioma”.
Desse modo, a melhor leitura desse trecho seria: no rude e doloroso idioma, eu
ouvi “meu filho”, expressão vinda da voz de minha mãe; no rude e doloroso
idioma, Camões chorou o gênio sem ventura e o amor sem brilho, estando no
exílio.
“Meu filho”
é expressão eterna e imorredoura na boca das mães e, sem dúvida, é a cara delas
no uso cotidiano e, no leito em que recebem o rebento, se não proferem a
expressão tão grávida de ternura, olham para o filho recém-nascido e dizem de
si para si: “eis meu filho amado!!”
Por ser, na
opinião de muitos, a estrela de primeira grandeza nas letras lusófonas, mas tão
açoitado pelo esquecimento e maltratado pela ingratidão, Luís Vaz de Camões, é
aqui homenageado por Bilac, que traz à tona duas facetas na história de vida do
vate português: o autoexílio do poeta na África e sua fama de amante
inveterado, a cujas musas dedicou mais de duas centenas de sonetos, tingidos da
mais profunda e fina ternura.
Eis aí...
Depois, pretendemos fazer algumas viagens em alguns textos de
nomeada na literatura de língua portuguesa no Brasil. Viagem impagável... Não
se gasta nada, não se corre o perigo de despencar lá do alto ou morrer num
infeliz abalroamento de veículos... Nada disso... Tais viagens têm maior graça
porque só exigem do viajante a coragem de manter um diálogo com o texto sem a
interferência de críticos literários ou intérpretes outros, que, por vezes,
desejam impor sua leitura em detrimento da leitura do aqui viajante, que, com
sinceridade, deve mandar esses senhores às favas. A viagem deve ser livre de
amarras e, melhor ainda, sem a chatice de companhias inoportunas. Diz
Montaigne, nos seus Ensaios, que o viajante deve seguir seu roteiro com os
olhos da alma. E existem caminho e itinerário mais enfeitiçantes que o da
literatura? Eu dou por visto... E é por ele que vou...
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